Classe de Prestígio e Conto — Valkaria Blues

Aquele velho dragão derrubou a minha casa…

Valkaria Blues_Final2

Aquele velho dragão derrubou a minha casa…
Aquele velho dragão, ah!, ele derrubou a minha casa…
As paredes voaram longe quando ele mexeu as asas…

As notas de alaúde que saíam da engenhoca preenchiam o quarto na área dos dormitórios da Academia Arcana, enquanto os quatro estudantes ouviam a música.

– Nossa! Como funciona? – perguntou a moça entre eles.

– Ah, é bastante simples. – respondeu o homem que aparentava ser o mais velho. – Você coloca um disco de cera no suporte embaixo da agulha e gira a manivela do lado de baixo enquanto fala alguma coisa nesse funil aqui em cima. O som vai fazer a agulha mexer, riscando o disco e gravando o que você falar. Então eu pago um mago da terra aqui da Academia pra transferir a gravação pra um disco de cerâmica, que é mais sólido e resistente. Aí é só colocar o disco na agulha de novo e fazer a manivela girar para o outro lado para o som sair. Genial, não?

– É mesmo! Onde você conseguiu?

– Comprei numa feira de inventos goblins na cidade, no meu primeiro fim de semana depois que entrei para a Academia. Não podia deixar uma maravilha dessas lá! Desde então vivo gravando coisas nele.

– E esse aí que tá cantando… Quem é?

As palavras pareciam sair com dificuldade para o elfo, em um transe quase hipnótico.

– Você gosta?

– Ele toca como quem chora, as notas parecem lágrimas. Essa música de alguma forma lembra a minha infância em Lenórienn…

– É um cantor de rua que eu encontrei na cidade uma vez, chamado Robb D’john. Sangue orc. – todos viraram-se para ele. – O som dele era fantástico! Muito mais emocionante ao vivo; era como se cada verso que ele cantava fosse arrancado direto do fundo da sua alma, dolorosamente, sem anestesia. Na hora ofereci um almoço pra ele, em troca de gravar algumas músicas num quarto de estalagem ali perto. E, entre uma música e outra, ele me contava pedaços da sua história.

“Me disse que nasceu em uma pequena vila próxima à Valkaria. Nunca conheceu os pais. Um dia foi pego por um capataz de fazenda quando tentava roubar alguns trobos para comer, e foi criado por ele como ajudante. Era bastante forte devido à sua ascendência, o que o tornava apto a trabalhos pesados.

“Não devem ter sido anos muito fáceis, imagino. Recebia comida e roupas limpas, claro, mas deviam tratá-lo pouco melhor que a um animal. Foi nessa época que começou a tocar o alaúde, para animar as festas entre os empregados nos dias de folga que recebiam. Pelo menos assim podia fazer as pessoas gostarem dele, o que seria difícil de outra forma.

“Mas parece que algum tempo depois um dragão montou um ninho em uma caverna nas redondezas, e passou a exigir tributos dos habitantes próximos. A fazenda onde Robb trabalhava foi uma das primeiras a serem devastadas quando esses tributos não foram pagos, e ele ficou mais uma vez sem ter onde morar. Passou alguns dias tocando por esmolas na praça da cidade, mas pouco depois decidiu tentar a sorte em Valkaria, onde ouviu falar que algumas tavernas e estalagens pagavam bem por bons artistas que se apresentassem para atrair fregueses.

“E agora vem o fato mais curioso da história dele, ouçam só! Ele me disse que uma noite, enquanto viajava para Valkaria, sentou na beirada de uma encruzilhada para descansar, e começou a dedilhar algumas notas no alaúde. Pouco tempo depois apareceu na sua frente um homem envolto em uma capa azul escuro carregando uma espada negra, com cabelos compridos fazendo sombra sobre o rosto – a única coisa visível em sua face eram os cinco olhos brilhantes que possuía. Fez um sinal com a mão para que Robb lhe emprestasse o alaúde, ele relutou um pouco mas no fim cedeu. O homem tocou algumas notas, então afinou o instrumento e o devolveu, sorrindo de um jeito suspeito. Depois foi embora, enquanto Robb seguiu o caminho para a cidade. Por algum motivo, Robb parecia estar certo de que aquele evento foi a causa de tudo o que aconteceu depois, tanto de bom quanto de ruim.

“Logo que chegou em Valkaria, conseguiu um trabalho rápido tocando em uma estalagem pequena, inicialmente em troca de comida e um lugar pra dormir. Foi sucesso imediato! Tocava como um demônio, fazendo até o mais frio aventureiro mexer a cabeça e os pés no ritmo da música. Os versos que cantava eram cheios de sentimento e lamentos sobre as dificuldades que vivera. À medida que passavam os meses era requisitado para apresentações em locais maiores e melhor frequentados, recebendo pagamentos cada vez mais generosos.

“Mas Robb não era muito esperto, mal conseguia contar os dedos das mãos, e certamente não sabia administrar o dinheiro que ganhava. Logo que era pago já gastava tudo na mesma noite e no mesmo lugar, em bebidas e mulheres que não poderia obter de outra forma. Uma delas, uma mulher da vida um tanto mais velha que ele, era uma amante regular, quase se podia considerá-la sua esposa. Logo que terminava uma apresentação, lá estava ela para pedir que lhe pagasse um drinque com o dinheiro que recebera; quando era recusada, geralmente terminavam a noite aos tapas. Foi a primeira que o abandonou quando o público, e com ele também o dinheiro, começaram a diminuir.

“Não poucas vezes também foi enganado pelos donos das estalagens, que lhe pagavam menos do que o prometido sabendo que ele não conseguiria contar corretamente o dinheiro. Então, logo que a sensação inicial em torno do seu nome esfriou, ele se viu mais uma vez sem nada, obrigado a tocar em troca de esmolas nas ruas.

“Foi nessa época que eu o encontrei, e fiz essas gravações. Procurei ele de novo outras vezes para tentar gravar mais músicas, mas nunca mais o vi. Imagino que tenha caído vítima de algum assaltante ou doença de rua.”

– É triste. – o silêncio do elfo foi complementado pelo dos demais, logo que a música no disco chegou ao fim. – Pode tocar outra vez?

– Claro! – fazendo alguns gestos com as mãos, o dono da engenhoca conjurou novamente o pequeno feitiço que fazia a manivela do aparelho girar sozinha.

Aquele velho dragão derrubou a minha casa…
Aquele velho dragão, ah!, ele derrubou a minha casa…
As paredes voaram longe quando ele mexeu as asas…

Classe de Prestígio: O Bardo Amaldiçoado
A história é conhecida por qualquer bardo que valha as cordas do seu bandolim. Perca-se em uma estrada vazia em uma noite sem lua e espere em uma encruzilhada com o seu instrumento musical. Quando se aproximar da meia-noite, um sujeito alto e esguio vestindo um manto azul, com o cabelo comprido caindo sobre o rosto e deixando visíveis apenas a silhueta dos seus cinco olhos, se aproximará e o pedirá emprestado. Ele então o afinará, e o oferecerá de volta.

Se aceitar, terá firmado o pacto: a partir de então, o bardo será capaz de tocar o instrumento como um deus, criando melodias em velocidades impressionantes e fazendo as notas ressoarem de forma sobrenatural. No entanto, o seu destino também terá sido selado naquele instante, e ele estará marcado para um fim trágico em algum momento futuro da sua carreira.

Conscientes da barganha que fizeram, é comum que bardos amaldiçoados levem uma vida errante, sem se fixar em cidades ou vilas, usando o talento que adquiriram para sobreviver e tentando esquecer do futuro entre um copo de hidromel e uma porção de achbuld. Muitos acabam se envolvendo com grupos de aventureiros, embora invariavelmente a sua própria maldição acabe servindo de catalisador para o fim do grupo algumas vezes.

Pré-requisitos:

  • Tendência: qualquer não-Leal.
  • Perícias: Atuação (música) 8 graduações.
  • Talentos: Foco em Perícia (atuação).
  • Habilidade de classe: música de bardo.
  • Especial: deve ter feito um pacto com o demônio de azul.

Características:

  • Pontos de vida: o bardo amaldiçoado recebe 3 PV (+ mod. Con) por nível.

Habilidades de classe

Bardo Amaldiçoado
NívelBBAHabilidades de Classe
+0Alma profana, blue note, técnica endiabrada, the blues
+1Carisma sobrenatural +2, maldição
+2Blue note aprimorada, medley, maldição
+3Carisma sobrenatural +4, maldição
+3Blue note superior, medley aprimorado, maldição final

 

Alma profana. Mesmo que possua outra tendência na verdade, o bardo amaldiçoado é considerado Maligno para todos os efeitos para o qual ela seja relevante. É acusado em uma magia de detectar o mal, pode ser alvo de habilidades como destruir o mal, etc.

Blue note. Fazendo suas notas ressoarem com as próprias energias místicas, o bardo amaldiçoado é capaz de gerar efeitos mágicos toda vez que toca uma música. Sempre que utilizar uma música de bardo, ele poderá lançar na mesma ação padrão uma magia que conheça.

No 3º nível, uma vez por dia, ele pode conjurar uma magia em conjunto com uma música de bardo sem qualquer custo em PM. E no 5º nível, o bardo pode escolher um talento metamágico, para o qual ele deve cumprir todos os pré-requisitos, que as suas magias recebem sem custo adicional em PM sempre que utilizadas em conjunto com uma música de bardo.

Técnica endiabrada. O bardo amaldiçoado não evolui mais em conhecimento de bardo e magias, mas seu aprendizado de técnicas musicais é muito mais impressionante. Cada nível de bardo amaldiçoado conta como dois para todos os efeitos relacionados a música de bardo. Por exemplo, um Bardo 5 / Bardo Amaldiçoado 2 seria equivalente a um Bardo 9: conheceria ao todo cinco músicas, poderia usá-las até 9 + modificador de Carisma vezes, sua canção assustadora teria CD 14 + modificador de Carisma, etc.

The Blues. Dizem que o blues não é tão ruim… Mas é o pior sentimento que um homem pode ter, disse certa vez um famoso bardo amaldiçoado. Todo dia pela manhã, você deve fazer um teste de Carisma com CD 20 + o seu nível de bardo amaldiçoado. Se tiver sucesso, nada ocorre. Em caso de falha, no entanto, terá durante todo o dia um nível negativo, recebendo uma penalidade de -1 nas jogadas de ataque e testes de habilidade, perícia e resistência, além de perder PM equivalentes ao seu feitiço de nível mais alto.

Carisma sobrenatural. No 2º nível, você ganha um bônus permanente de +2 em Carisma. Esse bônus aumenta para +4 no 4º nível.

Maldição. A vida de um bardo amaldiçoado é… Bem, amaldiçoada. Não importa o quanto fuja, o pacto demoníaco que fez sempre o atingirá de alguma forma. Começando no 2º nível, a cada nível avançado na classe ele deve escolher uma das maldições a seguir:

Amor não correspondido. O bardo pode até ter alguma sorte com o sexo oposto, mas nunca com quem realmente gostaria de ter. O seu bônus de Carisma é reduzido a 0 para lidar com personagens do sexo oposto ao do personagem (ou do mesmo sexo, se preferir).

Alcoolismo leve. O personagem deve passar em um teste de Vontade com CD 15 para não se embriagar sempre que tiver a oportunidade. Um personagem embriagado possui um nível negativo enquanto durar a embriaguez e a ressaca (normalmente 2d10-mod. Con. horas).

Alcoolismo pesado. A CD do teste de Vontade para resistir uma bebedeira aumenta para 25, e ele recebe dois níveis negativos sempre que se encontra embriagado. Pré-requisito: alcoolismo leve.

Corpo frágil. Os anos de excessos e dificuldades deixaram marcas no seu corpo. Você recebe um redutor permanente de -2 em Força e Constituição.

Miséria. O bardo nunca consegue manter o seu dinheiro. Todo o tesouro conquistado em uma aventura desaparece de alguma forma antes do começo da próxima – é gasto em bebidas, mulheres, roubado… Para todos os efeitos, é como se os seus níveis de bardo amaldiçoado não contassem para determinar o seu tesouro médio por nível.

Vício em drogas. O bardo se viciou em achbuld ou alguma outra droga pesada. Ele precisa passar em um teste de Vontade com CD 20 para evitar se drogar sempre que tiver a oportunidade, e recebe dois níveis negativos sempre que se encontra sob efeito da droga. Regras mais detalhadas para vício em drogas aparecem no Guia da Trilogia.

Vontade fraca. O personagem tem um redutor de -4 em todos os testes de Vontade.

Cada nível negativo sob efeito no personagem dá a ele um redutor de -1 em jogadas de ataque e testes de habilidade, perícia e resistência, e faz ele perder PM equivalentes ao seu feitiço de maior nível.

Medley. A partir do 3º nível, a sua velocidade em tocar é tão grande que você é capaz de usar mais de uma música de bardo por rodada! Cada música de bardo poderá ser usada com uma ação de movimento, ao invés de uma ação padrão. No entanto, apenas uma delas pode ser acompanhada de um feitiço da habilidade blue note.

No 5º nível, você sempre poderá conjurar um feitiço em conjunto com uma música de bardo, independente de quantas músicas utilizar na mesma rodada.

Maldição final. Você chegou ao limite. Aproveitou ao máximo as habilidades concedidas pelo pacto, e agora chegou a hora de pagar por ele. Ao chegar no 5º nível, o máximo que você poderá avançar será mais um: quando acumular experiência suficiente para o próximo nível, independente de em qual classe estivesse pretendendo avançar, alguma coisa acontecerá que enfim acabará com a sua carreira. Pode ser uma morte por excesso de bebida ou drogas, um acidente que o incapacite, ou qualquer coisa que o tire da vida de aventuras definitivamente.

(Ok, ok. Acabar com o personagem de uma hora para outra não tem muita graça, não? Se preferir, considere que, no 5º nível, o personagem simplesmente recebe a sua última maldição. No entanto, ter uma morte anunciada com cinco níveis de antecedência é uma oportunidade e tanto para o mestre construi-la com todo o cuidado e torná-la realmente memorável para o grupo e a campanha, não?

Alternativamente, o personagem pode se encontrar uma segunda vez com o demônio de azul que lhe amaldiçoou em primeiro lugar. Se conseguir vencê-lo de alguma forma, pode cancelar todas as suas maldições, sem perder os poderes concedidos pela classe).

3D&T
Exigências: Artes, The Blues (veja abaixo).
Função: baluarte.

The Blues (-2 pontos). Dizem que o blues não é tão ruim… Mas é o pior sentimento que um homem pode ter, disse certa vez um famoso bardo amaldiçoado. Você pode sofrer com um súbito sentimento de desânimo e perder a vontade de viver. Em regras, funciona como a desvantagem Assombrado.

Blue note. Uma quantidade de vezes por dia igual à sua Habilidade, você pode conjurar qualquer feitiço da escola Elemental (espírito) que conheça sem gastar PMs. Você só pode adquirir esta habilidade se puder conjurar feitiços (mesmo que seja através da habilidade técnica endiabrada, descrita abaixo). Feitiços sustentáveis conjurados desta forma durarão por uma quantidade de rodadas iguais à sua Habilidade.

Carisma sobrenatural. Você pode comprar sucessos automáticos em testes de Artes gastando 1 PM ao invés de 1 PE. Você pode usar esta habilidade uma quantidade de vezes por dia igual à sua Habilidade+1.

Técnica endiabrada. Suas técnicas musicais são tão impressionantes que possuem efeitos sobrenaturais! Você pode escolher três feitiços da escola Elemental (espírito), que poderá usar mesmo sem ter a vantagem Magia Elemental. Se vier a comprar a vantagem, poderá usá-los gastando metade dos PMs necessários.

Ilustração por Gustavo Silveira.

BURP • 15/04/2015
tags: Valkaria

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