O Enigma das Arcas, Ato IX — O Cálice

Em quem você confia? Quando tudo começa a dar terrivelmente errado, Enemaeon tem diante de si uma difícil escolha. Isto e muito mais em um dos mais escatológicos capítulos do Enigma das Arcas!

armageddon-enemaeon-enigma-— Perguntei onde está, seu desgraçado sem mãe!

Aos berros, o velho Petrus forçou o pulso de Felrond com uma força que o elfo não sabia de onde vinha. Aquela ruína humana já deveria estar morta julgando pelo estado em que se encontrava e mesmo assim torceu os dedos finos entorno do braço dele como um afogado agarrando uma corda. Mas a dor foi bem vinda. Lhe devolveu um pouco da coragem de que precisava, permitindo que pudesse entrar em definitivo no joguete que o trouxera até ali ao invés de se desesperar.

— Refresque minha memória, pai. — falou. E graças à magia invocada por um pergaminho de Enemaeon, Petrus acreditava escutar a voz do próprio filho — O que exatamente me pediu para buscar?

— O Cálice! — respondeu Petrus, babando de fúria — O Cálice de Sszzaas, contendo o sangue do deus serpente derramado por Khalmyr ao condenar-lhe à morte! Apenas o Cálice irá me devolver a força e a juventude que os anos me tomaram! Foi por ele que o enviei, como minha última alternativa. Como pôde esquecer? — E em seguida, num sussuro — Não me diga que retornaste antes de cumprir a missão…

Felrond tardiamente compreendeu que tipo de criatura asquerosa o velho Anon era. Um clérigo alquebrado seguidor do deus dos traidores. Nada mais apropriado para um legítimo filho de Ahlen. Uma dúvida lhe causou um arrepio que subiu pela espinha: se não estivesse tão próximo da morte, será que aquele sujeito teria visto além da tola magia de Enemaeon? Felrond suspeitou que sim. Sszzaasitas eram os filhos da puta mais ariscos e espertos de Arton. No mínimo, muito mais espertos do que ele.

Foi de novo a dor nos ossos que o trouxe de volta. O pulso parecia estar a ponto de partir quando resolveu jogar a última cartada. O feitiço faria com que Petrus visse o que mais desejava diante dos olhos. Se desse certo, poderia rir disto no futuro. Caso contrário, não haveria futuro para ele.

Com a mão esquerda, recolheu o asqueroso penico cheio de vômito cujo fétido odor de bile misturada com uma refeição mal digerida inundava o ambiente. O ergueu lentamente diante dos olhos de Anon, que jogado debilmente na cama o observava, atento. Moscas revoaram pelo quarto. Uma delas pousou sobre o lábio do velho, mas este pareceu não notar. O elfo ao lado curvou-se respeitosamente, apesar do asco que lhe subia e descia pela garganta e disse:

— Eis o Cálice Sagrado de Sszzas, pai. O trouxe através das terras longínquas do norte, enfrentando perigos nunca antes imaginados por vós ou por qualquer outro em nosso lar. Mas triunfei, apesar do longo tempo ausente e agora o tenho aqui, diante de ti.

A dúvida quanto à eficácia do engodo foi eliminada pelo brilho desejoso nos olhos do velho. Largando-lhe o pulso, a maldita criatura ergueu as mãos delgadas até a porcelana imunda procurando alcançá-la. Rapidamente, Felrond a tirou do alcance dele, afastando-se da cama onde o falso pai agonizava.

— O que significa isso, Moris? — gaguejou o velho, a boca tremendo de ansiedade e desejo. — Me entregue o Cálice logo, por tudo que lhe é mais sagrado. Não sabe o que fiz para prolongar minha agonia, aguardando por este dia. Não faz ideia de quanto…

— Antes disso, me responsa algo. — cortou o elfo segurando um sorriso que lutava contra o asco para ver quem chegaria até a boca primeiro — Preciso saber onde guardou um certo medalhão.

— Medalhão? Do que está falando?

— Não se lembra, pai? — incitou Felrond, lembrando nitidamente agora do desenho no pergaminho do mago. Não aceitava como pudera se confundir de tal forma devido apenas a uma garrafa de rum ou duas — Feito de ouro, lembra uma pequena pirâmide com marcas em prata, algumas runas. Estava aqui conosco quando parti. Onde o deixou?

— Que estupidez, Moris! Deixe de falar de coisas insignificantes como ouro e me entregue logo o Cálice! Nós…

— Não me diga que você o perdeu! — ameaçou o elfo virando o falso cálice aos poucos, quase derramando o conteúdo fétido do recipiente no chão.

A resposta de Petrus veio na forma de um grito profundo unido a um esforço desesperado que enfim o colocou sentado na cama fofa. Era ainda mais magro e frágil do que aparentava. A pele rançosa que aparecia sob o pijama manchado deixava as veias expostas, um sangue sujo que se arrastava por artérias parcialmente entupidas. Parecia ter duzentos anos.

— Claro! Claro, agora recordo. Mas não está mais comigo. Eu o vendi há algum tempo — confessou, arfando. Apenas falar lhe custava um enorme esforço — Vendi para um ninguém de Tollon. Ou era de Collen, não lembro. Nunca teve nenhuma importância. Não vale a pena. Comparado ao que você tem em mãos, é lixo!

Um novo revés. Felrond ficou terrivelmente arrasado com a notícia. No fim das contas, todo aquele teatro havia sido em vão. Mas, antes de partir, vingaria a luxação nos pulsos provocada pela força que a cobiça gerou naquela figura repugnante. Ajoelhando-se cerimonialmente, estendeu o velho urinol até Petrus Anon, fidalgo sszzasita filho de uma meretriz de quinta. Mantendo a expressão mais séria que o momento permitia, entregou-lhe a peça.

— Beba, meu pai. É hora do maior dos Anon receber tudo o que merece!

E com ímpeto e avidez, Petrus deixou que o material esquecido ao pé da cama nos últimos dias e já parcialmente decomposto pudesse escorrer farto pela face e pela goela. Abandonado na mais alta torre do castelo, o sedento nobre bebeu dos próprios excrementos, feliz pela graça alcançada e grato ao filho por dar-lhe novamente a chance de ser um homem completo.

(…)

Garlor não fez nenhum movimento recriminatório aos dois guardas que o prendiam, tampouco procurou armar-se com os punhais prateados que escondia sob o pesado colete. Não era a hora de matar e morrer ainda, ou pelo menos não seriam aqueles dois pobres coitados que sofreriam com a dor de um corte rasgando-lhes a garganta de orelha a orelha. Este prazer ele desejava repartir apenas com a gorda saída de um pesadelo bizarro que agora descia as escadas com a desenvoltura de um trobo.

— Creio que está curioso pela forma que o reconheci, Presas de Prata. — era ela. A voz arranhada, rouca e masculina denunciava o hábito antigo de fumar exageradamente a erva dos halflings. Os dentes enegrecidos e o cheiro eram igualmente uma amostra daquele requinte obsessivo. Uma lenta e descompromissada sentença de morte.

— Na verdade, não me interessa. — respondeu o clérigo da trapaça tentando parecer indiferente — Estando em Ahlen, não é apenas compreensível como até esperado que tenham me traído frente ao mais leve brilho de alguns poucos tibares. De certa maneira, respeito isto.

— Somos um povo precavido — respondeu Palmira em tom de desculpa, sorrindo enquanto sorvia a fumaça do cigarro preso em uma longa piteira negra — Há algo de errado em resguardarmos nossos próprios interesses em detrimento de estrangeiros que não compreendem nosso modo de vida?

— Ao contrário, em seu lugar, faria o mesmo. — respondeu Garlor que também sorria, procurando manter a conversação entre ele e o alvo pelo maior tempo possível. O momento deveria ser exato — Afinal, para ser totalmente sincero, já compreendi o que estão planejando aqui.

Aquela frase fez Palmira estancar imediatamente no ponto onde estava, surpresa. Garlor não deixou de notar que a governanta contraiu a barriga gorda como se as palavras tivessem mesmo lhe atingido com a força de um soco. Tal reação apenas lhe deu forças para continuar.

— O velho nobre está com um pé na cova há anos, aguardando o retorno do amado filho que há muito é dado como morto. A governanta, aproveitando-se dos plenos poderes que recebeu do proprietário, faz da mansão a própria morada, mandando e desmandando nos empregados e vivendo a boa vida enquanto o senhorio não desfalece. É com a morte dele que enfim você estará emancipada dos anos de servidão, tomando posse de uma polpuda fortuna e da casa, que apesar de já ter visto dias melhores, ainda é uma bela propriedade.

— É nisso que acredita? — perguntou Palmira, voltando a caminhar de maneira desajeitada escada abaixo, parando enfim no último degrau.

— É o golpe mais velho do mundo! Digno de uma falastrona obesa como você — retorquiu Garlor, sentindo que o momento havia chegado. Girou sobre os calcanhares e abaixou-se repentinamente. Num mesmo movimento, o ladino se livrou dos braços que o prendiam e saltou em direção à presa. As mãos ágeis sacaram os punhais das algibeiras ocultas nas costas e num único golpe cruzado, rasgou com elas a garganta de Palmira em um corte violento que a derrubou ao chão.

Agora, com ambas as facas à mostra, o ladino voltou-se na direção dos guardas, ainda aturdidos pela velocidade com a qual executara o golpe. Deu um passo à frente, apontando a lâmina coberta de sangue para a porta. Uma ordem silenciosa que lhes dava uma chance de sumir de lá enquanto ainda havia tempo. Contudo, Garlor notara que algo mais escondia-se nos olhos deles. Um medo ainda mais antigo e instintivo do que a ameaça das facas. O medo real do desconhecido.

Foi nesta hora que um gorgolejar rouco irrompeu pelas costas de Garlor, pouco antes do pé inchado de Palmira atingi-lo na altura dos rins. A gorda sangrava em profusão, mas estava novamente de pé. Os olhos dela já não eram mais humanos, tampouco pareciam com qualquer outra coisa que ele já vira. Na bocarra escancarada, um par de presas afiadas brotou lentamente, ferindo os lábios inferiores grossos e inchados. A mão crispando-se sobre o velho corrimão de madeira forçou-o de ódio até que quebrasse em dezenas de pequenas lascas.

Ela não podia falar devido ao ferimento na garganta, por isso apenas bufava espirrando sangue. Mas a compleição e o brilho sem cor nos olhos vazios deixavam claro do que se passava naquela mente maligna. Estava realmente furiosa. Uma fúria que se traduzia num resmungo febril. Era uma serva das trevas, uma vampira.

A presença dela agora nada tinha de lenta ou desajeitada. A energia sobrenatural devolveu inclusive a mobilidade aos guardas. Dois homens azarados que nada mais eram que uma pequena parte daquele engodo, cuja função era apenas conquistar verossimilhança para a vida familiar no Castelo perante o povo de Paltar. Fugiram em pânico, com a alma estilhaçada pelo medo. Um horror que os acompanharia pelo resto de seus dias.

Também desejando escapar dali, Garlor virou-se para a porta, mas esta se fechou violentamente diante dele. A vampira gorda, intumescida de sangue, gargalhava. Não com o som de uma risada, mas com aquele mesmo ruído sibilante que brotava do corte na garganta. E já não estava mais sozinha. Reuniu suas tropas. Os antigos e novos criados da família Anon, agora carniçais devotos da vontade dela, escravos de sangue dos desmandes insanos de Palmira atenderam ao chamado. Eram dezenas, saindo de cada porta, brotando de cada sala escura da mansão.

No centro do caos, acuado pelos mortos de todos os lados, o ladino girava lentamente as adagas nas mãos, avaliando suas chances. Orou a Hyninn por astúcia para sobreviver a mais aquela provação e por precisão nos cortes. Precisaria matar o que já estava morto. Rápido e muito.

Diante da situação em que se encontrava, a fé era o único e último recurso.

(…)

Enemaeon notou que o portão principal do castelo se fechara repentinamente, mas foi o par de homens que brotou dele um segundo antes correndo e gritando pelos campos ressequidos que realmente lhe fizeram se aproximar da mansão dos Anon. Algo havia dado errado e o mago temia pelo pior: perderia uma das partes do medalhão agora que estava tão perto de conquistá-la.

Procurou interceptar o primeiro dos fugitivos, mas este estava completamente tomado pelo pânico e ignorou os apelos do mago com um safanão, fugindo gritando em direção da rua. O segundo, de comportamento semelhante, seria a última chance dele conquistar alguma informação quanto ao ocorrido sem precisar entrar ele mesmo no casarão, de forma que não poderia deixá-la escapar. Quando estava passando ao lado, atingiu-o nas pernas usando o cajado com força suficiente para quebrar um osso, derrubando o sujeito dolorosamente de rosto no chão. Enemaeon caiu sobre ele em seguida, segurando-lhe os braços.

— Acalme-se homem! — exigiu o mago, girando-o no chão e esbofeteando o rosto do sujeito até que este recobrasse um pouco da razão — Acalme-se e me diga: o que aconteceu no castelo?

— A gorda! — gaguejou o homem aturdido — Ela era um monstro! Uma morta-viva! Lena e Marah, louvadas sejam! Estão todos mortos lá dentro! Todos!

— E os dois visitantes? — gritou Enemaeon sacudindo o homem, exigindo respostas — O que aconteceu com eles? Estão mortos também?

— Lena e Marah, Lena e Marah! — eram as únicas palavras que brotavam da boca do assustado homem, que agora ignorava completamente as imprecauções de Enemaeon, procurando afastar-se dali de qualquer maneira. Se arrastando se necessário. Debatia-se sob ele, os murmúrios e lamentações se repetindo cada vez mais até deixarem o mago fora de si. Irado, acabou desferindo um único soco contra o nariz do sujeito, colocando-o desacordado enfim.

O mago levantou-se esfregando a própria mão que latejava de dor e observou o casario dos Anon afundando lentamente nas sombras morredouras daquele fim de manhã nublado. Suspirou profundamente, pesaroso da decisão que precisava tomar e por fim seguiu sorrateiro os altos muros da propriedade.

Afastou-se dali e de seus companheiros, desaparecendo em uma viela próxima sem olhar para trás.

Armageddon • 03/03/2015

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