Katabrokando #2 — O Adeus a Um Mestre

Rogerio Saladino faz sua homenagem a Terry Pratchett, escritor falecido na última semana.

Na semana passada, foi anunciada a morte de Terry Pratchett, autor de ficção e fantasia, mais conhecido como criador da série de humor Discworld. Pratchett também foi um dos escritores que mais vendeu livros na década de 1990 e já chegou a vender 87 milhões de livros no mundo todo.

Além disso, era um dos três escritores que, com sua obra, me incentivaram a ser um escritor. Se eu não tivesse lido os livros dele, não seria o que sou hoje. Trabalharia com alguma outra coisa. Culinária talvez.

Relativamente pouco conhecido no Brasil, Pratchett tinha uma influência imensa na literatura fantástica, e o que começou com um livro usando humor para criticar e brincar com os clichês da fantasia (onde o mundo era um disco achatado nas costas de quatro elefantes gigantescos, sobre as costas de uma tartaruga ainda mais gigante que singrava pela galáxia) acabou virando uma série com quarenta e um livros, onde os mais diversos assuntos foram abordados.Desde magos covardes, guerreiros burros, bruxas sagazes e monstros imaginários até pirâmides, vampiros, viagens espaciais, existencialismo e outras questões filosóficas mais complexas.

Claro, isso só contando a série Discworld.

Outra obra memorável dele foi Belas Maldições, escrita a quatro mãos com Neil Gaiman, contando uma versão digamos… Divertida do fim do mundo, e como um anjo e um demônio tentam evitá-lo, por motivos essencialmente pessoais.

Pratchett era um ferrenho defensor do gênero fantasia, e ficava profundamente irritado quando o mesmo era rebaixado ou menosprezado. Para ele, a fantasia era um dos gêneros fundamentais da literatura, e diminuí-lo a uma “leitura menor” era inaceitável. Em diversas ocasiões, se pronunciou de forma bem irritada quando elementos de Fantasia eram usados em livros “sérios” e considerados pelos críticos com inovadores e inéditos. Ele não questionava ou colocava em cheque a qualidade dos tais livros sérios, mas protestava quando percebia que se diminuía a literatura fantástica para enaltecer outras obras, coisa que certamente, não era a intenção original do autor.

Terry Pratchett

Livros, RPG e… Filmes?

Como eu disse antes, Pratchett é relativamente pouco conhecido por aqui e, dada a enorme quantidade de livros escritos por ele, apenas uma pequena quantidade chegou a ser traduzida e publicada no Brasil. Digno de nota é o trabalho da editora Conrad, que lançou 12 livros da série (seguidos) de Discworld, além de O Fabuloso Maurício e seus Roedores Letrados (que também seria da série Discworld, lá pelo número 28) e Os Pequenos Homens Livres (lá na 30ª posição), esses dois últimos sendo direcionados para o público mais jovem. Belas Maldições foi lançado pela editora Bertrand, também numa edição primorosa e muito bem cuidada.

Todos são livros recomendadíssimos, e mesmo os que não estão mais em catálogo, são relativamente fáceis de serem encontrados em sebos.

Para não fugirmos inteiramente de RPG (e conheço algumas pessoas que me matariam se eu não mencionasse), a Steve Jackson Games publicou um completíssimo GURPS Discworld, com todas as informações necessárias para se montar uma campanha usando o cenário. O suplemento tem a aprovação de Pratchett e fez um tremendo levantamento do material de Discworld publicado até o seu lançamento. Um segundo suplemento, GURPS Discworld Also, tem informações complementares do cenário (também, depois do primeiro, Pratchett lançou mais trocentos livros).

Curiosamente, um DVD com uma minissérie para TV baseada num livro de Pratchett chegou a ser vendido discretamente por aqui. Missão Especial de Natal (The Hogfather, 2006), mostra Morte tendo que substituir o equivalente do Discworld ao Papai Noel na noite de Natal (ou melhor, no equivalente deles ao Natal). O DVD tem a versão resumida da minissérie baseada no livro The Hogfather.

Além dessa minissérie, existe uma versão em filme dos livros A Cor da Magia e A Luz Fantástica ( ambos lançados como The Colour of Magic, com Sean Astin, Jeremy Irons e Christopher Lee no elenco!). Em 2010 saiu Going Postal, também baseado no livro de mesmo nome. Nenhum desses filmes foi lançado no Brasil, infelizmente.

rogerio-discworld

Orangotangos e Assuntos Tristes

Além de ser um grande escritor, Pratchett era um homem de causas. Mantinha um fundo especial para patrocinar o resgate e a preservação dos orangotangos, depois de ter um contato maior com a situação da espécie ao criar o personagem Bibliotecário para a série Discworld (um mago que trabalhava como bibliotecário e foi transformado em orangotango, e que preferiu continuar nessa forma). Pratchett não era muito otimista quanto ao futuro dos orangotangos como espécie, mas sempre que podia, falava por eles e pedia uma atenção maior para que sua extinção fosse impedida.

Desde que foi diagnosticado com Alzheimer, em 2007, ele levantou a questão do suicídio assistido, um tema muito polêmico no mundo inteiro.

Sendo uma doença degenerativa neurológica e sem cura, o mal de Alzheimer vai tirando aos poucos a maior ferramenta de um escritor, sua capacidade de raciocinar. Pratchett defendia que, a partir do momento que ele não pudesse mais pensar, e sendo esse estado irreversível, ele já estaria morto.

Pratchett foi uma das vozes mais sensatas e coerentes ao levantar a discussão sobre um assunto normalmente envolvido em muito medo. Muito se evoluiu, no sentido filosófico e legal a partir dessas discussões.

Para refletir mais sobre o assunto, existe o documentário (com mais ou menos 59 minutos) Terry Pratchett — Choosing to Die (em inglês).

O Adeus

No dia 12 de março deste ano, o editor de Pratchett noticiou a sua morte. De acordo com a família, ele morreu de forma natural, em decorrência de sua condição. Sua filha Rhianna escreveu as três últimas frases em sua conta no Twitter, e as últimas palavras foram simplesmente “The End” (“O Fim”).

Pratchett criou um mundo de personagens incríveis, engraçados e divertidos. Um mago medroso que não sabe fazer magia. Um orangotango bibliotecário. Morte, um esqueleto num robe negro e com uma foice, montado em seu cavalo Pituco. Uma bruxa que se ressente de não ter uma verruga sequer, mas que sabe usar Cabeçologia pra resolver seus problemas.

Tudo cheio de piadas e sacadas engraçadas, usadas para questionar e criticar, fazer pensar e estimular discussões sobre assuntos que normalmente nem pensamos duas vezes. Exatamente como o humor de verdade deve ser, engraçado, mas com uma verdade curiosa escondida em algum lugar.

Não temos mais Terry Pratchett entre nós. Mas ainda temos tudo que ele fez, escreveu e disse. Ainda temos seus livros, e ele está ali, nas entrelinhas, nos contando o que viu, pensou e reclamou.

Isso, nem um esqueleto com uma foice vai poder levar.

Jambô Editora • 16/03/2015

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