O Enigma das Arcas, Ato X — Como Irmãos

Quando os planos fracassam e as cortinas se fecham, tudo o que resta é a dúvida em relação ao amanhã. Enfim o malfadado desfecho do primeiro arco de capítulos do Enigma das Arcas!

armageddon-enemaeon-enigma-O primeiro golpe foi lento. Um teste para medir a capacidade dos oponentes.
O segundo ataque, ao invés, foi uma amostra das capacidades dele.

Quando Garlor lutava daquele jeito, não havia hesitação ou dúvida. As adagas se tornavam extensões dos braços, cortando e matando em uma série de movimentos práticos, ensaiados e polidos ao longo dos anos. Nenhum gesto era sem motivo. Cada punhalada encontrava um olho ou rasgava uma garganta. Foi aquele estilo que lhe garantiu a alcunha de Presas de Prata. E que lhe salvou a vida inúmeras vezes.

Aprendeu a manejá-las há muito tempo. Muito antes de ser ordenado clérigo ou de cair em desgraça e se sujar como assassino. Antes mesmo de se tornar um homem, mesmo que ele não se lembre mais disto. Ainda menino corria por toda a miséria de Tarn com gravetos nas mãos, atacando inimigos imaginários e monstros feitos de galhos e arbustos.

Também não se recordava muito bem quando seu caminho de vida começou a ser traçado, tampouco o que aconteceu de tão errado a ponto de transformar um menino gentil naquele homem frio. O antigo mestre que o iniciou nos mistérios de Hyninn sempre o repreendeu neste ponto. Ladinos podiam ser despretensiosos, covardes, fúteis até, mas nunca infelizes. Pelo menos não o tempo todo.

Reconhecia que até mesmo aquele que honrava com orações era considerado brincalhão. Não devia existir exemplo melhor de conduta que um deus maior, mas Garlor nunca conseguia sorrir de verdade. E se a tristeza que lhe acompanhava já era intensa enquanto os pequenos e esparsos golpes serviam apenas para lhe prover o sustento, foi com a morte de Sandra que enfim o que havia de pior em seu íntimo aflorou.

Uma clériga de Lena lhe disse certo dia que o sentimento que o incomodava e entristecia tanto era a culpa por roubar. Após gargalhar um pouco, respondeu que ao contrário, era apenas quando estava roubando e matando é que se sentia um pouco menos infeliz. Ofendeu a clériga com a grosseria, mas não conseguiu evitar. Pensou o que diria ela agora ao assistir o pequeno boca suja naquela dança sincronizada e letal, com as lâminas rasgando a carne dos inimigos.

Um passo adiante permitiu que um dos punhais adentrasse a fronte morta de um carniçal, subindo pelo nariz até bater contra o osso do fundo do crânio. Garlor agachou-se ao mesmo tempo em que girou sobre os calcanhares, rasgando um segundo e um terceiro oponentes desde o peito até o ventre. Um quarto, ainda mais faminto, acreditou ser capaz de surpreender o veloz atacante pelas costas, mas o único prêmio que recebeu por ter sido precipitado foi o sabor da lâmina de prata abrindo-lhe o ventre.

Como em um parto profano, do corte os restos do que já foram os órgãos internos do monstro brotaram. O sangue coagulado e as entranhas enegrecidas há muito serviam de pasto para um incontável número de vermes que agora se remexiam incomodadas pela luz artificial das velas. Garlor, entretanto, não perdeu tempo com a asquerosa cena ou com o cheiro nauseante, pois as facas pediam por mais. E eram atendidas.

O pelotão de mortos desengonçados transformaram o salão principal do Castelo Anon em um bizarro baile infernal. Abrindo caminho pela turba de corpos que debilmente avançavam contra ele, Presas de Prata partiu escada acima atrás do alvo principal: Palmira, a vampira gorda que havia criado toda aquela corja que urrava e gemia a partir do próprio sangue. Utilizando o corrimão da escada como apoio, saltou sobre ela. E cada faca encontrou um caminho, penetrando profundamente nas costas generosas dela.

Tal ferimento teria certamente acabado com qualquer mortal, mas fez pouco mais que irritar a figura horrorosa da vampira. Com uma agilidade surpreendente para uma pessoa daquele tamanho, ela agarrou Garlor pelo pescoço, o ergueu acima da própria cabeça (que pendia horrivelmente frouxa devido aos cortes na garganta, esguichando aquela quantidade impossível de sangue ) e o arremessou dolorosamente escada abaixo.

As facas escaparam das mãos dele quando caiu e a dor provocou um segundo de hesitação, mais que suficiente para que os muitos inimigos caíssem sobre ele (como podiam ser tantos?), batendo, mordendo e arranhando. Indefeso, Garlor apenas se debatia, buscando defender-se como podia dos golpes dos carniçais. Quando a inconsciência estava próxima, ironicamente lembrou-se do dia que conheceu Enemaeon.

E depois disso, tudo foi apenas sombra.

(…)

Você não tem coragem! — berrou Alex, filho do ferreiro e de longe o maior garoto do vilarejo de Tarn. Garlor estava sob os pés dele, com o rosto enfiado na lama. Tinha então onze anos, mas aparentava menos por ser tão pequeno, magricelo e esfomeado. Filho de camponeses que viviam em troca de trabalho nas terras do prefeito, passava por dificuldades naquele ano devido ao excesso de chuvas que inundou os campos e arruinou parte da plantação.

E apesar de ser um ano atípico, desde que o mundo era mundo (ou ao menos desde que Tarn era Tarn) todas as crianças dali viviam assim. Trabalhavam já muito jovens, lutando com o resto da família por migalhas de sol a sol. Mas, como apesar de tudo ainda eram crianças e tinham mais energia que os adultos, aproveitavam o fim da tarde para correr e brincar um pouco antes do regresso ao lar, quase no lusco-fusco do anoitecer.

Garlor porém nunca teve a mesma disposição e por isso permanecia isolado, observando de longe. Por estar sempre doente e apático, era considerado estranho pelos demais. E isto lhe tornava o principal alvo dos trotes, especialmente de Alex que se divertia com a fragilidade do outro menino. Nunca perdia uma oportunidade de humilhar o esquisito. E o desafio naquele fim de dia era invadir o cemitério da vila e arrancar uma flor do túmulo de Bastian.

O tal Bastian foi até então o único miliciano que já viveu em Tarn, enviado pela coroa para proteger a vila. Ou ao menos era o que ele dizia. A maioria dos moradores tinha como certo de que se tratava de um desertor do exército do Reinado ou um fugitivo das masmorras da capital ao invés. Após meses de boa vida à custa do povo, faleceu no primeiro combate em serviço, enfrentando um bando de goblinoides. Terminou derrotado e meio devorado, é verdade, mas salvou a vida de três lenhadores. Isto bastou para que fosse sepultado como herói.

Com o anoitecer, o cemitério se tornava um lugar sinistro, especialmente aos olhos de uma criança. As lágrimas no rosto de Garlor deixavam claro que ele tinha mais medo de entrar lá no escuro e enfrentar o desconhecido do que da surra de Alex, algo que pelo menos já conhecia muito bem. Tentou argumentar de forma tímida, o que rendeu um soco que o levou ao chão. Foi nessa hora que o garoto da cidade apareceu.

Havia chegado de Ridembarr naquela manhã junto com o pai em uma carruagem puxada por quatro cavalos e permaneceram ambos na prefeitura o dia inteiro. Aparentemente, estavam interessados em comprar a colheita. Toda ela. Aquilo tinha sido o grande assunto em Tarn durante a tarde. Especialmente por serem tão diferentes do tipo de gente que os habitantes dali conheciam. Pai e filho ostentavam um ar esnobe e superior, mas era o garoto que parecia pior. Estava vestido à moda de Valkaria, com roupas azuis novas, folgadas e limpas. Trazia consigo um cajado com o dobro do próprio tamanho, o rosto parcialmente oculto por um capucho que caia pelos ombros.

Do chão, com o rosto na terra, Garlor podia vislumbrar o estranho sob a sombra da cobertura. Via que o sujeito era de fato apenas um menino. Talvez um pouco mais velho do que ele próprio. Disseram que estudava na Academia Arcana, um lugar que beirava ao lendário para aqueles garotos que sequer haviam aprendido a ler. Só este detalhe era mais que suficiente para criar uma aura de estranhamento e torná-lo quase divino para os padrões de Tarn.

— Cai fora! — ameaçou Alex arregaçando as mangas da camisa puída como costumeiramente fazia para intimidar os outros. As crianças murmuraram em aprovação no entorno (quem este metidinho da cidade acha que é?). Em tom de escárnio e encorajado pela reação dos demais, completou: — Não há nada para você aqui!

— Ouvi que fizeram uma aposta — comentou o jovem firmando o cajado ao lado de Garlor. O garoto, esfregando o rosto sujo, se apoiou nele para levantar. — Meu nome é Enemaeon. E quero participar do jogo. Posso saber do que se trata?

— Querem que eu vá até o túmulo de Bastian buscar uma flor. Se não for, vão me bater — respondeu Garlor sem jeito, encolhendo-se devido a timidez. Alguns dos garotos riram da situação, mas o jovem aprendiz de mago se manteve sério. Perguntou sobre algumas partes da história que culminou com a morte de Bastian, tentando compreender o teor da aposta. A algaravia das crianças falando todas ao mesmo tempo com o forte sotaque de Tarn era confuso, mas suficiente. Quando se deu por satisfeito, estendeu a mão na direção de Alex aceitando o desafio, mas com uma ressalva (sempre havia uma):

— Precisamos apenas esclarecer um ponto importante aqui. Quando se aposta, é correto que haja uma punição, mas também deve existir um prêmio. Se perdermos, aceito a surra de vocês sem reclamar. Mas se o magricelo aqui voltar com a flor, todos vocês me deverão serventia até o dia em que eu me for desta vila. Aceitam?

Mãos foram apertadas e seladas com saliva. Tremendo, Garlor aproximou-se de Enemaeon com os olhos muito abertos, demonstrando o pavor crescente que lhe subia pelo estômago. Gaguejou demais para dizer qualquer coisa coerente até que o outro tocou-lhe os ombros e com um brilho de malícia no olhar, murmurou de forma que ninguém mais ouvisse:

— Seja o que for que acontecer lá dentro, lembre-se: é tudo um truque.

— Truque? Como assim um truque?

— Você vai ver! — respondeu o menino mago, piscando — Coragem agora, nós todos vamos com você. Não é?

— Nós também vamos entrar? — questionou Alex, a voz o traindo diante dos colegas. Enemaeon notou a deixa, esperando uma reação parecida. Aproveitar-se disso era um pouco de maldade, mas aquela peça possuía uma causa nobre: auxiliar aquele desafortunado ao menos um pouco. Com uma seriedade fingida, explicou:

— Claro que vamos entrar! Caso contrário, como vamos provar que ele pegou a flor da tumba certa? Mas claro: seguiremos de longe, a uma distância segura para não tornar o ato de coragem dele menor. Por quê? Não está com medo de entrar em um cemitério, está?

É claro que estava. Mas o orgulho ferido o impediu de admitir, de forma que logo formaram uma pequena comitiva exploradora. Bem na frente, volta e meia voltando-se para ter certeza de que não estava sozinho ia Garlor, passos vacilantes, mas sempre adiante. Por medo, evitava olhar para nada além do lugar onde os próprios pés pisavam. Alguns metros atrás vinham Enemaeon e Alex, seguidos por outra meia dúzia de meninos.

A lua desenhava um círculo nos céus, pintando de prata os túmulos e lápides simples. Mesmo assim, não havia sombra que não lhes provocasse medo. Até mesmo o farfalhar das asas de alguma ave noturna era mais que suficiente para fazer os joelhos falharem e as forças escaparem das pernas. Sequer o garoto mago sorria, atento aos passos de Garlor. Este, por sua vez, repetia mentalmente ao longo do curto caminho a lição ditada pelo responsável por aquela malfadada situação: “É tudo um truque”.

Não tardou a chegar ao esquife. A pequena mão calejada pelo trabalho pesado no campo aproximou-se temerosa do túmulo coberto de flores ressequidas. O cheiro ocre de morte e decomposição era ainda mais forte ali, quase no coração do velho cemitério, um lugar de honra reservado aos habitantes cujas mortes deveriam ser lembradas. Garlor fechou os olhos. Escolheria a flor a esmo e voltaria correndo de lá o mais rápido possível. Mas os planos do mago iam além de uma mera corrida noturna. Ao mesmo tempo em que os dedos sujos avançaram às cegas sobre o túmulo, Enemaeon bateu com o cajado no solo. Ao mesmo tempo, a mão desmorta de Bastian brotou num rompante, agarrando o pulso de Garlor que congelou de pavor.

Ao assistir o renascimento do cadáver parcialmente devorado pelos goblinoides duas semanas antes e pelos fungos e vermes nos últimos dias, os garotos desapareceram correndo e gritando em todas as direções buscando fugir do local funesto para o deleite de Enemaeon que gargalhava a plenos pulmões. Recompondo-se, correu até Garlor que se mantinha catatônico, o braço firmemente preso pelo pulso firme do desmorto. Com um comando do cajado, os ossos e a carne morta se renderam, caindo inertes para o lado.

— Tudo bem ai? — perguntou enfim, notando que o colega continuava imóvel. Foi necessário que o mago o sacudisse um pouco até que ele recobrasse a voz com um longo e abafado grito.

— Sente-se melhor agora?

— O que foi… — gaguejava Garlor apontando para Bastian, mais morto do que nunca.

— Um truque, como lhe disse. Faltam ainda alguns pequenos detalhes, mas não se preocupe: fui eu que fiz aquilo com as mãos dele. Tudo ocorreu perfeitamente bem até agora e vai ficar ainda melhor dentro de pouco tempo.

— Os garotos, eles…

— Fugiram. Mas vão voltar logo. Por isso preste atenção no que faremos…

Quanto mais explicava para Garlor, mais o menino ficava impressionado com a frieza do garoto mago e com a forma que havia sido usado por ele para conseguir o que queria. Quando Alex e os demais voltaram acompanhados dos pais, estes últimos armados com tochas e ferramentas, encontraram Garlor de pé ao lado de um fragilizado Enemaeon que falsamente mancava um pouco. Com lágrimas nos olhos, ele contou a todos de que maneira o grupo havia penetrado no cemitério até o ponto em que Bastian regressou como um morto-vivo.

— Quando todos correram eu tropecei num dos túmulos e caí, ficando para trás — mentiu — Aquele garoto magrinho foi o único que ficou para me ajudar.

A história rendeu. Agradecido, o pai de Enemaeon premiou a família de Garlor com uma quantidade generosa de tibares que os sustentaram por todo aquele ano difícil. Alex e o próprio jovem mago foram punidos pela irresponsável incursão no cemitério, mas após algumas horas de castigo e um safanão, puderam cumprir com a parte que lhes cabia da aposta. Servir e ser servido. O ponto alto, a coragem de Garlor frente ao horror se espalhou e nunca mais o garoto franzino fora desrespeitado pelos amigos de Tarn. Quanto a Bastian, este voltou para o túmulo. Cremado agora, por via das dúvidas.

Naquela noite, Garlor pela primeira vez esteve em contato com uma trapaça bem sucedida, tendo como prêmio não apenas o espólio, mas principalmente uma amizade. Anos mais tarde, o mago e o ladino partiram daquela mesma Tarn arruinada em busca de aventuras para nunca mais regressarem em vida ao pequeno vilarejo de suas infâncias.

(…)

Felrond não sabia quanto tempo ainda tinha antes do decrépito velhote descobrir que o tão desejado sangue divino que acreditava beber não passava do próprio vômito e urina. Tampouco desejava saber. Silenciosamente, buscou a porta do quarto, abrindo-a sorrateiramente e fechando-a atrás de si. Já estava do outro lado do pequeno corredor quando ouviu o grito de ódio e asco aflorar. Permitiu-se gargalhar antes de dar por encerrada a missão, procurando fugir o quanto antes do casarão dos Anon.

Entretanto, a cena que encontrou ao descer o primeiro lance de escadas afastou todo o pouco humor nascido daquela trapaça. No salão, dezenas de desmortos avançavam como formigas contra algo que o elfo temia ser Garlor. Afastou-se rápido dali em direção aos fundos até a primeira porta que encontrou aberta, trancando-a com cuidado em seguida. Estava agora nos primeiros degraus de uma segunda escadaria que descia em espiral até um subsolo escuro.

Havia um lampião e pederneira preparados em um nicho próximo, mas o elfo os ignorou. Valendo-se da aguçada visão, Felrond preferiu descer sem denunciar a sua presença com a pálida luz. Conforme descia, um cheiro conhecido inundou-lhe as narinas. Mesmo que misturado com um segundo odor não tão agradável, muito semelhante ao do conteúdo do penico deglutido pelo velho Petrus, era o inconfundível cheiro de vinho.

Antes de chegar já sabia que se tratava de uma adega. E de bom tamanho. Abrindo generosamente o primeiro barril que encontrou, encheu as mãos com o sedoso líquido alcoólico e bebeu com vontade, matando um pouco a tremedeira ébria que o acometia. Gritou, agradecido:

— Obrigado, Vyanni, pela graça alcançada!

Esquecendo-se de tudo por um momento, permitiu-se tomar mais alguns goles. E conforme o tempo passava e ele bebia, também se esqueceu de Garlor, dos zumbis e do que viera fazer ali. Seguiu em frente mesm assim, mergulhando cada vez mais na doce e temporária inconsciência do álcool. Estava tão feliz e entretido que não notou a aproximação lenta e decidida de um vulto caçador, silencioso e letal esgueirando-se por detrás dos barris. De tão bêbado, não conseguiu sequer distinguir as formas do grifo faminto que era mantido ali, aprisionado na escuridão.

Nem mesmo quando já era tarde demais.

(…)

Este seria o fim ideal para um grupo como aquele. Um assassino ladrão, um necromante com a alma perdida e um elfo bêbado sem caráter. Mortos enquanto tentavam roubar o medalhão de um velho alquebrado, que aos olhos de toda uma cidade era apenas um pai que perdeu o filho e adoeceu de tristeza. Chame o que aconteceu de destino, de azar ou de uma péssima jogada de dados de Nimb, mas o fato é que nem sempre as coisas são o que parecem aos nossos olhos.

Isto foi o que Petrus Anon descobriu ao notar o gato preto que avançava curioso em sua direção. O velho que usava os lençóis da cama para limpar-se entre uma crise ou outra de vômito arremessou os travesseiros na direção do felino. A força débil de homem doente mal lhe permitia jogá-los além dos limites da cama, quanto mais acertar o animal que continuava a avançar indiferente aos berros direcionados aos criados.

Por fim, após algum tempo de gritaria, Sanford surgiu. O mordomo quase tão velho quanto o próprio Petrus, urinado e com um sorriso sem dentes congelado no rosto curvou-se, solícito. Estava completamente alheio ao estado do velho, assim como permanecia indiferente aos sons de luta que chegavam através dos corredores. O debilitado patrão tentou ordenar-lhe que fizesse alguma coisa, mas a mão ossuda do criado o impediu, fechando-lhe a boca e o empurrando novamente de encontro ao colchão sujo.

Os dedos em garra o seguraram com tanta força rasgaram a pele flácida do rosto, deixando os olhos abertos, girando perdidos nas órbitas. Em meio ao desespero, Petrus viu que lágrimas corriam pelo rosto ossudo de Sanford, gotejando pela boca junto com a saliva que escapava por aquele odioso sorriso fixo. Tentou em vão livrar-se do mordomo, mas não tinha forças para resistir. Era, afinal, um velho. O tempo o havia vencido.

Quando enfim desistiu, o gato preto saltou ágil sobre a cama e se aproximou cada vez mais do rosto coberto de imundice. Apenas quando um conjunto de garras afiadas perfurou-lhe os olhos, arrancando-os das órbitas foi que Petrus, enfim, desmaiou.

Continua…

Armageddon • 04/05/2015

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