Caverna do Saber #03 — Tabelas: do Bem ou do Mal?

Consideradas o símbolo de RPGs chatos, tabelas podem ser uma boa ferramenta no arsenal do mestre. Descubra como!

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Lá pelos anos 90, quando alguém queria dizer que um RPG era complicado, dizia que era “cheio de tabelas”. Não era à toa: alguns dos primeiros RPGs tinham tantas tabelas que mais pareciam livros de engenharia!

Um exemplo? Tormenta RPG possui uma única tabela para os modificadores de todos os atributos básicos (Força, Destreza, Constituição, Inteligência, Sabedoria e Carisma). E mesmo assim, a tabela existe apenas para facilitar a visualização dos modificadores, pois eles seguem uma equação simples, sendo sempre iguais a (valor do atributo –10)/2. Complicado? Só pra quem for muito preguiçoso. Vamos calcular o modificador de Força 18, por exemplo. 18–10=8. 8/2=4. Logo, o modificador de Força 18 é +4. Usando cálculos que todos aprendemos na segunda série, a tabela nem mesmo é necessária.

Mas isso em Tormenta RPG, um sistema criado em 2010. Se voltarmos no tempo, a história é outra…

 

Uma Breve História das Tabelas

Se pegarmos um jogo mais antigo, digamos, Advanced Dungeons & Dragons — um dos ancestrais de Tormenta RPG, publicado em 1989 — a história é outra. AD&D não tinha uma única tabela para os modificadores de atributos, mas sim uma tabela para cada atributo, pois cada um tinha modificadores diferentes.

Para piorar, cada uso de cada atributo possuía modificadores diferentes. Ou seja, não só eram várias tabelas, como cada tabela tinha várias colunas. Pegando Força, por exemplo, havia colunas para bônus de ataque, bônus de dano, capacidade de carga, chance de arrombar uma porta e chance para dobrar uma barra de ferro ou erguer um portão (sim, havia uma estatística na ficha específica para determinar a chance de seu personagem dobrar uma barra de ferro ou erguer um portão).

Para piorar mesmo, as tabelas não seguiam nenhuma lógica matemática. Ou seja, não havia como calcular os números; se você precisasse deles, tinha que consultar a tabela. Isso, é claro, deixava o jogo lento.

Não é de se admirar que, ao longo dos anos, as tabelas tenham adquirido uma “má reputação”. Quando RPGs mais voltados para interpretação começaram a surgir, mais tarde nos anos 1990, seus autores fizeram um esforço para reduzir ou até mesmo eliminar as tabelas. Essa tendência continua até hoje. Mesmo um RPG de fantasia medieval como Tormenta — tradicionalmente um gênero mais “pesado” em regras — possui pouquíssimas tabelas. RPGs criados para ser mais ágeis, como 3D&T, não têm praticamente nenhuma tabela!

Mas será que tabelas sempre são ruins?

 

Tabelas — O que são, do que se alimentam?

Antes de julgar as tabelas, vamos primeiro entendê-las. Uma tabela é uma maneira de organizar e mostrar dados, apenas isso. No meio científico, elas são feitas para simplificar, não para complicar.

Mas então por que no RPG as tabelas são associadas à complexidade?

Isso se deve a maneira como elas eram usadas. Quando uma informação crucial para o andamento do jogo — como um modificador de atributo — está vinculada a uma tabela, o jogador é obrigado a consultar essa tabela sempre que precisar dessa informação. Isso pára o jogo, o que é chato. Como nos RPGs antigos quase todas as informações eram transmitidas através de tabelas, o jogo parava muito. O que era muito chato.

O que tiramos disso é que sim, vincular informações básicas à tabelas é uma ideia ruim. As regras fundamentais do jogo devem ser simples o bastante para que os jogadores possam sabê-las de cabeça.

Mas e quanto a outros tipos de informações?

 

Usando Tabelas

O RPG é um jogo de imaginação. Mas a verdade é que nossa imaginação é limitada. Imagine uma visita a uma metrópole movimentada, ou uma briga em uma taverna cheia. São duas situações ricas em possibilidades, e nem sempre o mestre vai conseguir visualizar todas.

Entram as tabelas.

Na campanha que estou mestrando atualmente, tenho usado muitas tabelas. Não para as regras — como vimos acima, isso não é uma boa ideia —, mas para enriquecer as cenas. Em dúvida do que acontece em determinada situação? Role um dado, consulte a tabela e pronto!

“Ah, mas é impossível criar uma história profunda rolando em uma tabela!”.

Talvez seja (há controvérsias, mas não vou entrar nessa discussão hoje). Mas não estou dizendo que o mestre deva criar sua aventura a partir de uma tabela. As tabelas devem ser usadas como um apoio, para enriquecer encontros que, de outra maneira, poderiam passar despercebidos.

Para exemplificar melhor o que estou dizendo, aí vai uma dessas “tabelas de apoio”.

 

Briga de Taverna!

Uma cena clássica, a briga de taverna é caracterizada pelo caos. Dependendo do tamanho do lugar, pode haver dezenas de pessoas envolvidas no quebra-pau, em meio a tantas outras tentando fugir, aproveitando a confusão para roubar ou simplesmente querendo beber em paz.

Para simular essa bagunça , no início de cada rodada, um jogador deve rolar 1d20. Sempre que a tabela se referir a “um personagem”, o mestre deve decidir um dos personagens aleatoriamente. A tabela usa as regras de Tormenta, mas não é difícil convertê-la para outros sistemas.

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01O taverneiro grita pela Guarda. Eles vão chegar em 3d6 rodadas.
02Alguém grita que a Guarda está chegando; os clientes correm, congestionando as saídas. Sair da taverna exige um teste de Força ou Acrobacia contra CD 20. Na próxima rodada, use o evento 19 ou 20.
03Bebida forte cai na lareira e cria uma pequena explosão. Um personagem, e todos a até 3m dele, sofrem 2d6 pontos de dano.
04O taverneiro é atacado. Se alguém ajudá-lo, ganha hospedagem de graça por uma semana!
05Um brigão derruba uma cadeira no chão. Quando um personagem se mover, deverá fazer um teste de Percepção (CD 20). Se falhar, tropeça e cai.
06Um brigão atira uma caneca na cara de um personagem, que sofre 1d3 de dano.
07Um brigão cai sobre uma mesa onde outros clientes estavam jogando cartas. No topo da mesa havia uma pilha de moedas, que se espalham no chão: 2d20 Tibares de prata.
08Um oportunista começa a vasculhar a mesa onde os personagens estavam, roubando tudo de valor que encontrar na mochila deles. Os personagens têm direito a um teste de Percepção (CD 20) para vê-lo.
09Um brigão segura um banco na altura do peito e começa a correr, derrubando várias pessoas, até chegar num personagem. Este personagem deve fazer um teste de Força (CD 17). Se falhar, cai.
10Um cliente inocente é atingido e cai no chão, sangrando. Personagens bondosos podem se ver obrigados a curá-lo, mesmo que isso signifique abrir a guarda para ataques.
11Um bandido saca uma adaga e apunha-la um dos personagens, causando 3d6+3 pontos de dano.
12Um brigão vira uma mesa e a usa como cobertura, recebendo um bônus +4 na CA. Os personagens podem ficar atrás da mesa, mas primeiro vão ter que tirar o brigão de lá…
13Um espertinho entra atrás do balcão e começa a roubar dinheiro e bebidas caras.
14Um cliente bem vestido se atira debaixo de uma mesa e grita por ajuda. Ele oferece 1d6 TL a quem escoltá-lo até a rua.
15Um brigão quebra uma cadeira na nuca de um personagem, que sofre 1d6+3 de dano.
16Um barril de cerveja se quebra, disparando um jato que deixa o chão escorregadio.
Um personagem deverá fazer um teste de Acrobacia (CD 20). Se falhar, escorrega e cai.
17Uma rapariga da taverna grita “Socorro!”. Ela está sendo acossada por um brigão que tenta beijá-la à força.
18Um lampião é derrubado e incendeia um quadrado de 1,5m. O fogo se alastra um quadrado por rodada. Qualquer que inicie seu turno num quadrado em chamas sofre 1d6 pontos de dano.
19Um contingente da Guarda chega. São corruptos, e tentam derrubar os brigões para roubá-los! Todos os personagem sofrem um ataque (bônus +4, dano 1d8+3).
20Um contingente da Guarda chega. São honestos, e tentam apartar a briga usando ataques não letais. Todos os personagem sofrem um ataque (bônus +4, dano 1d8+3 não letal).

 

Finalizando

É claro que um mestre criativo não precisa de uma tabela como esta para fazer uma briga de taverna ser emocionante. Ele pode inventar isso na hora, não? Poder, pode. Mas é mais difícil inventar do que rolar um dado. E, como o mestre já tem o trabalho de controlar todos os PdMs e arbitrar as regras, toda ajuda é bem-vinda. Ter uma tabela para decidir esse tipo de evento menor libera o mestre para pensar naquilo que é mais importante: a história como um todo.

Se o pessoal quiser e pedir nos comentários, posso postar aqui mesmo uma série de tabelas como a acima para situações comuns em aventuras!

Guilherme Svaldi • 27/04/2015

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