Katabrokando! #3 – A Estranha Figura no Canto Escuro

Na terceira edição de sua coluna, Rogerio Saladino nos presenteia com um mini-conto trazendo um novo personagem (e a provável volta de um velho conhecido)!

A Estranha Figura no Canto Escuro

Quando Damara, a jovem atendente da estalagem estava começando a limpar as mesas e varrer o salão, feliz porque os clientes da caravana tinham indo embora, ela percebeu que alguém tinha ficado.
Isso era estranho. Era pra todo mundo ter saído, continuando a viagem até Valkaria. Mas tinha uma pessoa na mesa do canto, aquela que ninguém gostava de usar. Uma pessoa que parecia estar dormindo. “Será que tinha perdido a partida da caravana?” Ela pensou, e foi até a mesa, para acordar a figura.

Não precisou. Não estava dormindo. Era um anão com uma cara de desânimo profundo.

- O senhor perdeu a caravana? Eles saíram faz meia hora, talvez consiga alcançá-los… – Damara avisou, tentando ser simpática e solícita (ela não gostava muito de anões).

- Não, moça… não é isso. Eles me deixaram pra trás mesmo. Resolvi ficar aqui. É um lugar tão bom quanto qualquer outro… melhor até, eu acho… – foi a resposta do anão. Ele tinha levantado um pouco sua cabeça, o que permitiu que a atendente visse que era um anão bem estranho. Pra começo de conversa, não estava carregando um machado, ou martelo ou outra dessas armas pesadas que anões adoram. As roupas estavam limpas, sem marcas de comida ou bebida e pareciam novas. Sua barba estava bem aparada, toda certinha e ela achou ter sentido o cheiro de… loção?

- Sabe por quê, moça? – o anão asseado continuou falando – Por que ELE não está por perto. O que é bom pra mim.

- Ele quem? E quem é você? – Damara não se conteve e perguntou, e só depois ela se tocou que isso faria o anão falar ainda mais.

- Meu nome é Gordovorimm e sou bardo por profissão.

“Espera! Um bardo anão?”, a jovem pensou imediatamente. Ela nunca tinha ouvido falar de bardos anões. Achava inclusive que anões eram incapazes de fazer coisas de bardos, por algum motivo que só os deuses deveriam conhecer. E que raios de nome era esse? Gordovorimm? Tá, o idioma dos anões era diferente do Valkar, mas será que nem eles tinham se tocado que alguém com esse nome seria chamado para sempre de “Gordo”? Talvez isso não importasse muito para anões. Pensando bem, Damara nunca viu um anão que pudesse dizer que era magro. Enquanto ela pensava silenciosamente nessas questões de caráter filosófico e existencial, é claro que o anão continuou a falar.

- Meus problemas devem ter começado aí. Meu povo me odeia porque eu sou bardo, e os meus colegas de profissão me odeiam porque eu sou anão! Pensei que era normal no começo de carreira, que era só eu encontrar boas histórias, contos épicos para narrar, que as coisas ficariam melhores, que as pessoas gostariam de mim…

Enquanto o bardo insólito contava a história de sua vida, Damara ainda se perguntava “o que bardos anões tocam? Ficam batendo pedras?”, um pensamento bastante comum em Arton (isto é, para as poucas pessoas que pensam em bardos anões). E totalmente desatento a falta de atenção da moça a sua frente, Gordovorimm continuava.

- Então, para conseguir criar grandes canções, histórias memoráveis, eu fui procurar um grande herói para acompanhar. Afinal, é assim que a gente consegue grandes aventuras, não é mesmo?

- Sim, sim. – Damara respondeu, sem notar que era uma pergunta retórica.

- E aí foi que Nimb me mostrou que também não gostava de mim! Porque eu tive o pior azar que um bardo de Arton poderia ter! Puxa vida… será que não tem um deus que cuida dos bardos, não?
Damara lembrou que tinha sim. Qualquer criança sabia que Tanna-Toh era a deusa dos bardos, que ela cuidava deles como se fossem seus filhos. E tinha até aquela maldição que caía sobre quem fizesse a besteira de matar um bardo. Diziam que Wynna gostava de bardos, e que Marah e Valkaria os achavam simpáticos! Se o anão não sabia disso, ou ele aprendeu sua profissão de um jeito bem estranho ou estava fazendo alguma coisa errada.

Ou várias dessas coisas juntas, todas de uma vez.

E Gordovorimm prosseguia.

- Nimb me deu o azar de um… de um…

- De um bardo anão? – interrompeu Damara, sem conseguir conter o comentário.

- Isso! Espera! Será que é isso mesmo? – Gordovorimm respondeu para, em seguida, fazer uma expressão de quem estava realmente considerando a informação. Depois, continou. – Bom, então, eu tive azar, muito azar e encontrei um herói aventureiro.

- Mas não era exatamente isso o que você queria?

- Sim, era, mas o problema foi QUEM eu encontrei. Eu achava que o cara era um herói e aventureiro e tudo mais… mas ele só me trouxe dor e tristeza! Problemas, encrencas… andar com ele não me trouxe histórias! Me trouxe hematomas e cicatrizes!

Damara não lembrava o que era “hematomas”, mas parecia ser ruim. Tipo uma pancada na cabeça.

- Puxa, mas por que esse aventureiro tão ruim? Deve ser alguém terrível, perigoso, bem malvado mesmo! É famoso?

Os olhos do anão se arregalaram como dois ovos fritos (e queimados) por um goblin.

- Ele é o mal encarnado! Tudo de ruim que há em Arton DEVE ser culpa dele! Ele deve ter alguma coisa a ver com a queda do império dos elfos, ou com a invasão dos minotauros. Acho que até a Tormenta é culpa dele!

Preocupada com a reação apavorada de Gordovorimm, Damara tentou acalmá-lo. Sentiu pena do coitado.

- Vamos fazer o seguinte: eu te trago uma cerveja e você me conta tudo desse cara e o que ele fez. Mas sem ficar nervoso, tá? Você mesmo disse que ele não está aqui.

Respirando fundo, o estranho bardo respondeu.

-Tudo bem… mas pode ser um chá? Eu não gosto muito de cerveja…

- Claro, pode sim. – respondeu a moça, confirmando mentalmente que o anão era mesmo bem estranho. – mas me diga, qual era o nome dele?

E Gordovorimm respondeu com apenas uma palavra, dita como se fosse a coisa mais horrível de Arton:

- Katabrok!

Tormrnta - Katabrok-686

Jambô Editora • 18/05/2015

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