Brigada Ligeira Estelar – Baú Referencial 03

Como super robôs dos anos 70 podem incrementar Brigada Ligeira Estelar? O Baú Referencial retorna com um clássico dos animes!

Combattler
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Tadao Nagahama se tornou um nome importante na história da animação japonesa graças a três produções: Combattler V, Voltes V e Tosho Daimos. Esse tríptico seria conhecido como a Trilogia do Romance dos Robôs de Nagahama — romance no sentido literário da coisa, com uma conotação épica que remete à obras como o Romance dos Três Reinos. Talvez por isso a expectativa sobre essa obra seja grande e acabemos algo frustrados quando nos deparamos com essas séries como superficialmente elas são: infantis, episódicas e repetitivas… mas quando nos damos conta, não conseguimos mais deixar de assistir. Isso mostra a habilidade de Nagahama. Quando ele assumiu a cadeira de diretor nessas produções, as animações japonesas de robôs gigantes, ainda presas ao molde do super-robot, eram vistas como mera propaganda de brinquedos. Sim, elas continuaram sendo. Mas não havia uma preocupação direta com o estofo do seu conteúdo, e Nagahama tinha uma intenção clara em mente — ele frisava, sempre, que sua intenção era contar histórias dramáticas com foco em conflitos humanos e empatia com os personagens, por mais que tivéssemos robôs gigantes capazes de feitos extraordinários.

Algo que sempre pontuei em Brigada Ligeira Estelar é que Robôs Gigantes apelam para o garoto de dez anos em nós, e há algo de mágico e fantástico neles — mas sem alma, eles não passarão de brinquedos. E é para isso que existe o melodrama. Quem crê que Brigada não seria realmente sobre robôs gigantes, mas sobre o Sabre, e que os robôs seriam supérfluos… bem, só mostra seu não-entendimento do gênero: Macross nunca foi sobre o robô Valkyrie: amamos os combates espaciais, mas essa série é sobre o coming of age de um jovem que se apaixona por uma adolescente leviana e só encontra a maturidade ao lado de uma mulher adulta. Da mesma forma, em um exemplo mais moderno, Majestic Prince não é sobre os cinco modelos usados em combate — é sobre um simpático bando de perdedores que deseja seu lugar ao sol, e sobre um garoto que quer se tornar um herói.

Nagahama entendeu isso: robôs e sua mítica servem para empoderar diferentes histórias a ser contadas, mas a natureza dessas histórias deve ser humana. A primeira série da trilogia, Combattler V, é a mais convencional entre elas, mas foi a primeira no gênero a investir em desenvolvimento de personagem e no fato de que ações tem consequências, quando antes, nas séries de super-robôs, tudo voltava ao normal após o monstro da semana. Um exemplo: o principal piloto da série, Hyouma, é covardemente aleijado pelo vilão. Não há retorno. O professor da vez lhe arruma braços mecânicos que o permitem voltar a pilotar, mas esses braços costumam falhar quando são necessários. Da mesma forma, todos os personagens principais, inclusive o vilão, tem arcos de desenvolvimento como personagem. Na terceira série, Daimos, Nagahama estabeleceu um dilema dramático: o protagonista se apaixona por uma moça do povo invasor inimigo da vez — que é ninguém menos do que a irmã do grande vilão.

Daimos

Mas é na segunda série da trilogia, Voltes V, que quero me deter em especial — e não foi à toa que a incluí como referência em Brigada Ligeira Estelar: Belonave Supernova Vol. 1. Ele é uma aula de como agarrar o espectador, expandindo as lições intuídas em Combattler V. Se preparem: teremos spoilers.

1. Introdução seguida de Impacto: as antigas séries de super-robô costumavam ser longas; Voltes não era exceção. Mesmo seguindo uma trama interna, a série era episódica. Como desenvolver os personagens sem que o espectador que espera combates fique de saco cheio? 
Trabalhando o impacto emocional. No primeiro episódio da série, surgem os invasores, somos apresentados rapidamente aos personagens e suas capacidades, e vemos que quem comanda a defesa da Terra são o professor e a mãe dos três irmãos principais do grupo (há mais dois, mas deles falaremos adiante). Nos dois episódios seguintes, o autor joga pesado: aqui, os vilões são inteligentes e descobrem a localização da base secreta dos personagens! A mãe — e comandante — é gravemente ferida e no final, se sacrifica para que seus filhos sobrevivam e vençam o inimigo. Com isso, somos pegos de cara com uma pesada carga emocional.


2. Desenvolva os Personagens: a morte da mãe e líder não foi gratuita. Os personagens estão abalados e agora os conheceremos de verdade. As tramas pessoais de cada um serão o foco dos capítulos seguintes, trabalhando os efeitos do trauma. Ken’ichi claramente está surtando em sua obsessão por deter os invasores; o caçula Hiyoshi quer viver uma infância normal e se desespera por isso lhe ser tomado; e mesmo Ippei, que não é um dos irmãos, se ressente da dor dos demais por ele mesmo ser um órfão supostamente abandonado pela mãe. 
Os personagens principais não são os únicos a serem desenvolvidos: o capítulo oito é, para surpresa geral, contado a partir do ponto de vista do principal vilão, o Príncipe Heinel. Mas disso falaremos adiante.


3. Faça seus Vilões Inteligentes: um elemento notável na Trilogia de Nagahama é que seus vilões são espertos e perigosos. Em Combattler V, Garuda tenta forjar acusações criminosas para fazê-los serem presos pela polícia, chega a chantagear o governo para atacar a base dos heróis… enfim, procura prejudicá-los de formas menos óbvias do que forjar um monstro do dia mais ameaçador para os protagonistas (não que ele não faça isso). Em Voltes V, o Príncipe Heinel não tem a mesma astúcia (a sorte dele é ter subordinados leais quando outros estão tramando pelas suas costas), mas o trunfo dos invasores é ter… bom-senso. Eles descobrem o quartel-general secreto dos protagonistas no segundo episódio, simplesmente seguindo rotas práticas de ação. Ou seja, seu mérito é não ignorar o óbvio! Quantos vilões fazem isso?

4. Depois da Construção, a História: quando os episódios dedicados aos personagens estão nos cansando, iniciamos um arco que culmina na morte do professor — agora deixando-os estruturalmente acéfalos. Mas antes de morrer, ele revela a todos que o pai deles, que construiu o Voltes V, está vivo e aprisionado pelos alienígenas invasores. Os protagonistas, que perderam a mãe, passam a mover mundos e fundos para resgatar seu pai, esteja ele aonde estiver. Ou seja, só após cerca de um quarto da série ter se passado, entendemos qual é a verdadeira história a ser contada: a busca dramática de três filhos por seu pai aprisionado. Voltes V é sobre isso, não sobre deter uma invasão alienígena. E graças às histórias mais bobas sobre cada personagem, agora nos importamos com eles e queremos ver para onde isso leva! A caracterização não é mais tão urgente: ela já pode vir na cadência da trama.

Voltes

5. Dê Motivação aos Vilões: Um trunfo de Voltes V é que em geral, todos os vilões são criminosos ou desterrados na sociedade invasora. Muitos precisam vencer os heróis não por serem obedientes ou malvados: para eles pode ser a chance de limpar sua ficha — leia-se, questão de vida ou morte! O principal vilão, o Príncipe Heinel, que comanda a invasão, também está nessa missão em busca de recuperação de credibilidade, porque pesa sobre ele uma desgraça generacional sobre as costas. E falando nisso…


6. Desenvolva seu Vilão: paralelamente aos heróis, Heinel também tem uma trama de desenvolvimento de personagem. É claro, ele faz coisas pelos quais não pode ser perdoado, mas também tem um passado, uma trama pessoal e um crescimento que em algum momento irá trombar de forma decisiva com o caminho dos protagonistas. Essa abordagem partiu de Garuda de Combattler V, mas faria escola — vide Char Arznable de Mobile Suit Gundam e, por que não? Dom Refrega de Brigada Ligeira Estelar: Belonave Supernova.


7. Integre o Desenvolvimento dos Adversários à trama — e supreenda os protagonistas: O desenvolvimento de Heinel é particularmente espantoso porque há um quebra-cabeças se desenhando ao longo de toda a história, e só no final as peças se encaixam — culminando em uma revelação surpreendente na reta final que unifica tanto a trama de Heinel quanto a dos três irmãos Go. Se fosse uma sessão de RPG, isso pegaria os personagens jogadores pela garganta.


8. Dê metas e compensações: é algo curioso para a época que foi feita a aproximação velada entre Ippei e a personagem feminina do bando, Megumi, em um ponto avançado da série (isso fica mais evidente após a morte do pai dela). Por que com ele ao invés do líder Ken’ichi? Porque analisando friamente — e me perdoem o machismo da conclusão — Ippei não tem nenhum tipo de ganho ou compensação ali dentro. Os três tem a busca por seu pai. Ele não tem nada. Sentiram o raciocínio por trás do… É, eu sei. Não estou dizendo que se deva rifar o elenco feminino para os personagens, mas esse é um bom exemplo de como aqueles que não compartilham da meta primária da maior parte do grupo precisam de alguma coisa que os mantenham interessados e presentes.

Nagahama infelizmente morreu de hepatite durante sua adaptação de A Rosa de Versalhes. Muito do que ele criou acabou absorvido e trabalhado por seus sucessores, e por isso não impressiona tanto aos olhos de hoje em dia. Mas ele deixou um legado, e seu trabalho ainda tem muito a mostrar não apenas ao mestre de jogo em Brigada Ligeira Estelar, mas a aqueles que querem contar histórias.

E diacho, ele mesmo sabia: tudo — inclusive o drama — fica melhor com robôs gigantes!

Alexandre Lancaster • 22/06/2016

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