O Enigma das Arcas, Ato XII — A Chegada do Tortura

Quantos destinos estão ligados a uma única cidade? Acompanhe uma história trágica do passado de Lenórienn sob outra ótica neste novo capítulo do Enigma das Arcas!

armageddon-enigma-garlor— Vyanni! Sua grande cadela! Não derrame o vinho pra fora da gamela!

Felrond cantava a plenos pulmões a velha canção pirata enquanto os guardas de Paltar tentavam passar a corda em torno do pescoço dele. Continuava ágil mesmo caindo de bêbado e oferecia uma resistência maior que a esperada. Até a chuva de dejetos irritava muito mais os soldados do que os condenados que riam diante do patíbulo.

As algemas e correntes tilintavam nos pulsos do elfo enquanto tentava recuperar o equilíbrio agarrando-se ao nó da forca. O sorriso no rosto magro só se desfez ao se deparar com o soldado que havia lhe tomado as garrafas no casarão. Felrond interrompeu imediatamente a ladainha para bravejar pelo direito a elas, sendo prontamente ignorado. E subestimado. No primeiro descuido do miliciano, desarmou-lhe com um tapa, agarrou a lâmina com os dentes e lhe abriu a garganta.

O sangue ainda jorrava quando saltou sobre o segundo alvo. Furou-lhe na altura dos olhos até a lâmina bater no osso do fundo do crânio, caindo de encontro aos espectadores que gritavam, confusos e assustados. No momento que Enemaeon alimentou um último resquício de esperança de conseguir escapar, Felrond largou a arma e se levantou exigindo o direito a um último trago. Novos guardas se apressaram em substituir os primeiros e um golpe firme na nuca o colocou para dormir.

Todo grupo precisa de um idiota… — murmurou Presas de Prata relembrando o que havia dito ao mago dias atrás. A corda já lhe apertava a garganta, cada fiapo de fibra picando incomodamente a pele. Enemaeon assistiu com pena o companheiro desacordado ser surrado antes de o colocarem de volta na forca. Era mantido de pé pelos membros da milícia diante do olhar do carrasco e do público. O espetáculo exigia que os três estivessem vivos até o momento da execução.

— Lembra-se de quando o encontramos pela primeira vez? — perguntou. Garlor lembrava, mas não teve a oportunidade de responder.

Algumas pessoas mais próximas cuspiam ou arremessavam objetos menores de encontro a eles. Uma pedra raspou a cabeça do ladino, abrindo um corte profundo. A turba tornou-se ainda mais agitada, como selakos atiçados pelo cheiro de sangue. Com duas novas vítimas inocentes, os gritos de ódio e terror que chegavam até o cadafalso ganharam intensidade e a guarda tinha dificuldades em segurar a multidão crescente. Para acalmar o povo, Famir deu a ordem rapidamente, sem discurso nem pompa. O carrasco puxou a alavanca que abriu um alçapão, suspendendo o trio no ar. Quis o destino que os últimos pensamentos deles fossem voltados para uma época nem tão distante de suas vidas. O dia em que conheceram Felrond, o elfo.

(…)

— Um elfo?

A pergunta de Garlor era mais de surpresa do que de escárnio, apesar de ambas impressões lhe serem verdadeiras. Sabia que a Guilda precisava de todo o tipo de gente no cumprimento das missões, mas enviar três dos membros veteranos até Tapista apenas para comprar um escravo soava no mínimo estranho. Enemaeon era o único que recebera instruções melhores do chefe. E não parecia disposto a compartilhá-las com ninguém, pelo menos não ainda.

Era o início do verão naquela parte de Arton e o dia estava quente como o inferno. Ao contrário da brisa agradável que soprava das Uivantes, era o tórrido calor que nascia no Deserto da Perdição que recaía sobre a capital do império dos minotauros: Tiberus. A cidade era famosa por uma série de fatores, desde a peculiaridade dos habitantes até o fato da escravidão ser permitida e tolerada ali. O império, pela voz do Rei Thormy, buscava inibir e controlar o comércio de escravos através da necessidade de contratos e salvo-condutos, mas a papelada era facilmente falsificada por pessoas de má fé. Sem dúvida, Enemaeon era um desses. E não hesitaria em utilizar tal método se a situação permitisse.

O necromante suava em profusão dentro dos trajes que vestia. Havia dispensado a indumentária costumeira de mago por uma roupa mais condizente com o clima. Um camisão leve e calças ao estilo anão. Garlor perambulava sem a parte de cima da roupa, o que deixava à mostra o par de punhais que mantinha oculto nas costas. O terceiro membro estava ainda mais a vontade do que eles, mas tanto Garlor quanto Enemaeon já estavam tão habituados às tradições de Sandra Halden que sequer cogitaram questionar. Ou reclamar.

Os cabelos acinzentados dela estavam amarrados no alto da cabeça por uma fita vermelha. Tinha o torso moreno nu, os seios firmes recobertos de desenhos tribais livres. A espada pendia solta, presa por um laço na fina peça de linho que vestia, esta mal lhe cobrindo as coxas. Em volta, os minotauros a olhavam desejosos, mas desistiam de algum convite mais ousado sempre que ela abria a boca.

— Bois! Que tipo de divindade cria uma raça cujo parente mais próximo vive do capim que nasce na própria merda?

— Melhor conter as palavras enquanto estivermos aqui Sandra, ou pelo menos diminuir o tom de voz — aconselhou o mago, sorrindo — Caso contrário, não conseguiremos nem o escravo, nem retornar inteiros até a Guilda.

— Essa sem dúvida foi a missão mais imbecil que já recebemos! — praguejou ela em resposta — Precisam de um escravo? Por que não pegamos um babaca qualquer, colocamos uma corrente nele e caímos fora?

— É uma boa pergunta. — comentou Garlor — Qual importância de possuir um escravo autorizado pela coroa? Ainda mais um elfo! Mesmo se acharmos um, irá custar uma fortuna!

— A papelada deve estar dentro da lei pois este escravo em particular irá para o sul — explicou Enemaeon avaliando alguns dos espécimes amarrados pelos pulsos que aguardavam por compradores em uma banca montada em praça pública. A maioria eram garotos jovens ou mulheres velhas. Itens que perderam o valor para os donos e tampouco tinham valor para ele.

— De quanto ao sul estamos falando? — perguntou Garlor afastando as moscas que revoavam no entorno, vindas do lixo discretamente acumulado aqui e ali, apesar do lugar como um todo ser relativamente mais limpo que uma cidade humana de igual tamanho. Carroças com esterco puxadas por escravos iam e vinham, levando os excrementos da região pobre da cidade até o rio.

— Vamos levá-lo para além da fronteira de Tyrondir, através de Khalifor até a região da cidade élfica de Lenórienn — respondeu Enemaeon observando os olhares tristes dos cativos brilharem de esperança pela oportunidade de viajar para muito longe dali. A cada nova banca de escravos visitada, as esperanças do trio diminuíam. Encontraram muitos homens de várias idades, algemados ou amarrados. Mulheres, crianças e também famílias inteiras, vendidas em lotes. Nenhum desses interessavam. O mago sabia que achar um elfo escravo seria difícil e gostava de pensar que o haviam escolhido para a tarefa justamente por isso. Isso e Sandra, claro.

— Ouvi dizer que há muitos goblins ao sul da cidade-fortaleza. — falou ela trazendo novamente o assunto a tona. Buscava incentivar o mago a continuar revelando a eles um pouco mais dos planos que faziam parte da missão que desempenhavam.

— Também já escutei histórias sobre isso. Há rumores que o número deles aumentou muito e viajantes falam sobre a chegada do eleito pela profecia. Aquele que irá unir todas as tribos goblinóides num único povo — emendou Garlor, indiferente.

— Um rei goblin? — caçoou Enemaeon olhando de soslaio para o ladino. Garlor apenas deu de ombros. Sabia o quanto aquilo soava idiota.

— Foi o que eu ouvi.

— São boatos tolos. O fato é que a Infinita Guerra dos elfos contra os hobgoblins continua, e vai continuar por muito tempo ainda. Ao invés de nos preocuparmos com bobagens do povo sobre reis monstros e profecias, vamos nos concentrar em achar um elfo.

— Escravos elfos não existem — era Sandra, irritada — E se não me disser para quê precisamos de um, mando você e a guilda para o inferno e me mando daqui para fazer algo de útil.

— Para conseguir uma brecha. — suspirou Enemaeon, dando de ombros — Por causa do Tratado de Lamnor, elfos não fazem comércio com humanos, o que é ruim para a Guilda. Um voto de confiança deles pode ser um importante e lucrativo passo nesse sentido. E vamos conseguir esse voto usando algum infeliz daqui. Isso se conseguirmos achar algum, claro.

— Pois tem um menino ali com uma carinha bonita demais para ser de homem — brincou Sandra apontando para um dos escravos. Estava exageradamente amarrado e sobre a face carregava uma mordaça metálica presa ao topo do crânio de modo que não pudesse falar. Mas era um elfo, sem dúvida. Orelhas compridas e finas, magro e delgado.

— Deve ter feito algo realmente ruim para ser preso deste jeito — comentou Garlor aproximando-se. O elfo tinha cabelos longos e tão loiros que beiravam ao branco, unidos por um único laço que descia pelas costas marcadas por golpes de chicote. Fora isto, estava nu.

— Gostaram da mercadoria, senhores?

O vendedor era um homem grisalho, de aparência esperta e olhos atentos. Vestia-se à moda de Tiberus, com roupas folgadas e demasiadamente quentes para a época, o que se refletia no suor que corria pelo rosto sob um turbante típico dos povos do deserto. Trazia a tiracolo uma bolsa repleta de papiros enrolados e unidos por fitas, um molho de chaves e uma algibeira aparentemente forrada de tibares.

— Vocês não estão cegos: é mesmo um elfo! Um jovem de boa aparência, além de ser um exímio espadachim e arqueiro. Um verdadeiro servo élfico, abençoado por Glórienn para nosso uso e deleite!

— Você é o dono? — perguntou Enemaeon apertando-lhe a mão com demasiada força, o que era considerado de bom tom no reino de Tauron. O homenzinho não se impressionou com o gesto do visitante, mas tampouco deixou transparecer alguma coisa além de uma fingida superioridade.

— Dono? Não! Sou apenas o intermediário. Meu nome é Julius. Sou escravo, assim como eles, mas minha incumbência é a de vendê-los para sorte e lucro do verdadeiro proprietário, Taurus Augustus, membro da Guarda Pretoriana, meu mestre e senhor.

— Sou Igor — apresentou-se o mago ocultando propositalmente o próprio nome — Taurus deve confiar muito em você.

— Meu senhor tem mais o que fazer do que meter-se em uma praça vendendo escravos, caro amigo. Mas sim, ouso dizer que sou um homem da mais absoluta confiança.

— Então também será útil para mim, Julius. Preciso de um elfo jovem, de atitudes discretas e que suporte bem uma longa viagem de navio de volta ao Reinado. Se me conseguir alguém nestas condições lhe pagarei de forma condizente e talvez até lhe consiga alguns tibares adicionais para uma cerveja.

— Então este é o elfo com o qual você sonhava, amigo! Silencioso como a morte e mal chegou há primeira centena de anos!

Os olhos eram mesmo de um elfo jovem, como Enemaeon podia notar. Estavam, ambos, concentrados nos movimentos do busto de Sandra, o que indicava uma certa familiaridade com a raça humana. Provavelmente não se tratava de um elfo da cidade dourada, mas algum bastardo que se perdeu ou foi roubado por goblins. Mas a mordaça era um indicativo estranho de que ele não era tão silencioso quanto o vendedor gostaria de deixar transparecer. Se a situação fosse outra, talvez continuasse com o jogo por mais tempo, Mas, devido ao calor, Enemaeon não tinha ânimo para rodeios:

— Porque o amordaçou?

— Tanto as cordas como a mordaça são de praxe em se tratando de escravos elfos, senhor. Eles podem usar magia. — mentiu Julius unindo as mãos diante dos olhos e curvando-se ligeiramente. Garlor notou a falsa bravata imediatamente e bem sabia que o companheiro também não cairia naquela conversa tão facilmente. Mas, surpreendentemente, ele levou a mão até a algibeira e estendeu treze moedas de ouro e alguns tibares de prata.

— O troco é para a cerveja, como prometi — falou Enemaeon — Fico com ele.

— Sinto muito, meu caro e generoso senhor, mas o preço deste elfo é de ao menos sete vezes esta quantia!

— Um jovem encrenqueiro e dado a bebida, sem bons modos e amordaçado deste jeito não vale setenta tibares de ouro! — disse Enemaeon sem alterar a voz.

— Não compreendo onde…

— Senti o cheiro de álcool daqui, Julius. Deveriam ter lhe dado um banho antes de trazê-lo. Talvez até mesmo tenham tentado, mas receberam algumas boas mordidas em troca. Isso explica a mordaça, muito mais do que magia ou uma provável boca suja.

— Está dizendo que minha mercadoria não é de qualidade? Assim ofende a mim e a meu senhor!

— Ora, ofendido estou eu! — esbravejou o mago, as veias do pescoço saltando a cada palavra. Como bem esperava, Julius se encolheu com aquele tom de voz. Recuperando a calma estudada que lhe era costumeira, Enemaeon prosseguiu: — Não é o primeiro escravo que compro. E mesmo não sendo deste reino, sou muito bom em avaliar pessoas como você e este elfo. Serei direto, Julius: caso queira garantir o excedente que paga por estas roupas caras que está vestindo, é melhor não tentar me enganar novamente!

— Está insinuando que estou lesando meu patrão cobrando mais do que me pede pelos escravos? Ora, isso é no mínimo…

— No mínimo a verdade, não menos que isso! É um bom vendedor, Julius. E sei que tem sido lucrativo para Taurus. Mas não pode deixar a cobiça lhe cegar desta maneira. Estou prestes a deixá-lo aqui e exigir um encontro com o  senhorio, para revelar a ele o quanto custou a confiança em um lacaio de sua extirpe em todos estes anos!

— Não! Não pode fazer isso! — gaguejou o vendedor, rendendo-se — Isso é uma calúnia, eu seria incapaz de…

— Acalme-se, pois apesar de um tanto quanto rude, também não sou um carrasco — mentiu o necromante. Tanto Sandra quanto Garlor sorriam. Haviam conseguido dobrar o vendedor, assustando-o com um bom blefe. Enemaeon contou mais uma vez as moedas, chegando agora na casa das vinte e cinco peças de ouro.

— Isto é menos da metade que ele vale! — exclamou Julius suando ainda mais — Compreenda: é um elfo! Quantos escravos elfos você acha que existem em Arton? Uma dúzia, se tanto! Vendê-lo por meras vinte e cinco moedas seria algo que…

— Algo razoável, em se tratando deste tipo que você tem aqui. Ele me parece perigoso e arisco. Quem me garante que não tentará atacar minha amiga aqui na primeira oportunidade?

— Engana-se! Não faria mal a quem o alimenta. E é incapaz de fazer mal a uma mulher, exceto que lhe ordenem.

— Tenho uma outra ideia então. Se o elfo for capaz de receber os golpes de Sandra sem reagir, pago-lhe o preço que me pede. Se não, lhe entrego apenas o justo para que acerte suas contas com Taurus e escape de algumas bordoadas. Aceita?

— Meu elfo contra a mocinha?

— Mocinha era tua mãe quando foi deflorada por um trobo! — começou Sandra sendo prontamente calada por Garlor, que com uma das mãos tentava impedi-la de completar a longa sequência de impropérios que expelia com a velocidade de um velho frequentador de tavernas. Como retribuição, Sandra mordeu-lhe os dedos, deixando-os com profundas marcas e pequenas gotas de sangue.

— Morto ele não me serve para mais nada — respondeu o vendedor, suspirando derrotado — Aceito o preço que estipulou: míseros vinte e cinco tibares de ouro. Apenas levem-no daqui e me deixem em paz, por favor.

— Foi um prazer fazer negócios com você, Julius. Mande lembranças minhas ao seu proprietário, e que a vida de Taurus Augustus seja longa e próspera.

— E que você queime para sempre no inferno dos avarentos, meu amigo.

(…)

Após o pagamento, Julius transferiu para Enemaeon o certificado de propriedade em um pergaminho. De acordo com o documento, o elfo se chamava Felrond e não possuía um sobrenome de família até onde se sabia. Após endossado pelo selo de Taurus, o escravo teve as pernas desamarradas para poder caminhar, sempre sob a tutela de Sandra. Assim o fez por longos quilômetros, caminhando atrás dos cavalos do grupo até se afastarem o suficiente da fronteira de Tapista. Mais alguns tibares para um guia e o aluguel de um barco foram gastos, e então estavam todos em curta viagem através do Rio dos Deuses. Na outra margem estava as Montanhas Uivantes, e além delas, Zakharov.

— Porque não descemos o rio até o Mar Negro e voltamos pelo sul? — perguntou Garlor sentindo a água sob os pés ao lado da embarcação. Sempre gostara do rio, e não fazia questão de esconder a felicidade em estar navegando agora.

— E por que não tiramos a mordaça do bonitinho aqui? — era Sandra notando a alegria afastar-se do rosto de Garlor imediatamente. Enemaeon, que se mantivera calado até então, buscava dentre os próprios pertences alguma coisa com que se cobrir. Atirou também um manto em direção a Sandra, e um poncho de Namalkah para Garlor.

— É para o frio das Uivantes — justificou — E não vamos tirar a mordaça do garoto nem agora, nem nunca. Não faço a mínima questão de saber mais do que já sei sobre ele. Se chama Felrond, não nasceu em Lenórienn mas custou barato. É um elfo e está ótimo para nossos propósitos.

— Que são?

— Levá-lo até as imediações da cidade élfica e matá-lo.

Alguns segundos de silêncio precederam os impropérios de Sandra. Enemaeon sabia que seria assim, mas de qualquer forma não poderia postergar além do que já fizera o momento de confidenciar a verdadeira missão do grupo. Após praguejar contra deuses mortos e vivos, virou-se na direção do mago com o dedo em riste:

— Você está louco? Viajamos metade do mundo atrás de um elfo só para amarrar o desgraçado e arrancar sua cabeça? Qual é a lógica por trás disso?

— Não fui eu quem escreveu as regras, Sandra. Só estou jogando com o que tenho. Compreenda.

— Tem algo a ver com a Infinita Guerra, não tem? — era Garlor apoiando as mãos nos ombros femininos de Sandra procurando acalmá-la. Podia sentir a raiva fazendo o corpo dela tremer.

— Já ouviram falar em pólvora? — perguntou o mago pegando um pequenino frasco repleto de um pó escuro de dentro da bolsa. Garlor aproximou-se curioso, mas Sandra o impediu. Olhou por alguns instantes para o semblante sem expressão de Enemaeon e então deu de ombros.

— Esta é a prova de que estão mesmo loucos. Completamente pirados. Você, a Guilda, vão todos para a puta que os pariu. Pólvora agora? Qual é o próximo passo? Profanar o mausoléu de Philydio para roubar fios de bigode loiro?

— O que isso faz? — perguntou Garlor para Enemaeon. Mas quem respondeu foi Sandra.

— Explode gente ignorante o suficiente para andar com isso nos bolsos.

— A pólvora é um preparado alquímico simples. Salitre, enxofre… — explicou Enemaeon sem dar muitos pormenores — O resultado é explosivo sim, mas apenas se manuseado sem o devido cuidado. A Guilda está produzindo pólvora em grande quantidade e pretende usá-la para financiar algo grande. E em breve. Mas antes disso, precisamos vender uma certa quantia de nossos estoques. Conseguir fundos.

— E pretende vender a pólvora para os elfos? — questionou o ladrão.

— Exatamente.

— E onde Felrond se encaixa nisso?

— Os elfos deploram a pólvora tanto quanto Sandra, se não mais. São arraigados as tradições, além de não gostarem das invencionices humanas. Mas eles não são burros. A Infinita Guerra tem esse nome devido ao equilíbrio de forças que manteve elfos e hobgoblins lutando por eras. Se a balança pender para um dos lados, só lhes resta voltar a equilibrar a luta, cedendo a uma nova e explosiva opção.

Os olhares dos presentes se encontraram por alguns instantes, mas eram os olhos de Felrond que estavam mais abertos. Ele havia compreendido qual era o seu papel nos planos daquele homem estranho e grisalho que parecia guiar o grupo. Garlor exprimiu em palavras o pensamento de ambos.

— Os elfos é quem devem ceder? Então vamos vender pólvora para os hobgoblins também?

— Este é o plano.

— Já que começou, cospe o sapo inteiro — reclamou Sandra.

— Vamos oferecer Felrond aos hobgoblins como alvo dos testes de tiro para demonstrarmos a qualidade e a eficácia de nosso produto. A carcaça esburacada e chamuscada dele será entregue posteriormente em Lenórienn. Afinal, é nosso dever adverti-los quanto a forma que ele foi morto e apresentaremos uma contramedida. Se tudo ocorrer da forma que esperamos, a Guilda irá fornecer armamento para as duas frentes, uma culpando a outra pela covarde iniciativa.

— Isso soa tão errado…

— É um golpe de mestre, e uma chance de ouro. Mas, para viajarmos até lá precisamos passar pela fronteira de Tyrondir e, principalmente, garantir nosso retorno. É por isso que devemos estar o mais dentro da legalidade possível. Se nos barrarem em Khalifor com um elfo e ele revelar nossas intenções, poderíamos ter problemas. Então, o colocaremos desacordado e iremos nos valer do certificado de posse para garantir nossa passagem.

— Tem dedo seu nisso, não tem, mago? — perguntou Sandra com desdém.

— Confesso que apliquei algum esforço arquitetando os detalhes para o bom andamento do plano. Como soube?

— Porque ele fede. Fede como bosta de trobo. Típico de um violador de cadáveres nojento como você.

— Fico encantado pela consideração, Sandra. Sabia que iria gostar.

Quem evidentemente não gostou foi Felrond. A partir do momento que soube do destino que lhe aguardava, passou a arquitetar ele próprio um plano de fuga, que concluiu quando em passagem por Deheon, meses após. Em uma de suas parcas refeições, antes de ser novamente amordaçado e amarrado, conseguiu escapar e desaparecer em meio aos prédios e torres.

Não demorou muito para a própria Guilda ser destruída em uma ação conjunta do Protetorado do Reino e um grupo de heróis — Felrond dentre eles — e os poucos sobreviventes da caçada tiveram o destino selado na fatídica noite na taverna em que Sandra perdeu a vida. Anos após, a absurda lenda de um rei goblin tornou-se real. Lenórienn caiu e Felrond foi com ela. O gosto pela bebida lhe dominou. Tornou-se alcoólatra, acabou preso e ironicamente salvo por um novo Enemaeon, mais velho, com o peso de uma maldição sob os ombros e a culpa de ter arruinado tantas vidas o impelindo a resgatá-las, ainda que em benefício próprio.

(…)

Havia fumaça e o odor característico de carne chamuscada. O pescoço ardia e a garganta pedia desesperadamente por ar. Parecia que os pulmões iriam rebentar por dentro, tamanho desespero os compelia a buscar mais e mais oxigênio da atmosfera poluída. Tudo queimava diante dos olhos de Enemaeon. E em um mundo em chamas, um espectro pálido de proporções assustadoras se aproximou.

— Enfim nos reencontramos, necromante! —falou Moranler erguendo-o com apenas um braço e o lançando facilmente sobre os musculosos ombros de touro — Duvido que você vá me agradecer por isso um dia.

Continua…

O Enigma das Arcas é uma história seriada que narra as aventuras de Enemaeon de Ridembarr através de Arton tentando salvar a própria alma. Após o primeiro arco de histórias, quase todo ambientado na cidade tríplice de Ciela, os membros desta estranha comitiva se preparam para a próxima e difícil etapa da missão: subir o Rio Panteão rumo ao Deserto da Perdição. Caso ainda não esteja acompanhando, que tal acompanhar esta história desde o primeiro capítulo?
Armageddon • 05/08/2015

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