Brigada Ligeira Estelar – Baú Referencial 09

Ótimos no que fazem, péssimos em comportamento! Nadesico para mestres de Brigada Ligeira Estelar, no Baú Referencial!


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O Ano é 2196. A Terra está ameaçada contra invasores mecânicos conhecidos como Lagartos Jovianos. Após a invasão de Marte por esses construtos, um dos sobreviventes — o jovem cozinheiro Akito Tenkawa — acaba embarcando por vias muito tortas no Cruzador Espacial Nadesico, uma poderosa espaçonave de batalha automatizada criada pela Conglomerado Nergal, e se tornando um dos seus pilotos de robôs gigantes (conhecidos como Aestivalis). Sem a firme estrutura de uma organização militar, os executivos da Nergal decidiram povoar sua tripulação com civis — mas não quaisquer civis: eles, todos eles, são os melhores cada um em seu campo. O problema é que eles só são bons nisso: de resto, são um festival de idiossincrasias, neuroses, manias e esquisitices que fazem deles…

Martian Successor Nadesico é cria de Kia Asamiya — um dos nomes mais marcantes e representativos dos quadrinhos japoneses nos anos 90. A série teve grande sucesso em seu tempo, rendeu um mangá de quatro volumes (escrito e ilustrado por Asamiya, mas voltado a um público mais maduro e tendo um tratamento muito diferente da série de televisão) e um soturno longa animado, The Prince of Darkness, que praticamente suicidou Nadesico como franquia (recomendamos que ele não seja assistido em nome das boas lembranças da série. Você foi avisado).

Mas o que há de interessante nessa série para o jogador e o mestre de Brigada Ligeira Estelar?

Além da Sátira

Nadesico praticamente revisita através dos seus clichês toda a história do gênero, a ponto do espectador ser incapaz de entender boa parte das e referências piadas se não tiver assistido mais de vinte e cinco anos de animações com naves e batalhas espaciais, robôs gigantes — enfim, boa parte do material que serviu, também, de inspiração para a Constelação do Sabre. A simultaneamente dramática e sarcástica sequência inicial do primeiro episódio é um misto de homenagem e aceno sádico aos sacrifícios heróicos que volta e meia apareciam em Patrulha Estelar. E a coisa não para por aqui.

Alfinetadas a outras séries pipocam ao longo da série: o esculacho ao “você não vai me matar?” de Gundam Wing (de quem já falamos AQUI) ou a explicação sobre o papel dos capitães na nave são um primor. Um capítulo inteiro tira sarro de Macross (a quem já adaptamos AQUI) através de um concurso de talentos para determinar quem vai ser a nova capitã (sim, tem número musical). Sobra até para os super-robôs dos anos 70 através da série dentro da série Gekiganger III (que chegou até a ganhar um OAV, mas ele não é tão bacana quanto os retalhos da “série original” apresentados ao longo de Nadesico). Muitas observações debochadas, dirigidas aos clichês desse tipo de material, são legítimas.

E ao mesmo tempo a sátira não engole a série. Ele continua sendo uma obra engenhosa dentro dos cânones do gênero — mesmo que às custas do seu melhor personagem (não, não vou dar spoilers, mas muita gente abandonou a série a partir do terceiro episódio por causa disso). Basta dizer que a chave da trama estava lá e degringolaria em uma surpresa.

O Melhor em Alguma Coisa

A grande diversão, mesmo levando tudo isso em conta, vem justamente da excentricidade de seus personagens: do ponto de vista de uma empresa privada, que nada entende de organização militar, é fácil imaginar que uma nave pode ser gerenciada como uma empresa, com uma capitã decorativa inclusive. Daí sua procura por especialistas em termos técnicos, deixando de lado justamente qualquer avaliação psicológica para uma astronave de combate.

Isso pode ser facilmente trazido para Brigada Ligeira Estelar através de dois recursos. O primeiro vem emprestado de Mega-City — ou melhor, do subcenário Mega-City Contra-Ataca (página 106 de Mega-City): o nicho.

Em séries de robôs gigantes, assume-se que seres humanos não tem capacidades especiais — ou, quando as tem (como no caso de psiquismo), elas não os tornam super-humanos em termos físicos. Você ainda pode ser morto com uma bala, por exemplo. Então, os mesmos critérios aplicados à uma campanha “realista” (entre aspas mesmo, já que os filmes de ação com Bruce Willis e Liam Neeson estão longe de ser o mundo real) se aplicam no universo de Brigada Ligeira Estelar: o que destaca os personagens é sua qualidade extrema em alguma coisa que pode ser aprendida ou treinada, como usar um sabre de energia, atirar bem… ou pilotar robôs gigantes.

Assim, quando estiver construindo seu personagem, escolha um nicho entre Força, Habilidade, Resistência, Armadura, Poder de Fogo ou vantagem. Se escolher uma característica, poderá ter esta característica em até 3, sendo que o limite humano usualmente é 2. Você não ganha o ponto na característica, apenas o direito de comprá-lo. Ter como nicho uma vantagem significa que você pode comprar uma — e somente uma — vantagem restrita (aquelas que seriam consideradas exageradas em uma campanha, digamos, realista). Por exemplo: apenas uma modelo pode ter aparência deslumbrante, apenas um piloto pode ter uma manobra de combate aéreo, apenas um cientista poderia ter a vantagem genialidade, por exemplo.

Entretanto, isso não virá sem um preço aqui…

O Pior dos Melhores

O segundo recurso é a insanidade. Não, nada de personagens psicóticos assassinos ou coisas do tipo. Falamos de personagens excêntricos, com obsessão por hobbies, suscetibilidades esquisitas, variações emocionais bizarras… O livro básico de 3D&T tem uma série de insanidades. De modo geral, aquelas perigosas para um ser humano deveriam ser descartadas — mas podemos inserir várias outras no pacote. Uma desvantagem sugerida é Trauma Menor, proposta na adaptação de Full Metal Panic feita AQUI. Outras desvantagens que propomos são:

Negação Pessoal (1 ponto): a personagem responde com espinhos a quem no fundo quer dar flores, podendo gastar 1 PH para transformar um redutor vindo de sedução ou influência num bônus. Reaja contraditoriamente de acordo com a atitude negativa escolhida (se quiserem emular o clichê japonês da Tsundere, a atitude é explosiva e irritadiça; se o clichê nipônico for o da Kuudere, a atitude é de frio afastamento. Obviamente quem encampa um papel não pode encampar o outro).

Pegador (–1 ponto): Basicamente você não resiste ao sexo oposto. Se um espécime interessante cruzar sua visão, você precisará fazer um teste difícil de Vontade (sob um redutor de –2 pontos) para não tentar passar um papo na figura (geralmente essa desvantagem precede algumas especializações na perícia Manipulação). Se esta tiver aparência deslumbrante, esse teste se torna muito difícil — e no caso de uma falha crítica, conseguir algo com ela pode se tornar uma obsessão momentânea por um número de dias correspondente à sua vontade. Note que isso não tem nada a ver com o seu caráter: você estabelece seus limites e precisa saber quando parar! Caso saiba ser melhor puxar o freio com certas pessoas (“não ando com mulher casada”, “mulher de amigo meu é homem”, “ela é a filha do príncipe-regente e isso dá encrenca”, etc.), nem pense em culpar à tentação caso algo ruim aconteça por causa disso — a culpa vai ser sua e apenas sua! Caso surja algum tipo de obstáculo concreto de interesse por trás de seu alvo (fidelidade no casamento, algum tipo de voto de castidade, gostar da mesma coisa que você gosta…), ele imporá a você redutores cumulativos de –2 e sua dificuldade subirá um nível ou mais, de acordo com o julgamento do mestre.

Quanto a insanidade, algumas novas podem ajudar a compor o personagem:

Caridoso (–1 ponto): a mesma coisa que o Código de Honra dos Heróis — você não consegue resistir ao impulso de ajudar alguém, especifico ou não, em dificuldades. A diferença é que isso é compulsivo e vai acabar prejudicando sua vida.

Cínico (–1 ponto): O personagem é extremamente insensível aos sentimentos alheios. Por isso, recebe um redutor de -1 em testes sociais ou que envolvam relações com outras pessoas de qualquer forma (como a maioria dos testes de Manipulação, por exemplo).

Complexo de Culpa (–1 ponto): você sente-se responsável por todas as pessoas próximas, como companheiros de equipe, seu chefe, família, Aliado, amigos… Se alguma coisa acontecer a qualquer um deles, você sofre uma penalidade de –2 em todos os testes, mesmo que não houvesse nada que você pudesse fazer para evitar o acidente! Esta penalidade dura 1d dias.

Instabilidade Emocional (–1 ponto): Você não tem muito controle de suas emoções e por isso pode se mostrar explosivo. Sempre que se vir seriamente contrariado ou testemunhar algo que o incomode, faça um teste de Vontade com uma dificuldade extra em relação à situação. Caso falhe, você agirá impulsivamente — e isso pode ir desde ser grosseiro com quem não deveria como sair quebrando tudo ao redor. Claro, você não pensou nas consequências e terá que arcar com elas…

Neurótico (–1 ponto): você cultiva manias esquisitas. Estala os dedos repetidamente, bate repetidamente os pés no chão quando está desocupado, costuma andar para um lado e para o outro dentro de um recinto enquanto não é chamado… é algo inofensivo, mas que irá sempre impor –1 ponto em interações sociais (Vontade) ou equivalerá ao efeito da revelação de um Segredo menor.

Enfim, estes são apenas exemplos. Muita coisa dependerá de interpretação do jogador em uma abordagem como essa em jogo.

Algumas últimas palavras…

Há uma mensagem implícita em Nadesico digna de atenção via meta-linguagem: o Real Robot tem algumas lições preciosas a aprender com o Super Robot em termos de atitude.

E faz sentido. O Real Robot surgiu com tintas desconstrutivas em 1979 na série Mobile Suit Gundam. Por maiores que tenham sido os esforços em não se ater demais à ela, o gênero sempre se levou a sério demais. Nadesico não foi apenas uma abordagem leve — foi uma mensagem dirigida diretamente aos fãs do gênero: isto é muito bacana mas é apenas um desenho, não um estilo de vida ou algo assim. Havia essa perspectiva no tempo dos super-robôs, quando as séries eram dirigidas a um público juvenil — e era possível enxergá-la durante um certo período de transição dos gêneros nos primeiros anos da década de oitenta. Muito do espírito mais aventureiro de séries como Dairugger XV ou Galactic Gale Baxinger poderia ter sido transplantado para o Real Robot e isso não aconteceu de forma plena. Essa pedra amarrada ajudou a explicar o fracasso de alguns conceitos cheios de potencial (como Gundam Age, pensado para ser uma série juvenil mas atada pela obrigação de se falar dos horrores da guerra…).

Mas aqui é Brigada Ligeira Estelar — e você tem a liberdade de se libertar de qualquer teia de aranha para seguir a sua interpretação. É importante tomar as referências como uma base, sim, mas tão fundamental quanto é ir além delas, buscando sua própria identidade. A postura mais “aventureira” de Brigada surgiu tendo em mente essa busca por um diferencial: há quanto tempo você viu um desses animes e pôde chamar seus protagonistas de heróis, ou pelo menos considerar que eles se esforçam nesse sentido?

Pense um pouco nisso.

Até a próxima.

Alexandre Lancaster • 27/10/2017

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