Diário de Campanha #03 — Primeiro Ato

Continuando com o diário de campanha Herança, com (enfim) a primeira parte da aventura, onde as duas heroínas se encontram sob a chuva nas florestas de Tollon!

Este é de fato o primeiro capítulo do diário da campanha Herança, uma aventura de RPG ambientada em Arton usando o sistema 3D&T Alpha. Para facilitar minha vida (e, quem sabe, também a sua) estas histórias serão contadas de forma romanceada em vez de apresentar o que aconteceu na partida em tópicos.

Conforme já havia explicado, também optei por incluir no texto alguns comentários sobre as regras que foram usadas para tornar tudo ainda mais didático. Quando personagens realizam testes ou fazem ataques, vou incluir esta informação destacada no texto.

armageddon-headAssim, além de ler o que aconteceu, vocês também vão saber o motivo desta ou daquela tentativa ter dado certo (ou não). Como essa primeira parte está bem curtinha, como bônus inclui um kit de personagem utilizado pela aventureira cuja ficha vocês já viram na coluna passada. =D

Então, mais uma vez, bem vindos a campanha Herança!

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Quem são os heróis?

Alyssa, Humana Street Figther, 5N: com um legado espiritual que remete a antigos guerreiros do passado, Alyssa guarda em seu sangue um grande e ainda desconhecido poder adormecido. Uma mulher atraente e curiosa, uma combinação que costuma ser explosiva.

Selene Savoy, Alien Escapista, 5N: Selene acordou em meio a um campo de batalha sem memórias ou lembranças de seu passado. Quando estava a beira do desespero, foi adotada pela Guilda Sem Nome, que a transformou em uma excelente ladina.

Caius Drovel, Minotauro Legionário, 6N: Caius cresceu em Tapista ouvindo histórias do pai sobre as legiões marchando contra o Reinado. Quando enfim conseguiu ser admitido no exército táurico, fez questão de ser enviado para as regiões de conflito, onde sentia que o Império ainda precisava dele.

A história até aqui…

Há muito o que ser feito após a conquista dos reinos no novo e fortalecido Império de Tauron. Além das cicatrizes causadas pela guerra, os minotauros precisavam fortalecer as regiões de fronteira e estabelecer o domínio sobre a região oeste do Reinado de forma definitiva. Um crescimento de território tão extenso também demandou um maior número de filhos do império para ocupá-los. Por isso, num esforço de guerra, os minotauros aumentaram seus haréns.

Praticamente não existem minotauros fêmeas. Desde sempre, esta raça dependeu de mulheres de outras espécies para dar a luz a seus filhos. Híbridos são raríssimos. Na imensa maioria das vezes, todas as meninas pertencem a raça da mãe. Isto não significa, é claro, que estas não são queridas por seus pais. Os mesmos relutam em entregá-las num casamento desfavorável ou que seja desvantajoso. Por isso, a maneira mais prática e rápida encontrada foi a captura de fêmeas humanas e elfas nos territórios conquistados, aprisionando-as como escravas reprodutivas.

Nossa história começa com uma mulher disposta a impedir que essa barbárie aconteça uma vez mais…

Primeiro Ato – Herança

O barulho da chuva sobre a copa das árvores tão altas e frondosas que encobriam os céus era incompatível com a quantidade de água que gotejava sobre o solo. Uma sucessão de camadas de cobertura vegetal recolhiam quase todo o líquido, permitindo que apenas uma ínfima parte dele chegasse diretamente ao chão. Mesmo assim, Selene estava ensopada. Sentia os cabelos longos e a capa que trazia às costas pesados e arrastava-se arfando através da floresta fechada. Ao menos o martelar dos pingos encobria o barulho dos passos. Aquele definitivamente não era seu ambiente.

Repreendeu-se uma vez mais por ter ido tão longe após cruzar as fronteiras do reino de Tollon, um reino puramente extrativista de cidades pobres e pessoas rudes. Não apenas sua profissão era mal-vista naquele inferno verde como seu próprio gênero era considerado inferior à esmagadora maioria masculina. Na visão daquela gente, uma mulher em Tollon tinha uma única finalidade: parir. O que, aliás, faziam o tempo inteiro.

Será que nunca para de chover? — amaldiçoava ela em pensamento ao se aproximar ainda mais do bando que vinha seguindo desde aquela manhã. Faltava pouco agora. Já estava começando a ficar difícil enxergar no lusco-fusco na selva e aqueles sujeitos deveriam estar na mesma situação. Eram quatro minotauros legionários tapistanos puxando uma carroça. Dentro dela, protegida por uma cela com barras de ferro, uma mulher encontrava-se amarrada e algemada, aparentemente inconsciente por todo o trajeto. Provavelmente seria vendida como escrava, o que era uma pena, mas também não era problema dela.

Desde que Tollon havia sido invadida e anexada ao Império de Tauron, aquelas cenas infelizmente se tornaram comuns. Tanto que Selene evitava o reino pela péssima combinação do protecionismo exagerado dos tollenienses com a política escravagista do fraco pelo mais forte de Tapista. Os minotauros alegavam, é claro, que não capturavam mulheres de reinos pertencentes ao Reinado. Mas como não há formas de provar de onde as mulheres aprisionadas são, tampouco em que lugar estavam por ocasião da captura, o resultado era claro.

Por isso você não pode ser vista, menina — falava para si própria. Felizmente, se havia algo em que Selene era especialmente talentosa era na arte de passar despercebida. De tal forma que, quando os minotauros enfim pararam para pernoitar e dormir um pouco, a ladra iniciou uma silenciosa jornada de aproximação noturna. Um único vigia estava guardando os pertences, inclusive o pequeno baú que havia chamado a atenção dela à princípio.

Espero que valha a pena — pensava. De alguma forma, entretanto, sabia que sim. Desde que viu a caixinha em poder dos minotauros, uma fagulha havia surgido. Uma espécie de intuição que, talvez, haviam ali respostas sobre ela e seu passado. Selene foi incapaz de evitar a compulsão de ficar com ele. E como qualquer tentativa de negociação provavelmente terminaria com ela compartilhando o cativeiro com a outra mulher, só havia uma linha de ação a tomar: furtar.

armageddon-headNem tudo deve ser resolvido na base da porrada numa aventura de RPG. Cabe ao mestre incluir na história situações em que todos os personagens tenham a oportunidade de agir e de ser importantes igualmente. Selene é uma ladra. Nada melhor do que colocá-la sob os holofotes utilizando suas habilidades ladinas.

O vigia marchava pelo perímetro iluminado apenas por uma lamparina protegida da chuva por um velho manto. Tudo estava ao seu favor. Esperou por quase duas horas antes de se aproximar, saindo de trás dos troncos altos e se escondendo próxima a uma pedra, por fim rolando para baixo da carroça. Neste meio tempo, o vigia deu sete voltas em torno do acampamento. Turnos foram trocados. O novo legionário, sonolento, não parecia tão disposto a caminhar. Ia e vinha aleatoriamente, o que para Selene era uma complicação adicional. A outra era o fato de um dos tapistanos dormir com a cabeçorra apoiada na caixa que ela queria, usando-a de travesseiro.

Tomara que morra de torcicolo! — desejou. Alheio, o vigia se sentou sobre uma outra pedra e ficou ali, parado, claudicante. Era o momento que ela havia esperado. Suspirou profundamente, tomou impulso e saiu debaixo da carroça… apenas para ser agarrada pelo manto! Imobilizada momentaneamente pela surpresa, se voltou e encontrou os belos olhos da cativa a observando.

— Esqueci dela! Ela me viu!

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Selene precisou de um teste para passar despercebida pelos guardas. É uma tarefa mediana para ela, garantindo um bônus de +1 no teste de perícia. Porém, por ser um personagem iniciante com uma Habilidade um pouco baixa e ter uma certa dose de azar nos dados, acabou falhando no segundo teste, sendo descoberta pela mulher cativa.

 

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Moça, me ajuda! — disse a prisioneira bem baixo, apenas um tom acima do próprio conjunto de sons da chuva na carroça, o suficiente para alguém muito próximo e espantado entender perfeitamente. Estava um pouco confusa. Lembrava-se bem da noite anterior ainda na taverna. Fizera um pequeno show, cantando e dançando. Já havia bebido bastante quando os minotauros apareceram. E então, escuridão.

Deve ter ficado completamente bêbada, tanto que não lembrava de mais nada. A cabeça doía com a enxaqueca, deixando todas estas coisas ainda mais misturadas. A única certeza é que estava longe de casa agora, numa roupa estragada pela viagem e pela situação, a caminho de algum lugar não muito bom. Por mais que tentasse, não conseguia adivinhar como havia acabado ali naquela cela, tampouco reconhecer o lugar onde se encontrava.

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Eu exijo muitos testes de perícia em meus jogos. Pra mim é um recurso importante. Sei que as vezes esse ponto gasto faz falta pra fechar aquele combo logo de saída, mas mesmo assim é difícil alguém que começou sem perícias não gastar o primeiro ponto disponível nisso. Alyssa, por exemplo, não tem nenhuma. Por isso ela quase sempre se dá mal nessas situações.

Foi enquanto procurava se libertar que viu algo que a princípio interpretou como o movimento de uma grande aranha. Controlou os próprios pensamentos e forçou ainda mais a visão. De fato, alguma coisa saiu debaixo da carroça. A curiosidade bateu ainda mais forte quando notou se tratar de um pouco mais que uma menina. Sem demora, segurou com firmeza o manto da moça através das grades. Era sua última chance.

Que amadorismo — foi o primeiro pensamento que veio à cabeça de Selene — Se deixar surpreender assim!

Ela pensou também em outra meia dúzia de imprecações, mas seus gestos foram calmos: um dedo sobre a boca, pedindo silêncio à cativa. A mulher pareceu entender.  Na verdade, ela não tinha nada a ver com a situação da moça, mas também não podia simplesmente ignorá-la. Se ergueu até a altura do rosto da outra, pouco mais que uma sombra, oculta pelo aguaceiro.

— Apenas balance a cabeça. Você está bem? — sussurrou. — Consegue andar?

A mulher demorou algum tempo até reagir e conseguir responder. Balançou a cabeça positivamente uma vez, duas vezes, para ambas as perguntas.

— Certo. Vou destrancar a cela. Mas preciso que não saia imediatamente. Estamos em perigo e você deve esperar o meu sinal. Me obedeça e tudo vai ficar bem — disse. Não condizia com as convicções de Selene deixar alguém sozinha no meio do nada, ainda mais presa entre um bando de minotauros. Mas condizia menos ainda a possibilidade de que a garota atrapalhasse seu primeiro objetivo: pegar aquela caixa.

Sem aguardar a reação da moça, a ladra voltou para debaixo da carroça, preparando as ferramentas que utilizaria, e levantou novamente pelo lado onde ficava a porta da cela. Vamos ver o que essas vacas têm aqui, pensou enquanto começava a trabalhar na fechadura. A chuva e seu barulho eram bençãos naquele momento.

A menina observava tudo, curiosa. Estava tranquila, de alguma forma, apesar de quase ter terminado seus dias como uma escrava sabe-se lá onde. Sentou-se no centro da pequena cela, quieta, mas com a ansiedade começando a subir pela barriga e pela espinha. Talvez estivesse sendo leviana, colocando a própria vida nas mãos de alguém que mal conhecia, mas sentia que não. Enquanto esperarava, o coração batia de modo surdo e distinto no meio da chuva.

As travas eram simplórias e Selene acreditou que não teria dificuldades em abrir a cela e libertar a prisioneira. Porém, os deuses estavam do lado dos minotauros naquela noite, e ao abrir, a porta rangeu horrivelmente, despertando os quatro.

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Selene não está mesmo com sorte nos dados. Abrir fechaduras é uma tarefa simples para um personagem com a perícia Crime. Mas, considerando a situação delicada em que se encontravam, optei por pedir um teste de Habilidade da ladina para abrir a porta em silêncio. E novamente uma rolagem ruim mudou os rumos da fuga.

Hoje, definitivamente, não é o meu dia, pensou Selene, quase pulando de susto com o barulho que provocara. Com movimentos de lince, Selene fechou a fresta da porta aberta, reposicionou o cadeado de forma que parecesse que ainda estava trancado e rolou novamente para baixo da carroça. Estava a muito tempo perseguindo aquela comitiva para entregar o jogo agora. Ela não se importaria de esperar quanto mais tempo fosse necessário para atingir seu objetivo.

Quem sabe o ruído servisse como uma boa distração para ela pôr as mãos naquela caixinha?

Lá dentro da cela, Alyssa apenas tratou de se ajeitar da mesma forma que antes, fingindo-se de morta. Mas algo havia mudado nela: havia um sorriso em seu rosto.

Um sorriso que não conseguia disfarçar.

Impressões do Mestre

Notoriamente, este texto é uma grande introdução da campanha, explicando um pouco o cenário e a situação das duas personagens no início da aventura. Optei por já jogar as duas direto na ação, sem dar chance para os personagens se conhecerem ou tomarem outro rumo logo de saída.

Como não conheço a forma como cada jogador irá reagir logo no início, resolvi apostar na segurança. Selene possui o Código de Honra do Libertário, criado pelo jogador. A chance dele agir para tentar salvar o outro personagem que estava aprisionado era alta. Desta forma, evitei surpresas logo de saída.

Vocês também irão notar que eu trabalhei cada PJ isoladamente antes de reunir todos demais como um grupo. Então, os primeiros capítulos desta história envolvem apenas um ou dois heróis de cada vez, com o grupo crescendo conforme mais personagens vão chegando. E como estamos intercalando material adicional com a história em si, teremos novamente uma ficha na próxima coluna, com a personagem Alyssa.

Outra coisa: eu realmente não gosto de minotauros. Não consigo colocá-los numa história sem que ocupem o papel de antagonistas de alguma forma. Acho que mesmo trabalhando alguns dos personagens posteriormente, o Caius de forma especial, não vou conseguir tirar esse ranço de raça escravagista deles.

E sim, temos alguns temas pesados envolvidos aqui (que não estão nem tão disfarçados assim), com destaque para a escravidão de Tapista e o machismo de Tollon. Sei que são temas um tanto quanto destoantes do que se espera de um joguinho ocasional de 3D&T, mas ao mesmo tempo acredito que vale a pena incluir este tipo de questão de qualquer forma.

Bônus: Kit Escapista
Exigências: H3; Aparência Inofensiva; Crime.
Função: dominante.

O escapista é o verdadeiro mestre da ação invisível, o espião supremo e o maior dos sobreviventes. Ele é treinado para passar despercebido, agir à vista de todos sem ser notado, descobrir segredos ou fugir de qualquer armadilha ou prisão. Um escapista é tudo, menos famoso. Em geral, ele é tão notável quanto o ar ou a pedra do calçamento.

O treinamento de um Escapista é muito raro. Sabe-se de apenas um lugar onde é oferecido — A Guilda sem Nome, em Valkaria. Em geral, um escapista independente não treina outros. Se houver um destes entre um grupo de aventureiros, ele será o plebeu que carrega a tocha, o escudeiro ou mesmo o aleijado que pede ajuda. Escapistas nunca são perfeitos. São ordinários e comuns, ou deficientes de alguma forma.

Aparência Insignificante: sua aparência é realmente inofensiva. Seus oponentes sempre serão afetados por ela, não importa quantas vezes eles já o tenham visto em ação. Além disso, você pode se disfarçar de quase qualquer coisa, acumulando os bônus de testes de perícias de todas as vantagens e desvantagens relacionadas à aparência — mas não redutores.

Esgueirar-se: você é capaz de deslocar suas juntas ou retorcer-se de modo a tornar seu corpo mais flexível e maleável. Você se torna capaz de passar por aberturas muito pequenas (como as barras de uma prisão ou um duto de ventilação). Com um teste normal de H, pode até mesmo passar entre as pernas de um guarda sem ser notado!

Identidade Secreta: você consegue caminhar quase tranquilamente sem nem mesmo ser notado. Testes para ocultar a sua identidade (incluindo manter-se oculto em ataques surpresa) são sempre considerados Fáceis pra você, e Difíceis para os inimigos o perceberem.

Titereiro Invisível: você é um ladrão tão habilidoso que pode roubar ações! A qualquer momento você pode pagar 5 PMs para decidir quais alvos serão afetados pela ação que algum inimigo em sua linha de visão tenha realizado nesta mesma rodada. Este poder conta como uma ação livre, e o personagem pode agir normalmente quando chegar sua vez.

Todas as imagens que ilustram esse artigo são de autoria do Tiago Oriebir.

Armageddon • 17/09/2017

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