O Enigma das Arcas, Ato XIII — Planos de Fuga

Nem toda mão que ajuda é amiga. Mesmo salvos da morte certa, os três aventureiros acabaram caindo nas garras do pirata minotauro Moranler Silverdall. Você não pode perder esse capítulo do Enigma das Arcas!

armageddon-enigma-garlorAté agora, no Enigma das Arcas…

Esta é a história de Enemaeon de Ridembarr, um mago necromante que após uma malsucedida invocação teve o coração substituído por um artefato maligno: o Coração do Corruptor. Para se livrar dessa maldição, ele partiu em uma jornada para decifrar o Enigma das Arcas, que supostamente possui a resposta para salvar sua alma.

Ele conta com a ajuda dos antigos companheiros para essa difícil missão: o ladrão clérigo Garlor “Presas de Prata” e o arqueiro Felrond, um elfo com sérios problemas com a bebida. Juntos, eles precisam encontrar as três partes do medalhão que forma a chave do antigo templo de Al-Kapeera, no Deserto da Perdição.

Após o fracasso na tentativa de furtar o último fragmento, o bando inteiro acaba capturado pela corrupta milícia de Ciela e são condenados à morte em praça pública. Já estavam com a corda no pescoço quando vários disparos de canhões foram ouvidos…

Ato XIII — Planos de Fuga

Tudo parecia girar enquanto a consciência retornava ao corpo dolorido de Enemaeon. Ele abriu os olhos lentamente, temendo deparar-se com a luz das chamas infernais que queimam no trono de Merodach. Mas, ao contrário do que esperava, estava mergulhado em uma escuridão quase completa. E para piorar a sensação de desorientação, lembrava-se de muito pouco após sentir o puxão firme das cordas no patíbulo.

Se ergueu com certa dificuldade do catre, sentando-se na borda e apoiando os cotovelos nos joelhos. Afundou a cabeça nas palmas das mãos e procurou reorganizar os pensamentos. Ficou assim por um longo tempo, em vão. Não se lembrava de outro momento em que teve tanta dificuldade de raciocinar.

Até ali acreditou estar sozinho na saleta, mas o contato sedoso e inesperado do pelo negro logo tornou claro que aquela não era toda a verdade.

— Então você também veio — murmurou o mago sem vontade de afastar o gato que ronronava enquanto se movia de uma perna para a outra, costurando os movimentos com a presteza sossegada dos felinos.

Estava tão confuso que ficou feliz por ter companhia. Desistindo de forçar as próprias memórias, preferiu ignorar momentaneamente o passado e se concentrar no presente. Analisando o ambiente com um pouco mais de cuidado, notou as grades de ferro diante da porta. Tratava-se de uma cela, enfim. Sentia certo enjoo. Apesar de forma quase imperceptível, tudo em volta se movia lentamente para cima e para baixo.

— Estamos em um navio, gato — falou Enemaeon ao bichano que parou imediatamente de se mover e sentou-se sobre as patas traseiras, como que interessado no que ele dizia. De fato, dada a situação, aquela era toda a plateia do qual precisava.

Colocando-se de pé, caminhou com dificuldade até as grades e buscou com o rosto encostado aos ferros observar o corredor estreito que o separava do próximo nível da embarcação. Havia um pouco de água e limo na outra extremidade, o que indicava que estavam no porão, apenas um pouco acima do lastro do navio. De fato, haviam mais daquelas celas em toda a volta, dividindo espaço com um minguado estoque de bebida, provavelmente rum de péssima qualidade destinado aos mandriões.

Na cela da frente, um homem caído permanecia imóvel apesar de estar parcialmente mergulhado na água. Sobre o corpo malcheiroso já se acumulava uma grande quantidade de moscas. Morto há pelo menos dois dias, e ainda esquecido ali, abandonado para apodrecer na masmorra. Enemaeon compreendeu que talvez coubesse a ele este mesmo destino.

Estava privado do cajado, que permaneceu definitivamente em Ciela nas mãos da milícia que tentou enforcá-lo. Sempre amaldiçoou a falta de capacidade para magia, dependendo de um canalizador mundano para conseguir moldar o mana de acordo com a própria vontade. Felizmente, mais do que a mágica, era o raciocínio que vinha mantendo a cabeça sobre os ombros.

— Se tivesse fugido quando vi que o plano falhou, não estaria agora nesta cela conversando com um bicho. Isso deveria me ensinar a não agir em desacordo com minha verdadeira personalidade.

Obviamente, o felino em nada contribuiu para o monólogo, mas também era óbvio o que qualquer um a par da situação lhe responderia. Foi por agir de acordo com os próprios métodos que ele havia perdido o coração para um demônio dos planos abissais para começar. E agora, restava lutar contra a própria personalidade, sendo uma pessoa se não boa, pelo menos tragável.

— Irônico. No mínimo.

Era hora de trabalhar. Estendeu uma das mãos até as tábuas do chão — que atravessava o corredor e sumia embaixo do corpo moribundo — e buscou se concentrar nas energias mágicas das trevas. Aquele era o único caminho arcano que já conseguiu canalizar (ainda que atualmente de forma precária) e seria a chave de sua libertação. Enquanto a palma da mão esquerda gesticulava em direção do corpo inerte adiante, pôde sentir a energia fluindo através da madeira. Não se tratava exatamente de um cajado, mas estava funcionando.

De fato, em um movimento lento porém decidido, o corpo soergueu-se do chão, deixando para trás parte da carne que já havia aderido ao assoalho. O cheiro de morte preencheu todo o lugar enquanto a água que havia entrado pela boca e pelas narinas do desmorto escorria por um recém adquirido buraco no ventre. Com ele, os fluidos em decomposição do ex-pirata vazaram junto. Os olhos vazios encararam Enemaeon de forma estúpida, aguardando por ordens.

Para qualquer um, aquela visão de horror e profanação da carne causaria repulsa. Mas para um necromante, os mortos eram apenas instrumentos de trabalho. Não havia mais um espírito naquele amontoado de restos e por isso Enemaeon não se impressionava com qualquer efeito visual que pudesse causar. Entretanto, a súbita nuvem de pestilência foi suficiente para o até então desconhecido vizinho de cela vomitar.

— Mas que merda é essa? Felrond? — perguntou Enemaeon animando-se ao ouvir a voz do arqueiro — Você está vivo!

— E com uma dor de cabeça digna da coroa imperial — respondeu — Onde estamos?

— Diga-me você. O cheiro daqui não lhe é familiar? Pois acho que senti o seu odor misturado ao de peixe quando acordei. Felrond correu os olhos pelo lugar, reconhecendo-o de pronto.

— Já estive aqui muitas vezes. É o calabouço do Tortura. Estamos no navio de Moranler.

— Então as coisas começam a se encaixar. Desconfio que também se lembra do que fez da última vez que esteve a bordo. Mas, o fato de não termos sido mortos ainda me faz pensar nos motivos que levaram o minotauro a nos poupar. Alguma sugestão?

— Ele quer arrancar nossa pele pessoalmente, talvez. — respondeu Felrond dando de ombros, as mãos diante do nariz para amenizar o odor terrível que emanava do cadáver — Qual é a sua com esse infeliz? Parado ele fedia menos.

— Ao invés de desperdiçar palavras sobre nosso colega de masmorra, me fale sobre o carcereiro.

— Não há nenhum — relatou Felrond aproximando-se um pouco das tábuas que o separavam do mago — Quem é preso aqui permanece aqui até que Moranler decida o contrário. Sem água ou comida por dias. Às vezes, quando ele se lembra que mandou alguém para cá, o pobre diabo já bateu as botas.

— Quer dizer que se gritarmos ninguém virá?

— Talvez venham. Provavelmente algum dos marmiteiros para nos fazer calar a boca. Qual é o plano?

— Você verá. Faça um pequeno escândalo. Um daqueles. Sei que é sua especialidade.

O elfo sorriu. Apesar de que, sóbrio, tudo se tornava um tanto quanto embaraçoso. A ressaca fazendo a cabeça latejar também não contribuía com a situação. Mas, de todo o modo, aprendeu ao longo do tempo a confiar desconfiando dos planos do companheiro. E se tinha que chamar a atenção de alguém do navio, sabia exatamente o que precisava gritar.

— O mago louco acordou! Me tirem daqui, ele está fazendo uma daquelas bruxarias! — Sem o toque da madeira ou um cajado, Felrond bem sabia, Enemaeon não era capaz de fazer coisa alguma. Além disso, após animar um cadáver, não restaria muito poder mágico nele para um novo truque. Mas, enfim, aquele não era problema dele — É fogo! — gritou — Ele está queimando tudo! Vamos todos a pique!

Fogo num navio era um perigo real, tanto que o barulho de chaves logo foi ouvido. Um homem queimado de sol e com os músculos atrofiados pela idade, pelo trabalho árduo no navio e pela bebida desceu até ali. Passou em revista os primeiros claustros antes de chegar até onde Felrond gritava.

— Onde está o fogo, cão? — perguntou ele batendo com um cassetete nas grades. As chaves da masmorra pendiam presas ao cinto. Enemaeon mantinha-se em silêncio ao seu lado, aguardando. Teriam uma única chance.

— O mago! O sujeito aqui do lado está uivando e gritando impropérios! Disse que vai matar a todos!

— Que conversa fiada é essa? — reclamou o pirata avançando pelo corredor estreito. Mesmo que ele próprio ainda não soubesse, já havia sido vítima do truque de Enemaeon. E este não tinha relação alguma com a magia. Ele estava apenas fazendo uso do instinto de sobrevivência mais primitivo do homem, aquele que o faria reagir pelo mais puro reflexo.

Quando apareceu diante da cela, o mago saltou de cima do catre em direção as grades, estendendo os braços contra o pirata que se jogou de pronto para trás, colidindo de costas nas grades da sala adjacente. Verdade seja dita, o velhote reagiu mais rápido do que o esperado, desferindo um golpe ligeiro com o cassetete que acertou uma das mãos de Enemaeon, fraturando-lhe os dedos. Este recuou rapidamente e apesar da dor, desatou a rir.

Felrond ao lado também gargalhava ruidosamente, enquanto o velho se recobrava do susto. Ao perceber que foi vítima de um engodo, golpeou a esmo as barras procurando extravasar a raiva nos dois pilantras. Ainda irado, saiu marchando e batendo a porta que trancou atrás de si. As pilhérias de ambos os prisioneiros eclipsaram em parte os xingamentos que vieram em jorros da boca do infeliz.

— Conseguiu pegar? — perguntou o elfo aproximando-se da grade. O necromante correu os olhos para a cela adiante e o morto-vivo conjurado segurava o molho de chaves em uma das mãos. Com um novo comando, arremessou a peça até a cela de Felrond, e dentro de poucos instantes estavam ambos em liberdade.

— Como está a mão? — era Felrond observando o inchaço que o golpe provocara.

O mago não respondeu, libertando também o servo zumbi e descobrindo Garlor ainda dormindo na terceira cela. O gato preto era o último a completar a pequena comitiva de rebeldes.

— Ele está…

— Vivo. E bem vivo, aliás! — respondeu o mago tocando levemente a têmpora do companheiro, buscando o pulso. Notou também que Felrond estava curado dos ferimentos provocados pela multidão enfurecida e pela milícia de Ciela, diferente dele próprio que ainda trazia as marcas do enforcamento.

— Tudo bem. E agora? — perguntou o arqueiro cruzando os braços — Um mago maneta sem poderes, um gato preto, um ladino dorminhoco e um pirata morto não são exatamente um exército.

— Esqueceu-se do clérigo. — Clérigo? Que clérigo? — Galror não é só um ladino. Ele é sacerdote de Hynnin, um devoto do deus da trapaça. Vocês elfos o chamam de Quindallas.

— Não deve ser um clérigo muito bom, já que até agora ficou aqui dormindo enquanto quem trapaceou mesmo fomos nós.

— Tem certeza? — brincou Enemaeon puxando os mantos que cobriam o suposto corpo de Garlor. No lugar, apenas suas roupas repousavam, colocados de forma a encobrir a fuga do ladino.

— Mas…

— O fato de ele ter sumido é prova mais que suficiente de que está vivo e tramando. E nós não podemos deixar por menos. A situação se inverteu completamente!

(…)

A égua castanha havia cavalgado bem desde a manhã e estava coberta de suor. Camila ao contrário não estava cansada, mas resolveu fazer uma pausa para o animal. Trotou até a sombra de uma árvore frondosa ao lado de um rio e apeou. Estalou um pouco os ossos dos ombros antes de amarrar as rédeas em um galho mais baixo. Quando se deu por satisfeita, deu tapinhas no pescoço do bicho, presenteando-lhe com um pedaço de maçã como petisco.

— Boa menina — disse — Você quase merece um nome.

— Nem se dê ao trabalho — comentou uma voz arrastada ao lado da árvore — Eles não precisam destas coisas para gostar da gente.

A mão de Camila instintivamente buscou o punho da espada. O movimento não passou despercebido ao estranho, mas este apenas riu um pouco, engasgando e tossindo. Era um homem visivelmente muito velho, pescando recostado ao tronco. Os pés descalços brincavam sossegados na água mansa do riacho. Volta e meia algum pequeno peixe mordiscava a isca no anzol, mas isso não o parecia perturbar.

— Estou esperando pelos maiores — comentou uma vez mais ao ver a direção em que os olhos de Camila apontavam — Se os pequenos comerem bem, talvez sejam meu jantar daqui há alguns anos.

— Não se incomode comigo — respondeu ela, a mão ainda próxima a espada. Não se perdoava por não ter visto o sujeito antes — Só um pouco de água e pasto pro cavalo. Depois parto.

— É bom — respondeu o sujeito — O ruído afasta os peixes. A estrada sempre é barulhenta, mas o que posso fazer se os maiores vem pra cá? O jeito como o velho pronunciou as palavras não lhe agradou. Via intenções onde, talvez, não existissem. Está dizendo que sou um peixe grande e que cai na sua rede, velhote? — pensou. Camila era uma mensageira há tempo suficiente para saber que um segundo de descuido podia mudar tudo. Por isso resolveu ser um tanto rude.

Aproximou-se do homem, chutando para longe os pertences dele. Sacou a espada. Isso não o abalou. Parecia que nada o abalava.

— Faz sentido — comentou ele com um sorriso sem dentes — Tempos perigosos requerem medidas drásticas. Vai me matar e jogar meu corpo no rio?

— Isso depende de quem você é e o que está planejando pra mim — respondeu ela.

— Meus planos são esquecer você nos próximos cinco minutos e voltar a me concentrar na isca. Ou o que? Acha que sou um ladrão ainda na ativa, apesar da idade? Um monstro oculto sob um disfarce mágico? Ou quem sabe um deus passando algum tempo aqui embaixo?

— Sou eu quem faz as perguntas! — cortou Camila, irritada.

— Mas você deve concordar que não deixa de ser engraçado. Quando tudo é fantástico, o normal é que parece esquisito. Às vezes, um velho é só um velho.

— Sim, às vezes… — concordou ela, resignando-se. Mas, em seu íntimo, sabia que não era bem assim. Tinha sua própria dose de histórias e cicatrizes que provavam o contrário. Não trocaram mais palavras por todo o tempo em passaram ali e ela também não se despediu ao partir galopando em direção ao norte.

— Então ainda existem mensageiros — comentou tirando o anzol d’água. Havia perdido a isca. E também a vontade de pescar.

(…)

— Como assim o bruxo tentou pegar você?

A ira contida em cada palavra de Augor “O Ogro” deixava realmente claro o risco de morte que o pirata corria ao relatar o breve incidente no porão do navio. Tratava-se de um homenzarrão de face marcada por uma profunda cicatriz, com feições de uma bestialidade ancestral. Sangue de ogre de fato corria em suas veias. E ele fervia ante a incompetência.

Era o imediato do Tortura desde o dia em que o navio foi lançado ao mar, ainda a serviço do Reino de Tapista. Naqueles dias, apenas marinheiros minotauros serviam sobre o madeirame firme da embarcação. Mas os tempos eram outros. Os que se negaram a trair o reino de Tauron foram mortos e substituídos.

Como estava cada vez mais difícil achar bons tripulantes nesta época em que piratas medíocres proliferam nas águas do Mar Negro, era o Ogro quem devia tratar com este tipo de eventualidade. O capitão jamais perdoava uma falha. E a sua palavra final era a corda.

— Foi apenas um gracejo, mas achei por bem puni-los — relatava o mandrião — Aqueles cães acham que estão…

— Ouça aqui, escória! Acha mesmo que iriam atrair um borra botas como você apenas por piada? E você o que fez?

— Apliquei uma boa bordoada nas mãos do infeliz. Devo ter partido um osso.

O Ogro não se convenceu de todo com a história que lhe foi contada. Algum detalhe importante estava escapando e isso o incomodava. Era melhor ele próprio ir até o porão do Tortura verificar as celas. Mas antes deu ordens expressas para que o marujo fosse amarrado ao mastro principal por dois dias.

Indo em direção à popa, logo estava no final do tombadilho de onde podia ver a porta com o trinco abaixado. Era um mecanismo simples, que a trancava apenas por fechar a porta, idêntica a usada nas masmorras mais ao fundo. Só havia uma maneira de abri-la por dentro, com a chave que era mantida dependurada do lado de fora por precaução. Esta também estava lá. Desceu as escadas em passadas largas, os pés grandes demais para os pequenos degraus. Com a garrucha em punho, abriu o portão de sopetão e apontou a arma para dentro do profundo e escuro corredor.

Nada.

Desceu um novo lance de escadas, atravessando o depósito seco de pólvora e armas — estes cuja chave apenas ele e Moranler possuíam — e chegou à portinhola do porão. Estava também trancada. A julgar pelo odor característico de podridão, continuava completamente normal. Não havia sequer sido forçada. Empurrando-a, repetiu o movimento de empunhar a arma, novamente encontrando apenas o vazio. Vazio demais, entretanto. Os prisioneiros não estavam mais nas celas. Quando tentou se virar para dar o alarme, caiu com uma coronhada única e precisa na nuca.

(…)

Quando Felrond surgiu caminhando de maneira levemente afetada diante de Moranler, os demais presentes seriam capazes de jurar posteriormente que a pelagem branca do minotauro albino tornou-se momentaneamente rubra. Especialmente devido ao conjunto de armas de fogo que o elfo trazia, apontadas diretamente para o focinho do capitão.

— Sabe, talvez sendo eu um elfo tão arraigado às tradições seculares do meu povo, eu nunca me acostume realmente com este novo tipo de brinquedo — disse com um sorriso cínico nos lábios, o vento marinho fazendo as pequenas tranças dançarem sobre os ombros — Pólvora é tão mais brutal que o bom e velho arco e flecha! Mas pode ter certeza, meu velho camarada, se continuar movendo os braços na direção de minha jugular desta maneira, vou melhorar a ventilação do seu couro começando pelo diâmetro dos buracos das narinas!

— Devia ter arrancado sua pele da última vez, Felrond — respondeu Moranler conformando-se e sentando-se sobre a corda da âncora. Levou uma das mãos ao bolso das calças largas de onde tirou papel e uma certa quantidade de fumo, que passou a enrolar sem pressa.

— Devia, mas não o fez. Talvez porque tenha imaginado que meu contratante o faria assim que notasse o pequeno engano em relação ao medalhão.

— Realmente. Me surpreendeu que Enemaeon não tenha arrancado uma tira de pele sequer de suas costas em todos estes anos. Até onde sei, você foi em parte responsável pela desgraça dele e pelo fim da Guilda que ele ajudou a liderar.

— Coisas do passado — respondeu o elfo dando de ombros — Os tempos mudam, as pessoas também.

— Nem sempre. Você, ao menos, continua o idiota incorrigível de sempre. Não notou que ao mesmo tempo em que apontou esta arma para mim, outras tantas surgiram em minha defesa, mirando cada uma destas pedrinhas que você carrega nesta cabeça comprida?

— Perdão, meu caro Moranler, mas em se tratando de adornos, nada em mim supera esse seu par de chifres. Além disso, eu não surgiria no meio do tombadilho diante de você desta forma sem ter um bom plano. Um seguro contra incidentes que possam, por assim dizer, fazer mal a minha saúde.

— E qual seria? — Felrond respirou profundamente. Era hora de colocar as cartas na mesa. — Neste momento temos um zumbi sentado sobre toda a pólvora que vocês estocaram no porão do navio, com um par de pistolas nas mãos. E acho que você lembra que tem muita pólvora lá embaixo. Ao menor sinal de agressão contra mim ou um de meus companheiros, todo o Tortura irá a pique tão rápido quanto eu beberia uma boa dose de rum agora. E acredite, eu posso beber muito rápido!

— Mijo no …

— “No dia em que aceitou um elfo na sua tripulação”. Já cansei de ouvir essa ladainha, meu velho. Mas, de prisioneiros nos tornamos capitães desta banheira. E é melhor começar a mover toda essa picanha e começar a cooperar conosco agora mesmo.

Moranler, no entanto, não se moveu. Acendeu o cigarro que preparou com calma e após uma profunda tragada, começou a rir com aquela voz tonitroante nascendo da garganta táurica. Felrond não gostou daquilo, mas também não tinha como recuar agora. Era a resposta de Silverdall que definiria o jogo, e o tempo estava correndo.

— Eu — começou o touro pondo-se de pé — Sou e sempre serei o único capitão do Tortura. Prefiro que ele exploda e afunde junto com meu cadáver do que entregá-lo a um frouxo como você. Mas, devo admitir, foram astutos o suficiente para me colocar numa situação complicada. Antes de matá-lo, Felrond, gostaria de perguntar. Acha mesmo que aquele mago infernal se importa com sua vida?

— O que quer dizer com isso?

— Simples. Provavelmente a esta altura, enquanto você está aqui servindo de isca, seu amigo necromante já está remando em direção à margem do Rio Panteão.

(…)

Já havia alguns minutos que Enemaeon olhava desejoso para o bote esquecido na popa do navio. Sobre os ombros dele, o gato preto ronronava. Os remos estavam nas mãos, aguardando pelo frescor gelado da água fria do grande rio.

Tão perto.
Tão fácil!

(…)

Os altos e baixos daquela missão estavam se tornando tão frequentes que deixavam Felrond mais nauseado do que o balanço do barco. Ser traído por Enemaeon não lhe passara pela cabeça até então, mas aquilo se encaixava perfeitamente com a personalidade do ardiloso mago. A própria pele em primeiro lugar. Traia antes de ser traído. Mate para não ser morto.

Realmente, o elfo havia se tornado a isca perfeita, atraindo para si a atenção de todos os piratas daquele barco. Era apenas uma questão de tempo até ser baleado pelas costas. Onde estaria então o mago àquela altura? E Garlor continuava desaparecido. Ele podia estar completamente só agora. Abandonado à própria sorte.

— Bem… — começou a lamentar o arqueiro baixando lentamente as armas. A explosão de gargalhadas de Moranler o feriram muito mais do que o abandono dos companheiros.

Contudo, ela terminou muito antes do esperado. Todo o navio aliás estava mergulhado em profundo silêncio. E o motivo era a figura maltrapilha que, sobre o deque, segurava um par de remos faiscando em uma profusão de chamas mágicas, escuras como a noite.

— Precisamos conversar, Silverdal — disse Enemaeon sério, os cabelos e a barba movendo-se ao sabor do vento diante do rosto cansado. Atrás dele, o sol se punha lentamente no horizonte, anunciando a chegada de Tenebra, protetora dos necromantes — E será uma conversa bem longa.

Claro que continua!

Armageddon • 05/10/2015

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