Diário de Campanha #04 — Segundo Ato e Personagens

Quarto capítulo da série Herança, trazendo o segundo capítulo da campanha, acompanhado das fichas dos heróis!

RPG é um jogo cooperativo, onde você e seus amigos formam uma equipe para enfrentar os desafios propostos pelo mestre da partida. Ainda que seja possível rolar dados e contar histórias apenas com um amigo, o ideal é que o grupo tenha algo entre quatro e seis jogadores. Quase sempre, quanto mais gente melhor!

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Este é o segundo capítulo do diário da campanha Herança, uma aventura de RPG ambientada em Arton usando o sistema 3D&T Alpha. As aventuras serão contadas de forma romanceada em vez de apresentar o que aconteceu na partida em tópicos. Porém, eu vou aparecer no meio do texto de vez em quando explicando as regras envolvidas.

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O objetivo é ser bastante didático, mostrando pra vocês não apenas o que aconteceu na história, mas também o motivo de termos tomado algum rumo pelas regras do sistema. Na coluna anterior, conhecemos a personagem Selene. Hoje, além do segundo capítulo da história, teremos como bônus as fichas dos outros heróis. Fiquem a vontade para usá-los como NPCs em suas aventuras. =)

Quem são os heróis?

Alyssa, Humana Lutadora de Rua, 5N: com um legado espiritual que remete a antigos guerreiros do passado, Alyssa guarda em seu sangue um grande e ainda desconhecido poder adormecido. Uma mulher atraente e curiosa, uma combinação que costuma ser explosiva.

Selene Savoy, Alien Escapista, 5N: Selene acordou em meio a um campo de batalha sem memórias ou lembranças de seu passado. Quando estava a beira do desespero, foi adotada pela Guilda Sem Nome, que a transformou em uma excelente ladina.

Caius Drovel, Minotauro Legionário, 6N: Caius cresceu em Tapista ouvindo histórias do pai sobre as legiões marchando contra o Reinado. Quando enfim conseguiu ser admitido no exército táurico, fez questão de ser enviado para as regiões de conflito, onde sentia que o Império ainda precisava dele.

A história até aqui…

Vários reinos de Arton foram anexados pelo novo Império de Tauron. Os minotauros precisavam fortalecer as fronteiras e estabelecer o domínio sobre a região oeste do Reinado de forma definitiva. Além das baixas provocadas pela guerra, um crescimento de território tão extenso também demandou um maior número de filhos do império para ocupá-los. Por isso, num esforço de guerra, os minotauros precisaram aumentar seus haréns.

Praticamente não existem minotauros fêmeas. Desde sempre, esta raça dependeu de mulheres de outras espécies para dar a luz a seus filhos. Híbridos são raríssimos. Na imensa maioria das vezes, todas as meninas pertencem a raça da mãe. Isto não significa, é claro, que estas não são queridas por seus pais. Os mesmos relutam em entregá-las num casamento desfavorável ou que seja desvantajoso. Por isso, a maneira mais prática e rápida encontrada foi a captura de fêmeas nos territórios conquistados, aprisionando-as como escravas reprodutivas. Nossa história começou com uma mulher disposta a impedir que essa barbárie aconteça uma vez mais…

Um grupo de minotauros transportando uma cativa passou pela escapista Selene na fronteira entre Ahlen e Tollon. Atraída a princípio apenas por um dos pertences dos minotauros, a situação da mulher capturada lhe tocou de uma maneira diferente, e ela resolveu intervir. Infelizmente, foram descobertas e agora ambas precisam agir juntas para escapar…

Segundo Ato – Fuga

Alyssa já havia visto minotauros antes, apesar de nunca ter precisado conviver tanto tempo com um deles. E quanto mais os conhecia, menos gostava do que via. Criaturas de músculos grandes e um cérebro pequeno enfiado em um crânio bovino desproporcional apesar do corpo massivo. Pelos brotavam no pescoço e na fronte, sobre um focinho úmido que lambiam vez em quando, mas o peito e as costas eram lisos como as de um homem. Quando falavam, a longa e áspera língua bovina deixava escorrer um filete de muco.

— Que barulho foi esse, escrava? — ralhou o minotauro socando a grade da porta algumas vezes procurando assustá-la. — Está louca se acha que pode fugir.

— Caius — reclamou o outro num sono entrecortado, voz grossa lembrando um mugido. — Estamos tentando dormir aqui.

— A escrava acordou — respondeu o primeiro, a boca ruminando alguma coisa. — Acho que está fingindo que dorme. Será que devo desacordá-la outra vez?

— Deixe-a. Se marcar demais a pele, não vamos conseguir um bom preço — disse por fim calando-se em seguida. Caius permaneceu mais algum tempo observando Alyssa dormindo, quando enfim, sussurrou:

— Sei que está acordada. Tem sorte de não ser do meu tipo.

Selene sentiu ganas de vomitar, mas preferiu usar o tempo para outros propósitos. Escorregou pelo lado oposto da carroça, evitando facilmente a janelinha e deslizou até a frente da mesma onde a caixa que era seu objetivo original repousava. Não era pesada, felizmente. Embrulhou-a com seu manto e a colocou sob o braço antes de se puxar novamente para baixo dela.

Os pés do tal Caius ainda pateavam ali na lama da chuva, e apesar da tempestade sobre as árvores, o som irritante do ruminar do minotauro ainda se fazia ouvir. Segundos depois, o monstro se virou e caminhou na direção dos companheiros. Chutou propositalmente os pés de um deles, rindo. Ele apenas grunhiu sob as capas e virou-se para o outro lado. Depois, silêncio. Caius voltou a sua ronda molhada, e Selene ao trabalho de abrir a tranca da carroça.

Desta vez, porém, não houve falhas. Lentamente, abriu a grade principal. Alyssa já a olhava lá de dentro.

armageddon-headEssa foi a descrição da situação em que os personagens se encontravam após o que aconteceu no capítulo anterior. Os minotauros estão um pouco mais atentos, mas ainda não descobriram Selene, tampouco tem certeza de que Alyssa está acordada mesmo. A partir daqui, os jogadores começaram a agir.

Eca”, pensou Alyssa.

Antes, ela tinha uma visão um pouco diferente a respeito dos minotauros, mas começara a achar que quando as pessoas comentavam sobre eles serem um mau partido, elas estavam terrivelmente certas. Só podia torcer que nem todos fossem como aqueles, apesar da guerra e de todo o resto. Percebeu que estava perdendo tempo e decidiu pensar no que realmente importava.

Usando o som da chuva para ocultar seus movimentos, se esgueirou pela gaiola onde estava até a portinhola recém-destrancada por Selene. Esperou um pouco; não sabia direito como iam fazer para fugir e parecer que tudo estava bem. Ainda que não fizessem barulho algum, cedo ou tarde o tal de Caius ia olhar de volta para dentro da pequena cela só para urrar de raiva e se preparar mentalmente para quebrá-la em duas.

Alyssa é uma lutadora. Em combate, ela conta com um bônus em Habilidade garantido pela sua vantagem regional, mas fora dele, ela é bastante atrapalhada. Felizmente, teve sorte nos dados e nem sua Maldição impediu sua tentativa de passar despercebida e escapar da gaiola em que estava aprisionada.

Entretanto, estava chovendo, e Alyssa não sabia exatamente se suas chances eram tão ruins assim. Caso fossem descobertas, Selene provavelmente também saberia se defender de alguma forma. Sentiu que, no fundo do peito, aquilo daria certo. São como aquelas intuições que se tem do nada… Apenas se sabe.

Dedo sobre a boca, Selene fazia sinal para que a garota fizesse silêncio. Tinha conseguido o baú e os minotauros foram burros o suficiente para não notar suas ações. Mas não sabia até quando a sorte ia durar, então tinham que ser rápidas e silenciosas.

Pensou em agradecer à chuva pelo barulho, mas da última vez que fez isso não foi feliz e então desistiu. Pegou suavemente a mão da outra garota e, quase sem olhar pra trás, voltou para o caminho paralelo ao que os minotauros tinham feito. Selene estava quase otimista: se tudo desse certo, logo estaria em algum lugar quente, seco, limpo e longe daqueles animais.

Alguns metros adiante, sussurrou: Coloque os pés exatamente onde eu colocar, certo? Temos uma caminhada um tanto longa pela frente. Se tudo correr bem, daqui a pouco já estaremos a uma distância segura para conversar melhor.

E seguiram mata adentro. Medo e silêncio.

As duas se esgueiraram através da mata, procurando se afastar do claustro o mais rápido que podiam. De alguma forma, porém, a intensidade da chuva aumentou ainda mais, e o caminho começou a se tornar confuso até mesmo para Selene. Ela se voltou para a carroça vazia, agora um mero ponto de luz distante em meio à floresta. E então passos à sua direita, e um punho lhe atingiu a face, a derubando sobre as folhas molhadas. Por puro reflexo, Alyssa gritou. E uma voz rouca surgiu alta, quase sobre ela.

— Acharam que iam fugir de nós desta forma? Aqui é o Império de Tauron. Não importa o quão espertas vocês achem que são, no fim, é o mais forte que vence. Volte logo pra gaiola, garota, enquanto eu ensino uma lição para esta outra larapiazinha que vinha nos seguindo.

armageddon-headSelene é bastante furtiva, especialmente graças a perícia Crime. Mas a falta de perícias de Alyssa pesou um pouco na minha decisão e elas acabaram emboscadas pelos minotauros pouco após fugirem.  Além disso, claro, achei que já era hora de termos um combate nessa partida para testar as fichas das personagens. 

— O que vai fazer com ela? — perguntou Alyssa, e deu um passo a frente, o rosto um pouco abaixado e os olhos levantados mirando o rosto do minotauro. — Não vai fazer nada de mal, certo?

— Vamos vendê-las. As duas logo se encontrarão com as outras que capturamos há alguns dias. Se forem bem comportadas, talvez consigam ser compradas por algum minotauro rico, onde poderão viver melhor do que jamais sonharam.

Em tom de confissão, complementou:

— Há alguns dignatários tapistanos aqui em Tollon que estão verdadeiramente entendiados com as mulheres deste lugar, de tal forma que temos feito algumas visitas não autorizadas, por assim dizer ao Reinado. Você foi um verdadeiro achado, garota, vai nos render um bom dinheiro. Já a magricela ali…

Caius olhou para a menina com um olhar feroz, e completou com um arremedo de sorriso, repuxando o couro da face bovina para cima — A magricela me interessa. Preciso de uma mulher para lavar e cozinhar, e como não sou nenhum princeps, tanto melhor se comer pouco. E agora, chega dessa conversa, escrava! De volta para a gaiola, ambas!

Porém, nenhuma das duas pretendiam colaborar com Caius. Selene se aproveitava da conversa se valendo de cada descuido, cada olhadela para o lado. Qualquer pequeno movimento dele era também um pequeno movimento dela. Aos poucos, procurava se desenredar das mãos do minotauro. E agora, sem que ele percebesse, um puxão vigoroso a deixou livre.

Selene usou um dos poderes do seu kit de aventureira para escapar das mãos de Caius sem que ele notasse o que estava fazendo. Graças ao poder Esgueirar-se, com um teste simples de Habilidade, ela é capaz de passar ao lado de alguém sem ser vista. E foi um bom momento para sair do caminho, já que Alyssa pretende usar seu Ataque Especial.

Sorrindo para a expressão de indignação e confusão de Caius ao notar que Selene havia escapado, Alyssa avançou contra este, girou o corpo em sentido horário, levantando a perna direita no movimento. Em combate, a garota parecia ficar muito mais ágil do que antes — tinha um dom para a luta. No último momento, se aproveitando da força do giro, esticou a perna em um ângulo reto perfeito na direção do peito à mostra do minotauro, os olhos bem abertos de excitação, permitiu que sua energia fluísse direto para os pés. Uma chama avermelhada brilhou, queimando do joelho para baixo, quando atingiu Caius em cheio.

armageddon-headAlyssa usou um Ataque Especial, um golpe muito mais forte e que consome um pouco de sua energia para provocar dano. Caius não esperava por isso e levou o golpe em cheio, porém, não foi suficiente para derrotar o inimigo.  Haviam ainda outros dois minotauros que não entraram na jogada, por isso Selene resolveu agir de outra forma: ela usa Força Mágica para empurrar Caius. 

Isso está ficando complicado demais!” — pensou Selene. Sentiu o peso do pequeno baú que lhe motivara a acompanhar a caravana escravagista dentro da bolsa e pensou em simplesmente fugir sozinha, mas não conseguiu. A ideia de abandonar aquela mulher à própria sorte era terrível demais.

Abaixou-se, próxima a uma árvore que lhe fornecesse alguma proteção e estendeu uma das mãos em direção ao minotauro. Após um comando mental, sentiu um leve formigamento na mão estendida. Uma das sombras próximas aos pés da criatura bovina parecia se mover. A magia da capa estava agindo.

Pego de surpresa, Caius foi empurrado para adiante, tropeçando também nas árvores e galhos próximos e caindo de encontro a uma árvore, prendendo seu chifre na madeira da floresta. Grunhindo, procurava se libertar. Era o momento que Selene e Alyssa esperavam. A escapista voltou a puxar a prisioneira pelas mãos, num pedido desesperado para saírem logo dali.

Após um breve aceno, ambas concordaram e voltaram a fugir, juntas, correndo mata adentro.

Impressões do Mestre

Nesse capítulo confirmei uma tendência que provavelmente vai acompanhar essas duas personagens durante toda a aventura. Alyssa foi imaginada para o combate e sempre irá optar por lutar, enquanto Selene por sua vez prefere ser discreta, fugir e se esconder sempre que possível. São atitudes que batem de frente uma com a outra, e prevejo muitas situações em que os demais jogadores terão que lidar com as consequências disso.

Optei por não trazer alguns pormenores aqui (como a rolagem de iniciativa da batalha, por curiosidade: Caius, Alyssa e Selene) por achar que o texto estava ficando muito mais longo do que deveria para ser prático de ser acompanhado por vocês. Também optei por não trazer aqui um longo trecho em que Caius exaltava o Império de Tauron para as duas meninas, um pouco antes da luta.

No próximo capítulo, pretendo trazer as fichas dos NPCs minotauros para vocês. Por hoje, o bônus são os outros personagens jogadores. Notoriamente, exceto pela Alyssa, essa turma toda ainda nem apareceu na aventura, mas deve dar as caras aqui em breve.

Nos vemos no próximo ato. \o

Bônus: Personagens Prontos!

Jogador: Fabrícius “Keitaro” Viana Maia.

F0 (esmagamento), H1, R2, A0, PdF0; 10 PVs, 10 PMs.
Kits: Lutadora de Rua (contatos).
Vantagens: Humana; Aventureira Nata; Aparência Inofensiva, Arena (cidades), Ataque Especial (Senretsukyaku: F, II), Item de Poder Ancestral.
Desvantagens: Código de Honra (combate), Interferência (comum e mágica) e Maldições (presença evidente e megacuriosidade).

Jogador: Ásbel Torres.

F2 (corte), H1, R0, A2, PdF0 (perfuração), 10 PVs, 1 PM.
Kit: Bárbaro (força bruta).
Vantagens: Coração Gelado, Pontos de Vida Extras.
Desvantagens: Inculto, Código de Honra do Caçador e dos Heróis.
Perícias: Rastreio, Meteorologia e Furtividade.
Itens Mágicos: Lâmina Tagh – Arma+1 de Gelo Eterno e Flagelo (humanoides).

Jogador: Douglas “D’zilla” Reis.

F0, H3, R2, A0, PdF0; 10 PVs, 10 PMs.
Kit: Adepto (magias de adepto).
Vantagens: Meio-Golem; Madeira Tollon; Magia Elemental.
Desvantagens: Insano (paranoico), Código de Honra dos Heróis, Ponto Fraco (procura proteger suas partes humanas), Restrição de Poder (contra Mortos-Vivos)
Perícias: Máquinas.

Jogador: João Paulo “Moreau do Bode

F1 (corte), H1, R2, A1, PdF0; 12PVs,10PMs.
Kit: Paladino dos Deuses (armadura completa)
Vantagens: Humano; Autoconfiança; Ataque Especial (Cansativo, Dano Gigante, Perto da Morte e Poderoso), Paladino.
Desvantagens: Má Fama, Poder Vingativo e Restrição de Poder (incomum)
Perícias: Valkar (de idiomas), Lábia e Montaria.

Todas as ilustrações esse artigo são de autoria do Tiago Oriebir, exeto pelo desenho do personagem Kenlee, feito pelo próprio jogador, Douglas “Mago D’zilla”. Meus agradecimentos pela força a ambos. 

Armageddon • 30/10/2017

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