O Enigma das Arcas, Ato XIV – Cartas na Mesa

Uma reunião tensa em pleno Rio Panteão que pode mudar os rumos da história acontece neste capítulo do Enigma das Arcas. Será que Enemaeon vai conseguir sair impune desta vez?

armageddon-enigma-garlorAté agora, no Enigma das Arcas…

Esta é a história de Enemaeon de Ridembarr, um mago necromante que após uma malsucedida invocação teve o coração substituído por um artefato maligno: o Coração do Corruptor. Para se livrar dessa maldição, ele partiu em uma jornada para decifrar o Enigma das Arcas, que supostamente possui a resposta para salvar sua alma.

Nesta missão, ele conta com a ajuda dos antigos companheiros: o ladrão clérigo Garlor “Presas de Prata” e o arqueiro Felrond, um elfo com sérios problemas com a bebida. Após quase morrerem enforcados em Ciela, o trio despertou preso nos porões do Tortura, uma das inúmeras naus de piratas que vagam pelo Mar Negro.

Enemaeon forjou um plano de fuga, mas para ser bem sucedido seria necessário sacrificar um dos companheiros. Quando estava quase em liberdade, o mago voltou atrás para fazer a última jogada antes de desistir de vez.

Ato XIV — Cartas na mesa

Reunidos na sala do capitão, Felrond, Enemaeon e Moranler estudavam-se mutuamente. O retorno do mago provara de uma vez por todas que, de certa maneira, ele estava tentando fazer o que parecia ser certo. Ou ao menos que era movido por uma ambição maior do que a própria liberdade. E isso aumentou ainda mais o interesse do minotauro pirata. Tinha enfim certeza de que estava envolvido em algo grande.

Contudo, era em absoluto silêncio que aguardava pela próxima jogada. Fumaça de erva halfling era expelida pelos poderosos pulmões, criando uma névoa espessa em torno da figura táurica. Isto aliado aos chifres e adornos de ouro lhe davam um aspecto terrível, lembrando o ressurgimento de um antigo demônio branco.

O lugar era bastante austero, praticamente sem adornos. Uma mesa simplória com um antigo mapa de Arton. Uma garrafa, apetrechos para fumo. Atrás, uma estante sem nada de especial além de alguns poucos livros de navegação e demais pertences pessoais do ex-corsário. Era sobre ela que estava o gato de Enemaeon, lambendo-se preguiçoso.

Havia uma série de assuntos que precisavam ser tratados pelos três ali. Entretanto, dar o primeiro passo naquela conversa que se mostraria longa e tensa poderia declarar antecipadamente o quanto um precisava do outro, exatamente o que ambos os lados queriam evitar.

Enemaeon compreendia que aquele silêncio era um golpe psicológico de Moranler, mas também sabia o quão desgastado ele próprio estava depois dos acontecimentos em Paltar e das sucessivas magias conjuradas. Num primeiro momento, pensou ser melhor continuar aguardando a investida do capitão do Tortura, mas o cansaço e a pergunta que estava martelando em sua cabeça foram mais fortes. Ele cedeu:

— Porque nos salvou da forca, Moranler?

Bufando e arfando num arremedo de risada, o capitão do Tortura abriu uma das gavetas atrás de si e retirou um velho papiro que abriu sem cerimônia sobre a mesa bagunçada. Era um mapa antigo de Arton, e havia uma marca maior sobre o Deserto da Perdição. Usou uma garrafa e uma bússola como apoio, para evitar que a folha se fechasse novamente e voltou os olhos taurinos — vermelhos, porém — em direção ao mago. Enemaeon compreendeu.

— Você sabia do templo, então — murmurou o arcano cofiando a barba longa — Isso explica muita coisa.

— Para você talvez as coisas tenham ficado mais claras, mas ainda não sei exatamente do que estamos tratando. Consegui o mapa e o medalhão em um porto próximo daqui e não tive razões para desconfiar que eram falsos. Contudo, faltava saber a real serventia deles. Um templo abandonado pode guardar riquezas, mas também pode guardar qualquer outra coisa.

— Então, quando Felrond infiltrou-se aqui procurando por isso, você pressentiu que a partida era maior do que inicialmente esperava. E jogou a isca com aquele medalhão falso.

— Não sei o que levou você a confiar em um elfo — caçoou o minotauro — Ainda mais um beberrão como este que está aqui diante de meus olhos. Enganá-lo com um pouco de bebida e arrancar dele o que sabia foi extremamente fácil. Cheguei a pensar que era exatamente o que você pretendia!

— Superestimou minha capacidade, Moranler — respondeu o necromante dando de ombros. Novamente o minotauro ficou em dúvida se ele realmente estava ou não jogando com os pensamentos dele. Até que ponto está falando a verdade, bruxo?

— Também gostaria de saber por que não tentou me curar com magia assim como fez com os outros — disse o mago mostrando as marcas de cordas marcando o pescoço.

— Caso não tenha notado, seu coração não está batendo. O clérigo de bordo não quis arriscar uma magia de cura com medo de terminar de destruir essa carcaça judiada que você chama de corpo. Chegamos a conclusão de que você virou uma espécie bem peculiar de zumbi. Estamos certos?

Enemaeon sorriu. Ele próprio não sabia com certeza o que se tornara e qual seria o resultado de uma magia curativa nele. E, em se tratando da própria vida, não estava nem disposto nem curioso o suficiente para servir de cobaia em um experimento como esse. Moranler notou o sorriso no rosto magro e doente e bufou um pouco mais antes de retomar a narrativa.

— Pensei muito e decidi que valia a pena uma viagem pelo rio Panteão até o tal templo. Mas para tanto não faria mal saber no que estou metendo meu focinho. E qual foi minha surpresa ao chegar em Paltar e encontrar os três patifes já com a corda no pescoço!

Mencionar a quantidade de membros do grupo deixava claro que não apenas Moranler sabia da existência de Garlor como também muito provavelmente estavam procurando por ele em todo canto. O capitão não iria permitir nenhuma ponta solta agora que tinha a situação quase sob controle. Entretanto, seria muito difícil capturar o ladino, especialmente se ele estivesse fazendo o que Enemaeon esperava que estava. E mais ainda caso já tivesse feito.

— Pelo que sei, são três os fragmentos do medalhão. Quando reunidos, eles indicam a localização precisa do templo no deserto — começou a explicar o necromante procurando ganhar tempo, apostando na perícia e inteligência de Garlor — Um deles está com você, pois Felrond fracassou terrivelmente em roubá-lo há algumas semanas.

— Ele está sempre comigo — cortou Moranler dando tapinhas no próprio torso. Enemaeon não deixou aquela informação passar em branco, mas continuou explicando:

— O segundo fragmento estava comigo, mas acabou perdido durante a tentativa de linchamento em Ciela. E o último, que deveria estar com o velho Anon…

— Foi vendido há algum tempo. — interrompeou Felrond quando notou o olhar de Enemaeon voltando-se para ele — O próprio me contou.

— Conversou com aquele ssaaszita leproso e confiou nele? — perguntou Moranler apoiando a cabeçorra bovina em uma mão nodosa repleta de anéis, a voz embargada pelo descrédito.

— O velho estava sob o efeito de um encanto — explicou o necromante — Não teria motivos para mentir naquela ocasião. De qualquer maneira, dois dos três fragmentos estão no momento perdidos. Se lhe faltou o bom senso de saquear a cidade até encontrá-lo, será muito difícil para você prosseguir daqui em diante.

— Um belo impasse. Os fragmentos são realmente necessários para localizarmos o tal templo e o ouro?

— Até onde pude averiguar… — disse o mago deixando a resposta óbvia pairar no ar. O imenso minotauro se remexeu nervoso na cadeira e buscou mais tabaco para si, não oferecendo fumo a mais nenhum dos presentes. Recostando o corpanzil no encosto firme, uniu ambas as mãos diante de si e afundou em um incômodo silêncio. Felrond instintivamente levou os polegares até os detonadores das armas que trazia consigo, puxando-os levemente para trás, pronto para engatilhar os trabucos. Até o felino negro de Enemaeon prestava total atenção agora. Com a tensão que pairava no ar, o próprio pelo podia esperar.

— Explodir a marinha insignificante de Ciela e invadir Paltar não foi difícil. Salvar vocês de um bando de milicianos mal pagos após a fuga dos linchadores de fim de semana, menos ainda. Entretanto, coloquei meu nome uns três pontos acima na lista de menos amados de Arton com essa história toda. Por isso, você ainda me deve, no mínimo, o pouco valor que dá a própria vida, necromante.

— Ao contrário, Silverdall, do meu ponto de vista, você é que me deve. Deveria estar grato aos deuses por ter me tirado da forca. Foi o seu grande momento de brilhar, ainda que tenha sido um golpe de sorte — respondeu o mago para o espanto de Felrond. O gato chegou a escorregar do alto da estante onde estava, como que compartilhando do choque do elfo. Saltando de forma pouco graciosa até o chão, aterrissou sonoramente sobre as patas.

Moranler não gostou daquelas palavras, tentando entender até onde o mago queria chegar. Era óbvio que ele os mataria agora que perderam a parca utilidade que tinham. Ele sabe que já está morto e está blefando — concluiu. Levantando-se, os chifres quase arranhando o teto, falou:

— Eu tive sorte, então? O que faz de mim alguém tão afortunado por arrancar um peso morto e inútil como vocês dos portões do inferno?

— A resposta é simples. — respondeu Enemaeon — De fato, com dois dos três pedaços do medalhão perdidos, tornou-se praticamente impossível desvendar o segredo do templo. Mesmo que acredite que não és um qualquer e sim um afortunado que nasceu de viés para a lua e teimar em seguir sozinho nessa jornada até o deserto da Perdição, você jamais será capaz de localizar o túmulo de All’Kapeera. Acabaria perdido nas areias, meio-morto de sede e esturricado pelo calor até os abutres aliviarem os últimos quilos de carne de touro que sobrarem em você.

Felrond acreditou que os olhos do minotauro iriam saltar das órbitas, ou que ele próprio saltaria na direção do pescoço de Enemaeon a qualquer momento e o esfolaria vivo por caçoar dele daquela forma. De fato, lenta mas decididamente, o imenso capitão albino aproximava-se, contornando a mesa e se dirigindo ao mago que continuava aquela verborragia ofensiva com sua calma e frieza típicas. Cada palavra era deliciosamente proferida.

— O extravio dos fragmentos foi um duro golpe. Confesso que as dificuldades serão aumentadas devido a falta das peças, mas se engana se pretendo desistir assim tão fácil de reuni-las. Até porque já tenho uma boa ideia de como suplantar este infeliz incidente. O jogo ainda não foi perdido.

— Interessante esse revés justamente agora — falou Moranler prontamente — Até a poucos instantes você foi claro em dizer que sem os três fragmentos seria impossível encontrar o templo.

— Não ponha palavras em minha boca. Eu disse que você não seria capaz, nem mesmo com toda a sorte de Nimb a seu favor — respondeu Enemaeon colocando-se também de pé — Entretanto, isso não se aplica a nós. Se cooperarmos agora, há uma última forma de conquistarmos esse objetivo em comum.

— E o que me impede de torturá-lo e arrancar essa informação agora mesmo?

— Deveria ser claro! — respondeu Enemaeon com as mãos espalmadas ao lado do corpo — Estamos com todas as cartas vencedoras! Inclusive com o último fragmento do medalhão!

Instintivamente o minotauro levou a mão até o peito onde, preso a um cordel de ouro o objeto de cobiça permanecia gelado por dentro da camisa. Não satisfeito em apenas senti-lo, retirou-o por fim e o colocou sobre a palma. A surpresa lhe atingiu como um soco no ventre. O que viu o fez por fim explodir de ódio.

Aquela era a peça falsa que ele próprio entregou à Felrond para enganá-lo semanas antes.

— Quando? — urrou o minotauro lançando o objeto em direção à parede da cabine, dando vazão a fúria e quase atingindo Felrond no processo. Enemaeon manteve-se sério e mancou um pouco até a vigia para abrir um pequeno vão na janela. Um veloz símio adentrou o lugar no mesmo instante. Num salto, subiu pelas costas do necromante, enrodilhando-se em torno do pescoço. Divertindo-se, o macaquinho bateu palmas e mostrou os dentes.

— É interessante como os deuses deste mundo permitem que alguns poucos devotos, apenas os mais fervorosos entre os seus seguidores, realizem pequenos milagres. É uma espécie de compensação em troca de toda a fé que neles depositam, acho. Dentre tantos dons extraordinários, os clérigos de Hyninn tem um dos mais peculiares. Você conhece a divindade maior da trapaça, não conhece, Moranler? E já sabia que seus clérigos possuem um curioso dom? Eles podem, algumas vezes, se transformar em um pequeno macaco. Como este.

— Aquele maldito pedaço de esterco é um clérigo trapaceiro! Então…

— Por que não enviei Garlor no lugar de Felrond da primeira vez? — cortou Enemaeon divertindo-se com a confusão que causara na mente do capitão do Tortura — Tenho meus motivos, acredite.

— Quando não o encontramos junto com o elfo acreditamos que havia abandonado o navio.

— Eu também acreditei nisso. — confessou Enemaeon — Entende que a chance de eu mesmo ser enganado neste caso existia. O jogo virou apenas há pouco, quando vi Garlor na vigia do navio.

— Admito meu erro. — falou Moranler recompondo-se — Agi precipitadamente. Mas exijo saber imediatamente o que ele fez com o meu medalhão.

Nosso, agora. Pois ao contrário de você, Silverdall, não pretendo tirá-lo da jogada na primeira oportunidade ou diante do primeiro revés. A peça provavelmente já está em segurança em algum lugar deste navio. Dado a profissão de meu companheiro, lhe aviso de antemão que será inútil enviar o bando de marmiteiros que você chama de tripulação revistarem o barco. Não o encontrarão nem que arranquem todas as tábuas e reconstruam o navio do avesso.

— Não é divertido como ele consegue ser tão ofensivo falando apenas verdade? — brincou Felrond servindo-se da garrafa de bebida que jazia pousada sobre o mapa na mesa. Bebeu com gosto alguns goles do rum e Enemaeon não o censurou por isso. Depois de tudo o que o elfo passou nas última horas, era uma recompensa mínima.

O minotauro estudou a cena com a ira oculta em algum lugar daquele inexpressivo rosto táurico. Odiava ter sido enganado de forma tão simplória e ainda não compreendia quando e como o macaco havia furtado o objeto. Provavelmente no meio da noite, antes dos demais despertarem ou enquanto eram curados pelo clérigo do navio. De qualquer forma, aquilo não mudaria a situação atual. Eles estavam com as cartas. O jogo havia virado.

— E então como ficamos, “sócio” — resmungou sem opção — Apenas uma parte de três não nos ajuda em nada nessa demanda.

— De fato. Mas tudo o que lhe disse continua valendo. Tenho mesmo um bom palpite de como descobrir o paradeiro do fragmento que ficou em Ciela e da peça que pertenceu ao velho Anon. Só há uma pessoa que poderá localizá-los em toda Arton. E ela está em nosso caminho daqui em diante. Temos, enfim, uma aliança?

— Se não há outra forma — respondeu Moranler à contragosto, apertando firmemente a mão de Enemaeon e ferindo ainda mais o osso partido pelo imediato horas atrás — Mas juro para você, mago: caso essa humilhação não compense meu tempo e esforço, irei caça-lo até o inferno se for preciso. E então você irá desejar ter morrido de verdade antes de ter me feito de tolo.

— Irei me lembrar disso, Silverdall. De qualquer maneira, não há ninguém além de seu ego que sabe do ocorrido nesta sala, exceto se os berros também tenham chegado até os ouvidos da tripulação. Por isso não precisa se preocupar com nossa pequena troca de medalhões. Será um segredo que carregaremos conosco de hoje até o fim de nossos dias.

— E assim deverá ser. Não creia que minha paciência tenha um preço tão alto. Até agora o ouro prometido parece compensar meu mau humor. Mas posso mudar de idéia. Por isso, é melhor não abusar de minha compreensão.

— Isso não me passou pela mente nem por um instante.

— E, uma vez que fui destituído do meu cargo de guardião do medalhão de ouro, me resta saber para onde guiar este navio. Para onde estamos indo, enfim?

— Para onde mais seria? — perguntou Enemaeon fitando triunfante o novo aliado — Para o lugar onde todas as aventuras tem um início, um meio ou um fim. Vamos para a capital do mundo!

— Valkaria — respondeu o minotauro saindo porta afora. Felrond continuou bebendo tranquilo do rum enquanto estudava o rosto do mago. Este, exausto e com uma dor lacerante na mão enfim deixou a fraqueza que vinha ocultando invadir-lhe o corpo e caiu sobre a cadeira, tremendo. O único conforto vinha do gato preto aninhado em seu colo.

Armageddon • 25/05/2016

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