Castanha de Kaiju #5 — Eram os deuses personagens jogadores?

De onde vêm os mitos (artonianos).

ZeusMuito já se falou que a fantasia medieval, de maneira geral, tem muito pouco de medieval de verdade. Aventureiros errantes? Monstros fantásticos em cada cruzamento de estrada? Panteão politeísta fortemente atuante no mundo terreno? Me perdoem a pedância de professor de História, mas isso me parece mesmo com outra coisa – a era dos heróis da mitologia grega.

Claro, não quero fazer aqui um longo discurso teórico a respeito do pseudo-medievalismo na cultura pop. Tenho uma opinião bem formada sobre isso, na verdade, bem mais aberta do que muito purismo que se vê por aí, da qual pretendo falar algum dia aqui na coluna, se ela perdurar. Da forma como vejo, se temos uma referência inesperada e que parece anacrônica, antes do que negá-la e tentar evitá-la, pode ser muito mais divertido fazer o oposto: mergulhar de cabeça nela!

No caso, mergulhar de cabeça na mitologia envolveria incluir nas suas histórias temas que são comuns a ela. Heróis poderosos, agraciados pelos deuses e pelo destino, enfrentando provações épicas e monstros perigosos, já não são exatamente novidade, é claro; mas há outros temas comuns que não costumam ser muito explorados em cenários e histórias de fantasia. Há um em especial do qual gostaria de falar aqui: os próprios deuses.

Deuses são comuns em cenários fantásticos, claro, mas não costumam ser, digamos assim, os protagonistas, como são em muitas histórias mitológicas. Falo, por exemplo, da era de ouro da própria mitologia grega, dos embates de Zeus e seus irmãos contra os titãs; ou histórias semelhantes que você encontrará na mitologia nórdica, védica, japonesa, mesopotâmica, e, bem, todas as outras, na verdade. Há lá a sua exceção eventual à regra – as crônicas de Amber me vêm à memória, talvez o jogo Asura’s Wrath seja um bom exemplo mais recente -, mas, se você cortar as informações de background que servem apenas para estabelecer o cenário, quando foi a última vez que você de fato conheceu em primeiro plano a história de um deus?

Puxando a sardinha aqui pra nossa rede, me peguei imaginando sobre isso recentemente em Arton. Quais são as histórias que conhecemos que envolvem diretamente os deuses? Sabemos a sua origem, nascidos do Nada e do Vazio; que houve uma batalha épica entre Azgher e Tenebra em tempos imemoriais; temos também a história da Revolta dos Três e todos os seus desdobramentos (inclusive a Tormenta); e talvez algumas pequenas anedotas aqui e ali, acredito. Esqueci de algo?

São histórias pinceladas em termos gerais, sem muitos detalhes. Talvez a Revolta dos Três tenha um pouco mais de informações – adoro as descrições da guerra divina na introdução de O Panteão, por exemplo -, mas mesmo o que sabemos dela é muito vago e incompleto. É difícil encontrar algo com a riqueza de detalhes e informação que você possuiria em um mito onde o próprio deus é o personagem principal.

YamataNoOrochiNão estou criticando os autores por isso, é claro; não se pode esperar que eles detalhassem tudo, e na verdade é da natureza de um cenário de RPG estar constantemente em construção, preenchendo pouco a pouco as suas lacunas. O ponto onde quero chegar é que, se estes elementos são vagos e pouco detalhados… Talvez nós mesmos possamos preenchê-los.

Você já pensou em jogar uma campanha com um deus?

Em termos de regras não é algo tão difícil como parece. No 3D&T (e todos sabem como eu amo a simplicidade e praticidade do 3D&T) é fácil até demais, na verdade: basta determinar que todos os personagens estão em escala Kami e pronto, campanha divina instantânea. Já em Tormenta RPG, acredito que o antigo suplemento O Panteão (fora de catálogo em formato físico, mas que você ainda pode adquirir em formato digital na Loja Jambô) possuía regras para montar fichas de deuses, que podem ser adaptadas para o novo sistema sem muita dificuldade.

Já em termos de cenário e histórias… Bem, temos todas as mitologias já citadas para nos inspirar.

Imagino uma “era mitológica artoniana” iniciada pouco depois do Nada e o Vazio criarem a existência, com os vinte deuses ainda jovens e sem portfólios e funções muito bem definidas. Talvez a própria realidade e o plano material primário fossem tomando forma aos poucos, conforme eles descobrissem seus poderes e desenvolvessem seus relacionamentos.

Habitar o mundo inteiro com apenas vinte seres, é claro, não parece dar margem para histórias muito interessantes, mas, novamente, podemos nos inspirar nas mitologias de diversas partes do mundo. Em todas elas, os deuses constantemente se veem às voltas com os problemas causados por monstros ancestrais, originados do próprio caos primordial de onde veio o mundo – titãs gregos, gigantes nórdicos, uma infinidade de outras criaturas. Que outros seres podem ter surgido do Nada e do Vazio além dos membros do Panteão? Criaturas tão monstruosas e perigosas que nunca se tornaram deuses, mas que talvez, quem sabe, tenham feito até mesmo Khalmyr e Kallyadranoch se unirem uma vez ou duas para enfrentá-las…

Imagine Lin-Wu enfrentando uma enorme serpente de oito cabeças para conquistar sua katana lendária Kaminari; Wynna às voltas com os espíritos mágicos que lhe concederiam o dom da magia; Khalmyr encontrando o ferreiro titânico que forjaria a Rhumnam; Nimb… bem, sendo Nimb…

Acho que deixei claro o meu ponto. O resto, é nas suas mesas.

BURP • 06/11/2015
tags: RPG

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