Só Aventuras Vol. 4 — Os Bastidores de Casamento Sombrio

O macarrônico Di Benedetto fala um pouco do processo criativo de sua contribuição para Só Aventuras Vol. 4!

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Foi assim que aconteceu: um dia abri a geladeira na esperança de haver comida dentro dela. Não havia. E aí, por algum motivo, lembrei de uma cena clássica de Holy Avenger, que não tinha nada a ver com comida ou com geladeiras. Ideias surgem assim.

O vilão Mestre Arsenal diz para dois personagens que clérigos não vivem apenas para destruir inimigos de suas divindade – eles têm tarefas bem mais mundanas. Tive a ideia baseada nessa cena (quem leu, sabe qual é): e se dois amantes desgraçados, a la Romeu e Julieta, procurassem  o clérigo do grupo para realizar um casamento?

Resolvi testar ela como one shot, sem o compromisso e peso de começar campanha nova. Eu realmente queria que fosse uma aventura rápida, que pudesse acabar numa tarde ou noite de jogo. Que não fosse me deixar com sensação de falha e história incompleta no final.

Aquele momento não era uma fase muito feliz da minha vida, por um monte de motivos dos quais não vale falar a pena. Também não era uma fase muito feliz como Mestre de RPG. Estava satisfeito bagunçando as campanhas de outros amigos mestres com meus personagens e satisfeito com as campanhas e aventuras que tinha narrado no passado. Mas minha última aventura mestrando, para amigos novos, numa cidade nova (o Rio de Janeiro), onde conhecia pouca gente, tinha sido uma bela de uma porcaria.

Ao mesmo tempo, a aventura que tinha começado a escrever para a editora, e que estava 70% pronta, não ia para frente porque estava num bloqueio. Não aquela lenga lenga de “bloqueio de escritor”, porque não tem nada nessa profissão, ao meu ver, que a torne mais especial que ser médico, gari ou qualquer outro ofício que você não possa aparecer pra trabalhar quando quer. Chamem de bloqueio de novato, autossabotagem ou só de bloqueio. Escrever não era a única coisa que me empacava naquele momento.

Estava naquela de “é, pra mim deu. Foi divertido enquanto durou” e aquela necessidade sadia de botar histórias e ideias pra foras, aquele hobby que eu cultivava com tanto amor desde que eu tinha 12 anos e narrava 3D&T pros coleguinhas na hora do recreio, estava, em definitivo, morto. Acabado. Zero. Melhor deixar pra lá.

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Até que a necessidade pulou pra fora daquela geladeira, como um zumbi se erguendo da tumba e vindo atrás de carne fresca. E, novamente, tudo teria acabado aí. Porque eu sabia: seria um saco e complicado arrumar jogadores novos, na pilha de jogar.

Felizmente, André Centeno, Camila Gamino, Rodrigo Quaresma de Andrade e o sempre presente milagre da Internet e das sessões por Skype, provaram novamente que eu estava errado. (Valeu, galera!)

Boa parte das da aventura foi moldada em cima de quem aceitou pegar o pepino do PJ clérigo obrigatório que eu precisava. No caso, a “mais animada que esquilo tomando café” Camila, que na época ficou indecisa entre ser clériga de Allihanna (deusa da natureza), Lena (deusa da vida) e Tenebra (deusa da noite e dos mortos-vivos).

Ela se decidiu pela última e o resultado foi Casamento Sombrio, a aventura que adaptei  para Só Aventuras Vol. 4 — que posso definir como uma mistura bem louca de Coração Valente, Game of Thrones e A Noiva Cadáver. Ficamos todos bem satisfeitos. Uma aventura em que tudo deu certo, apesar do tom trágico. As interações entre os PJs, a criação de cenas conjuntas, o desfecho.

Alguns dias depois, J.M Trevisan (editor de conteúdo da Jambô, um dos criadores do cenário de Tormenta) ATORMENTADO pela namorada — a Camila — que não parava de comentar a sessão de jogo, veio me procurar, disse que a ideia era bem legal, e que talvez valesse a pena deixar a outra aventura pra lá e escrever essa. Três dias depois, eu já havia terminado o texto bruto (ainda sem fichas de personagem). Então veio todo o processo de expansão, revisão e edição.

O Rogério Saladino, que editava o suplemento e me orientava até aquele momento, acabou passando o manto de editor para o não menos competente Gustavo Brauner (não sem deixar de contribuir com O Espelho de Kharamir, aventura fodíssima para o suplemento). Mas essa parte foi como descer uma ladeira, após penar pra subir. Hoje realizo o sonho que tinha desde moleque, de publicar material oficial pro meu cenário de RPG favorito.

Esse papinho todo só pra dizer que: mesmo quando você tropeça e as coisas parecem não ir pra lugar algum e nada perece ter mais jeito, sempre, sempre vale a pena, levantar, lamber os ferimentos, entender onde você errou e, o mais importante, tentar de novo. Como marinheiro de primeira viagem, não acertei tudo, é claro. Mas, na boa? Fiquei orgulhoso.

Além da aventura em si, Casamento Sombrio traz algumas adições interessantes para quem joga Tormenta RPG. Agora há regras para realizar desafios de perícia (uma variante dos testes estendidos que aparecem no Manual do Malandro), mecânica narrativa que sempre funcionou nas mesas em que joguei, que facilita, agiliza e torna imensamente mais divertidas cenas focadas em interpretação ou com pouca ação, mas que também pode ser usada pelo Mestre para substituir ou resumir encontros aleatórios, viagens longas e para um cem outro número de coisas. (É sério, desafios de perícia são o canivete suíço das possibilidades! Venha experimentar!)

Outra adição: descrições e sugestões para criar seus próprios casamentos de cada um dos vinte deuses artonianos – ou o sacramento equivalente para cada fé. (Alguns com contribuições do próprio J.M Trevisan, que também criou e escreveu os votos de Tenebra para a aventura.)

Se você ainda não tem o suplemento, é uma boa hora para dar um pulo no site da NERDZ e comprar o seu!

Que você role bons dados!

Ou não.

Ilustrações por Blenda Furtado.

Di Benedetto • 02/06/2016

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