Guilda do Macaco — Capítulo 1: O Resgate

Curtiu o video? Então acompanhe agora a versão romanceada do Episódio 1 da nova Guilda do Macaco! por Christiano Linzmeier

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Um enorme cavaleiro de face desfigurada cavalgava na chuva, ao lado de seu pajem, a pé. Esta não é a história do cavaleiro. É a história do pajem. Ele avançava em meio à lama, carregando as tralhas de seu senhor.

O Mastim Mutilado recebera um pedido de ajuda de Lady Ayleth Karst, e Lothar o acompanhava. No passado, o pai de Ayleth, o Barão Abelard, lutara ao lado da Ordem do Leão, e havia uma dívida de honra entre o Mastim e o antigo aliado. Por isso, independente de sua vontade, o cavaleiro tinha o dever de ajudar a filha dele.

Poucos guardas, a carta da nobre lhes garantiu entrada. Rumaram à sala do trono; uma cadeira rústica de madeira, poucas tochas nas paredes. O que mais chamava atenção eram as pessoas ali, lady Karst e mais três. Mas essa também não é a história da nobre que precisava de ajuda. Era a história do pajem e dos outros três.

Um elfo. Num lugar discriminatório com não-humanos, como Yuden, isso já era algo notável por si só. Trajes gastos, cabelos azuis bem cuidados. Olhar malicioso, apesar do tapa-olho ocultar uma das vistas. Virou-se para Lothar, mudou de expressão. Olhar mercenário, superior, displicentemente, apoiado em seu arco. Viera até ali através da mesma estrada lamacenta oferecer ajuda. Ouvira sobre seu infortúnio, aldeões falando sobre monstros naquele feudo. Perfeito! Era o que Calamis procurava: uma oportunidade de agir e fazer seu nome.

Também um garoto qareen. Jovem, talvez demais para estar ali. Olhava tudo fascinado. Olhos enormes, brilhantes. Deslumbrava-se com o que via. Um cavaleiro de armadura era um espetáculo. Um elfo, algo exótico e encantador. Pele morena, cabelos compridos, Kadeen era uma figura que não seria estranha às praias da exótica ilha de Khubar. Já ali, fazia tudo, menos se encaixar: lembrava um serviçal. Mas tivera um sonho. Mensagem de Wynna, deusa da magia, acreditava. Sonhou com uma jovem cercada por uma aura sombria. Contou sua história por aí. Ouviu que a mulher em seu sonho parecia lady Karst. Impulsividade dos jovens, veio e ofereceu ajuda. Outros riram, a lady não.

Havia ainda um… O que era “aquilo”? Por Khalmyr, o terceiro era grande! Era um humano? Lembrava um, mas… Suas roupas, se é que dava pra chamar o que vestia de roupas, eram… Animais. Partes deles. Provavelmente o que sobrara de quando os comera. E aquilo se chamava de Klunc. “Klunc, o bárbaro”. Barbudo, cabeludo. Carregava com ele um machado grande. Grande mesmo! Alguém disse que era enorme. Klunc repreendeu: “Enorme não, machado grande-grande!” Ninguém quis discordar. Klunc não sabia o que fazia ali. Memória ruim, nunca sabia o que fazia em lugar nenhum. Mas fez um esforço descomunal e lembrou: uma velhinha, uma cabana… “Velhinha amiga de Klunc. Disse pra ajudar mulher no castelo. Klunc foi.” Ou veio. Os guardas pensaram em atacá-lo; o medo não deixou. Lady Karst aceitou sua ajuda. Eu também aceitaria.

A jovem lady saudou-os todos. O Mastim Mutilado, Lothar, Calamis, Kadeen e Klunc. Lothar era apenas um pajem, mas o Mastim o manteve ali. Ouviram o pedido da moça:

“Meu pai, o Barão Abelard, partiu para investigar relatos de criaturas vis.  E não retornou.”

Quiseram saber mais. História comum. Criaturas más, de aparência ruim, ninguém viu direito. O Mastim irritou-se, cuspiu no chão, ordenando rapidez. Calamis quis provocá-lo. Cuspiu em seu cuspe!

“Então vamos ver quem mata mais dessas criaturas?”. Bom começo de história.

A lady apaziguou os ânimos, agradeceu. Viu força naqueles homens, mas aquela ainda não era a história daqueles quatro, apenas. “Pois sei que a força não resolve tudo.”, disse. Klunc sentiu-se abalado por aquela revelação. Então, o quinto e último foi trazido. Estava algemado.

“Alguém pode soltar isso aqui?”, disse o recém chegado. Era Nargom, um pirata.

Para muitos é o que basta saber sobre este tipo. Usava uma casaca um pouco grande; Kadeen imaginou que o último dono, já falecido, devia ser maior. Brincos e piercings, pele negra, cabelo raspado nas laterais. Roupas meio sujas. Era filho de um infame e falecido capitão pirata: Draco Mandíbula, morto por seu imediato. Nargom? Atirado ao mar para morrer. História típica, mas subestimaram-no. Sobreviveu. Acordou em terra, vozes cogitando matá-lo ou jogá-lo de volta ao mar. Estava enrolado na bandeira pirata. Por fim, entregaram-no aos guardas do castelo; foi parar na masmorra. Outra história típica, receberia a liberdade em troca de um trabalho. Aceitou, óbvio. E foi parar naquela sala, junto com todos os que iriam em busca do barão. “Muito justo, mas alguém pode me soltar?” Conseguiu.

“Partirão pela manhã.”, disse lady Karst.

“E a minha bandeira?” tentou Nargom sem resposta.

* * *

À noite, Lothar ouviu do cavaleiro a quem servia:

“Irá sozinho amanhã. O pai dela já deve estar morto, ficarei para impedir que ela também seja. Faça de conta que está cumprindo seu dever, assim ela terá certeza da morte do pai.” Por isto a história não era de seu tio, Sir Thuranald, o Mastim Mutilado. Era de Lothar Algherulff, o humilde pajem.

* * *

Na manhã seguinte, partiram.

Kadeen olhava tudo, curioso. Nargom gerava desconfiança, afrontava Lothar, desconversava. Lothar dizia, mais para si mesmo, que tudo era seu treinamento, em parte. Calamis causou estranheza ao trocar o tapa-olho de lado, enquanto partia assegurando saber algo sobre florestas.

“Mas só tem doido aqui…”, disse Nargom, pasmo.

Klunc seguia na frente, sua mente oscilando entre lembrar porque estava ali e ouvir o que acontecia à sua volta. Era incapaz de fazer ambos ao mesmo tempo. Em certo momento disseram que ele era… Efetivo. Não sabia o que era, nem que admiravam sua visível força de combate, mas ficou feliz:

“Klunc efetivo!” Todos riram; era como um sobrenome.

Rumaram para a fronteira do feudo, onde um pequeno povoado os esperava. O vento frio depois da chuva de outono castigava a pele. Colinas e córregos foram ficando para trás. Por algum motivo, se tornou comum ver fazendeiros fugindo ao ver Klunc chegando. “Klunc ponto de referência!” Ria o bárbaro. Calamis guiava-os. E guiando-os, chegaram ao objetivo.

O povoado! Nenhuma alma presente, o que era estranho. Todos consideraram o que fazer, menos Klunc.

Klunc não precisava pensar para fazer; foi logo entrando. Kadeen, com medo, tentou se ocultar atrás de um galho e segui-lo sorrateiramente. Tentativa cômica. Nargom se arrastou pela relva, eficaz e oculto. Mas não havia nada a temer. Tudo vazio, exceto por manchas de sangue nas paredes e um mascate; só ele e seu trobo. Baixinho, tinha uma carroça velha e um chapéu de palha. Nem mesmo Lothar era tão “humilde”. Revelou o que passara: soldados de Yuden matando tanto aldeões quanto soldados do barão! Arrastaram o próprio para a floresta e nada mais viu. Mais tarde, tentou fugir; não pôde. Olhos vermelhos espreitavam no escuro da mata. Era impossível partir. Cínico, Nargom se perguntava que soldados de Yuden eram aqueles?

“Renegados.”, disse Lothar. A atual regente, Shivara Sharpblade, era honrada.

“Regentes honrados são com a cabeceira límpida de um rio,”, respondeu Nargom. “Dali pra baixo é só gente cagando; ao chegar ao mar já é um rio de merda.” Sutil como um coice de cavalo.

“E esse rio está prestes a transbordar.”, completou o mascate. Tinham um sábio ali, exclamou Nargom.  Mas nada importava; sabiam onde o barão estava e tinham um elfo batedor para os guiar na floresta, exclamou Kadeen.

“Estou mais para flechador, quem bate é o Klunc.”, respondeu Calamis, bem humorado. Mas seguiu na frente, guiando os outros.

Pegadas! Bem apagadas, mas não para olhos élficos. Botas que levavam para longe, para o meio do bosque. Lá, uma pequena torre de vigília em ruínas. Calamis avisou:

“Vejam, no topo. Aquela janela, uma luz bruxuleando.” Já anoitecia; Klunc assustou-se:

“Bruxa?!? Klunc bate em bruxa!!!”

Calamis e Nargom decidiram entrar juntos. Descobriram-se irmãos de furtividade, identicamente indetectáveis. Lugar simples, em péssimo estado, uma escada estreita para a única sala no alto, o local da luz. Um assobio élfico era o sinal para virem todos. Calamis subiu, sempre na frente. Heroico, destemido. Sem medo do perigo, desbravando a estreita e velha escada rumo à sala final e… Escorregou. Do alto, foi ao chão; traseiro chocando-se contra o piso. Levantou-se, irritado. Muito irritado! Sacou de uma flecha e… Disparou contra a escada. Todos pasmos!

“Elfo bate em escada e depois Klunc burro?”, filosofou o bárbaro eficaz.

Lothar tomou a frente. Chegou a uma porta; bateu, ordenou que fosse aberta. Sem resposta, chutou-a. Uma sala pequena, pó, teias de aranha, uma mesinha e uma vela. Na penumbra, a luz revelou um homem preso em grilhões. Bastante idade, grisalho. Sujo e ferido. Finalmente, o barão!

“Termine logo com isso; Khalmyr irá julgá-lo de qualquer maneira.”, disse o nobre. Olhos inchados, fruto de pancadas violentas. Mal via.

“Barão, barão. Viemos ajudá-lo.”, tentou Lothar. Em vão; desmaiara. “Alguém aí conhece as artes da cura? Primeiros socorros?” Silêncio. Grilos lá fora, cri, cri, cri. Belo grupo!

Kadeen tentou algo diferente; sacou de seu alaúde e dedilhou uma canção mágica: uma melodia revigorante! “Oh não, eu não! Eu vou sobreviver! Enquanto eu souber como amar, lalalalá…” Uma música esquisita, mas a dor nos glúteos de Calamis amainou. Já para o barão, não bastara. Continuava inconsciente.

Nargom, desde o princípio, vigiava a entrada da torre. Mais seguro, sabem como é. Notou vultos na floresta. Vinham rápido, pelas copas das árvores, rosnando e ganindo. Deu o alarme: as criaturas de que ouviram falar os haviam encontrado. Hora de lutar!

* * *

Agiram rapidamente. Calamis alcançou uma janela, fez mira. Kadeen imitou-o, preparando sua besta. Lothar prostrou-se em defesa do barão, espada e escudo prontos.

Klunc olhou escada abaixo; inimigo lá, Klunc aqui. Pensar difícil. Pulou. Dez metros de queda livre. Um estrondo. “Klunc machuca pernas!” Também “machucou” o piso, mas chegou rápido. Nargom, astuto, teve o impulso de fugir. Se escondeu entre algumas árvores; sua sorte. Avistou o mascate de antes com sua carroça, acenando de longe.

As criaturas chegavam. Baixas, recurvadas, ocultas nas sombras. Calamis e Kadeen disparavam sem parar. As flechas do elfo abatiam os alvos de um tiro só. O garoto compensava com magia, deixando várias delas em um estado de sono profundo. Enquanto isto, Lothar tentava romper as correntes que prendiam o barão, mas era inútil. No entanto, tinha um trunfo:

“Klunc, se libertar o barão, ele lhe dará o maior presunto do baronato.” Gritou.

“Você amigo de Klunc!” Ouviu. Logo o bárbaro voltava para estraçalhar os grilhões – e a parede que os prendia – com seu enorme, digo, com seu “grande-grande” machado. Escombros caíram lá embaixo, matando algumas criaturas.

Enquanto Lothar se esforçava para descer com o barão, Klunc saltou na frente. Nargom, lá fora, notou uma luz vermelha no fundo do bosque, de onde as criaturas vinham. Chamas brotando da boca de um enorme cão negro, ao lado de um vulto alto e esguio. O vulto apontou em direção à torre e o cão rumou para ela. Desviou de uma flecha de Calamis, parando por um segundo, para então correr em direção a Klunc, que se colocava a barrar a porta da torre.

Nargom aproveitou para escapar sorrateiramente e alcançar o mascate. Afobou-se, no entanto, e revelou sua posição, sendo seguido por um dos monstrinhos, que teve dificuldades para abater depois. Era péssimo na esgrima.

Klunc se viu cercado por uma horda de pequenos, mas ferozes inimigos. Matava e sangrava, ataques de todos os lados. Ao ver o cão negro que vinha em sua direção, não teve dúvidas: investiu contra ele e o atingiu tão violentamente que o animal quase foi destroçado. Mas não, continuava vivo. Vendo o golpe, Kadeen gritou para alguém:

“Klunc está em fúria?” O bárbaro mesmo respondeu:

“Não. Klunc calmo.”

Enquanto Calamis e Kadeen continuavam a abater as criaturas do alto da torre, Lothar se esforçava para levar o barão. Habilmente conseguia evitar os golpes dos monstros, mas era difícil andar com homem em seus ombros. Klunc lutava brava e desesperadamente contra os monstros e o grande cão negro teria levado-o ao chão quando se ergueu para vomitar-lhe chamas. Foi salvo pelo casco de tartaruga que lhe servia de ombreira. Ouviu, então, um assobio passando ao lado de sua cabeça e uma flecha certeira cravou-se no olho do cão, exterminando a besta. Klunc, vendo o alvo de sua raiva morto por outro, irritou-se: “Elfo rouba xp de Klunc!” O que quer que aquilo significasse. Enquanto isso, Nargom tentava convencer o mascate a buscar ajuda; pretexto para fugir dali.

Com o pior inimigo morto, Klunc voltou sua atenção novamente para a torre. Kadeen atirava do alto e gritava para Klunc, ferido, fugir.

“Klunc luta!”, ouviu de volta.

Na entrada, Lothar combatia vários monstros. O bárbaro correu com todo seu vigor; foi tanto que errou o golpe, atingindo a lateral da porta, que voou em pedaços fazendo a torre tremer. Calamis e Kadeen se olharam, mas continuaram a lutar. Sem poder se mover direito e errando todos os seus ataques, Lothar entregou o barão para Klunc, mas mesmo assim, continuava alvo da fúria de Nimb: A sorte carrasca não lhe permitia matar nem mesmo um de seus inimigos — errava todos os golpes. Com o barão nas costas, Klunc, usando de perspicácia digna de um gênio para o nível dele, decidiu fugir com o objetivo de sua busca. Saiu em disparada, deixando monstros e poeira para trás. Kadeen entendeu:

“É hora de ir, Calamis.” Mas o elfo queria ficar. Tomado por sua sede de matança, queria acabar com todas as criaturas. O garoto lançou de mais magia e saiu voando da torre, indo para longe do perigo. Sem mais opções, o elfo saltou pela janela, usando a mão para girar o corpo de forma a ficar preso à ela. Então soltou-se e desceu correndo a parede quase que totalmente vertical, em uma demonstração de destreza élfica suprema. Porém, ao chegar ao chão, viu-se cercado de inimigos.

Lothar já partia dali e Kadeen tentou ajudar Calamis, tornando o chão sob ele e seus inimigos escorregadio com sua magia, o que quase matou o elfo. Mas novamente sua agilidade e destreza o salvaram, colocando-o em pé, permitindo que corresse para a salvação.

Todos alcançaram o mascate, as horríveis criaturas em seu encalço, se atirando sobre eles. Entraram velozes na carroça e partiram dali. Kadeen ainda se arriscou para pegar o chapéu do salvador, que havia caído, mas tudo correu bem pois ainda voava.

* * *

O mascate levou todos de volta ao castelo. Disse que fora até lá porque seu trobo o levou forçadamente. “Acho que se afeiçoou ao seu amigo…” Já ele queria mesmo era fugir. Queria ficar rico, mas preferia estar vivo.

Desconversou quando seu nome foi requisitado; dizia apenas que gostava de chapéus e que um passado de falcatruas, algo que Lothar decidiu ignorar, o impedia de ir até a lady. Salvara o barão, mas dizia ficar feliz mesmo era por ver que unira um grupo de aventureiros. “Gosto de aventureiros. Por onde eles passam as coisas nunca ficam iguais.” Kadeen ganhou de presente o chapéu de palha que salvara e então o mascate partiu, deixando-os ali.

Já indo ao longe, tirou sabe-se de onde, outro chapéu. Alongado e de aba estreita. Uma cartola. Colocou-o na própria cabeça e seguiu feliz, conduzindo seu trobo.

Seria um bom fim de história. Se fosse mesmo o fim…

por Christiano Linzmeier

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Jambô Editora • 20/06/2016

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