O Enigma das Arcas, Ato XVI — A Partida

O grupo começa enfim a longa viagem em direção ao Deserto da Perdição. Mas o caminho reserva muitas surpresas, dentre elas, um velho conhecido que aguarda pacientemente na cidade de Gorendill...

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Até agora, no Enigma das Arcas…

Esta é a história de Enemaeon de Ridembarr, um mago necromante que após uma malsucedida invocação teve o coração substituído por um artefato maligno: o Coração do Corruptor. Para se livrar dessa maldição, ele partiu em uma jornada para decifrar o Enigma das Arcas, que supostamente possui a resposta para salvar sua alma.

Nesta missão, ele conta com a ajuda dos antigos companheiros: o ladrão clérigo Garlor “Presas de Prata” e o arqueiro Felrond, um elfo com sérios problemas com a bebida. Após quase morrerem enforcados em Ciela, o trio despertou preso nos porões do Tortura, uma das inúmeras naus de piratas que vagam pelo Mar Negro, capitaneada pelo ex-corsário Moranler Silverdall.

Graças a uma tensa negociação, Enemaeon convenceu Moranler  a se arriscar junto com o grupo na busca pelo Templo de Al’kapeera. Porém, para chegar lá, o grupo primeiro precisa enfrentar um antigo mal que aguarda na próxima curva do maior rio do mundo…

Ato XVI – A Partida

Um mapa velho e manchado, apesar de impecavelmente seco, foi retirado do escaninho mais alto e aberto no centro da escrivaninha rústica de Moranler. Em volta, Garlor, Enemaeon e Felrond estudavam o contorno do Rio Panteão, braço sul do maior rio de todo o mundo conhecido. Um tibar de ouro foi colocado sobre a volta maior do curso d’água, perto da fronteira entre Ahlen e Deheon. Uma segunda, de prata, repousou em um ponto distante três semanas naquele mesmo percurso, além das montanhas de Teldiskan, uma formação menor pertencente as Montanhas Uivantes. Por fim, o dedo grosso com unhas sujas e quebradas golpeou o centro daquela região toscamente demarcada.

— Gorendill — bufou a voz de touro, potente e profunda de Moranler — Nós teremos que passar direto neste ponto. O rio é protegido por um antigo pirata, o velho canceroso do Nun. Não temos ouro que pague o preço por nossas cabeças, por isso podemos descartar a possibilidade de comprarmos um passe.

— Acha mesmo que já estão sabendo da acusação de assassinato em Ciela? — inquiriu Felrond antes de entornar um profundo e sonoro gole na garrafa de rum que trazia a tiracolo. Foi Enemaeon, contudo, que lhe trouxe a resposta:

— Talvez não saibam de nós, tampouco se importem. Mas Moranler atacou uma cidade portuária de Ahlen com canhões antes de subir o rio. Sem sombra de dúvida estão nos esperando nesse ponto. Nun é um osso duro e ele tem pelo menos mais três navios mercenários patrulhando essas águas. E o dobro de canhões.

— Vamos tentar atravessar o cerco durante a noite — explicou Moranler novamente correndo o mapa com as mãos enquanto observava os três ouvintes que atentos apenas concordavam com um aceno — Talvez com sorte, quando nos notarem (e sim, seremos notados), já estaremos além do alcance dos navios e atravessaremos mais ou menos incólumes. Caso contrário…

— E quanto a nós? — perguntou Garlor de braços cruzados — Não somos de todo inúteis. Podemos ajudar na batalha caso ocorra uma abordagem.

— Nós não vamos ficar no navio — pontuou Enemaeon apontando o coração do mapa, belamente ornado com um desenho da deusa de pedra, as mãos suplicantes buscando ajuda dos céus — Precisamos ir até Valkaria, devorando alguns quilômetros de terra talvez conseguiremos ir e regressar ao rio dentro de um mês e meio. Mas precisamos de cavalos e algum dinheiro. Garlor pode dar um jeito nisso.

— Garlor não irá com vocês, mago — cortou Silverdall endireitando a coluna. Com isso quase que dobrou de tamanho. Enemaeon, mesmo em sua postura ereta mal chegaria a altura dos ombros do capitão do Tortura. Irredutível, o minotauro pontuou: — Ele fica.

— Bobagem, Moranler! — retorquiu o necromante golpeando a mesa, sem se intimidar — Eu lhe expliquei que é preciso chegar até Valkaria para reavermos o medalhão. Sem Garlor a missão ficará seriamente comprometida!

— Se os três peixes escaparem da rede, como fico eu então? Nada neste mundo me obriga a acreditar em sua palavra, mago — grunhiu sentando-se na cadeira de encosto alto que gemeu ante o peso do touro de pelos brancos — Garlor fica, como um incentivo para seu regresso. Se dentro de um mês não estiver no cais da vila de Thaliu, ao norte de Teldiskan, mato o clérigo-macaco e lhe envio o crânio dentro de uma caixa.

— Um mês? — gaguejou Enemaeon, um pequeno passo de indecisão na voz — Você sabe que é impossível. Nada garante que eu consiga alcançar Valkaria dentro desse prazo. Quanto mais ir e voltar!

— Nada garante que todos nós não iremos amanhecer o dia com uma gravata de corda em Gorendill, tampouco — respondeu Silverdall — Esta é minha condição. Se não aceita, mato os três agora mesmo. Ou acha que esqueci a peça com o medalhão? Me fez de pascácio diante de toda a tripulação!

Os pensamentos de todos davam voltas. Era uma jornada impossível. Mesmo que não dormissem, nem comessem, cavalgando até a exaustão física e a morte dos cavalos seria impossível chegar até Valkaria e dali viajar até Thaliu em apenas um mês. Entretanto, para a surpresa de todos, a voz de Enemaeon regressou ao mesmo tom cansado e monocórdio de costume, quando disse:

— Que seja então, Silverdall. No entanto, uma aposta arriscada como essa sem dúvida deverá ter um fator compensatório à altura. Não pretendo e nem vou aceitar apenas uma prova de que (neste caso) sou digno de confiança como pagamento.

— Sem rodeios, cobra de Tenebra. Diga o que pretende.

— Se eu cumprir o prazo de um mês de viagem, ida até Valkaria e retorno até Thaliu; que você escolheu como ponto de parada e reparos das possíveis avarias que o Tortura sofrerá, acredito, então metade de tudo o que encontrarmos e saquearmos dali em diante pertencerá a Garlor, enquanto o restante será dividido igualmente entre nós três.

— Está louco! — gargalhou o minotauro.

— Nunca estive mais lúcido — foi a resposta de Enemaeon estendendo a mão magra e um tanto temerosa na direção do aperto poderoso do capitão — Sei que não tem medo de uma boa aposta, Silverdall. Não é um dos filhos de Tauron? Onde está sua coragem, visto que estamos apostando um dinheiro que ainda nem temos e que talvez nunca teremos contra uma vida?

— Deixe Tauron fora disso, humano — bravejou em resposta estendendo a palma de ferro, aceitando a aposta. Garlor e Felrond assistiram a tudo sem deixar de sentir um velho e conhecido frio na boca do estômago. Para variar, Enemaeon apostou a vida de outro e não a dele. Mas, visto que já havia perdido a própria, não possuía deveras muita opção.

(…)

O mundo girava em torno de Villvert, e assim permaneceu por longos e extenuantes minutos até ele próprio compreender que era ele quem dava voltas. Amarrado pelos pés do lado de fora da Taverna do Cão Negro, balançava ao sabor do vento no pilar que outrora sustentou a placa com os dizeres “Bem vindos os que tiverem para gastar”. A nuca ainda queimava em brasa.

Gesphen estava sentado próximo, tentando afagar os cabelos de Liandra, uma mulher que apesar do semblante jovial estava com uma aparência horrível de morte em vida. Suja de sangue, vestida para uma cerimônia de casamento, tentava vez em quando morder os dedos do bardo vestido de negro. O alaúde repousava ao lado, esquecido por hora. Villvert tentou falar, mas sentia-se cansado demais até para gemer. Foi Gesphen que quebrou o silêncio com uma cantiga que fez com que a mente do guerreiro explodisse em dor.

“Merodach, pai do mal
Sejas para sempre temido.
Entre as sete arcas da morte
Guardadas no túmulo de Al-Kapeera”

A música. Então enfim haviam se encontrado, mas a derrota estava ao lado dele. Mesmo naquela situação, o rosto vermelhecido pelo tempo demasiado longo em que fora mantido dependurado como carne secando ao sol permitiu o desabrochar de um sorriso; ironia e ódio. Gesphen afastou o rosto de Liandra carinhosamente e levantou-se. Em três passos havia alcançado Villvert.

— Esteve me caçando. Posso saber o motivo?

Apenas silêncio como resposta. Com um dar de ombros, o bardo continuou:

— A vila de Fehvar, não é? — sorriu com aquele rosto estranho que era apenas pele sobre treva, Villvert notou. Ele estava se deliciando com a ira que apenas aumentava no coração do homem capturado — Sim, foi no dia em que vim a esse mundo. Lembro-me bem do lugar. Apenas agricultores e artesãos pulguentos. Gente sem importância. Nasceram e morreram na ignorância da vida campestre. Plantando, comendo, tendo filhos, criando cães…

Novamente apenas o silêncio. O bardo chutou os pertences de Villvert, abaixou-se e recolheu o pergaminho que ele havia recebido do clérigo no templo de Thanna-Toh semanas antes. Ergueu-o diante dos olhos, leu e sorriu.

— Você é um guerreiro impressionante. Matou e aleijou várias de minhas noivas. Teria acabado com todas se não fosse por Liandra. Ela sempre foi a mais esperta. Pena que também dentro em pouco irá murchar. Nosso encontro foi prematuro, guerreiro, mesmo que inevitável. Se sobreviver a esta noite, talvez o destino nos coloque novamente frente a frente.

— Irei rasgar sua garganta e oferecer seu sangue a Keenn, porco do inferno — respondeu Villvert, não mais que um sussurro. Gesphen atingiu-o na face com um tapa único que fez o corpo dele voltar a girar, agora mais rápido.

— Que os lobos o devorem, guerreiro— despediu-se. Tomou o alaúde nos braços e partiu tocando uma marcha lenta que logo se misturou ao canto noturno dos pássaros e ao farfalhar das folhas. Liandra permaneceu ali ainda alguns instantes, observando Villvert girar. Aproximou-se dele, beijou-lhe os lábios e partiu chorando noite adentro.

(…)

No bote leve, remado por dois bucaneiros, Enemaeon assistia o navio de Moranler ancorado no coração do rio-mar ficando cada vez mais distante, menor. Do outro lado, com a cabeça parcamente apoiada sobre os ombros enegrecidos, o zumbi conjurado também parecia olhar para o longe. No tombadilho do navio, Garlor já não podia reconhecê-los. Restava-lhe aguardar pelo desfecho da aposta. Um mês. Uma viagem impossível. Todos sabiam disto.

— Tudo bem, desisto de pensar — suspirou Felrond na outra embarcação, um pouco maior, com uma grande carga coberta por um toldo firmemente amarrado — Como pretende salvar Garlor agora?

— Isto é tudo o que povoa meus pensamentos desde o instante em que Moranler nos deu o ultimato, meu alcoolizado amigo. Mas vou dar um jeito — respondeu o necromante não acreditando plenamente nas próprias palavras — Deve haver um jeito.

— Só há um — tornou Felrond apontando seus dedos delgados para Enemaeon, três deles segurando a garrafa que bebia — Magia. Mas, infelizmente, você é tão mago quanto eu sou imperador-rei.

— Faz pouco caso da minha magia — respondeu Enemaeon apontando para o arremedo de morto-vivo que os olhou de volta, os olhos vazados lacrimejando o caldo do cérebro. Diante daquilo, tanto o elfo quanto o mago permitiram-se gargalhar com gosto, deixando ainda mais assustados os dois marinheiros que esforçavam-se para não vomitar o almoço devido ao cheiro quase insuportável do cadáver.

— Para que o trouxe? — tornou Felrond secando as próprias lágrimas — Digo, literalmente, é um fardo morto.

— Ele nos vai ser útil ainda mais uma vez antes de ser descartado. Se não fosse por nosso amigo mal-cheiroso, talvez nós não estivéssemos vivos hoje.

— Espera que ele mostre as coxas para que possamos conseguir carona? — brincou Felrond mais uma vez, agora já próximo da praia de areia escura formada pelo rio. A segunda barcaça bateu de encontro na areia e rapidamente oito homens largaram os remos e começaram a desembrulhar o fardo que sacudia e guinchava sob o tecido.

— Por todos os demônios do inferno, o que Moranler colocou nesta espécie de caixote com o qual nos presenteou?

— Isto não é coisa de Moranler não, velho. Fui eu que pedi — sorriu Felrond que já havia deixado o bote e com água pelos tornozelos, puxava a embarcação para a margem. Os carregadores mal haviam terminado de desamarrar a coisa quando num impulso único, a lona foi rasgada e o animal que estava lá dentro saltou para a liberdade, trotando em torno de ambos. Eriçando as penas do lombo e arranhando a grama sob os pés, o grifo aleijado guinchava e rosnava feliz, recebendo atenção e carinho por parte do elfo. Enemaeon, no entanto, preferiu se manter afastado o máximo possível.

— Explique-se, Felrond.

— Lembra-se dele? Estava na mansão daquele velho apodrecido em Ciela. Arrancaram suas asas, mas ainda assim é um grifo. Moranler o capturou como espólio ao saquear Dahar, talvez pretendesse vender para algum mago louco; sem ofensas. Consegui convencê-lo a me dar em troca de…

— Em troca do que? — perguntou Enemaeon trincando os dentes, as mãos involuntariamente dirigindo-se ao pescoço do ébrio. Felrond, pressentindo que falara demais, afastou-se um passo — Não me diga que você…

— Bem, não há mais motivo para esconder. Sim, em troca do Grifo, eu contei a Moranler onde Garlor escondeu o fragmento do medalhão.

 Continua…

Armageddon • 03/08/2016

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