O Enigma das Arcas, Ato XVII — Verdades

Começa a corrida de Enemaeon e Felrond em direção ao capital do mundo, Valkaria. E o prêmio é a vida de Presas de Prata! O que espera pelos dois durante essa jornada contra o tempo?

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Até agora, no Enigma das Arcas…

Enemaeon de Ridembarr é um necromante que após uma malsucedida invocação teve o coração arrancado e substituído por um artefato maligno: o Coração do Corruptor. Para se livrar dessa maldição, ele partiu em uma jornada para decifrar o Enigma das Arcas, que supostamente possui a resposta para salvar sua alma.

Mas ele não está sozinho. Contando com a ajuda dos antigos companheiros de aventura: o ladrão clérigo Garlor “Presas de Prata” e o elfo arqueiro com sérios problemas com bebida, Felrond, eles partiram pelo Reinado enfrentando inúmeros perigos (na verdade, quase sempre o perigo são eles…)

Nos últimos capítulos, após escapar por um triz de morrer enforcados em Ciela, o trio despertou preso nos porões do Tortura, uma das inúmeras naus de piratas que vagam pelo Mar Negro, capitaneada pelo ex-corsário Moranler Silverdall. Numa tensa negociação, Enemaeon convenceu o capitão a se juntar a ele na demanda pelo Templo de Al’kapeera. 

Porém, o necromante não estava de posse de todas as cartas vencedoras como imaginou a princípio…

Ato XVII – Verdades

O corpo de Felrond, o elfo banido há décadas de Lenórienn e vendido como escravo em Tapista, girava balançando lentamente ao sabor do vento, pendurado pelo pescoço por uma corda de sisal sob a sombra frondosa de um salgueiro. Próximo, Enemaeon fumava sossegadamente soprando fumaça para o alto, esperando por algum último espasmo involuntário dos músculos delgados do filho de Glórienn.

Foram esses pensamentos funestos que confortaram Enemaeon e o impediram de sucumbir a ira e esganar o elfo realmente e não apenas em sonho.

— Por qual razão você acreditou que essa era uma troca justa? — queixou-se o mago, descontando a raiva na carcaça do zumbi pirata. Aplicou um chute na altura do peito do cadáver, que, desajeitado, caiu para trás. A cabeça parcialmente descarnada desprendeu-se do corpo e rolou de lado. Ela parecia sorrir. Vendo aquilo, o elfo gargalhou alto, tomou o último e derradeiro gole da garrafa antes de lançá-la nas águas tranquilas do rio Panteão.

— Essa vida louca realmente não faz bem pra você, velho — comentou Felrond enfiando a mão nos bolsos e retirando dali o medalhão dourado. Arremessou a joia em seguida para necromante que o pegou em pleno ar — Pode conferir, depois da lição em Paltar eu jamais seria enganado novamente. Essa droga está em meus pesadelos todas as noites. Ele e uma tina d’água.

Enemaeon analisou a peça longamente e então voltou os olhos curiosos para Felrond que, distraído, acariciava as penas da cabeçorra do grifo. Notando que era observado, explicou-se sem prolongar demais a narrativa — Garlor me entregou. Foi pouco antes de partirmos do Tortura.

— E o que você contou a Moranler? Digo, em troca do grifo.

— Contei a verdade. Que o medalhão estava no estômago de nosso amigo morto-vivo e que por isso você fazia tanta questão de levá-lo consigo nessa jornada maluca. Obviamente, o capitão não acreditou apenas em minhas palavras. Então Moranler e eu esvaziamos o bucho do infeliz e achamos a peça. Foi uma experiência terrivelmente lúdica. Satisfeito, o capitão me entregou o prêmio e recolheu o medalhão.

— E nesta madrugada Garlor tornou a furtá-lo, devolvendo para você — surpreendeu-se Enemaeon pela engenhosidade do plano até ali — Provavelmente ele nunca iria desconfiar que daríamos a guarda da peça justamente para quem nos traiu até ser tarde demais. No entanto, vocês não contavam com a exigência de manter Garlor cativo. Provavelmente Moranler previu a jogada, ou deu pela falta do medalhão antes do esperado e manteve o trunfo.

— Pode ser. Não pensei muito no assunto pra ser sincero, não sou esperto. Por isso procurei Garlor falando do meu interesse pelo mascote emplumado e ele inventou o plano todo. Até disse algo como fazer parte das obrigações dele como clérigo e que estava entediado. Procurar pelo esconderijo do medalhão seria um passatempo. Não esperávamos problemas com o navio em Gorendill, o que nos dava ainda alguns dias para sumir durante a noite. Talvez hoje mesmo.

— Deveriam ter me colocado a par desse plano — queixou-se Enemaeon iniciando a caminhada rumo a cidade que marcava o coração do continente. Felrond deu de ombros, montando sobre o animal e trotando ao lado do mago. Vendo que o gato negro também os seguia, disse num desabafo:

— Você sabe que está reclamando sem motivo. Fala como se você nos dissesse muito sobre todas as ideias malucas que teve. Apostar a vida de Garlor? Onde estava com a cabeça?

— Eu não sabia que…

— Que tinha perdido o medalhão? — provocou o elfo apoiando-se sobre as costas largas do grifo que fuçava e farejava o chão diante do caminho — Achava que estava por cima, com todas as cartas ganhadoras. Não sabia o quão perto chegou de foder com tudo. Na pior das hipóteses, iria salvar o próprio rabo às custas da pele de Garlor.

As palavras de Felrond atingiram o mago em cheio. Talvez inconscientemente Enemaeon houvesse mesmo planejado tal coisa. Apostado a vida do último e único amigo nesse mundo em troca da salvação da própria alma. Teria ido tão longe sem sequer se dar conta? Era uma resposta que ele ainda não tinha e de qualquer forma se recusava a aceitar ou admitir. Concluiu:

— Bobagem — respondeu, apenas um fio de voz — Não havia outra escolha. Ele nos mataria os três naquela hora se não tivesse aceito as condições que impôs. Se conseguirmos… não, quando conseguirmos — pontuou — Garlor será um homem rico para sempre. E então eu terei pago pelo menos parte da dor que lhe causei anos atrás.

— Está falando merda novamente. Nem todo o ouro de Arton pode apagar o passado, velho. E sendo completamente sincero, está mais do que na hora de vocês dois colocarem uma pedra sobre isso. Ela teria esquecido de vocês dois meia semana após o acontecido. Sandra era uma mulher guerreira. E se eu não a tivesse visto nua, poderia apostar que tinha bolas entre as pernas. Que caráter! E que corpo, hein? — comentou o elfo lembrando-se da mulher esguia, de músculos firmes forjados pelas lutas.

— Não fale assim dos mortos — ralhou o mago observando o andar lento do grifo de soslaio.

— Não disse nada que você possa discordar. Ou vai dizer que nunca… — ironizou o elfo deixando a frase no ar. A pele flácida e sem vida de Enemaeon corou por um instante, o que foi facilmente notado pela aguçada visão do elfo que explodiu em risadas — Não fique assim. Até eu acabei provando do mel de Sandra. Não podemos culpar uma mulher por gostar de sexo.

— Mas para Garlor ela era mais do que companhia. Ele gostava mesmo dela. E por minha causa ela morreu. Será que não compreende isso?

— Está sendo trágico. Sandra vivia de matar pessoas, era uma mercenária. Fazia parte da Guilda por vontade própria. Se ela morreu em missão de um jeito idiota, não foi por culpa de mais ninguém a não ser dela mesma. E você dando uma de tão esperto pra cima de nós já deveria ter entendido isso. Mas quanto a vida de Garlor, agora o jogo é outro. Como pretende ir e voltar de Valkaria em tão pouco tempo?

— Só precisamos nos preocupar de chegar lá. Se tudo der certo, estaremos na capital em vinte dias. Voltar será um mero detalhe.

— Então chega de conversa e monte. Seguindo a pé, levaremos vinte anos pra vencer essa distância. Pelo visto, me preparei muito mais para salvar a vida de Garlor que você.

(…)

Camila já havia viajado por essa estrada antes, mas tinha propositalmente evitado a vila de Selentine na ocasião. Porque em Selentine vivia Glassard e ela não queria respirar o mesmo ar que ele nem por acidente se pudesse evitar tal coisa. Infelizmente dessa vez não tinha escolha. As ordens de Cecili não pareciam fazer sentido, mas já havia algum tempo em que nada mais fazia.

Trotou sobre a ponte que cruzava o rio Nerull ouvindo o barulho gostoso das ferraduras do cavalo de encontro às pedras do calçamento. Isso mostrava o quão rico o vilarejo era. Um lugar famoso por produzir objetos em vidro, além de toda a sorte de cristais. A qualidade incomum desses garantiram fama e riqueza àquela gente. Provavelmente, era o único lugar de Arton em que quase todas as casas tinham janelas transparentes, até mesmo as mais humildes.

Não que Camila gostasse disso. Tinha a impressão de que haviam olhos sobre ela o tempo inteiro.

A praça estava atulhada de gente esnobe, vestidos de maneira exagerada e pomposa. As mulheres protegiam-se do fraco sol da manhã com sombrinhas. Quando passavam, os homens erguiam chapéus. Todos suavam dentro de roupas pesadas de linho, incondizentes com a época do ano. Boa parte daquilo era uma tentativa pífia de conseguir um ar de nobreza para aquela burguesia do interior. Só as crianças pareciam normais. Corriam sujas e meio despidas entre os cavalos, barracas e pessoas.

As memórias sobre Selentine continuavam tão nítidas que acreditou ser capaz de cavalgar de olhos fechados. Nada havia mudado. A oficina que ela procurava ficava em um galpão, um pouco além do belo templo. Quando passou sob a luz que refulgia de uma réplica da estátua de Valkaria — toda de cristal — sentiu-se bem. Era uma aventureira, afinal.

— Mas para mim isso é trabalho. — falou para a imagem num tom casual. Orava para a deusa às vezes. Num mundo com tantos, proteção adicional nunca era demais.

Esporeou o animal para correr um pouco mais, procurando ganhar tempo. Quando enfim avistou a tabuleta, apeou de forma ágil e precisa. Se Nimb rolasse bons dados, seria rápida e partiria imediatamente sem precisar encontrar-se com o proprietário. Mal havia adentrado o portão principal quando ouviu os berros vindos lá de dentro. Algo nela amaldiçoou Nimb em resposta.

Um dos empregados a notou e fez menção de barrá-la. Desistiu quando ela puxou um cordão que trazia no pescoço, mostrando o símbolo dos mensageiros de Tanna-Toh: um cavalo alado com um pergaminho. Ser reconhecida não deixava de ser surpreendente. Cada vez menos pessoas lembravam dos mensageiros, já que restavam pouquíssimos no mundo. E menos ainda lembravam dos códigos e decretos de livre acesso dos quais eles usufruíram nos velhos tempos.

— Vim entregar uma carta. Você poderia…

— Sinto muito, mensageira. Mas não. — respondeu o homem sujo com um sorriso torto, mas tentando ser polido — Cada um com o seu trabalho. E eu também gostaria de evitá-lo, se possível.

— E quem não gostaria? — lamentou ela. E em pensamentos: Pelo menos ele não lembra mais de mim. Seria ótimo se aquele puto também não lembrasse.

Dali em diante, encontrar Glassard foi fácil.

— Esta condição é inaceitável! — berrava ele enquanto arremessava peças de vidro de centenas de tibares contra a parede ao fundo e errando os artesãos que circulavam ali por muito pouco — Inaceitável! Querem arruinar minha reputação com trabalhos menores? Isso é lixo! Lixo! Lixo!

Era de certa forma triste que aquele homem bem vestido e com o cabelo impecavelmente penteado fosse o mestre vidraceiro mais conhecido e respeitado do mundo. Cada peça da sua oficina era uma obra prima, era verdade, e trabalhar ali era o sonho e objetivo de qualquer aprendiz. Por outro lado, o perfeccionismo doentio de Glassard o transformava em um homem extremamente exigente e completamente intragável.

E lá vamos nós. — pensou Camila antes de começar a recitar as palavras antigas dos mensageiros. — Hernest Glassard, vidraceiro de Selentine, é uma mensageira que o chama. Apresente-se sabendo que minha espada…

Mal havia começado a litania quando um daqueles enfeites cristalinos voou na sua direção. Com um movimento tão veloz da espada que Glassard sequer foi capaz de ver, Camila desviou a peça para o lado, destruindo-a de encontro ao chão. Meio segundo depois, estava ao lado dele, com uma das mãos na garganta magra e frágil do artífice e a outra segurando a espada à meio centímetro de lhe arrancar um dos olhos.

— Lembra qual é a pena por atacar um mensageiro, Glassard? Ou já esqueceu?

— Você! — exclamou o outro, a voz falhando um oitavo acima.

Parece estar vendo um fantasma — pensou ela, divertindo-se com a situação. De certa forma, ela era mesmo um. Pronunciando as palavras há muito decoradas, prosseguiu:

— Apresente-se sabendo que minha espada é reta. Que minha palavra é única e que minha missão é santa. Trago uma carta para Hernest Glassard. Jura diante de uma mensageira que é você?

— Você sabe muito bem que sou eu, sua cadela imunda! — respondeu ele em resposta, a voz um grunhido baixo por falta de ar — Como pode estar viva? Você foi condenada à morte. Eu vi!

— Viu mesmo. — respondeu ela, simplesmente soltando-o. O homem se atrapalhou surpreso e caiu para trás. Foi sobre ele, jogado ao chão, que Camila lançou a décima segunda carta de Cecili. Que missão absurda — pensou ela — Entregar uma carta para um dos meus algozes. Se não o pior, o principal responsável por minha condenação.

Ainda atarantado, Glassard abriu o selo da carta e leu seu conteúdo. Repetiu isso duas vezes cruzando olhares perplexos com Camila antes de levantar-se, tirar o pó das roupas e se recompor. Com um suspiro desolado, dirigiu-se a ela:

— Que seja, então. Tenho algo para você — falou, o brilho superior perdido em algum lugar naquele olhar — Confiarei a ti minhas palavras.

— Você não teria coragem… — cortou ela, perplexa.

— Duvida? — zombou Glassard em resposta — Pois ouça bem, mensageira: Esse é meu pedido. Rogo aos deuses que cumpra seus votos: preciso que leve uma carta!

Continua

Armageddon • 25/04/2017

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