Castanha de Kaiju — Defendendo os Defensores

Confira a última coluna de Bruno "BURP" Schlatter falando de um de seus assuntos preferidos: tinha que ser 3D&T, certo?

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Depois de um longo hiato, voltamos à programação normal. Com o site da Jambô retomando suas funções, quero dar um pouco mais de regularidade a esse meu pequeno cantinho na editora do que estava fazendo anteriormente, por uma série de razões (das quais acho que posso destacar: falta de pautas, o retorno da Dragão Brasil, atribulações com outros projetos dos quais vocês devem ouvir falar eventualmente, e coisas afins). Sem promessas, mas não quero deixar tanto tempo passar entre uma coluna e outra novamente

Especificamente hoje, queria aproveitar o espaço para falar um pouco de um dos meus lançamentos do final do ano passado. Foi um período bem curioso, aliás, aqueles últimos meses de 2016, em que, de uma hora para outra, uma pilha de títulos com o meu nome entre os autores foi publicada. Só Aventuras, Mundos dos Deuses, Crônicas da Tormenta… tudo devido a uma grande coincidência, claro: eram projetos que já estavam sendo preparados há mais tempo, em certos casos mesmo alguns anos, e, com os adiamentos e reorganizações editoriais, acabaram saindo todos quase simultaneamente. Mas foi divertido ver acontecer!

O livro do qual quero falar, em todo caso, foi um dos primeiros a sair: o Manual do Defensor. É um livro bastante especial para mim, pois é talvez o ponto culminante de tantos anos escrevendo material para 3D&T em sites e blogs internet afora. Acho que posso fazer o meme e dizer que, quando cheguei aqui, era tudo mato — a época da internet discada, quando uma conexão de 14k era considerada ótima, e servidores gratuitos como Xoom e Geocities davam espaço para sites pessoais de conteúdo duvidoso. Um deles pertencia a um pequeno mancebo em idade escolar que havia aprendido meia dúzia de comandos em HTML e programava a página usando o Bloco de Notas do Windows, e resolveu que seria legal colocar uma sessão com textos sobre RPG, hobby que estava começando a conhecer através de livros-jogos como Aventuras Fantásticas (hoje publicados como Fighting Fantasy) e revistas como a Dragão Brasil original.

Foi o começo de uma caminhada bem longa, que eventualmente chegou nessa coluna que vocês estão lendo. Não sei precisar exatamente quando passei a me voltar para o 3D&T com mais frequência do que outros jogos. Acho que foi um processo natural, por ser um sistema simples e fácil, e o que eu conseguia jogar com mais frequência; sem piadas, lembro de ter perdido tardes inteiras montando personagens de D&D que foram usados por dez minutos antes de a sessão acabar para um dos jogadores atender a um compromisso, enquanto com 3D&T eu montava um personagem e usava em duas aventuras no mesmo dia! Não é por acaso que é um sistema tão popular para adaptações, hacks e mods de regras por aí: é muito fácil torcer seus poucos regulamentos para adequá-lo a muitos estilos de jogo, permitindo, com alguma criatividade, fazer aventuras em incontáveis cenários diferentes.

É dessas adaptações e modificações que nasceu o Manual do Defensor. Lembro que o anúncio original do livro me descrevia como “uma das maiores autoridades do sistema”; não acho que seja para tanto, honestamente, mas, sem falsa modéstia, eu de fato tenho bastante orgulho de algumas coisas que escrevi, e achava que elas mereciam um destaque maior do que uma postagem avulsa em um blog. A isso se somava ainda uma necessidade própria do 3D&T, um livro que falasse abertamente sobre como customizar e personalizar o sistema para se adequar ao seu jogo, independentemente do cenário usado, e oferecesse regras alternativas e opções para estilos diferentes de campanhas – resumindo, um livro que preenchesse o nicho do Livro do Mestre, de D&D, ou do Manual do Malfeitor, de Mutantes & Malfeitores.

Juntei a fome com a vontade de comer, enfim, e comecei a reunir o material que possuía. Leitores antigos de sites que colaborei certamente reconhecerão diversas das novas regras apresentadas — os conflitos genéricos e a nova característica Reputação saíram do 3D&T Rock Band, enquanto as regras para usar cartas de baralho no lugar de dados vieram de uma adaptação do clássico RPG Castelo Falkenstein para o sistema. Mas há muito conteúdo original também, desenvolvido especificamente para o livro, ampliando e discutindo ideias que surgem das discussões realizadas sobre o funcionamento do sistema, ou então para oferecer opções de jogo tradicionais de RPG que não eram cobertas pelo 3D&T básico (alguém falou em combates entre exércitos e/ou usando miniaturas?).

Em alguns capítulos, tentei aproveitar o espaço para preencher lacunas históricas do sistema. Por exemplo, há uma expansão bastante significativa das regras e opções para perícias, que sempre foram um elemento bastante negligenciado por jogadores. Com as novas regras, espera-se que elas se tornem mais interessantes, e que os próprios mestres tenham mais opções ao incluir desafios relacionados a elas nos seus jogos.

Outro ponto importante que o Manual do Defensor tenta suprir é o de ser um elo de ligação entre os diversos livros de cenário lançados nos últimos anos. Regras que aparecem originalmente em um contexto específico — por exemplo, as regras de personagens com limitações de Mega City Contra-Ataca — aqui são revisitadas e ampliadas, para que possam ser aproveitadas em situações diferentes. Da mesma forma, foi feita uma pequena compilação de vantagens e desvantagens dos diversos livros, revisadas de forma a poderem ser aproveitadas em outros cenários. A ideia é que munido do Manual 3D&T Alpha (para as regras básicas), do Manual do Defensor (para opções e regras avançadas) e dos livros do seu cenário de preferência (para ambientação e regras específicas), você possa ter a experiência o mais completa possível.

Por fim, o capítulo final apresenta ainda uma pequena surpresa: um conjunto de oito mini-cenários para campanhas usando o 3D&T. Há uma conexão tão forte entre o 3D&T e algumas ambientações, especialmente Tormenta, que às vezes as pessoas esquecem que, mesmo que funcione melhor dentro de um estilo específico de jogo (histórias de ação explosiva), ele ainda é um sistema genérico. Trazer estes mini-cenários foi a forma que encontrei de lembrá-los disso: de que ele oferece possibilidades muito maiores do que apenas três ambientações oficiais.

Os próprios cenários foram escolhidos com esse critério, para tentar explorar as novas possibilidades apresentadas com as regras do livro, e que não cobrissem os mesmos nichos que os publicados oficialmente. Assim, há um cenário de mechas, mas ele é bem diferente de Brigada Ligeira Estelar — em vez de ficção científica, é uma fantasia medieval com robôs, inspirado em mangás e animes como Broken Blade e Aura Battle Dumbine, e um conflito político que reflete a queda do Império Romano e ascensão do Reino dos Francos. Há cenários de alta fantasia, mas todos bem diferentes de Tormenta — um é uma tecnofantasia que se inspira diretamente em Final Fantasy e RPGs eletrônicos japoneses; outro, um universo guarda-chuva sobre um grupo de patrulheiros dos planos de existência; outro ainda, um cenário inspirado pesadamente na mitologia e história japonesas. Há espaço ainda para um cenário cyberpunk com elementos de ocultismo, um de invasão alienígena inspirado por super sentai e tokusatsu, um pós-apocalíptico, e mesmo um sobre o mundo da música na Cidade das Cidades.

Vou dizer que, desenvolvendo as histórias dos cenários, acabei criando um carinho especial por alguns dos personagens e enredos (isso deve ser óbvio para quem ler o livro, aliás, quando se der conta de que alguns cenários ocupam muito mais páginas do que outros…). Minha ideia era de que eles ficassem contidos apenas nesse livro, como embriões de campanha que todo mestre e grupo de jogadores podem aproveitar — mas quem sabe, se houver interesse do público, algum deles não possa ser melhor desenvolvido no futuro… O único que, talvez, eu eliminaria se estivesse escrevendo hoje, é O Império do Sol, o cenário oriental. Digo isso porque, à época, me parecia um cenário relevante: uma fantasia oriental inspirada por animes e jogos de videogame, sem nenhum semelhante para um RPG que praticamente se originou deles. Com o lançamento do Império de Jade anunciado, no entanto, e sabendo que muitos jogadores de 3D&T certamente aproveitarão a ambientação mesmo que o livro seja de outra linha, me parece que ele ficou redundante, e talvez pudesse ser trocado por outro mais original. Mas está lá, foi feito com todo carinho e apreço (pois eu mesmo sou apaixonado pelo assunto), e acho que ficou uma alternativa interessante dentro do tema de qualquer forma.

Acima de tudo, é importante lembrar que o Manual do Defensor não veio para mudar o 3D&T simples que todos conhecem e amam. Ele está lá apenas para fornecer opções: algumas podem de fato deixar o jogo mais complexo e robusto, enquanto outras, ao contrário, até mesmo o tornarão mais simples. Mas nada ali é escrito em pedra. Tudo pode ser debatido pelo grupo, modificado, ignorado. Mas tenho para mim que, em um livro com opções tão heterogêneas, todos deverão encontrar alguma coisa que o agrade. Ou, pelo menos, eu espero que encontre (e peço desculpas se não encontrar).

Jé leu o Manual do Defensor? O que achou? Deixe suas impressões nos comentários!

BURP • 10/04/2017
tags: 3D&T

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