O Enigma das Arcas, Ato XVIII — O Capitão Nun

O Rio Panteão é protegido por um velho corsário que fará de tudo para impedir o avanço de Moranler e Garlor em direção ao norte. Piratas e pistoleiros lutam diante do cais de Gorendill nesse capítulo do Enigma das Arcas!

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Até agora, no Enigma das Arcas…

Enemaeon de Ridembarr é um necromante que após uma malsucedida invocação teve o coração arrancado e substituído por um artefato maligno: o Coração do Corruptor. Para se livrar dessa maldição, ele partiu em uma jornada para decifrar o Enigma das Arcas, que supostamente possui a resposta para salvar sua alma.

Mas ele não está sozinho. Contando com a ajuda dos antigos companheiros de aventura: o ladrão clérigo Garlor “Presas de Prata” e o elfo arqueiro com sérios problemas com bebida, Felrond, eles partiram pelo Reinado em busca da chave do templo de Al’kapeera, um medalhão de ouro partido em três partes.

No últimos capítulo, após convencer o capitão pirata Moranler Silverdall a se unir a maldita demanda, Enemaeon e Felrond partiram pelo reino de Deheon em direção a Valkaria numa corrida contra o tempo cujo prêmio é a vida de Garlor. Enquanto isso, o Tortura terá que enfrentar um velho mal que aguarda em Gorendill…

Ato XVII – O Capitão Nun

Não se ouvia qualquer ruído no convés do Tortura, exceto pelos parcos estalos da madeira acomodando-se à água gelada do rio e o estirão das cordas puxadas pelas velas da nau. Não havia uma única tocha ou lampião iluminando as trevas. Escondidos nos porões, não eram mais piratas. Haviam se transformado em meninos assustados, que rezavam aos deuses da sorte para que tudo ocorresse da melhor maneira possível. Oravam pelas próprias vidas, que valiam pouco, mas era o que tinham.

Dois vultos vagavam pelo convés, sussurrando palavras de ordem para todos os outros que permaneciam ocultos nas sombras, cabeças baixas, pistolas e sabres preparados. Observavam a movimentação no porto como quem atravessa o covil de um dragão temendo acordá-lo. Garlor era um deles. Mas o clérigo de Hynnin não mais rezava. Já havia colocado o destino nas mãos dos deuses e no último fiapo de esperança de que Enemaeon sabia o que estava fazendo. O outro era mais do que um homem. Moranler, o imenso minotauro albino. Os olhos de rubi fixos num único barco: o Tumor.

O Capitão Nun foi conhecido por muitos anos como “o câncer do grande rio”. Um dos piratas mais sanguinários que já viveu em Arton, dominando como poucos os segredos da navegação naquelas águas corrediças do rio Panteão e dos Deuses. Décadas atrás, havia matado e roubado muito mais do que o necessário, a ponto de ser considerado uma ameaça pelo próprio Reinado. Mas a idade e o tempo eram implacáveis e na velhice conseguiu comprar seu perdão das mãos de Phillidio, na época, Imperador-Rei. Desde este dia, estabeleceu-se como responsável pela segurança do porto de Gorendill para viver uma falsa aposentadoria.

Mas a verdade era outra. Com a anistia imperial, ele continuou matando e roubando, dessa vez de outros piratas. Seu navio, o Tumor, era uma galé de madeira escura com três mastros para a descida e impulsionada pelos remos de escravos rio acima, acorrentados pelos pés e ritmados pelo tambor e pelos chicotes. Apesar de oficialmente não existirem nos registros dos governantes de Gorendill, e por isso eram invisíveis aos olhos do Reinado, boatos sobre um destino pior que a morte aos remos no Tumor eram contados em vários dos portos menores nas cidadelas ribeirinhas.

Para a felicidade de muitos, também haviam rumores cada vez mais frequentes sobre a grave doença de Nun. Diziam que o velho pirata estava morrendo. Não que isso fosse de alguma serventia naquela noite para os homens no Tortura, mas era reconfortante imaginar que o velho carcomido pelos anos enfim iria acabar numa cova rasa devorado pelos vermes. Esses pensamentos iam e vinham na mente de Moranler enquanto observava o cais. E a sensação que outros podiam chamar de medo lhe subiu pela espinha quando reconheceu a figura que lhes olhava de volta.

Não havia dúvidas. Estava sob a luz parca da lamparina única no cais. De pé, meio misturado ao relento, arfava. A pele queimada pelos anos ao sol num tom quase rubro, cabelos e barbas completamente brancos, trajando um sobretudo de capitão. Silverdall sabia. Tratava-se do homem que mesmo velho trazia aquele brilho assassino implacável nos olhos. As costas arqueadas (dizem que pelo peso dos crimes que cometeu) soergueram-se um pouco. Ergueu a mão em saudação. E, ao baixá-la, deu o sinal que seus corsários aguardavam. Os primeiros tiros de canhão ressoaram na noite.

— Tiro! — berrou Moranler pouco antes de metade do convés explodir em fragmentos de madeira e ferro. Dois dos bucaneiros morreram na mesma hora, atingidos pelos estilhaços. Outros três estavam feridos e inutilizados. Era tarde demais para negociações. Moranler passou a ditar ordens e elas eram cumpridas de pronto. A bandeira pirata foi hasteada e os tiros começaram a ecoar também em direção ao porto.

A bombordo e estibordo, duas galés aproximavam-se ameaçadoras, saindo das brumas. Estavam lotadas de mandriões sujos, espadas em mãos e punhais entre os dentes apodrecidos. Alguns deles avançavam ainda armados com pistolas. Cada um dos navios carregava um canhão repleto de pólvora, o cano cheio de correntes e pregos. Matariam todos, sem dúvida. Mais dois tiros explodiram a partir do cais, mas atingiram a água apenas. O atirador seria chicoteado por Nun mais tarde.

De posse do timão, Moranler lutava contra as águas contrárias do rio. Colocou mais homens para remar e o imediato apressou-se em lembrá-los que o faziam pelas próprias vidas. Mais tiros de canhão, agora das embarcações que os cercavam. Um projétil surgiu através da madeira, criando um rombo de meio metro no casco e arrancando as pernas de um pirata. Pregos encravaram profundamente na madeira e na carne e os homens gritavam de dor e medo.

Mas era vez do Tortura revidar. Os quatro canhões da nau — um dos orgulhos de Moranler — explodiram num só estampido, causando pesadas baixas nas galés adjacentes. A perda de parte dos escravos atrasou os captores, permitindo que o navio ganhasse distância. Quando uma ponta de esperança surgiu, as primeiras cordas foram arremessadas, se enganchando na madeira. Dois piratas se apressaram em cortar o cânhamo com golpes de machado. Foram baleados em resposta.

— Envie os arqueiros para bombordo! — ordenou o imediato enquanto Moranler manobrava, os olhos fixos no último e mais perigoso navio que os perseguia, o Tumor de Nun. Novos disparos de canhão, desta vez mais precisos. Um dos mastros foi atingido e caiu sobre o convés, as cordas rasgando o ar e levando alguns homens consigo. Havia fogo em vários pontos, os pequenos focos combatidos com baldes d’água.

Apenas alguns dos quarenta tripulantes possuíam armas de fogo, mas outras tantas foram distribuídas. A abordagem agora não tardaria. As galés menores e leves eram muito mais velozes do que a pesada nau marítima de Moranler, e logo emparelharam novamente. Mais ganchos foram arremessados e os barcos puxados uns contra os outros. Como última ordem, o minotauro berrou que um novo disparo fosse efetuado. O solavanco derrubou barris e homens, mas foi efetivo. A embarcação da direita se partiu e começou a adernar, afundando depressa.

Sem outra alternativa, os piratas passaram à abordagem, nadando e buscando ganhar o tombadilho, escalando pelas cordas. Eram mortos aos pares, com tiros e golpes de espada. Mas também matavam, e cada morte no convés era sentida pesadamente pelos tripulantes em número inferior. Mas era nessa situação que Garlor Presas de Prata gostava de lutar.

Inconscientemente, talvez ele desejasse a morte. Pelo desprezo pelo próprio caminho de vida, pelos crimes cometidos ou pela perda da mulher que amou, há muito nada mais importava. Mas quando vários inimigos se punham entre ele e o fim, sacava os punhais que lhe conquistaram a alcunha e lutava. Num ímpeto desmedido, esquecia de tudo e apenas cortava e matava. Um pirata, golpeado no rosto, teve a mandíbula rasgada. Outro perdeu meia mão.

Um terceiro preparava um disparo, mas não teve tempo. Girando sobre os calcanhares, Garlor levou a lâmina rente a pele do oponente, subindo pela coxa e o atravessando até a altura do peito. Os intestinos logo jorraram pela fenda no abdômem. O homem caiu no mesmo instante em que o ladino chutou suas armas, que giraram através do convés até as mãos de um dos mercenários aliados.

Àquela altura, Moranler também já lutava. Poucos tinham coragem o suficiente para se aproximar dele, em toda sua altura de touro, os olhos eram manchas vermelhas no corpo albino. Um colosso que apenas com as mãos nuas fraturava ossos. Quando decidiu que era a hora, avançou na direção dos invasores em silêncio. Foi atacado por um golpe de espada. Tirou a arma das mãos do homem como se este tivesse apenas doze anos. Quebrou-lhe o pescoço com um golpe único na nuca. A espada foi arremessada e enterrou-se profundamente nas costas de um outro. Tombavam. Mas continuavam vindo.

O ânimo inicial dos captores deu lugar ao receio causado pelo medo da morte. Os tripulantes do Tortura foram reduzidos em número, selecionados pela batalha. Eram pouco menos de vinte agora, mas eram os melhores. E estavam sedentos por matança, gritando e ameaçando. A segunda galé praticamente vazia estava apinhada de corpos. Os atiradores resistiam, recarregando a pólvora nas pistolas entre um disparo e outro. A primeira nau havia naufragado completamente. Mas a terceira e última aproximava-se ameaçadora. E era a mais letal dentre elas.

Após tantos disparos, não havia uma única casa em Gorendill que não estivesse iluminada, e pontos dispersos de luz das tochas se moviam através das ruas, indicando grande movimentação de homens no porto. E em meio a breve calmaria nos ataques, a voz de Nun ganhou a noite.Mesmo distantes uma centena de metros, podiam ouvi-lo. E temê-lo.

— Tens duas opções, pirata! — gritou, a voz chiada e velha arranhando a garganta, um dos pés apoiados no canhão de proa — Aceitar os ferros da prisão e salvar a pele ou afundar junto com o que sobrou desta porcaria de barco. Escolha!

Moranler riu. Ele sabia que, na verdade, não tinha escolha nenhuma.

Continua

Armageddon • 22/05/2017

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