Castanha de Kaiju — Elfos & Malfeitores

Para o alto, e por Arton!

Eu cresci lendo histórias de super-heróis. Às vezes tenho a impressão de que a minha formação literária deve mais a Chris Claremont e Jim Lee do que a Machado de Assis e Erico Verissimo – e, muito provavelmente, a minha formação moral e ética também, a julgar por valores que defendo que sempre estiveram presentes em revistas como X-Men, Homem-Aranha e outras tantas.

Outra parte importante da minha formação de leitor na juventude, é claro, vieram dos RPGs. Não vou cair na armadilha aqui de dizer que RPG é literatura, mas é inegável que ambos estimulam áreas muito próximas do nosso cérebro – a nossa necessidade de criar, imaginar, ler, formular e contar histórias. E é fato que desde muito cedo sempre me peguei imaginando como misturar essas duas influências tão presentes na minha personalidade.

Veja que não estou falando aqui simplesmente de jogar um RPG de super-heróis, é claro. É muito fácil pegar um sistema como o 3D&T ou Mutantes & Malfeitores, e rolar minhas aventuras em Gotham City, Freedom City, Mega City ou qualquer outra City de sua escolha. Mas o tipo de mistura que realmente me atrai é a fusão de gêneros completa: criar uma história de super-heróis, dentro de um mundo típico de RPG de fantasia. Um mundo como, digamos, Arton.

Ei, ei, calma aí. Mais cuidados com essas foices e ancinhos na porta da minha casa! Vamos analisar essa ideia com calma.

editora-trpg-devoto-preview1Vendo por cima, é muito fácil encontrar paralelos comuns em histórias de fantasia e de super-heróis: ambas trazem temas de aventura, fantasias de poder, elementos de imaginação e sense of wonder. Isso acontece porque ambas bebem das mesmas fontes, que podem ser resgatadas desde mitologias antigas (e personagens como o Thor não me deixam mentir), mas também porque tiveram exatamente a mesma origem – a literatura popular do início do século XX, em que obras sobre heróis mascarados como A Pimpinela Escarlate e Zorro dividiram espaço com Conan, John Carter e tantos outros dos ícones originários da fantasia moderna.

Isso deve dar conta de porque ambos os gêneros às vezes parecem quase intercambiáveis. Se você pegar um grupo como os Vingadores ou a Liga da Justiça, e colocá-los em uma roupagem medieval, verá que eles se tornam indistinguíveis de aventureiros típicos do seu mundo de fantasia preferido. As bugigangas tecnológicas do Homem de Ferro podem virar feitiços e itens mágicos, os ideais de justiça e liberdade do Capitão América ou Super-Homem podem provir dos dogmas de um deus, o Batman possivelmente tenha alguns níveis de ladino….

É claro que não sou o primeiro a notar isso. Lembro de um artigo muito antigo da Dragão Brasil (na edição #20), que adaptava dois super-heróis, o Homem-Aranha e o Batman, junto com um vilão tradicional de cada um, para um contexto de fantasia medieval genérico (era de uma edição da revista ainda bem anterior a Tormenta). E o mais interessante era que eles faziam sentido! Afinal, em um mundo repleto de dragões, espadas mágicas e varinhas de bola de fogo, um manto mágico de uma deusa-aranha que lhe concede a capacidade de disparar teias e subir pelas paredes não fica de forma alguma fora de contexto.

A própria Arton já possui temas e personagens muito próximos do conceito de super-heróis. Há pelo menos uma personagem confessamente inspirada por eles – a atual sumo-sacerdotiza de Marah, Mylena Marillon, descrita no livro O Panteão que acompanha a caixa O Mundo de Arton, e que, como já confessado pelo Leonel Caldela, é basicamente a versão artoniana do Super-Homem. Mas eu realmente vejo mais do que ela: sempre tive a visão do Paladino, por exemplo, como um super-herói artoniano, um ser de grandes poderes adquiridos em um acidente misterioso, que os usava para resolver problemas e enfrentar vilões; a própria história da sua conversão em vilão tem muito em comum com certas tramas de heróis caídos, inclusive algumas versões alternativas do próprio herdeiro de Krypton, e os desdobramentos do seu legado poderiam render histórias super-heróicas muito divertidas.

Quando você para pra pensar, mesmo a própria Tormenta tem um certo quê de roteiro de super-heróis. Seres alienígenas invadindo o mundo, desafiando grandes heróis e ameaçando a própria existência… É possível citar pelo menos meia-dúzia de mega-crossovers da Marvel e da DC com exatamente esse enredo. E a parte mais divertida, é claro, é que, se para um aventureiro comum as chances de retornar com vida de uma área de Tormenta são ínfimas, para um super-herói talvez não seja tão absurdo a possibilidade de sair no tapa com um Lorde Lekael em pessoa!

No fim das contas, é uma mistura que funciona bem, se você gostar dos gêneros e tiver uma mente aberta o suficiente para fazê-la. É só juntar os dados e sair jogando!

E você? Já imprimiu uma pegada mais super-heróica em suas campanhas de fantasia medieval? Como foi? Deixe suas impressões nos comentários.

BURP • 12/06/2017

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