O Enigma das Arcas, Ato XIX — As Caçadoras de Homens

Os caminhos se cruzam em uma taverna de beira de estrada em Deheon. Enemaeon fica cara a cara com Villvert, o guerreiro de Yuden. Acompanhe esse mórbido encontro no capítulo de hoje do Enigma das Arcas!

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Até agora, no Enigma das Arcas…

Enemaeon de Ridembarr é um mago das trevas que após uma malsucedida invocação teve o coração arrancado e substituído por um artefato maligno. Para se livrar dessa maldição, ele partiu em uma jornada para decifrar o Enigma das Arcas, que supostamente possui a resposta para salvar sua alma.

Nessa jornada, ele conta com a ajuda dos antigos companheiros: o ladrão clérigo de Hyninn Garlor “Presas de Prata” e o elfo bêbado Felrond. Juntos, eles partiram em busca da chave do templo de Al’kapeera, um medalhão de ouro partido em três partes.

Após convencer o capitão pirata Moranler Silverdall a se unir a eles, Enemaeon e Felrond partiram por Deheon em direção a Valkaria numa corrida contra o tempo cujo prêmio é a vida de Garlor. Mas, no meio do caminho, havia uma taverna

Ato XIX – As Caçadoras de Homens

Felrond estava feliz, pois havia uma taverna adiante no caminho. A perspectiva de comer algo quente, beber bem e dormir numa cama seca lhe devolveram o ânimo que os quilômetros da estrada corroeram. Mas, o que encontrou quando enfim chegaram na Cão Negro acabou com sua esperança de descansar tranquilo. O lugar tinha se transformado numa espécie de festim diabólico.

Lobos meio mortos de fome devoravam o que havia restado dos corpos de uma dezena de mulheres vestidas de branco, todas feitas em pedaços. Disputavam cada naco de carne e de osso com rosnados, mordidas e latidos. No centro da algaravia, um corpo masculino amarrado pelos pés na viga principal do teto girava lentamente. Estava pálido como a morte.

Enemaeon não precisou dar a ordem. Felrond puxou uma das garruchas do coldre e disparou um tiro seco que explodiu a cabeça da fera mais próxima. As demais ganiram acovardadas e fugiram correndo logo após um novo tiro e a segunda morte entre os seus.

O elfo se aproximou da porta, arma em punho. Quanto antes limpassem o lugar, mais cedo poderiam descansar da viagem. De qualquer forma, não iriam mais longe naquele dia. O grifo aleijado estava entregue pelas longas horas de trote. Além disso, o clima estava mudando. Ventava muito anunciando a chegada de outra tempestade. Parecia que o mal tempo também os acompanhava, seguindo-os por onde quer que fossem. Quando o último dos lobos foi escorraçado, Felrond se dirigiu até o corpo dependurado como carne no açougue, estacando dois ou três passos antes dele por ordem do mago.

— Algum problema? – inquiriu, todo cautela.

— Sinto que ele é perigoso — disse Enemaeon — Só isso.

— Não vejo como pode ser, pra ser sincero — respondeu Felrond num dar de ombros — Olhando daqui, é só outro presunto.

— Sua capacidade de observação continua brilhante como sempre, Felrond. Verifique lá dentro. Vou tentar descobrir como foi que ele acabou como um porco abatido e amarrado pelos tornozelos.

— Isso não parece estranho pra você? — lamentou o elfo pouco antes de desaparecer porta adentro na cozinha da taverna. De lá, gritou: — Eu sou um batedor que não sabe ler pistas; acompanhado de um mago que não pode fazer magia.

— Não me espanta sermos um fracasso como grupo então — sorriu o necromante ante os próprios pensamentos, já analisando as peças soltas da armadura rubra do guerreiro espalhadas. Não foi difícil encontrar um medalhão de ferro enegrecido, amassado e marcado por sangue. Machado, Espada e Martelo. O símbolo de Keenn. Aos pés do mago, o gato negro ronronou nervoso, os pelos eriçados.

— Um devoto do deus guerreiro — ponderou Enemaeon — Pelo jeito da armadura, ou você foi um nobre rico, um ladrão de corpos ou algum figurão do alto escalão do exército de Yuden. Apostaria nisso, se não estivesse meio longe de casa, garoto.

O necromante pegou a pesada espada que jazia meio enterrada nos ossos descarnados de uma das noivas largadas no assoalho conspurcado de sangue e violência. Desajeitado, tentou cortar a corda com um movimento de serra, a lâmina marcada repleta de dentes vencendo, milímetro a milímetro, a resistência da fibra.

— Golpeie — gemeu Villvert com a boca inchada, dentes sangrando, cheiro de podridão brotando das feridas repletas de moscas. A voz era apenas um sussuro: — É a porra de uma espada, não um canivete.

— Não sou do tipo que está acostumado a brandir aço, grandalhão — respondeu Enemaeon após recobrar-se do susto, continuando com o vai-e-vem da lâmina — Teria mais chances de decepar um pé seu do que cortar a corda.

O outro bufou qualquer coisa incompreensível e calou-se. Pouco a pouco, a amarra cedia e ele descia um pouco mais. Nesta altura, Felrond regressou. Juntos, por fim completaram a tarefa de descer e desamarrar o corpanzil do cativo. Carregaram com dificuldade a montanha de músculos até um quarto nos fundos do lugar e lá o deitaram.

— Ele vai viver? — perguntou Felrond limpando-se da sujeira de sangue e suor. Lá fora, os primeiros pingos grossos de chuva começaram a despencar, lavando o mundo.

— Talvez. É forte como um cavalo, mas está bastante ferido e provavelmente envenenado. Vou precisar de água para lavar os cortes e lhe dar de beber. E cobertores. Temo que o veneno da ferida se espalhe. Neste caso, só vamos adiar o inevitável. Depois de me conseguir isso, você pode recolher o que sobrou dos corpos das mulheres lá fora e trazer para dentro?

— Não imaginei que tínhamos tanto tempo assim para desperdiçar tratando de um desconhecido – pontuou o elfo de braços cruzados — O que tem ele de especial para você se preocupar se ele vai viver ou morrer?

— Pode parecer estranho, mas me faltam palavras para explicar. É uma espécie de premonição, talvez. Eu sei que o que aconteceu aqui está, de alguma maneira, relacionado com o mal que me acometeu. E quero saber com detalhes os motivos da matança.

— E nosso prazo para voltar até o outro lado do reino? – perguntou Felrond, preocupado. Como esperava, não houve resposta alguma por parte do mago.

(…)

Três dias se passaram na Cão Negro e Villvert não dava sinais de melhora. Havia vomitado com vontade pelas primeiras horas, o corpo lutando para livrar-se do nauseabundo conteúdo do dardo na nuca. Ardeu em febre quase o tempo inteiro, delirando. O mago dispensava boa parte do tempo entre o trato com enfermo e os corpos das noivas, que estudou com renovado interesse. Felrond passava as tardes bebendo. E como bebida não faltava na Cão Negro, não notou o tempo passar.

A chuva também não dava sinais de trégua e a água já descia feroz das encostas próximas. O chiado insistente na copa das árvores já não era sequer percebido pelos ouvidos. Estava muito frio quando o guerreiro enfim acordou num sobressalto. Enemaeon voltava neste momento ao quarto, enxugando as mãos numa toalha. Não disse nada. Queria que o outro começasse com as perguntas, para facilitar seu questionário após sanar as dúvidas habituais de quem desperta após algum tempo inconsciente.

— Se tivesse golpeado a corda, teria me colocado mais rápido no chão – falou.

— E você ganharia uma concussão no crânio, e eu algo mais para me preocupar – respondeu o mago secamente – Costurar seus ferimentos já me manteve ocupado o suficiente.

Os dedos grossos do guerreiro correram o próprio o corpo, sentindo a linha e os pontos na carne, contando-os superficialmente apenas como referência, pois nunca aprendera a ir além do que dez, e a quantidade de cortes superava em muito tal quantia. Estavam aparentemente bem fechados e limpos. E não doíam nada, apesar da gravidade.

— Fez um bom trabalho — murmurou, mas sem agradecer — É médico?

— Necromante — respondeu o outro aguardando pela compreensão que não vinha – As roupas estão aos pés da cama, assim como a armadura. Vista-se primeiro. Conversaremos mais sobre o ocorrido depois.

Villvert colocou-se de pé rapidamente, o rosto austero agora manchado por uma nova cicatriz e pela barba por fazer. Era alto como uma coluna, cada movimento militarmente calculado. Uma máquina de matar humana, derrotado por um golpe covarde pelas costas. Como se tivesse os mesmos pensamentos, levou a mão até a nuca.

— Uma seta com veneno — explicou Enemaeon — Seu oponente não era um combatente e tampouco corajoso. Provavelmente alguém pequeno e fraco, mas ainda um homem se considerarmos a comitiva formada apenas por mulheres vestidas de noiva. O veneno que lhe aplicaram é extraído de uma planta chamada Serpente-de-Tollon. É altamente letal se não for tratado imediatamente.

— Então foi Keenn que guiou vocês até mim — falou o guerreiro. Era difícil às vezes, tanto para o mago quanto para a vítima se fazerem entender nestas primeiras horas. Por isso Enemaeon evitava sempre que possível proceder daquela forma. Mas o momento exigia, não podia permitir que tanto conhecimento se perdesse. E, após concluído, podia dizer que estava até orgulhoso do trabalho que fez ali.

— Onde está minha espada? — perguntou o guerreiro. Em armadura completa, parecia ainda mais intimidador.

— Está comigo por enquanto. Você poderá tê-la em breve, mas antes precisamos acertar um pequeno detalhe. Enquanto tratava seu corpo, encontrei algo curioso entre os seus pertences. Uma carta.

— Quem permitiu que revirasse minhas coisas, bruxo? — falou ele aproximando-se um passo, ao mesmo tempo que Enemaeon recuou um.

— Não se trata exatamente de uma intromissão — justificou-se, um passo mais próximo da saída — Pode parecer meio repentino, mas você não tem mais direito a possuir mais nada deste mundo.

Aquilo era uma ameaça e Villvert agiu antes que pudesse pensar. O corpo dele era todo instinto e batalha. Aplicou um soco com mãos em manopla na direção do frágil velhote que se interpunha em seu caminho com a intenção de matá-lo num só golpe. Errou por pouco, acertando em vez disso a parede frágil da taverna. O reboco improvisado se desfacelou em pó ao mesmo tempo que o som de armas sendo engatilhadas repercutiu nos seus ouvidos.

— Calminha ai, monstrão — era Felrond, já com as pistolas em punho — Enemaeon que me perdoe, mas outra dessas e eu jogo os três dias de trabalho dele pela janela, junto com miolos, chumbo e lascas de osso.

— “Merodach pretende voltar. Os sete baús são a chave. Detenha o mago da morte banido”. É o que diz a carta que você trazia consigo — tornou a falar Enemaeon escondendo-se atrás de uma viga de madeira — Eu conheci Merodach e sei do que ele é capaz. De onde essa carta surgiu? Quem a escreveu? E o mago da morte do texto, foi ele quem lhe atacou aqui?

— Para o inferno, ambos — respondeu Villvert numa nova investida, atropelando Felrond e ganhando o salão principal da taverna. Lá, duas das noivas estavam novamente de pé, remendadas e de olhar vazio, arrastando-se sobre o que restara dos próprios corpos. Queriam lhe impedir de ganhar a liberdade da floresta. Os olhos cheios de ira do guerreiro voltaram-se para Enemaeon, mas só encontraram pena.

— Seu bruxo infernal — amaldiçoou o guerreiro — Juro por Keenn que vou acabar com sua vida pelo que fez com elas!

— Não seria de bom tom matar o homem que lhe deu outra chance — respondeu Enemaeon, sério — Eu fui bastante claro ao lhe dizer. O veneno da Serpente-de-Tollon é letal se não for tratado imediatamente. Você ficou horas com o veneno correndo nas veias. Nem mesmo um touro resistiria tanto tempo.

— O que quer dizer com isso? — bufou Villvert em resposta. Agora com uma centelha de dúvida na voz.

— Quer dizer que você está morto. — foi Felrond que respondeu ainda meio sem fôlego, tentando se levantar do chão— Você não é muito diferente dessas duas senhoritas. Simples assim.

(…)

Por uma hora inteira Villvert permaneceu isolado, sentado sobre a escada que levava ao segundo piso da taverna, olhando com curiosidade para a própria carne através dos cortes costurados com cuidado. Ela enegrecia pouco a pouco. Sentia frio, raiva e urgência. Mas estava vivo, de certa forma. Ainda raciocinava de maneira bastante clara, e lembrava-se com grande precisão do rosto sem face de sua presa. E do nome. Colocou-se enfim de pé e se aproximou dos dois que haviam lhe tirado das cordas. Estavam na outra extremidade em silêncio e aguardando. O gato negro dormia próximo.

— Quanto tempo este corpo irá durar? — perguntou o guerreiro ao necromante. Felrond engoliu um grande gole de vinho e também voltou-se para o amigo que com o rosto apoiado sobre as mãos estudava o zumbi, interessado:

— Dois, talvez três meses se você partir daqui agora sozinho — respondeu ele com um dar de ombros — Ou muito mais, se me acompanhar. Posso mantê-lo por séculos se assim desejar, mas para tanto preciso das ferramentas adequadas. Fiz um trabalho amador agora pois estava em uma taverna contando apenas com o que encontrei aqui dentro. Se me seguir até meu lar em Ridembarr, posso torná-lo completo. E então irá viver por quanto tempo conseguir se manter intacto.

— Não preciso de tanto tempo assim. Apenas quero me vingar do desgraçado e concluir minha missão. Por Keenn e Yuden, vou arrancar o tampo daquele crânio vazio e beber o cerne de seu cérebro.

— Já está até falando como zumbi — escarneceu Felrond.

— Estávamos conversando justamente sobre isso, a propósito. Gostaria de compartilhar conosco o que sabe? As meninas estão ligadas a ele por uma espécie de elo superior as minhas forças e nada me disseram.

— O verme se chama Gesphen, e se intitula como o Escuro. Apesar de tudo, ele não parecia ser gente. Era estranhamente errado. Como um saco de pele humana cheio de sombras.

O guerreiro contou em detalhes tudo o que sabia sobre Gesphen, desde a chacina no vilarejo em Yuden, sua caçada pelo reino, a viagem até a Caverna do Saber e a canção de Merodach compartilhada pelo Helladarion. Faltou sobre a carta que não podia ler, e da luta na taverna e sua morte. Por fim, detalhou tanto o quanto podia lembrar do próprio Gesphen, seus atos e palavras. E sobre as noivas, suas servas, escravas vampiras do mal que as havia criado.

— Talvez trate-se de um espectro, uma sombra do mal — ponderou Enemaeon olhando para o solo mergulhado em pensamentos e possibilidades. Ergueu-se então de súbito e apoiando uma das mãos sobre os ombros da armadura rubra de Villvert, disse em tom cordial.

— Sei que não tinha o direito de manter suas memórias nesta sua nova condição, mas era importante para todos nós sabermos mais sobre aquilo que o trouxe até aqui. Busquei, de todas as formas que me eram possíveis, mantê-lo vivo. E só optei pelo último recurso que me cabia quando soube que não teríamos mais chance. Leen venceu a luta…

— Mas não ganhou a guerra — completou o guerreiro afastando a mão do necromante com um gesto brusco — Meu nome era Villvert. E ele morreu em batalha, para a honra de Keenn do reino de Yuden. Agora sou apenas um guerreiro. O Guerreiro. Este título e minha vingança são tudo que me restou.

— É um prazer conhecê-lo, Guerreiro — respondeu o necromante por sua vez. Havia um sorriso em sua face.

Continua

Armageddon • 26/06/2017

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