Eles Dançam sobre Nós — Ataque em Terápolis

A segunda parte da série baseada nos Mundos dos Deuses começa aqui! Ataque em Terápolis — Parte 1.

Enquanto os tripulantes do Megaréa aproveitavam as benesses da luz de Solaris e procuravam um mundo próximo para renovarem o provisionamento, uma situação séria transcorria em Terápolis…

leonel-elesdançamsobrenós-cap2

Foley, o Cruel, praguejou e apertou o cabo de seu sabre de abordagem até que os nós de seus dedos ficassem brancos. Estavam em uma ratoeira, ele não sabia se por azar ou porque alguém avisou os soldados, mas praguejava de todo modo.

Haviam descido em Terápolis com seu navio — o Gog’Magogue batizado de Carranca — há quatro dias. O Carranca ficara parado, meio pousado,  meio flutuando, em um parque mais denso a alguns quilômetros dali e uma horda de cinquenta homens detestáveis partira sob seu comando. Uns dois ou três ficaram para trás, rondando o entorno do parque, prontos para silenciar qualquer um, principalmente aqueles que surgem do nada.

— Há lugares que acontece assim — alertou Foley aos homens — Você olha num canto e não tem nada. Depois olha novamente e um idiota com cara de perdido está coçando a cabeça ou tropeçando por aí achando que chegou no paraíso. Então façam um favor para mim, crianças, e enfiem meio quilo de aço na garganta deles antes que acordem de vez e resolvam contar sobre nosso negocinho.

Caminhavam apenas durante a noite, se escondendo em qualquer vão ou debaixo de pontes durante o dia. Difícil se perder em Terápolis, porque marcos espalhados pelos caminhos instruem qualquer um que saiba ler, não importando o idioma do leitor, e pelo menos dois da comitiva de Foley eram alfabetizados. Ainda assim dois camponeses capturados na viagem ficaram felizes em dar boas informações dos arredores, em troca de terem suas vidas poupadas — mas foram estripados depois, para diversão da horda.

Logo na segunda noite já haviam avançado bem na zona rural que circunda os muros de Gabinete de Gama, quando viram uma aldeia. Seis ou oito casas dispostas numa encruzilhada, como se houvessem sido empurradas pelos pastos e plantações e amontoadas naquele canto. Foley chamou um dos seus, um guerreiro de maus bofes e rosto encaroçado, e se esgueiraram pela beira da estrada até uma touceira, onde ficaram parados observando o casario. Depois retornaram e foi dada a ordem de dividir o grupo em dois, um deles ficou aguardando naquele ponto enquanto o outro, de apenas cinco homens, deu uma volta maior, sinalizando com uma faísca de pederneira quando chegaram à posição combinada.

Então todos se dirigiram para a aldeota, tratando de espalhar uns poucos homens para as entradas das estradas, enquanto os outros arrombaram portas. O grito de alerta veio antes que as botas atingissem a primeira porta, mas de nada adiantou. Eles eram homens do campo, pegos nas camas, com palha no cabelo e armados de facões, foices ou o que pudessem passar a mão no momento, enquanto o bando de Foley tinha gibões de couro fervido, sabres de abordagem, martelos de guerra e desejo assassino. Sabres enterraram em ombros, gargantas e barrigas, espirrando sangue para pintar as mangas dos piratas, os martelos com pesos de chumbo atravessaram carne, ossos e miolos. Os gatos-pingados que ficaram vigiando as estradas matavam qualquer um que tentava pular uma janela e fugir pelos campos arados. Um camponês conseguiu pregar uma flecha de caça no antebraço de um pirata, e por isso martelaram suas mãos até que sobrasse apenas uma maçaroca vermelha e viscosa e seus pulmões queimassem de tanto gritar.

Não foi ateado nenhum fogo — não queriam alertar a cidade mais além —, e logo os sons de batalha diminuíram e os gatos-pingados voltaram para o centro da aldeota, onde a horda se enchia de vinho e aguardente, enquanto violentavam até que as vítimas parassem de reagir, em choque. E então as matavam. Foley participou das primeiras curras, para assegurar sua liderança entre aqueles brutos, depois organizou as operações.

—Muito bem. Aidan, Tripeiro e Taryn — os três se apresentaram, aquele que chamavam Tripeiro apertando a barba para escorrer o vinho que bebia — Juntem quantos braços precisarem e vejam o que podemos aproveitar. Vejam se há uns caibros guardados, metal, comida. Esses merdas não deviam ter dinheiro, mas isso não vai nos impedir de procurar, não é mesmo? Vejam se há alguma coisa enterrada entre as raízes das árvores mais próximas ou sob as tábuas dos pisos — ele deslizou os pés no piso de terra batida — bem… quando houverem tábuas nos pisos. Andem, vão!

— E não destruam as estufas! Não quero chamar atenção.

Foley sabia que as estufas, comuns em Terápolis, eram usadas pelos camponeses para pesquisar novos métodos de cultivo e espalhar o conhecimento das técnicas agrárias. Mesmo camponeses portavam-se como acadêmicos naquele planeta e o pirata temia que, destruindo uma delas, pudesse provocar a vingança da deusa local. Então depósitos foram abertos, caibros novos, baldes e facas foram juntados e tempo foi gasto cavando nos lugares mais óbvios. Alguns até renderam umas moedas, uns trocados locais inúteis fora de Terápolis. O ataque fora bem antes da aurora e já era noite fechada novamente quando duas carroças, cheias de víveres e material, partiram de volta ao Carranca, escoltadas por quinze homens, dentre eles os carpinteiros e ferreiros da nave. Madeira, ferro e bronze para reparos são preciosos para quem navega o vazio e o capitão não estava disposto a deixar passar uma oportunidade. Além disso eles precisariam estar prontos para manobrar Carranca até Gabinete de Gama assim que vissem os sinais. Ou seguir de qualquer jeito, se não houvesse sinal em dois dias.

O resto da horda, trinta e cinco homens revestidos de couro salpicado de sangue, e mais o capitão Foley, partiram também, em direção à cidade, deixando para trás uma praça silenciosa de portas arrombadas e cadáveres.

 Não demoraram tanto a chegar perto dos muros de Gabinete de Gama. A cidade não era tão grande nem tão conhecida quanto a Biblioteca dos Planos, mas Foley o Cruel sabia dela. Sabia que a cidade tinha uns grandes silos, mais do que precisaria e que serviam para comercializar com outras cidades que não contassem com tantos grãos. Sabia que haveria algumas bibliotecas, porque todas as cidades de Terápolis eram infestadas com aquela praga, e o pirata achava que todas as bundas de todos os planos poderiam se limpar com as folhas de Terápolis e ainda assim haveriam livros demais. Presumia que haveria casas de comércio, oficinas, tavernas, puteiros e tavernas que são puteiros, afinal os homens teriam de viver, mesmo naquele inferno. E sabia, principalmente, que havia uma  prisão naquela cidade.

————————————————————X—————————————————————-

Aqui termina a primeira parte de Ataque em Terápolis! Você pode conferir as Partes Dois e Três clicando nos links (a Parte Três só vai ao ar amanhã [sexta]).

E não esqueça de deixar suas impressões nos comentários!

Leonel Domingos • 12/07/2017

Comentários