Eles Dançam sobre Nós — Ataque em Terápolis

Ataque em Terápolis — Parte 3.

Esta é a terceira e última parte de Ataque em Terápolis. Confira as Partes 1 e 2 clicando nos links.

Foley deu um tapa no ombro de um de seus homens, o bruto veloz que matara o bebum pouco antes, e o homem se arrancou numa corrida estranha, com o corpo agachado e a cabeça bem para frente, como o ataque de um ganso. A corrida surtiu efeito, porque ele conseguiu se aproximar do soldado e dar-lhe um encontrão, cravando o cutelo de baixo para cima. Conseguiu passar a arma sob a cota de malha, então a lâmina perfurou a calça de couro e encontrou a virilha do sentinela, com toda a força e violência que a velocidade e o peso do pirata puderam proporcionar. O resto do bando já estava em carga para invadir a prisão quando o sentinela e o pirata caíram porta adentro.

A horda se derramou porta adentro, alguns tropeçando no corpo do soldado moribundo ou em seu agressor, que rolava para tentar se levantar. Dentro da torre um salão de pedra era iluminado por lamparinas engastadas nas paredes e duas mesas de madeira, uns bancos compridos e um armário eram todos os móveis do lugar. Mas Foley o Cruel não teve tempo de perceber nada disso, porque um pelotão inteiro estava perfilado no salão, a postos, e recebeu o grupo com uma saraivada de virotes. As pontas de aço atravessaram couro, carne e couro novamente, e oito homens caíram mortos, atravancando a passagem. Foley escapou por muito pouco e um virote que era para si foi detido pela cabeça de um pirata que fora empurrado para frente, no tumulto. Outro virote acertou as pedras da parede, soltando um rastro de faíscas, enquanto o capitão tropeçava no corpo de seu salvador.

leonel-elesdançamsobrenós-cap2

— Inferno! Inferno! — o grito de guerra dos piratas de Foley incitou os sobreviventes a pularem os corpos, atacando os soldados antes que estes rearmassem as bestas. Uns carcereiros se defenderam às coronhadas, outros jogavam as bestas para trás e puxavam broquéis e espadas, colando ombro com ombro.

Os piratas eram bons para combater em lugares fechados. Diabos, eles eram os melhores… abordagens envolvem lutas em conveses abarrotados, corredores estreitos, camarotes apertados. Por isso as armas mais versáteis para os atacantes são as armas curtas, que possam dar estocadas e ser brandidas sem esbarrar nas paredes, caixas e cordas. Destas, os punhais e cutelos eram favoritos. O segredo era ultrapassar a linha de alcance do oponente, ficando tão próximo dele que uma arma mais longa teria dificuldade em desferir um golpe mortal.

Agora havia uma linha de homens se esfaqueando, praticamente abraçados, enquanto de ambos os lados a retaguarda tentava golpear por cima dos ombros dos companheiros. Foley segurou a pistola acima da cabeça e disparou, atingindo alguma coisa na massa de soldados que se compactava. A passagem para as celas — e o que havia abaixo delas — estava bem atrás da linha de combate e Foley precisava dizimar a linha se quisesse chegar lá. Um tanto à direita uma escadaria subia a torre, para o adarve onde Foley vira os dois sentinelas avisando do fogo. O pirata rezava que não houvesse outros soldados descendo por ela.

Mas o favor dos demônios não estava mais com ele, porque um vozerio chamou a atenção de Foley e ele viu, com horror, que o oficial e os quatro soldados haviam retornado e agora bloqueavam o portão de entrada.

Puxou pela gola um de seus tenentes, que tentava meter um cutelo numa brecha da linha.

— Não dá! Não dá! Junte os homens numa retirada atrás de mim! — Raf! Aqui!

Rafferty mais o capitão rapidamente derrubaram o armário, criando estardalhaço e obstáculo aos soldados que chegavam, depois empurraram uns piratas da retaguarda para que subissem as escadas. Atrás deles o tenente gritava comandos, e a corja sobrevivente deixava a linha aos arrancos, formando um círculo de defesa para o grupo que tentava abrir caminho escada acima. Uns soldados pularam os corpos, mas desequilibravam na confusão de braços e sangue. Dois sentinelas desciam a escada para defendê-la, mas Raf disparou sua pistola, trovejando e espalhando uma nuvem de fumaça branca enquanto o chumbo entrava pelo globo ocular de um soldado e abria caminho esmigalhando osso e miolos. Não sobrou muita coragem no soldado restante para resistir à subida selvagem dos piratas.

O que sobrou da corriola de Foley se derramou pelo adarve da torre, um beiral de pedra estreito, limitado por um lado pelas paredes da prisão e por outro por um parapeito baixo, uns cinco ou seis metros acima da rua. Uns soldados estavam de pé na frente da prisão e disparavam suas bestas para os piratas no adarve os quais se abaixavam e acotovelavam-se, contornando a torre em direção à muralha. Juntaram-se num vão coberto entre a construção e o muro, tentando se abrigar entre os encostos de pedra. Era um minguado grupo de sete homens ofegantes.

— Os merdas estão nos cercando. — Foley viu mais movimento na rua, homens percorrendo a muralha mais além e o barulho da soldadesca que subia as escadas. — Vamos ter que nadar… Qual a altura até o fosso?

Um pirata se espichou um pouco, debruçando na ameia para olhar o mesmo fosso que haviam atravessado mais cedo. Ainda era madrugada e estava bem escuro, apesar do incêndio do outro lado da cidade, mas algumas tochas iluminavam trechos do fosso, pela extensão da prisão. Pareciam ter sido colocadas para mostrar todas as estacas afiadas que se projetavam da água. O homem deslizou de volta para seu lugar, pálido.

— Estacas — disse num suspiro.

— O quê?

— Estacas. Os cretinos encheram o fosso com estacas, todo este trecho e mais além!

— Uma ratoeira! Caímos numa porra de uma ratoeira, rapazes! — Foley apertou o cabo de seu sabre de abordagem até que os nós dos dedos ficassem brancos.

— E agora esses girinos de armadura virão fritar nossos ovos…

E um grupo de sentinelas realmente se organizou no adarve, fronte aos piratas. Dois se ajoelharam, posicionando escudos, enquanto outros ajeitavam as bestas de lado, apontando para a corriola. Um oficial se empertigou, despontando da formação, e soprou um apito curto. Removeu o elmo, revelando uma mulher com maxilares angulosos, como uma mestre-escola muito, muito zangada:

— Escória invasora! Vocês cometeram infração ao Código Jurídico de Gabinete de Gama, artigos trinta e quatro e trinta e sete! Como autoridade responsável na quadra penitenciária é meu dever proceder à sua captura…

— Não acredito. — murmurou Foley — Eles estão parados!

Foley posicionou as mãos em concha e gritou para a oficial:

— Trinta e quatro? É a lei que proíbe curtir couro acima de moinhos d’água! Somos inocentes, governador!

A mulher ficou vermelha e roxa, pondo-se a gritar com voz rouca e veias saltando do pescoço.

— O artigo trinta e quatro! Trinta e quatro, marginal! Versa sobre agressão armada em toda urbe! — a oficial engasgou e arqueou o corpo — Cabo Darlon — rouquejou — explique os artigos trinta a trinta e sete para esses ignorantes!

Um soldado magricela se levantou acima dos escudos e começou a recitar números e leis.

— Eles não resistem. — Foley abriu um sorriso seco — Esses desgraçados simplesmente não resistem a mostrar como são letrados e como conhecem essa papelada inútil. Terapolenses! Ha!

— E nos deram tempo! — emendou — Anda logo, Raf, recarregue a pistola e dê para mim!

Foley e Rafferty recarregaram as armas. O pirata desembrulhou a caixa de madeira que trazia junto ao peito e a abriu. Dentro haviam três cavilhas com frascos no formato de ovos de galinha, feitos de vidro e chumbo, cada um com um pouco de cera colorida no topo, uma vermelha, outra azul, outra verde. Foley pegou os dois últimos e fechou a caixa. Odiava ter que gastar suas Pinhas — artigos muito caros, difíceis de se obter — mas se preparara para uma situação de emergência como aquela, treinando com ovos de galinha os movimentos que inventava.

Ele jogou a Pinha com cera azul bem para cima, e alguns soldados viram brilho do objeto. Imediatamente atirou a segunda Pinha na soldadesca, que se espatifou num escudo e criou uma nuvem verde em torno dos sentinelas. Foley disparou para cima, acertando a primeira Pinha e uma chuva de vidro estilhaçado e um líquido azulado se despejou sobre os piratas. Tudo aconteceu em instantes, mas uns soldados já davam miados roucos quando o vapor ácido queimou traquéias e pulmões.

— Agora! Vamos, vamos! — gritou Foley, empurrando um pirata para as ameias. Os homens pularam desajeitados enquanto a confusão reinava entre os guardas da prisão. Os sentinelas tossiam e vomitavam, perdendo o ar. A própria oficial estava caída, mostrando o branco dos olhos e com a cara roxa, boca aberta numa poça de vômito. Os soldados na rua dispararam suas bestas e uns virotes batiam no parapeito e nas ameias.

Foley disparou a segunda pistola em direção aos guardas que estavam mais adiante na muralha e foi o último a pular. Assim que começou a queda seu corpo desacelerou, como se tivesse caído na água. Suas vestes, a caixa na bandoleira, as mechas em sua cabeça, tudo movia-se lentamente, como se afundasse. Ao seu lado o mesmo acontecia com os outros piratas e ele tinha impressão de que, se tentasse agitar pernas e braços, iria nadar pelo céu.

Caindo tão suavemente eles podiam se reposicionar e até chutar as estacas, pousando na água. O efeito passava logo que o corpo começava a flutuar, então cada homem podia nadar entre as peças de madeira até a margem, e de lá correr para a mata mais próxima, antes que os soldados se reagrupassem e partissem em perseguição. Levou bem duas horas até que conseguissem chamar a atenção do Carranca e pouca luta — em campo aberto nenhum soldado se atreveria a encarar um Gog’Magogue — até que fugissem de Terápolis. Foley fracassara em sua missão: roubar o Olho do Dragão guardado na masmorra de Gabinete de Gama. Pior, em seu fracasso havia perdido metade da tripulação. Para se reerguer e, talvez outro dia, tentar novamente, ele precisaria de nova tripulação, armas melhores, defesas melhores. Precisaria de mais ouro.

Lambendo suas feridas, a cruenta tripulação do Carranca iria caçar no Vazio.

————————————————————X—————————————————————-

Aqui termina Ataque em Terápolis! Confira as Partes 1 e 2 clicando nos links.

E não esqueça de deixar suas impressões nos comentários!

Leonel Domingos • 14/07/2017

Comentários