Eles Dançam sobre Nós — Ataque em Terápolis

Ataque em Terápolis — Parte 2.

Esta é a segunda parte de Ataque em Terápolis. Confira as Partes 1 e 3 clicando nos links.

Agachado num morrote, Foley o Cruel pensava em como invadiria aquela prisão. Mascou um caule de centeio que arrancou distraído do chão e, ainda olhando os muros, chamou um de seus comandados.

— Alguma vez subiu um muro desses, Raf? — Rafferty agachou-se ao lado de Foley e coçou a barba — Com tão poucos homens, quero dizer.

— Subir o muro, não. Não há espaço para uma escada… diabos, nem temos uma escada! — disse Raf, o vozeirão enrouquecendo ao tentar falar baixo — E tentar escalar vai fazer muito barulho, tomar muito tempo. Tempo suficiente pra qualquer bunda suja nas ameias encher nossas costas de virotes. leonel-elesdançamsobrenós-cap2

Os dois ficaram calados e a aurora chegou. O pirata sinalizou aos outros que voltassem morro abaixo e se escondessem num pequeno arvoredo, enquanto ele e Rafferty se deitaram no centeio baixo, ainda observando a cidade. Um grupo de andorinhões passou voando por eles e começaram a voejar em rasantes, próximo ao fosso. Com um estrepitar metálico uma das pontes da cidade murada desceu e uns soldados chegaram aos portões, gesticulando para um grupo acampado às portas da cidade. Camponeses, comerciantes, cavalos, carroças, bois, cabras e uns cães entraram em Gabinete de Gama. De uma sombra no muro, afastado do portão, irrompeu um fluxo curto de água enlameada, enegrecida.

— Esvaziaram os penicos — Raf ajeitou-se no chão e olhou para Foley — e você não vai gostar disso, capitão.

— Pensei nisso também. A merda sai e nós entramos. — Foley escarrou e limpou a garganta — Não vai ser novidade para o nosso grupinho, mas eu bem gostaria de alcançar o inimigo antes do meu cheiro. Ah, pro vinagre com isso. Vamos descer e acertar os detalhes.

Durante todo o dia planejaram e se prepararam. Todos os cutelos foram esfregados com banha de porco antes de voltarem para as bainhas, e então também os gibões e calças receberam a banha. Mais importante, os trapos para tochas, isqueiros, polvorinhos e pistolas (duas) foram colocados em dois sacos oleados e firmemente amarrados. Foley arrumou uma caixa, que guardava consigo desde que saíram do Gog’Magogue. Embrulhou-a com um couro macio e passou uns cordões em volta, formando uma bandoleira que cruzou em seu peito, segurando o volume. Com o serviço preparado, os piratas se recostaram nas sombras, comeram alguns pedaços de porco salgado e roeram pães duros que haviam roubado da aldeota no dia anterior. Uns dormiram, outros afogaram a tensão em vinho, até que o capitão tomou o odre e derramou o líquido no chão. Tornou a enchê-lo com água.

A noite chegou e os últimos viajantes foram tocados pela guarnição, instigados a seguir seu rumo para que o portão fosse fechado e a ponte levantada. Quase quatro horas se passaram até que os piratas começassem a se esgueirar, lentamente e caçando quaisquer sombras, às vezes parando e às vezes apressando o passo para aproveitar uma lufada de vento que arrepiasse o mato. Chegaram finalmente perto do fosso e aguardaram. No arvoredo onde passaram o dia um odre furado, pendurado num galho, derramou o resto de água que continha num velho morrião que, pesado de água, tombou da árvore para uma pilha de pedras armadas embaixo dele. A queda provocou um estardalhaço que afugentou pássaros dos ninhos e ecoou na noite. Naquele momento a horda pirata, deitada perto do fosso, rolou para dentro d’água e atravessaram o fosso até um ponto mais escuro, uma escuridão que babava um lodo negro.

O fedor ácido da cloaca esmurrou os primeiros piratas que ergueram o corpo para dentro do túnel. Avançaram com dificuldade, rastejando em fila indiana e arranhando as pedras cheias de lodo até esfolarem as unhas, com as roupas besuntadas escorregando e puxando de volta ao fosso. Rafferty seguiu na frente, buscando apoio com a ponta de uma picareta de guerra, tentando não embaraçar uma corda amarrada em seu cinto. Dois ou três metros no túnel sufocante e chegou a um gradil de ferro. Ferro! Raf agradeceu a sete demônios por essa sorte, porque tinha certeza que o ferro, oxidado pelo esgoto, não resistiria à sua picareta, e começou a trabalhar com a ponta, escarafunchando a base e, sempre que sentia o aço apoiado, puxando o cabo como se fosse uma alavanca, até que se ouviu um estalo abafado e o pirata retirou a primeira barra de ferro. Usando a barra removida como fulcro ele entortou e soltou as outras, parando o trabalho a todo momento para ouvir algum som vindo de fora. Mas a noite estava com eles, porque nenhum som se ouviu e nenhum rosto curioso apareceu enquanto a turba imunda saía da vala para a rua, usando a corda para arrastar todos rapidamente pela cloaca.

O grupo foi novamente dividido. Cinco homens seguiram em direção aos grandes depósitos de grãos, levando o saco com tochas e isqueiros, enquanto o resto seguiria o capitão para a prisão da cidade.

Conquanto se mantivessem nas sombras, não era tarefa difícil. Diferente de tantos outros mundos, Terápolis era regular. Todas as suas cidades possuíam ruas retas, curvas suaves, direções nítidas, num rigor comparável apenas a Ordine, lar de Khalmyr e um sítio insalubre para um bom homem como Foley, o Cruel. Mas, naquele momento ,a disposição das ruas ajudava o bando e Foley agradecia de coração à ingenuidade militar de Terápolis.

As duas pistolas de fecho-de-roda foram retiradas do saco restante e Foley ficou com uma. Com habilidade, puxou uma vareta que repousava perto do cano da arma e usou-a para limpar seu interior. Depositou uma carga de pólvora do polvorinho de osso e, envolvendo uma bala com uma bucha de pano, socou o projétil no fundo da pistola. Tornou a guardar a vareta. Carregar uma pistola é um procedimento demorado, mas o pirata treinava, treinava todos os dias, até que todos os movimentos fossem automáticos. Rafferty estava ainda socando a pólvora em sua arma quando Foley pegou uma chave especial e deu corda no mecanismo de disparo. Travou o gatilho e guardou a pistola no cinturão.

Partiram. Uma rua mais larga seguia diretamente à prisão, cuja torre podia ser vista acima dos telhados das casas de taipa. Mas era muito iluminada por lâmpadas de óleo, e assim o bando preferiu ziguezaguear por vielas e ruas paralelas, iluminadas apenas pela palidez das estrelas. Um homem cambaleou de uma das casas e se virou para vomitar numa ruela por onde os piratas se esgueiravam. Foi agarrado pelos cabelos e puxado para a escuridão, onde um cutelo deslizou em seu pescoço e o corpo do pobre diabo tombou em espasmos, enquanto o estômago se esvaziava por impulso. Sangue e vômito misturados jorraram num gorgolejar surdo. O pirata que o matou abriu um sorriso no rosto imundo:

— Tem gente que não aguenta a bebida… — riu-se.

Não encontraram mais ninguém até chegarem perto da prisão. O prédio de alvenaria encostava na muralha da cidade, usando esta como parte da própria estrutura. Uma porta no terceiro andar de sua torre se comunicava com os adarves da muralha. Escondidos nas sombras de uma esquina, os invasores aguardavam um sinal.

Trinta ou trinta e cinco homens não eram suficientes para montar um cerco a uma cidade protegida como Gabinete de Gama, mas uma vez dentro dos muros a história era outra: um grupo pequeno poderia criar caos e se aproveitar do pânico dos habitantes para praticamente tomar a cidade. E a missão dos cinco piratas que se destacaram era justamente atear fogo aos silos de grãos e trazer o pânico.

Foley e seu bando não tiveram que aguardar muito. Logo o céu começou a tingir de lilás e laranja, como se a aurora se aproximasse mais cedo, e sinos começaram a dobrar, primeiro lentamente, depois em badaladas desesperadas. Dois soldados apareceram no adarve da torre e anunciaram o incêndio nos silos a um oficial que saiu pelo portão da prisão. Trocaram algumas palavras, os sentinelas entraram novamente na torre e logo saíram com mais dois soldados para acompanhar o oficial pelas ruas em direção ao fogo, enquanto um quinto homem ficou à porta, vendo as luzes. Era o momento.

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Aqui termina a segunda parte de Ataque em Terápolis! Você pode conferir as Partes Um e Três clicando nos links (a Parte Três só vai ao ar amanhã [sexta]).

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Leonel Domingos • 13/07/2017

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