O Enigma das Arcas, Ato XX — Ridembarr

Na corrida contra o tempo, os viajantes passam pela cidade natal de Enemaeon. Mais um bucólico capítulo em busca dos segredos ocultos pelo Enigma das Arcas!

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Até agora, no Enigma das Arcas…

Enemaeon de Ridembarr é um mago das trevas que após uma malsucedida invocação teve o coração arrancado e substituído por um artefato malignoPara se livrar dessa maldição, ele partiu em uma jornada para decifrar o Enigma das Arcas, que supostamente possui a resposta para salvar sua alma.

Nessa jornada, ele conta com a ajuda dos antigos companheiros: o ladrão clérigo de Hyninn Garlor “Presas de Prata” e o elfo bêbado Felrond. Após convencer o capitão pirata Moranler Silverdall a se unir a eles, Enemaeon e Felrond partiram por Deheon em direção a Valkaria numa corrida contra o tempo cujo prêmio é a vida de Garlor.

No caminho, se depararam com uma taverna mergulhada num mar de sangue. Entre os corpos destroçados de uma dúzia de mulheres vestidas de noiva, um guerreiro vencido chamado Villvert esperava pela morte. O necromante só tinha uma maneira de ajudá-lo: transformá-lo em um zumbi!

Ato XX – Ridembarr

Mais de uma semana de viagem separava a Cão Negro de Ridembarr. E por todo o trajeto, os três viajantes seguiram evitando as principais estradas e vilas no caminho, o que exauriu ainda mais o pouco tempo do qual dispunham. Já estavam há quinze dias longe de Garlor, da ira de Moranler e do Tortura, mas para evitar uma nova discussão, sequer tocaram no assunto. A aquisição — como Felrond tratava Villvert, agora apenas o Guerreiro — havia se mostrado providencial.

Um bando de gnolls foi feito em pedaços no terceiro dia (custando um braço ao devoto de Keenn, recosturado pelo necromante em seguida). Quatro assaltantes goblinoides liderados por um orc tiveram o mesmo final. Desses últimos — humanoides carnívoros de compleição semelhante a humana, exceto pela pelagem esverdeada e as presas — o grupo herdou um cavalo negro de batalha. Como estava forte e bonito, provavelmente o animal tinha sido furtado pelos monstros poucos dias antes. Foi adotado pelo Guerreiro como montaria, já que havia perdido o próprio cavalo no incidente que lhe custou a vida. Ele não fazia questão de lhe dar um nome, mas devido ao temperamento, Felrond o apelidou de Tormenta.

— O grifo também não tem nome… — comentou Enemaeon em certo momento.

— Nem o gato — respondeu o elfo por sua vez, encerrando a conversa. Seguiram trocando farpas como era habitual a ambos até avistar ao longe o vilarejo de Ridembarr, surgindo no alto de uma colina cercada por campos de cultivo. Um lugar simplório, de costume agrário. A cidade onde Enemaeon nasceu, carregando o nome e o estigma consigo.

— Teu pai vive aqui, não é? — perguntou o elfo espreguiçando-se sobre o pelo do grifo — Como ele é?

— Rico — resumiu o necromante descendo da montaria e sentindo o solo sob os pés. Estalou os ossos, respirou profundamente o ar das cercanias de sua infância e não conseguiu evitar um embrulho no estômago. Sempre odiara o clima de interior, de campo e de tranquilidade daquela cidade. Ridembarr tinha pouco mais de quinhentos habitantes há pelo menos dois séculos, o que demonstrava ser o cúmulo da inércia para a cosmopolita mente de Enemaeon. As casas de família caiadas de branco — amareladas pelo tempo — ruas gramadas, a pracinha, árvores frondosas. O retrato do horror.

— Um lugar onde nada nunca acontece, assim é Ridembarr — brincou o necromante abaixando-se e recolhendo a gata que ronronava, afagando os pelos negros distraído — Fica apenas um dia de viagem de Valkaria, por isso viajantes só param aqui para dormir.

— Invejo essa calma — comentou Felrond sem dar muita importância ao que dizia — Lenórienn, onde nasci, era um lugar assim e acabou destruída pela Aliança Negra. Lembra deles? Os goblinoides para quem vocês queriam contrabandear pólvora.

— Está sendo injusto. Nós iriamos vender pólvora para os elfos também! — respondeu Enemaeon com um gracejo — Pensamos em deixar a batalha de vocês um pouco mais… explosiva. Afinal, nem a Infinita Guerra podia durar para sempre.

— É apenas uma questão de tempo para a pólvora substituir a espada nas batalhas. Cada vez mais covardes se rendem a ela — comentou o Guerreiro para ninguém em especial, com Tormenta batendo os cascos furioso e impaciente, desejando prosseguir.

— Pois ela conseguiu mais um adepto — brincou Felrond girando desajeitado e quase derrubando as pistolas que ganhou no navio — Pena que é tão difícil encontrar munição.

— Encontraremos em Valkaria — respondeu Enemaeon — Por hora, precisamos achar meu pai para negociarmos nossa estadia e efetuarmos algumas melhoras no corpo do Guerreiro.

— Alguma chance de sermos mal recebidos? — perguntou Felrond.

— Certamente. — suspirou o mago — Afinal, há muito eu não passo de uma despesa aos negócios da família. Uma despesa cara, indesejada e sem a mínima expectativa de retorno.

Conforme o trio de aventureiros adentrava as ruelas largas e calçadas com pedras antigas de Ridembarr, com o sol queimando-lhes às costas e o suor escorrendo pelo rosto, podiam sentir também queimar o olhar de boa parte da população local. O filho desgarrado regressou mais uma vez.

Casos como este não eram incomuns ali, pois aventurar-se por ouro e fama era uma profissão corriqueira em Arton e nem todos eram bem sucedidos. Mas Enemaeon era especialmente famoso em se tratando deste lugar específicol. Pois sabia-se — e muito pouco não se sabe em uma cidade tão pequena — que havia sido expulso da Academia Arcana por brincar com os mortos. Era impossível prever como reagiriam se soubessem que, exceto ainda pelo gato, apenas Felrond podia ser considerado vivo.

A casa dos Ridembarr ficava ao fim da estrada principal sobre uma colina baixa e com uma vista privilegiada tanto da pracinha quanto da pequena igreja em honra aos deuses do Panteão. Apesar da opulência quando comparada às demais casas do lugar, era no máximo simplória se colocada lado a lado com os prédios da capital. Tinha, assim como toda Ridembarr, séculos, sendo reformada, repintada e reconstruída de tempos em tempos. O jardim especialmente bem cuidado contava com uma profusão de roseiras que cresciam sobre as grades do muro baixo. No centro, uma figueira centenária estendia os galhos grossos sobre boa parte da propriedade. Uma casa de árvore em ruínas jazia apoiada toscamente sobre ela.

— Foi você que a construiu? — perguntou Felrond maravilhado com o clima bucólico do local. Enemaeon não respondeu de pronto, olhando por alguns instantes em silêncio para a ruína infantil diante de si, e depois — leve pontada de dor — confessou não ter sequer subido aqueles degraus nem uma vez sequer.

— Nunca vi graça na ideia de fingir que aquilo era uma casa ou um esconderijo, por mais que o pai tenha insistido. Na verdade, muita coisa nunca despertou em mim qualquer curiosidade.

— Que vidinha miserável e sem graça essa a sua, não é? — caçoou o elfo, apeando do grifo e juntando-se ao necromante. Este, diante dos portões, olhava curioso para o interior da residência procurando qualquer sinal de movimento. Por sorte, não havia nenhum.

— Porque só não entramos?

— Perdi a chave em Ciela. Sei que não é de bom tom forçar a entrada na casa de nossos pais, mas creio que não há alternativa.

Recolhendo um graveto do chão, Enemaeon se aproximou do cadeado novo e tocou-o levemente. Uma fagulha brotou do galho e, no mesmo instante, com um sonoro clique, a tranca se abriu e o portão rangeu sobre o eixo, abrindo passagem. Pensou em descartar o pedaço de madeira, mas preferiu mantê-lo consigo por hora, como garantia. Sem algo de madeira para canalizar a energia, se tornava um completo inútil. Deveria incluir um bom cajado nas aquisições a serem feitas dentro em breve. Ladeou o caminho das carruagens pelo quintal gramado e chegou enfim ao portão principal, onde com três golpes rápidos na aldrava anunciou sua presença.

A porta não tardou a abrir, e um sorriso sincero brotou na face da menina que surgiu à porta. No mesmo instante, num rompante de alegria, saltou sobre o mago, que como esperado ante sua fragilidade, caiu para trás rolando sobre a grama fofa.

— Angélica! Por favor, não estou disposto a repetir cada vez que regresso o quanto me incomoda este tipo de recepção bárbara e sem sentido. E diabos, a grama coça!

— Quem deveria reclamar sou eu, seu velho chato! — berrou a menina, não mais de oito anos — Você está fedendo! Não deve tomar banho há semanas! Que nojo! Antes que o próprio pudesse dizer qualquer coisa, a garota já havia estalado um beijo em seu rosto e gritado casarão adentro.

Mais dois pares de pés ágeis se uniram a ela, caindo de repente sobre o mago que tentava se levantar (levando-o mais uma vez ao chão). Felrond gargalhou contente diante da cena, enquanto o Guerreiro apenas aguardava imóvel e impassível junto aos animais, alguns passos atrás. Angélica, Vanessa e Geovana eram as meio irmãs de Enemaeon, fruto do segundo casamento do pai e o adoravam por ser tudo o que elas sonhavam ser um dia — apesar de estarem mergulhadas na precária aristocracia e na burguesia interiorana da cidadezinha em que viviam. Mesmo demonstrando um mau-humor fingido, elas sabiam que ele apreciava sua companhia e a admiração que nunca negaram sentir por ele e suas histórias. Enfim conseguiu se levantar e adentrou o lugar, atravessando a porta de madeira escura, sentindo o estalar do piso velho a cada passo. Felrond o seguiu, mas por ser elfo, parecia não pesar coisa alguma e a madeira não reclamava.

— Onde está Alfonse e a mãe de vocês? — perguntou Enemaeon por fim às três, cortando a balbúrdia de perguntas sobre a viagem e reclamações quanto ao cheiro do meio-irmão.

— Papai viajou até Valkaria antes de ontem, pela manhã — respondeu Geovana, a mais velha, quase uma mulher perante os olhos de Enemaeon que, sendo justo, esteve fora por pelo menos dois anos. Ela recolheu a gata negra e aninhou em seu colo.

— Mamãe está na cidade, ocupada em gastar dinheiro. — falou Vanessa — Deve voltar dentro em breve com novos vestidos e conversas idiotas da feira. Aquilo é mesmo um grifo?

— É sim — respondeu Felrond intrometendo-se enquanto largava o corpo ágil no sofá macio e já surrado — Arrancaram-lhe as asas e estava bem mal-tratado, mas ainda assim é bem forte. Viajamos nele nos últimos tempos. E por falar em nossos problemas recentes, Enemaeon, e quanto ao nosso amigo sisudo, como ficamos? — perguntou o elfo apontando para o lado de fora onde os animais e a aquisição do grupo aguardavam.

— Certamente não podemos deixá-lo ali — falou Enemaeon afagando os cabelos da irmã — Vanessa, peça por favor para os criados conseguirem um lugar para o cavalo e grifo na estrebaria. Devidamente separados um do outro, aliás.

— Ninguém vai querer chegar perto daquilo — reclamou a menina — Por que você mesmo não faz isso?

— Porque tenho um problema maior para dar conta — respondeu ele apontando para o morto-vivo em armadura completa e com uma espada tão grande quanto a mais alta das crianças a tiracolo. Um monstro não apenas criado por ele, mas que trouxera espontaneamente até a casa de sua família atravessando metade do reino. Só de olhar para aquilo, a menina compreendeu que de fato era melhor ficar com o grifo.

(***)

Enemaeon escoltou o Guerreiro até uma pequena entrada lateral que dava acesso ao porão empoeirado da mansão. Ali, sob uma parca luz de lampião, havia centenas de pequenos frascos, livros inchados pela umidade, garrafas contendo toda a sorte de unguentos, escaninhos com dezenas de gavetas catalogadas e ferramentas diversas para cirurgias: lâminas, serras, agulhas e pinças. Retirando uma cobertura de tecido com um único puxão, revelou uma espécie de mesa de tortura macabra, com lugares para prender alguém pelas mãos e pelos pés. Sentando-se sobre ela, explicou brevemente quais eram seus planos para aquele que já fora Villvert de Galienn.

— Como lhe disse, providenciarei para que seu corpo não continue apodrecendo como tem feito nos últimos dias. E mais, quero que ele se torne mais resistente para que incidentes como o que lhe custou o braço não se repitam. Basicamente, começaremos a tratar sua carne com formol e fenol. São componentes químicos que…

— Poupe-me dos detalhes. Apenas diga quando retornamos à caçada ao bardo sombrio.

— Dentro em breve. Eu tenho um palpite quanto ao lugar para onde ele está indo. Nós iremos para lá também, por isso lhe peço um pouco de calma. Acredite, quando eu terminar, você terá todo o tempo do mundo para assombrar Arton com guerras e lutas. Trabalharei esta noite, e amanhã até o findar da tarde, quando creio, estaremos prontos para seguir em frente. De qualquer forma, não há muito mais tempo.

— Está com pressa para salvar o tal Garlor da aposta inconsequente de acordo com o que Felrond comentou — cortou o Guerreiro com um sorriso pálido de morto. Enemaeon o fitou de volta, imaginando se manter aquele homem parcialmente vivo não seria um erro pelo qual lamentaria por muito tempo. Sem responder, desceu do móvel e se concentrou no que já havia reunido no laboratório, descobrindo outra velha mesa e recolhendo alguns frascos com substâncias há muito tempo esquecidas no frio mofado do subterrâneo. Por fim, de um baú lacrado por magia, retirou um frasco onde, rebelde, algo que lembrava um pequenino inseto vermelho se debatia, furioso.

— Quatro anos… — sorriu Enemaeon com o vidro diante dos olhos assistindo o balé furioso da criatura que golpeava à esmo em todas as direções, garras em riste. Todo fúria e quitina preso no casulo de vidro. — Em todo este tempo não descansou nem por um instante!

— Que diabo é isso? — perguntou o Guerreiro aproximando-se, interessado.

— É exatamente o que você supôs — respondeu Enemaeon, fitando-o — Isto é o diabo.

É claro que continua!

Armageddon • 24/07/2017

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