Eles Dançam sobre Nós — Um Mercado em Ramknal

Confira aqui a primeira parte de Um mercado em Ramknal.

Um grupo de brutos pesados e musculosos agarrava as cordas do Megaréa, puxando o gigante para mais perto do chão. Era assim em portos no solo cru; era necessário lançar cordas aos estivadores e, se não houvessem estivadores para apanhá-las, descer a marujada nas próprias cordas para prender e puxar o Gog’Magogue para mais perto, facilitando o trabalho das gruas e escadas de corda. Cidades mais avançadas costumavam construir torres especiais para aportar estes gigantes, quando era possível uma aproximação mais tranquila e descer por uma prancha pousada na boca do Gog’Magogue. Mas o mercado de Boudolin não era um desses. Era um grupo de casas baixas de pedra e barro em volta de uma praça de pedras calçadas, no meio de um deserto. Os estivadores suavam e suas mãos escorregavam enquanto tentavam esticar mais as cordas numas rochas furadas para esse propósito. Na sombra das tendas e marquises, gente de todo tipo se abrigava, conversava, ria e fazia apostas sobre quanto tempo ainda levaria para aportarem o cargueiro.

Fatalmente foi aportado, e logo as gruas começaram a ranger, descendo mercadorias enquanto a marujada descarregava e um ou outro mercador aparecia para negociar com o capitão. Uns homens resolveram gastar seu soldo no que o mercado tivesse de novidade enquanto outros levavam umas listas de víveres e equipamentos para reposição, a mando dos mestres do navio. Dan, como aspirante do imediato, não tinha muita coisa a comprar, e foi liberado para fuçar o mercado até o primeiro trinado do apito, quando ele ajudaria seu mestre a contar o estoque de entrada. Por isso acompanhava Gilles, o grumete do cozinheiro. Era sempre divertido percorrer as barracas de comida e variava bastante do rancho minguado a bordo. Pararam em um abatedouro.

O abatedouro era um balcão protegido por uma tenda de lona, colado a uma construção maior, de pedras emboçadas. Havia todo tipo de bichos engaiolados ou pendurados, imersos numa cacofonia de grasnidos e guinchos. O cheiro de penas, pelos, urina e sangue estapeava o nariz de quem se aproximasse. Giles chegou no balcão e mostrou uma lista para um dos carniceiros. O rapaz olhou a lista, coçou a barba e indicou que entrassem.

— Muita carne salgada — comentou monotonamente enquanto andava — Não sei se teremos como fazer tudo a tempo, tem que ver com o chefe. Ele está aqui dentro. Chefe! Ei, Chefe!

RamknalO abatedouro por dentro era bem maior do que parecia. Jaulas e cercados num dos cantos, formando uma espécie de labirinto, mesas de corte e áreas de abatimento, com cântaros de água e drenos para escoar o sangue noutro canto. Ao fundo alguns tanques de salga e tendais onde penduravam algumas carnes. Defumadores deixavam escapar alguma fumaça, o que ajudava muito a suportar o cheiro denso de animais e vísceras. Bem no meio do galpão um cercado estava rodeado por uma multidão.

O carniceiro começou a acotovelar a turba, abrindo caminho aos ais e uis, seguido de Dan e Giles. Quanto mais se aproximavam do cercado, mais fácil distinguir um som mais agudo, meio quebrado e sibilado ao mesmo tempo, como se uma panela de pressão tentasse imitar um cacarejo. Um lampião balançava sobre o cercado, amarrado nas vigas do teto, de modo a iluminar bem a arena cheia de serragem onde todos os olhos estavam atentos a dois cocatrices-mirins que rodeavam um ao outro, medindo forças. Dinheiro passava de mão em mão enquanto um único homem, de olhar penetrante e bigode denso e gorduroso, se concentrava nos dois animais. Os cocatrices-mirins pararam de girar, os corpos num voleio nervoso, como molas voltando ao estado de descanso. O bigodudo percebeu alguma coisa nas nuances de movimento e abriu os braços, cessando as apostas. Quase que de imediato os monstrinhos deram um salto e se engalfinharam, as pontas de garras das asas se misturando e entrelaçando enquanto patas e bicos caçavam caminho na pele do adversário. Cocatrices verdadeiros são mortais ao mero olhar, mas cocatrices-mirins não possuem tanto poder, seu olhar venenoso capaz de causar apenas náuseas e tonturas na vítima. Mesmo assim os dois lutadores tinham, cada um, um olho furado, provavelmente para diminuir os riscos. As órbitas vazias escorriam um liquido amarelado e viscoso, e agora ambos tentavam a sorte de bicar o olho restante do oponente.

Num giro de corpo, o cocatrice de penas vermelhas conseguiu encaixar o bico numa parte descamada do pescoço do pardo, e o sangue correu feio para respingar na serragem. Um grito de alegria se ergueu na muvuca, quando os apostadores do vermelho comemoraram a vitória.

— Segurem o ruivão, rápido! — apontou o bigodudo, mas antes que alguém chegasse com as varas e laços o cocatrice vermelho começou a bater as asas e raspar com garras e bico o monstro agonizante, removendo um fígado lustroso, que tratou de engolir.

— Cogumelos-anões me empalem se esse ruivão não faz isso de sacanagem! — reclamou o bigode — Sem o fígado terei que baixar dez tibares no preço da carcaça.

O carniceiro foi até onde o homem bigodudo se apoiava no cercado e mostrou a lista de Giles. O homem cofiou o bigode, estreitou os olhos. Virou de costas para a rinha e, ainda olhando a lista, deu dois tapas no ombro do carniceiro.

— Agora fique aqui, Boro, que eu cuido desse pedido. Toque uma corrida de cuias enquanto isso. Nem você pode errar como juiz de uma corrida de cuias.

O dono do abatedouro veio para perto de Dan e Giles, esfregando uma mão no avental e segurando o pedaço de papel com a outra. Enquanto isso, seu empregado ajustava uma cúpula gradeada sobre o cercado, com a ajuda de outros dois carniceiros. O bigodudo fez sinal para que os rapazes o seguissem.

Mais atrás, em volta da rinha, os ânimos se exaltavam. Um dos carniceiros acabara de jogar um goblin no cercado, magrelo mas musculoso, de olhos famintos, ferozes. O goblin tinha um saco de estopa na mão e uma pedra na outra, e olhava nervoso para a multidão. Homens gritavam e bebiam, um ou outro apontava este ou aquele detalhe no goblin, como que medindo suas capacidades. Dinheiro mudava de mãos enquanto um dos carniceiros recolhia as moedas e anotava as apostas.

— Isto deve dar. Deixem-me puxar um pouco aqui… — Wasy firmou as mãos em uma aba de carne salgada e puxou. Fez mais força até que todo um bloco se moveu, revelando uma carcaça enorme.

— Uau! O que é isso? — Giles estava entusiasmado com a peça. Dan olhava para trás, para o cercado.

Na rinha, outros dois carniceiros sacudiram um saco e despejaram seu conteúdo dentro do cercado. Vários tentacutes rolaram no meio da serragem. Boro levantou um braço no mesmo momento, enquanto virava uma ampulheta.

— É uma pata de armadilefante. Seca e salgada em Solaris, posso garantir. Tenho o resto do bicho empilhado nesta ala…

— O que é aquilo? Dan apontava para a rinha.

— Hmm? Ah, diz a corrida de cuias? É um dos esportezinhos aqui de Ramknal, rapaz. — Wasy limpou a mão cheia de sal — As pessoas apostam em quantos tentacutes o goblin vai matar em um minuto e enfiar no saco. É só um jeito de divertir a rapaziada antes de uma luta de verdade…

Alguns tentacutes escalavam a cúpula, enquanto o goblin pulava e se agarrava às grades, girando o braço em que segurava a pedra. Cada vez que acertava um animal, pulava sobre este e jogava saco adentro. O sangue espirrava na serragem. Wasy viu os olhos de Dan.

— Não é tão mau assim, garoto. — Os bigodes se fecharam, parecendo os dentes de uma morsa. — Criamos esses tentacutes para o abate. E precisamos alimentar o goblin, de qualquer forma…

— Não parece justo. E se um dos deuses viesse…

— Quem? Hyninn? Lena, talvez? — O bigodudo soltou uma risada de boca fechada, com o nariz.

— Vocês não temem cair na ira dos deuses? — Agora era Giles. Religião não é um hábito em Skerry, mas mesmo os sklirynei entendem o conceito de Mundos dos Deuses.

Ramknal— Ah, a velha história de crer e temer. Vocês irão encontrar alguns pangarés por aí que se deixam levar, principalmente uns perdidos artonianos. Mas não se acostumem. — o homem deixou um sorriso bonachão inchar suas maçãs do rosto — É preciso um tanto de distância para manter a fé e o temor, sabem? Difícil ser devoto de um deus que se espreguiça no jardim ao lado de casa ou coça as partes de manhã enquanto pensa se deve fazer chover um pão com manteiga pro café. A intimidade estraga a religiosidade, garotos. E quanto a aborrecê-los…

— Eles estão muito ocupados, essa é que é a verdade. — Wasy catou um gancho de um tendal e puxou um pouco mais a pata de armadilefante, avaliando seu peso. — Vocês viajaram um pouco, não é? Viram muitos deuses? Viram muita atividade divina ultimamente?

Ouvia-se apenas a algazarra da rinha. Dan e Giles não sabiam o que dizer.

— É. Achei que não. Vocês são bem verdes, mas podem continuar viajando por mais duas décadas, e as coisas não vão mudar. E não olhem assim, os deuses existem, claro que sim. Eu não estou dizendo que não existem.

Wasy cortou uns nacos de carne salgada e deu para os dois. Começou a mascar um naco também — Um dia pode até ser que vocês vejam um ou outro… talvez aqui mesmo em Ramknal, o velho Hyninn tem lá um certo orgulho deste pedaço de poeira. Mas eles não estão assim tão interessados no terreno, entendem? Arton é a menina dos olhos deles. Cada um desses cretinos olha com ciúmes esse mundo, observando, planejando, interferindo. Dê uma nesga de terra em Arton para qualquer deus e ele faria as malas num piscar de olhos!

— Então por que não moram lá? — Dan nunca entendeu isso.

— Porque não há nada mais ciumento que um deus, moleque! Deixe que um deles fixe residência em Arton, e logo todos estarão em guerra até esfarelar o mundo inteiro. Daí ficam todos aqui, cada um em seu pedacinho de rocha, montando guarda. E falando em pedaço de rocha, vamos ver as carnes defumadas que o Mirno pediu…

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Aqui termina a primeira parte de Um mercado em Ramknal! Você poderá conferir a segunda parte em breve.

Confira outros contos da série eles Dançam sobre Nós clicando aqui.

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Leonel Domingos • 09/08/2017

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