Eles Dançam sobre Nós — Um mercado em Ramknal (Parte 2)

Um mercado em Ramknal — Parte 2.

Esta é a segunda parte de Um mercado em Ramknal. Confira a Parte 1 clicando no link.

Uma fanfarra tentava tocar acordes sonolentos sob o sol enquanto os atores encenavam uma peça sem diálogos, elaborada para interligar as acrobacias. Poucos espectadores se arriscavam a sair da sombra das marquises e os atores suavam, fediam e desidratavam dentro das enormes máscaras de animais. Um gordo com máscara de boi servia de plataforma para o acrobata vestido de gato, que pulava e cambalhotava em volta de um anão vestido de rato.

Liao-Purr aguardava sob uma das marquises, com um copo de leite fermentado, observando os mambembes. O ator que fazia um gato era digno de nota, ótimo acrobata. Todos os outros eram de matar. Principalmente o rato: o anão rebolava para mover suas pernas curtas, dando voltas sem sentido e batendo com a cauda de arame nos objetos de palco. Se enfiava sob as pernas do boi com a agilidade de um ovo cozido e demorava a perceber que o ator gato lhe atrapara a cauda falsa. “Os rivais de Sora” era uma apresentação medíocre para as cidades-cassino, uma curiosidade de rua para Boudolin e o ápice da carreira daqueles merdas. Mas para Liao-Purr era tão ruim, falso e desajeitado que chegava a ser divertido. Nenhum deles parecia conhecer o refinamento dos movimentos do gato, a aura de força e a vontade pétrea nos modos do boi, ou a velocidade e capacidade de achar abrigos impossíveis do rato. Para Liao-Purr aquilo era uma caricatura feita por crianças de três anos.

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Uma cadeira rangeu quando arrastada para a mesa e Sionn Thurle, capitão de Megaréa, sentou-se, retirando o chapéu em respeito. Os olhos da soriana se abriram um pouco quando pararam de olhar a trupe ao sol e ela retirou o pano úmido que cobria a jarra de leite fermentado e outro copo limpo.

— Ah! Capitão do Gog’Magogue! Fico honrada que tenha atendido minha modesta solicitação. — serviu um copo para Sionn. — Eu sou Liao-Purr, humilde mercadora de tecidos.

— Tive um tempo antes de embarcar a carga. — resmungou e tomou um trago — Não estou reclamando da folga, mas se é para negociar uma carona…

— Oh não, não, honorável capitão! Meus negócios me prendem a Ramknal. Infelizmente já não prendem mais meu tio, o honorável Liao-Tzi, que Lin-Wu honre sua próxima vida.

Liao-Purr bebericou seu leite, pousou o copo graciosamente e lambeu o canto da boca — E é precisamente meu honorável tio, embalsamado, que preciso transportar em seu navio, Capitão. Ele precisa descansar em sua terra natal antes de prosseguir seu ciclo de existência.

— Isso seria em Sora, presumo. Madame Liao, eu não quero ofendê-la, mas não acho que meus homens se sintam à vontade transportando um cadáver, embalsamado que seja. E além disso estamos há uns três mundos de Sora, em nossa rota.

O anão vestido de rato correu para próximo dos dois negociadores e se jogou no chão espalhafatosamente, rolando desengonçado enquanto o acrobata-gato fingia tentar prendê-lo no lugar com uma vareta. Era difícil fingir que errava: o rato rolava lenta e dificultosamente.

— Não se preocupe com a visão que seus homens irão ter, honorável capitão. Mandei preparar uma caixa ornamentada e selada, para a viagem. Quanto à rota, o senhor possui encomendas aguardando nos próximos mundos?

— Bem, não desta vez mas… — começou Sionn Thurle.

— Então eu compro sua carga inteira. — Liao-Purr fez uma meia pausa enquanto o capitão pigarreava sua surpresa — Será um presente para minha família, uma compensação pela tristeza de receber meu amado tio pela última vez. Em troca eu peço que seja rápido em sua viagem e leve seu navio diretamente para o porto que lhe passarei… Podemos acertar o preço?

Um urso dançarino balançava o corpo, coleira e focinheira ligadas por uma corda ao braço do treinador, que soltava rufos num tambor. Mesmo com a focinheira, ninguém deixava as crianças se aproximarem do bicho. Alguns membros da fanfarra ainda tocavam para animar o urso, mas o resto da trupe agora descansava em três carroções. Os atores removiam roupas e máscaras. O ator que interpreta o rato sentou-se sozinho num carroção, dividindo o espaço com objetos de cena, cortinados, bolsas de couro e muito mais. Não era o carroção principal, mas era seu lugar favorito. E ele podia se dar ao luxo de escolher onde mudava de roupa: era o dono da trupe.

Desabotoou as roupas e afrouxou as fivelas, deixando tombar o enchimento que simulava pernas tortas. Retirou a imensa cabeça de rato para revelar… um rato. Das orelhas aos bigodes e aos incisivos proeminentes, o ator era um autêntico nezumi, um homem-rato de pelagem cinzenta e um rabo enrolado em torno da cintura, agora sendo massageado para remover a dormência. Hiikhroc era ótimo em parecer péssimo, uma atuação consistente: a cada momento do dia e perante qualquer público, em parecer um péssimo ator numa fantasia barata de roedor. Era um dos muitos soldados de Lorde Chikiji espalhados pelos mundos em um jogo de contra-espionagem na eterna guerra entre Chikiji e Liao-Nyaa.

Hiikhroc descansou um pouco. Com cuidado para não queimar os bigodes mascou a ponta de um cachimbo e deixou a fumaça correr pelo focinho. Sua rede de comunicações envolvia algumas trupes mambembes, bardos errantes e turnês de variedades, gente tão espalhafatosa que passavam completamente despercebidos nas cidades de Ramknal. Não era difícil acompanhar o rasto de seus alvos. Há semanas sabia que Liao-Purr estava preparando alguma coisa importante, revendo contatos e dando as caras no mercado negro, daí dirigiu sua própria trupe para Boudolin para poder vigiá-la pessoalmente. E não foi em vão: Purr estava enviando uma arma perigosa para Sora, perigosa demais para seguir pelas estradas habituais dos Portadores de Segredos.

Com um suspiro o rato apagou o cachimbo e vestiu outras roupas, apertando aqui e ali, inserindo almofadas e mantos estratégicos até que sua silhueta passasse outra idéia de criatura. Deu alguns passos no carroção até acertar a postura, depois escorregou pela lona e desapareceu em uma rua lateral. Pouco depois deu duas pancadas fracas numa porta de armazém. Uma espia redonda se abriu e logo ele passava pela nesga da porta. Conhecia bem o merceeiro, um halfling que já passara maus bocados há uns anos e teve seu tempo de vaudeville com Hiikhroc antes de se erguer novamente. Um punhado de ouro trocou de mãos e pouco depois Hiikhroc, de capuz fechado e cachecol, viajava no subterrãneo ao lado do halfling, numa carroça puxada por cães especialmente construída para correr O Novelo. Mesmo se aproveitando da via expressa halfling, não havia tempo a perder e chegar a uma cidade-cassino poderia lhe custar a caça. Rumaram para Covapedra, uma cidade sem lei próxima de Boudolin. Quatro horas mais tarde Hiikhroc já podia ver as casas castigadas pelo deserto e o que desejava: dois Gog’Magogues preguiçosamente estaiados nos postilhões do vilarejo. Covapedra era refúgio para qualquer fora-da-lei e ele não precisava olhar as armas de cerco e agulhões presos às naves para saber que se tratavam de piratas. Dirigiu-se para o salão mais iluminado que encontrou.

O Café Pirâmide não interrompeu seu burburinho com a entrada do pequenino encapuzado, e ninguém se preocupou em acompanhar seu bamboleio até o balcão. Hiikhroc escalou um banco, fez sinal para o barman e, fazendo deslizar um tibar de prata, segredou: — Olhe, eu lhe faria uma pergunta e daria uma moeda de cobre, você teria um sério problema de memória que só seria curado com outra moeda, até chegarmos a umas cinco. Só que não temos tempo, então pegue esta peça de prata e me diga logo onde encontro uma tripulação para uma pequena transferência de valores.

Num canto do salão, Foley o Cruel arrotou uma nuvem de cerveja.

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Aqui termina a segunda parte de Um mercado em Ramknal! Você pode conferir a Partes Um clicando no link.

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Leonel Domingos • 16/08/2017

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