O Enigma das Arcas, Ato XXII — Grigori

Até mesmo as piores pessoas criam laços. Confira o encontro entre os dois mais conhecidos párias de Ridembarr nesse capítulo do Enigma das Arcas!

armageddon-felrond-enigmaAté agora, no Enigma das Arcas…

Enemaeon de Ridembarr é um mago das trevas que após uma malsucedida invocação teve o coração arrancado e substituído por um artefato malignoPara se livrar dessa condição, partiu em jornada tentando salvar a própria alma.

Nessa busca, ele conta com a ajuda dos antigos companheiros: o ladrão clérigo de Hyninn Garlor “Presas de Prata” e o elfo bêbado Felrond, além de outras pessoas igualmente terríveis, como o capitão pirata Moranler Silverdall e um guerreiro morto-vivo chamado Villvert.

As desventuras do grupo os colocaram no caminho para Valkaria, mas antes, fizeram uma parada rápida em Ridembarr, a terra natal de Enemaeon. Ali, ele está prestes a se encontrar com um velho conhecido…

Ato XXII – Grigori

Ganhando a pequena rua, Enemaeon deixou o casarão para trás e atravessou na direção dos campos que cercavam Ridembarr. Ladeou a fonte simplória da praça e cumprimentou sem muita vontade um jovem casal que passeava de braços dados.

Haviam poucas barracas colocadas aqui e ali, oferecendo a colheita da manhã aos interessados em reforçar o almoço. Leite, queijos e carnes penduradas por fios nas traves baixas, protegidas do sol por um tecido grosso. Moscas voavam em volta, pousando aleatoriamente nos salames defumados, nos pães assados ao forno e num porco recém abatido cujas melhores partes eram disputadas por duas aias.

Aproximou-se de um daqueles toldos e escolheu uma garrafa de vinho cujo parreiral — de acordo com o vendedor — ficava no reino de Bielefeld. O aroma era forte, indicando uma bebida encorpada. Indiferente quanto a real localização do vinhedo, o mago ficou com ele, recomendando ao sujeito que cobrasse o valor seja ele qual fosse após o meio do dia na casa dos Ridembarr.

Passou ainda em frente ao templo simplório em honra aos deuses do panteão e pela estalagem que pertencia ao prefeito (cujo nome sempre lhe escapava) antes de deixar o calçamento gasto pelos anos e ganhar a grama alta da campina. Seu destino era uma casa velha numa baixada, logo após uma descuidada e já ressecada plantação de milho. As espigas parcialmente devoradas pelos animais caíam ao solo e as poucas sementes restantes rebrotavam desorganizadas em volta.

— E então, graças a mim, o Reinado estará para sempre salvo da fome devido as famosas espigas que se plantam sozinhas! — caçoou um homem alto, magro e de aspecto descuidado que surgiu na janela de madeira e sem cortinas. Cabelos parcialmente grisalhos, sujo de tinta e com profundas olheiras. Enemaeon não conseguiu evitar sorrir.

— Que dia de sorte! Eis que me deparo com o mais ilustre filho de Ridembarr, Grigori, o artista! — anunciou o mago com uma mesura fingida e empolada voltando a face zombeteira para o companheiro que de cotovelos apoiados no peitoril, bufou e riu com vontade.

— Já perdi esse título há tempos para você, seu bruxo infernal — respondeu deixando a janela e abrindo a velha porta que rangeu com vontade no batente — Perca toda a esperança, vós que entrais!

O necromante adentrou sem cerimônia pela sala simples abarrotada de quadros, entregando a garrafa como presente. Enquanto se perdia nas obras espalhadas por toda parte, o velho amigo voltou trazendo duas taças consigo. Sentaram-se em cadeiras de madeira, os pés apoiados sobre uma mesa baixa onde jarros e potes com tinta descansavam e conversaram sobre amenidades até esgotar a primeira garrafa. Uma segunda foi aberta e estavam na metade da terceira quando enfim chegaram no assunto que trouxe Enemaeon até ali.

— Vai subir o rio Panteão até a Savana? — era Grigori.

— Vou — respondeu o necromante sorvendo um longo gole de vinho, antes de voltar o olhar para o rosto do amigo. Este, sem dizer mais nada, levantou-se e buscou uma tela antiga suja de pó e parcialmente desbotada e esquecida pelo tempo. A colocou diante de ambos e — braço apoiado sobre a pintura — apontou para a vermelhidão sem sentido que manchava boa parte da tela.

— Tormenta — disse apenas, como que esperando pelas palavras do amigo. Em resposta, ele deu um longo gole antes de se dirigir ao artista que o fitava indiferente.

— Sei bem pelo que você tem passado, Grigori — falou, e sua voz era apenas um murmúrio — Mas preciso saber mais. Se terei que enfrentar este tipo de coisa, preciso conhecer o que vem pela frente.

— Não há mais o que saber. Eu tenho sonhos sobre o lugar, e eles são sempre vermelhos. De sangue e opressão. Sei que ele parece feio e incompleto — apontou para o quadro simplório e sorriu — Mas é assim que ela se mostra para mim. Vermelha, feia e incompleta, como se algo lhe faltasse apenas por sua própria e monótona força que tudo devora. Então, se veio atrás de conselhos, o único que posso dar é: se puder evitar Zakharov, evite.

— O monstrinho que você me indicou da última vez — comentou Enemaeon após servir-se de mais bebida — Eu realmente o encontrei, como você havia dito.

— O intruso? — perguntou Grigori, interessado — Bem no meio do crânio, não é? Eu sabia. Isso pelo menos prova que metade do que me perturba é real. E como o tirou dali? O hospedeiro geralmente é forte como sete homens.

— Contratei oito sujeitos, por precaução — respondeu o mago — Dois caíram nos primeiros golpes, dois mercenários tentaram fugir após isto e acabaram mortos pelas costas. Os que restaram lutaram pelas próprias vidas com um pouco mais de seriedade, então venceram. Me trouxeram o corpo. Procurei pela criatura e o resto é resto.

— E onde ela está agora?

Silêncio. Olhares. Por fim a confissão:

— Eu a coloquei em um outro sujeito. Ontem.

— Está louco! — bravejou Grigori — É um filho da Tormenta! Um demônio! Ele irá matar você na primeira oportunidade, ou pior!

— Por enquanto está contido, também não sou tão inconsequente em soltar a coisa de uma hora pra outra.

— Mesmo assim, a doença pode ser contagiosa. Você não sabe! Devia ter pisado nele ou algo assim e não alimentá-lo!

— Talvez. Mas, quem sabe, ele não seja a resposta para nossa passagem por Zakharov? Se me ser útil pelo menos uma vez, terá valido a pena. E fique tranquilo, eu tomei certas providências para que a coisa não possa dominar completamente o portador.

— É um daqueles seus mortos? — novamente interessado, os copos se enchendo vez em quando — Não sabia que isso era possível.

— Só sabemos se funciona quando tentamos. Posso levá-lo para conhecê-lo assim que me mostrar a cópia do mapa que desenhou anos atrás. Aquele, para a Academia Arcana.

— Se o zumbi está com um diabinho sob o elmo, é a última coisa que quero ver nesta vida — respondeu Grigori levantando-se e se dirigindo ao lugar onde guardava o tal mapa. Precisou retirar algumas telas e retratos de nobres falidos que nunca voltaram para buscar as encomendas do caminho até encontrá-lo.

A Academia Arcana era a mais famosa escola de magia de toda Arton. Nela se formaram os mais prestigiosos magos desta era e foi onde Enemaeon estudou até ser expulso. Administrada por um dos maiores arquimagos que já se teve notícia, o Grande Talude, ficava em um plano mágico que existia paralelamente à cidade de Valkaria. Era impossível, portanto, chegar até ela por meios comuns. Porém, ninguém nunca havia colocado imposições sobre meios incomuns.

— Sabe que se descobrirem que tenho um destes virão atrás do meu pescoço — justificou Grigori já sem o sorriso cordial na face.

— O velho Talude não é o caçador de hereges ranzinza que você imagina.

— Não é o que dizem em Vectora — respondeu o pintor dando de ombros.

Tinha nas mãos uma tela onde se via uma paisagem idêntica a encontrada do lado de fora da própria residência: milho, algumas casas nas colinas e a estátua de Valkaria ao longe aparecendo misturada em meio às montanhas distantes. Enemaeon liberou a mesa do peso dos potes de tinta e Grigori depositou ali, virada para trás. No avesso, um mapa da cidade de Valkaria estava detalhadamente delineado. Assim que o mago tocou o tecido, alguns pontos de luz passaram a brilhar em locais distintos.

— É só um mapa dos portais, fique tranquilo. Ativá-lo não vai me fazer mal — apaziguou o mago — Precisarei de algum deles em breve. Infelizmente o que eu utilizava foi cancelado na ocasião de minha expulsão, e nenhum dos outros residentes de nossa vila no meio do nada se interessou o suficiente por magia para que criassem outro.

— Provavelmente por saber o que aconteceu com você. — falou Grigori — Será que não está desatualizado? Faz anos que o desenhei.

— Recomendei a você que usasse uma parte do papel que lhe entregaram nessa tela, se lembra? Isto garante que ele se mantenha sempre idêntico ao mapa original que foi encomendado.

— Mesmo assim, você vai precisar de uma senha pra entrar na Academia, não importa que portal usar, você sabe — falou o pintor já antevendo a resposta que teria do mago. Este por sua vez não o decepcionou e de pronto disse-lhe o que pretendia. Não havia meias-palavras entre os amigos.

— Se encontrar um portal, encontrarei alunos. E tirar a senha deles não é o mais difícil. Esta proteção tola é uma forma de entreter os garotos apenas, deixa tudo com um ar mais místico e empolado.

— Para mim um castelo que existe e não existe neste mundo ao mesmo tempo soa bem fantástico.

— Acredite, não é nada tão incrível assim. Ainda mais se for mesmo uma parte do reino divino da deusa da magia como Talude apregoa. — respondeu Enemaeon correndo os dedos ágeis pela tela, procurando o melhor lugar para executar o plano — E pronto. Aqui estará ótimo.

— Na favela goblinoide? — perguntou Grigori não acreditando no que ouvia — Não tinha algum lugar mais triste, sujo e depressivo para entrar na academia?

— Sua casa, talvez? O lar do “Amaldiçoado” e suas espigas que se plantam sozinhas?

— Ou a latrina do imperador! — gargalhou Grigori, enfim — Mas que diabos. Não sei por que ainda tento colocar algum juízo entre estas suas orelhas. Que vá para o inferno!

— Não hoje, mas parece que irei mesmo em breve — respondeu o mago despedindo-se com um abraço e alguns tapas nas costas — E quando estiver lá, mandarei lembranças suas aos deuses malignos. Conto com sua presença no pomposo almoço de Cordélia e os Ridembarr?

— Não desta vez — sorriu Grigori despedindo-se e vendo os esboços das três meninas irmãs do mago sobre o tripé de pintura — Tenho um retrato para terminar.

Com tantos planos sendo feitos, fica claro que a história vai avançar bastante ainda. Caso ainda não tenha começado a ler, é um bom momento pra acompanhar o Enigma das Arcas desde o início! =D

Armageddon • 18/09/2017

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