Eles Dançam sobre Nós — Escrito nas Estrelas

Enquanto planos são traçados nos Mundos dos Deuses, Em Arton um velho se arrasta na neve das Uivantes.

Não havia vento. Nalgum canto dentro da cabana um tufo de urze fazia crepitar pedaços de bosta ressecada, uma alternativa muito mais barata que gastar lenha. Trazer madeira para os picos das Uivantes era tarefa árdua e os cavacos que sobravam depois de preparar as tábuas seriam gastos com mesquinharia até que o tempo permitisse outra viagem montanha abaixo.

Do lado de fora o único som era o rangido abafado de pés e patas contra a neve e um farfalhar monótono de escovas enquanto dois vultos circulavam uma área perto da cabana. Agora os vultos pararam.

Gallius descalçou uma luva e coçou o pescoço de Jericó, pousando o olhar no gelo. A coisa de trinta metros um poste baixo de madeira se erguia, o tronco gasto e polido onde uma corda o abraçava, frouxa. A partir desse eixo uma corda franjada, feito uma escova gigante, estava atada até a cangalha do burro. O velho tinha feito o animal rodar em torno daquele eixo, escovando o gelo, e agora uma grande tigela vítrea reluzia para as estrelas. Observou atentamente o espelho côncavo de gelo, à cata de qualquer ponto fosco ou sujo. Precisava estar perfeitamente limpo. Satisfeito, recolheu o escovão com cuidado e desatou o burro.

— Pronto, Jericó. Agora é comigo — bateu nas ancas do animal — Pode ir para seu abrigo, deixei feno e grãos para você.

— E não espalhe neve! — completou.

Meteu a mão em  uma bolsa de couro, certificando-se de que a corda e gancho estavam lá dentro, daí sacou um pano limpo e escorregou para dentro da concha gelada, cuidando de arrastar  pano atrás de si. Deslocou o poste de madeira, que tinha um encaixe na base, e tratou de se acomodar bem no meio do espelho.

Gallius Relpek era astrólogo. Como outros tantos espalhados por Arton, começou a carreira em uma das torres místicas e fez as peregrinações de solstício nos templos de Thyatis. Mas era considerado rebelde por seus tutores e grosseiro por toda a gente. A verdade é que as preocupações astrológicas das pessoas encolerizavam Gallius. Suas respostas à tradicional pergunta “O que meu signo me diz para fazer hoje?” costumavam envolver usos criativos de objetos roliços.

Mesmo o convívio com outros astrólogos enfadava Gallius. Prever secas e guerras e o nascimento de grandes heróis tinha lá sua importância, mas para ele havia algo mais. Precisava haver. Todas aquelas constelações, a imensa abóbada celeste, não podia ser mera assinatura divina, um calendário de eventos extravagante.

O velho se ajeitou um pouco melhor e puxou um pergaminho da bolsa. A folha ainda nova, com tinta bem marcada. Gallius mesmo os fazia, e ainda haviam mais quatro na bolsa: pergaminhos de vidência.

— E que bom uso meus amados colegas lhe dariam, pequena ferramenta? — murmurou para o pergaminho — Descobrir que a condessa fornica com um bardo enquanto o conde ronca numa poça de vinho e vômito no salão? Perceber o carniçal tocaiado nos recônditos da masmorra que nem deveria ser percorrida, para início de conversa? Bando de abóboras! Não valem a bosta que queimo na lareira.

— Ouviu isso Jericó? — gritou — Eles não valem sua bosta!

Um zurro veio em resposta e Gallius voltou sua atenção ao pergaminho. Ainda jovem, Gallius rompera laços com as ordens astrológicas e adotara vida nômade, percorrendo Arton em seus templos, bibliotecas e ruínas, visitando sábios ricos e gurus pobres, e nos últimos anos mudara-se para um pico nas Uivantes. A altitude e o ar límpido e gelado proporcionam condições perfeitas para a observação das estrelas. O uso que desenvolvera para a magia de vidência é único e para tentar um efeito parecido seus antigos colegas teriam que recorrer a rituais complexos e pactos demoníacos.

O velho concentrou-se no pergaminho e o posicionou em sua frente. Riscos de luz começaram a brilhar enquanto o pergaminho se desfazia nas mãos de Gallius. Uma miniatura invertida em luz azulada do imenso espelho de gelo estava se formando na frente do astrólogo, lançando seu olhar para muito, muito longe. Naquela noite, para a constelação de Unicórnio, uma constelação de sete estrelas, quatro delas formando um arco e três alinhadas: a cabeça e o chifre do unicórnio. Gallius estreitou seu olhar, as mãos se movendo vagarosamente, fazendo a imagem do cosmos se mover na frente dos olhos do velho. Com calma dirigiu o foco para a principal estrela da constelação, a ponta do chifre. A estrela não parecia tão brilhante, esmaecida naquela noite pelo brilho da lua. A lua que, tão próxima da estrela naquela noite, chegou a aparecer na borda do espelho conjurado pelo astrólogo. Era enorme e, assim tão próxima, parecia haver um fervor esverdeado em um ponto, como uma montanha verde perdida no mar de prata lunar, nunca antes objeto de atenção de Gallius. O velho esqueceu do Unicórnio por um momento, centralizando o espelho na lua.

— Aquilo… Será que é… — Gallius vasculhou a memória. Aquela imagem trazia lembranças, mas do quê? Repassava mapas astrais, representações das constelações, alinhamentos… Nada. Ninguém havia visto a superfície lunar assim, tão perto.

A imagem falhou por uns momentos e se desvaneceu. Rapidamente Gallius puxou outro pergaminho da bolsa e começou a recitá-lo, reposicionando o braço para tentar chegar ainda mais perto. E à sua frente se formou a imagem de um globo verde e prata, enevoado, girando no éter. O pico verde, a montanha, agora nitidamente uma árvore gigantesca, impossível. A visão penetrou a mente de Gallius como chumbo derretido: Era Vitália! Gallius encontrara Vitália. Mesmo em sua rebeldia e questionamentos, jamais iria imaginar esta descoberta. As constelações eram mais, muito mais que um joguete divino.

Enquanto fixava o olhar, tonto com a descoberta, dois pontos luminosos apareceram, vindos de trás da lua. Duas estrelas cadentes como tantas outras, mas desviaram a atenção do astrólogo e o retiraram do estupor. Porque aquelas estrelas começaram a mudar o rumo, a primeira estrela alterando sua trajetória rapidamente, para logo ser novamente interceptada pela segunda. Parecia uma perseguição. Gallius alterou novamente a posição de sua magia. Se pudesse colocar as estrelas errantes bem no meio do foco, poderia ver o que são…

A magia falhou rapidamente, numa explosão de fagulhas, ao mesmo tempo em que uma enxurrada de flocos de neve cobriu-o. Dois vultos gigantescos bateram as asas, ganhando altura depois de um rasante.

— Malditos dragões! — gritou Gallius, tentando se levantar na superfície polida. Para sua sorte os vultos acinzentados não se deram conta de suas imprecações e retomaram sua rota pelas montanhas.

— Malditas lagartixas chifrudas! Pragas do ar! Abortos do gelo! — Subitamente Gallius parou de gritar, o peso da cena finalmente lhe atingindo por completo: Por que os dragões deram um vôo rasante?

— Oh, deuses! Jericó!! Jericó!!

Atabalhoadamente o velho retirou a corda e o gancho da bolsa e começou uma escalada desesperada.

 

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Aqui termina o quarto capítulo de Eles Dançam sobre Nós.

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Leonel Domingos • 20/09/2017

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