Castanha de Kaiju — Viva a Revolução!

Tome as ruas e derrube o governo tirano na sua campanha!

As massas tomam as ruas. O tirano opressor já não tem o que fazer – seus últimos aliados abandonam o barco, fogem para nações vizinhas, se misturam aos revoltosos. Um novo dia nasce para o povo. A Revolução é vitoriosa!

Revoluções fazem parte da história humana, praticamente desde que passamos a viver em sociedade. Pelo menos desde Aristóteles, na Grécia clássica, o conceito é debatido, na tentativa de entender as origens da democracia e a sua vitória (ainda que plena de contradições) sobre modos mais aristocráticos de organização social e política.

Essencialmente, podemos definir a revolução como uma transformação radical no modo de organização política, social, cultural ou econômica de uma sociedade. Esta é uma definição simples e grosseira, é claro, que não contempla toda a complexidade do conceito e dos eventos históricos associados a ele; mas acredito que nos baste aqui, num ambiente leigo, apenas atrás de referências que nos ajudem a incrementar nossas mesas de jogo. Só não vá usá-la para discutir em outros sites!

As revoluções mais conhecidas são, em geral, políticas. A mais famosa delas foi assim: a Revolução Francesa, que em fins do século XVIII derrubou o Antigo Regime, pondo fim a uma das monarquias mais tradicionais e antigas da Europa, e o substituiu por uma república. Foi dela que tiramos muito do que definimos como revolução, tanto positivamente – o fim de um governo decadente e opressor, e a sua substituição por um mais justo e condizente com as vontades do povo – como negativamente – o medo e a incerteza quanto ao futuro (o “terror” pós-revolucionário), a perseguição e caça às bruxas entre os próprios revolucionários, ou mesmo o seu eventual sequestro ideológico por líderes carismáticos.

Por tenso que seja, este também é um ambiente muito propício a histórias de aventura e grande impacto. Uma revolução – ou, mesmo que ela nunca venha a acontecer de fato, ao menos a sua incitação em conspirações e ações subversivas – pode render campanhas memoráveis, que deixam a marca de personagens na história de um cenário. De fato, há muitas histórias clássicas da literatura – de O Conde de Monte Cristo até o Pimpinela Escarlate – que se passam em períodos revolucionários. De maneira geral, onde houver um governo tirano e opressor, ou uma sociedade injusta e corrompida, haverá também aqueles que sonham com o seu fim, e estão dispostos a agir para transpor a distância entre o mundo que desejam e aquele em que vivem.

Arton também possui pelo menos uma revolução popular que se encaixaria na maioria dos critérios que temos para classificá-las: a Rebelião dos Servos que terminou por dar origem ao reino de Trebuck. Começando com uma revolta de aldeões contra o regente apontado para cuidar da região, terminou com a sua separação completa do reino de Sambúrdia, da qual fazia parte anteriormente.

(Num pequeno parênteses, sempre achei curioso que o grande exemplo revolucionário artoniano terminasse com a fundação de um reino com um modelo político mais conservador que o anterior. Sambúrdia possui como peculiaridade política o fato dos seus regentes não serem hereditários, mas escolhidos e trocados em votações regulares – chamá-lo de reino é mais uma formalidade, tecnicamente ele estaria mais próximo a uma república, como a das cidades italianas medievais, por exemplo; Trebuck, ao contrário, que se formou justamente de uma rebelião de servos, se organizou como uma monarquia clássica, com uma família regencial e o cargo de rei hereditário… Mas isso também é só um detalhe curioso, e não algo completamente implausível ou impossível a partir dos exemplos históricos. Certamente há uma história muito interessante aí que só nunca foi contada).

Há muitos outros locais, no entanto, onde uma revolução pode ser iminente. Qualquer reino com um povo oprimido, governado por um regente tirano, é propício a revoltas populares: de Portsmouth e o Lorde Ferren Asloth que proíbe toda magia arcana, até Sckar Shantallas e o temido dragão-rei Sckar – certamente uma revolta contra o rei dos dragões vermelhos não parece muito passível de vitória, mas seria também a mais épicas das revoluções se tivesse sucesso! E, é claro, há também o Império de Tauron, que domina com mão de ferro um pedaço considerável do continente desde as Guerras Táuricas, e possui toda a sorte de revoltas e reformadores plebeus da história romana para usar de inspiração – de Caio Graco até Spartacus.

Claro, nem toda revolução precisa ser política. Revoluções econômicas e culturais também merecem o nome – como a Revolução Industrial, que transformou a sociedade de uma forma que nos traz consequências (boas e ruins) até os dias de hoje; e a Revolução Científica que se seguiu às descobertas sobre o homem e o universo no fim da Idade Média e durante o Renascimento.

Curiosamente, é plausível imaginar que Arton esteja próxima de passar por esta última. Lembremos que, historicamente, muito da revolução na ciência teve início com uma descoberta muito simples: a de que a Terra gira em torno do Sol, e não o contrário como se acreditava até então, pelo astrônomo polonês Nicolau Copérnico. Foi a partir daí que muitos pressupostos a respeito do homem, da natureza e do universo passaram a ser questionados. E um evento semelhante está acontecendo em Arton, com a descoberta dos pormenores da sua cosmologia, como você pode ler em Mundos dos Deuses e também na série de contos Eles Dançam Sobre Nós, do colega Leonel Domingos aqui no site. Que consequências tal conhecimento pode trazer, no curto, médio e longo prazos, para o pensamento artoniano? Ainda mais se descobrirem que a verdade neste é caso é justamente o oposto: Arton de fato está no centro do seu universo, e todos os astros girando ao seu redor? Isso apenas você pode responder, na sua campanha.

Fazendo a Revolução
E como fazer a revolução em uma mesa de jogo? Como incitar a população, tomar as ruas, e derrubar o governo tirano?

Uma revolução é um processo longo, que deve tomar ao menos um arco de campanha inteiro, se não a própria campanha como um todo, e não apenas uma aventura ou duas. É preciso conspirar nas sombras, mobilizar a população, organizar os revoltosos.

No planejamento da campanha, é importante lembrar que o que diferencia uma revolução de um mero golpe de estado é, principalmente, a presença do povo. Uma revolução verdadeira não é um assunto de gabinetes, mas das ruas – ela não ocorre com uma simples troca de comando nos altos escalões do governo, mas com a tomada das ruas pela população desejosa de mudança.

Uma forma mecânica bem simples de representar isso é utilizar os Pontos de Vitória, que foram usados na aventura Contra Arsenal e na Saga Élfica que começou na Só Aventuras Vol. 2. A cada sucesso ao longo da campanha, o mestre pode conceder ao grupo um certo número de Pontos de Vitória – algo entre 1 e 4 pontos deve ser o bastante – para representar os pequenos passos dados em direção ao sucesso final. Assim, convencer os soldados do rei tirano de que ele é corrupto e não merece o seu apoio pode render 1 Ponto de Vitória; resgatar da prisão um líder importante para a revolução, 2 Pontos; mobilizar os camponeses a se recusarem a trabalhar, 3 Pontos; e assim por diante.

Ratos também podem ser revolucionários!

No momento derradeiro, quando o povo toma as ruas e o embate final contra o exército do tirano acontece, estes Pontos de Vitória ajudarão o grupo a ser bem-sucedido: podem ser usados da mesma forma que Pontos de Ação, em Tormenta RPG, ou Pontos de Destino, em 3D&T, pavimentando o caminho até a vitória final. É possível mesmo incluir o uso dos pontos na narrativa: um ponto gasto para melhorar um teste, por exemplo, pode representar a ajuda dos revoltosos na hora derradeira; gastar um ponto para rolar novamente um teste de Furtividade pode vir de um aliado inesperado que, no último instante, desviou a atenção do guarda inimigo, permitindo que o personagem se escondesse novamente; e daí por diante.

Mesmo que a vitória não venha, é claro, não há razão para desistir. Toda revolução da história humana foi repleta de ensaios e recuos, momentos em que ela parecia estar perdida e vencida após uma derrota violenta, para então triunfar em definitivo meses ou anos depois. Ela pode falhar muitas vezes – mas só é necessário que vença uma. Como já disse alguém que certamente entendia muito mais do assunto do que eu, toda revolução é impossível, até que se torne inevitável.

Como foi na sua campanha? Alguma Revolução em andamento? Conte nos comentários como foi!

BURP • 09/10/2017

Comentários