Eles Dançam sobre Nós – Caçada e Matança (Parte 1)

O famigerado Carranca corta o éter na trilha de Megaréa.

— Impacto!

A explosão jogou alguns marujos para trás enquanto estilhaços de madeira, pedra, couro e metal criavam um jato que perfurava barris em seu caminho. Dois homens caíram no convés e começaram a se arrastar em desespero, deixando um rastro de sangue e mijo. Um terceiro corpo rolou como um fantoche cujas cordas foram cortadas, a cabeça apenas uma massa vermelha com ossos despedaçados e miolos escorridos. A ponta de projétil que lhe despedaçou o crânio ainda rebotando sem força pelo chão.

A fedentina do impacto mal chegou à outra câmara da coberta quando os últimos homens se arrastando foram puxados à força e os gritos dos incapacitados foram abafados pelas tábuas fechando a câmara. M’bemb aliviou a concentração e deixou o ar escapar da câmara, arrastando consigo os corpos das vítimas e extinguindo alguns fogos nas lonas. A tristeza do momento estava entorpecida pela urgência: Megaréa estava sob ataque cerrado.

Dias depois de deixarem Ramknal outro Gog’Magogue foi avistado, desviando de uma rota oculta por Vitália. Era uma forma horrível, de corpo escuro contrastando com as membranas brilhantes, arrastando consigo farrapos e quinquilharias como franjas numa jaqueta. A frente despontando como uma baioneta, o bridão alongado para formar um esporão mortal. Algumas horas se passaram com o monstro fosco ganhando terreno sobre Megaréa, até se tornar reconhecível. Os farrapos e adornos eram restos de membranas, de bridões e bandeiras rasgadas, troféus de guerra presos desleixadamente como tendões e restos soltos entre os dentes de um dragão. Há muito que sabiam tratar-se de uma nau pirata, mas vê-la tão nitidamente abafou os ânimos da marujada. E por mais que incitassem Megaréa, a nau pirata aproximava-se: era ligeiramente mais leve e significativamente mais faminta. Em dado momento houve um clarão e um foguete queimou rasto na escuridão, a cabeça de metal cintilando em direção à proa, explodindo na segunda entrecoberta. Fora um tiro de aviso.

Na ponte de Megaréa o capitão Thurle removeu a rolha de um tubo acústico e soprou nela — a rolha de latão era também um apito — e gritou ordens. Em diversos pontos do casco os cones de latão soaram com a voz engarrafada do capitão e o navio se agitou ainda mais. Não há turno em emergências, então todos os braços livres se puseram a mexer nas cordas, abrir espaços e trazer armas e munições. Grumetes espalharam serragem nos tombadilhos, numa sinistra profecia de sangue derramado. Um grupo reposicionou uns barris na popa e começou a mexer em uma série de malaguetas presas nas paredes. Dan e Bul subiam e desciam entre as pontes e das pontes às cobertas, levando instruções de manobra e trazendo reportes de situação. Às vezes se trombavam nos corredores e escadas.

— Cuidado com o chão! — Bul comentou enquanto espremia Dan em sua correria escada acima — Essa serragem tem farpas!

— Viu o Mestre Carpinteiro?

— Popa! Escorregue logo pra baixo, homem, tenho que chegar no poleiro do Cormac!

Bul alcançou um outro lance de escadas de marinheiro e espremeu-se pela lateral da cabeça de Megarea, subindo à ponte do timoneiro, o qual se esforçava em corrigir a rota, aferroado ao timão. A roda de madeira estava ligada por cordas e engrenagens a umas hastes maiores, que corriam para o bridão na boca do Gog’Magogue. A aspirante passou rapidamente a situação: os homens nas cordas já haviam afrouxado as velas e o carpinteiro acabara de soltar o último encaixe.

— Então é agora! — o timoneiro prendeu duas cordas no timão, imobilizando a peça, e passou para as hastes — Fique desse lado e, quando eu der o sinal, levantaremos as hastes de bridão para fora dos encaixes. Depois proteja-se!

Os dois se puseram, cada qual agarrando uma das hastes de madeira densa e, num esforço coordenado, ergueram até que elas soltaram dos calços. Assim que o bridão se afrouxou Megarea, sentindo o alívio de pressão, sacudiu o corpo. Na ponte os timoneiros rolaram pelo chão, tentando se agarrar, enquanto no resto da nau homens foram jogados para os lados, garrafas tombaram, uma ou outra corda se arrebentou e chicoteou a marujada. E nos fundos houve um som de rachadura quando parte da popa, livre das malaguetas, se deslocou e soltou-se do Gog’Magogue.

Espere um momento… quer dizer que esta imagem do livro se refere a ESTE MOMENTO?? Bingo!

 

No tenebroso Carranca, Foley o cruel abriu um esgar. Viu a popa da Megaréa se soltando e as velas começarem a se retesar novamente. Perto dele uns piratas recarregavam o nebulbo. Dois homens enfiavam um esfregão molhado pelo cano de bronze rebitado, para retirar qualquer fagulha, enquanto outros dois traziam um projétil. Era de um lote negociado em Pyra. Todas as rastrêlas com uma ponta maciça de ferro, moldada como a cabeça de um mastim com o focinho amassado e dentes salientes. Dentro do corpo de bronze polido uma mistura difícil de se obter: o conteúdo das glândulas de uma centopéia-dragão. Bastava queimar a ponta das garrafas internas para que os líquidos se misturassem, criando uma explosão de fogo.

— Parece que os bostinhas molharam os calções. Muito bem, meninos, recolham o nebulbo. Vamos enganchar essa popa.

— V-vai deixá-los escapar?! — Hiikhroc segurou-se na amurada da proa — Eles n-não podem chegar a Sora!

Foley franziu o cenho e olhou de esguelha para o rato. Atrás de Hiikhroc o velho Raf mantinha as mãos longe do corpo e a postura um pouco descansada, manso jacaré de tocaia. O rato não teria muitas chances no Carranca, então Foley não se importava em conversar um pouco. Virou-se em sorrisos.

— Estão aumentando a velocidade, patrão. Todo o peso ficou naquela popa abandonada, e quero ser um kobold se isso não é a carga. Nosso peixe gordo, o lucro por um trabalho bem feito!

— Não! — Os bigodes de Hiikhroc tremeram até quase sumirem com a velocidade — Não posso correr riscos! Precisa alcançar aquela nau, capitão!

— Impossível. Sem a carga eles irão equiparar velocidade conosco, e não há como mandar uma rastrêla nas velas deles com essa popa flutuando na nossa frente. Escute, patrão… a carga é boa e quem sabe? Talvez o que você procura esteja mesmo lá dentro… — Foley virou-se novamente para olhar o espaço — Cumprimos nosso contrato. Ganchos!

— E-espere! Espere, capitão! A caixa ainda está com eles, eu sei que está! Posso garantir uma recompensa! Cinco vezes o que já lhe paguei. — o nezumi vasculhou seu roupão e tirou dele um pedaço de pergaminho — Isto é uma promissória de Lorde Chikiji que respalda a negociação!

Foley pegou o pergaminho. Alguns piratas já posicionavam balestras armadas com ganchos compridos e cordas de cânhamo. Resmungou enquanto olhava o documento e num movimento bateu algumas vezes com um dos esfregões no teto da ponte. Uma cabeça magrela e de óculos apareceu na escotilha ao fundo.

— Flin, desça aqui! Conhece isto? — estendeu o papel para o magrelo.

O Homem que ele chamou de Flin pegou o pergaminho, virou algumas vezes e depois leu, ajustando o óculos de vez em quando. Demorou-se um pouco no carimbo impresso em sua base, passou o dedo pelo relevo.

— É sim, é verdadeiro. Carimbo, papel, letra… tudo bate com as notas daquela ratazana. — Flin ajeitou o óculos — Vi muitos desses papéis de aval nos meus tempos com os piratas de Kokare’koo.

— Então com esse papelzinho podemos tirar nosso quinhão do contrato? — Foley piscou para Hiikhroc.

— Apenas se eu estiver vivo. — apressou-se o nezumi. — Precisa da minha palavra como agente para que eles paguem o contrato. Agora, destrua o Gog’Magogue, rápido!

O pirata hesitou. Apesar de tudo o butim já estava ganho, mas a oferta era tentadora! Maior do que um ano de pilhagens, valia bem o risco. Mas também é verdade que não alcançariam o Megaréa, não tendo que desviar da popa abandonada. E a mesma popa impedia um tiro limpo… Decidiu-se.

— Inferno e tripas podres… Está bem! Vocês dois, reposicionem o nebulbo! Tripeiro! Junte sua corja de lambões e monte uma rapina! Rápido, homem! — Foley jogou o esfregão num canto e se aproximou dos piratas que manejavam o cilindro. Outros sete homens ajudavam, tirando as cordas do recuo para passá-las noutras argolas de ferro. Todo o perímetro da proa de ataque do Carranca era pontilhado dessas argolas. A peça de artilharia já estava na nova posição quando o Tripeiro voltou com quatro piratas que seguravam uma rêmora espacial, uma das poucas habitando o Gog’Magogue. Prenderam-na rapidamente em uma rastrêla mais bojuda que estava amarrada num canto. As barbatanas e cauda da rêmora atadas com correias em uma espécie de controle. Posicionaram o foguete na boca do nebulbo de artilharia.

Foley se aproximou, arrancou uma chave de boca que estava encaixada na rastrêla e com ela fez alguns ajustes nos controles.

— Pronto. Agora esta joça vai fazer uma curva em volta da popa. O resto é com o peixe. Disparem!

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Aqui termina a primeira parte de Caçada e Matança! Você pode conferir a Parte 2 clicando aqui.

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Leonel Domingos • 11/10/2017

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