Eles Dançam sobre Nós – Caçada e Matança (Parte 2)

Do deque da nau pirata, um foguete é disparado para acertar o que sobrou do Gog'Magogue Megaréa. A tripulação estará preparada para isto?

No que sobrou da estrutura do Megaréa Dan observava a popa destacada, flutuando a esmo. A seu pedido os carpinteiros fixaram uma pequena placa de cristal no monturo de tábuas que usaram para selar a secção, e agora ele aguardava o Carranca se aproximar da isca. Acima dele o tubo de comunicação foi torcido e recebeu um cone, para que ele pudesse comunicar à ponte o que visse. Todo o resto da nau estava turbulento. A parte destacada consistia em quase metade do espaço disponível, incluindo os dormitórios da marujada.

O momento passava. Em breve deveriam poder ver o brilho das velas se aproximando. Ao menos, era o que Dan aguardava. Ao invés, uma linha luminosa riscou o espaço, pouco abaixo do destroço flutuante. O pequeno cometa continuou a trajetória, ligeiramente curva, então tremeu num espasmo sinuoso que marcou a retina escancarada do grumete.

— É uma rapina! Lançaram uma rapina!! — Dan pendurou-se para gritar pelo tubo. Na ponte, o capitão apertou a mão até que os nós ficassem brancos: jamais conseguiriam voar mais rápido que uma rastrêla de rapina. Subiu correndo as escadas até a ponte do timão, onde o timoneiro e sua aspirante estavam ainda prendendo as hastes do bridão novamente ao timão. Era trabalho de estivadores, mover as hastes pesadas e tensionadas, mas a garota sempre teve muito mais força do que aparentava, e a adrenalina da urgência potencializou seus músculos. Thurle escorou-se no timão e destampou o tubo de comunicações.

— Onde está? Quanto tempo para atingir-nos? Responda, maldito moleque!

— bzzzzrrnda não passou da popa! Mudando rota para nosssszzz — chiou o tubo.

— Merda, merda, merda! Olho nela! Quero que diga a posição passo a passo! — Thurle virou-se para o timoneiro: — Teremos que escolher uma perda. Que parte da nave pode ser atingida sem matar a todos nós?

— A vela de socapa. Se puder acertar a rastrêla com ela, pode até cortar e escapar da explosão. Se não, ao menos servirá de escudo. Mas precisamos ficar de lado e expor a barriga para a rapina. — O timoneiro esfregou os músculos do braço, distendidos e queimando pelo esforço — Garota, vamos virar a Megaréa! Assuma posição nas manivelas! Preciso das velas antárticas soltas para uma chicotada, e as árticas tensionadas.

As ordens para os marujos de velame chiaram tubo afora enquanto Dan suava, acompanhando pela escotilha improvisada a marcha da rastrêla de rapina. Podia sentir Megaréa deslocando o curso e logo teria que achar outro ponto de observação. Mas a desgraça do foguete, com os espasmos repentinos da rêmora atada em seu corpo, corrigia o curso para a posição do Gog’Magogue. E logo iria ultrapassar a popa. Dan contava que os piratas iriam enganchar a popa antes de se lançar a uma perseguição. Agora o tempo se encurtava, aquela rapina contornaria o destroço e os atingiria em linha reta. A qualquer instante…

Um lampejo breve e a popa abandonada se expandiu numa nuvem de destroços, lascas e obstáculos, uma chuva de granizos feitos de madeira e cacos que cobriu a rota da rastrêla, metralhando as aletas e rebotando na fuselagem, até que um bloco de sorte atingiu em cheio a cabeça de mastim. Se a rêmora não morreu pela metralha, a explosão do invólucro deu cabo do pobre peixe espacial. A segunda explosão formou outra nuvem para vagar no cosmo, à espera de vento ou cometa que a disperse. Uma onda de alívio atravessou Dan. Ao seu lado um dos carpinteiros ainda espiava, embasbacado, a luz dos restos de metal incandescentes.

— Como isso aconteceu? — perguntou.

— Eu e o Giles montamos uma bomba relógio na popa. Ele me ensinou como explodir farinha de trigo!

— Nossa farinha explode?! O que o velho Mirno usa como fermento? Pederneira?

Giles abriu a boca mas foi cortado por Dan — Acho que há uma vaga na artilharia, se sobrevivermos. — depois alcançou o cone de metal e detalhou a explosão para o capitão Thurle. O cone chiou com a voz metálica do capitão — Zzzztento! Agora corra para a prxxte do timoneiro com dois maruzzzzz  para reparar as hzzzzzz —

 

A canalha de Foley ficou petrificada com a explosão. Pedaços de madeira carbonizada começavam salpicar no Carranca enquanto observavam da ponte. Os dois piratas que limpavam o nebulbo haviam sido arrancados da proa quando o mago de bordo engasgou e perdeu a concentração, de susto. A bolha de ar da proa já estava sendo refeita, mas os corpos congelados dos infelizes ficaram para trás, no sepulcro do éter. O prêmio que era a carga abandonada escapou dos dedos sujos de Foley e, o pirata sabia, teria sido a morte dele e de todo o navio se houvessem tentado enganchar aquela popa. O vermelho injetou em seus olhos. Espumou ordens, mandando prepararem outra rastrêla de rapina, para apagar esses vermes da história. Toda vela à frente e carga nova no nebulbo, eram os ecos no Carranca. Os bostinhas do Megaréa não teriam sorte duas vezes.

E o capitão Sionn Thurle sabia disso, porque nem bem a nau pirata se aproximou da nuvem de poeira e a massa de cinzas se estufou, cuspindo a Megaréa em carga de ataque, chicoteando o bordo do Carranca com suas barbatanas afiadas. Não havia possibilidade de fuga, então o ataque era a saída para os mercadores.

Os piratas tomaram o primeiro golpe, que cortou madeira e couro e atingiu parte das velas. O Gog’Magogue negro, afeito à escaramuça, devolveu com um chacoalhar de corpo que emaranhou e sangrou Megaréa. Os piratas não são de deixar passar oportunidades e, refeitos da surpresa do ataque frontal do Megaréa, dispararam os ganchos de abordagem. As balistas estalaram ao liberar os virotes com corda e gancho e tamanha foi a pressão que eles atravessaram parede, pele e quaisquer obstáculos. Logo os dois Gog’Magogues estavam impedidos de se mover, envoltos num abraço costurado, e a laia imunda de Foley cavou seu caminho casco adentro a golpes de machado. Os primeiros a tentar entrar foram recebidos a golpes de cutelo e já haviam dois braços e meio crânio escorregando pela coberta do Megaréa quando um dos piratas arrumou jeito de enfiar um cano de mosquete por uma das frestas e disparou uma saraivada de chumbo. Teve sorte de cegar e tombar dois marujos e afastou os outros com o estampido e a nuvem de pólvora queimada, tempo apenas para que uns poucos carniceiros rolassem para dentro. A briga recomeçou, mas agora haviam piratas para defender a passagem.

O próprio Foley entrou afinal, seguido de Rafferty e Aidan, os três com cutelos curtos numa das mãos e pistolas de roda noutra. No interior da nau o combate era um jogo de empurrar com os ombros e tentar encaixar uma cutelada num ou noutro bucho, causando mais pequenos cortes que mortes, até um dos lados começar a prevalecer e a rolha de gente estourar numa inundação de gritos, lâminas e corpos. Entre os defensores os grumetes mais baixos tentavam atravessar a massa de gente, escalando por cima ou se enfiando entre as pernas, na esperança de acertar um cocuruto inimigo com a malagueta, ou fazer subir um punhal entre as pernas de um pirata. Uma idéia perigosa: difícil distinguir entre amigos ou inimigos quando se está num matagal de canelas e pés descalços.

Uma última figura sinistra passou pela fresta mais livre. Vestia uma casaca preta meio puída, abotoada até o colarinho, de onde uma barba eriçada escapava fazendo com que a cabeça parecesse estar equilibrada num vaso. Sloaynn o remendão, mago de bordo do Carranca, segurou-se num cordame que pendia do teto, afastando-se da multidão entranhada no combate, e mascou um tanto de tabaco preto enquanto olhava a escaramuça. Rapidamente achou o que buscava: um canto no combate que recebia pouca pressão, perto de uma das paredes.

— Foley! — o Cruel virou-se para o mago, aborrecido por não conseguir passar pela barafunda, e viu Sloaynn apontando para a nesga na parede — Pegue aquele calço! Vou fazer um estalinho!

 

Não foi preciso explicar nem dizer duas vezes. Foley o Cruel conhecia muito bem os métodos do pistoleiro arcano e percebeu rapidamente a oportunidade. Chamou Aidan e Raff para erguerem o caibro de dois metros que ficava num canto, escorando uns vãos de barril. Os três ficaram alinhados e pousaram o caibro na parede, como se estivessem prontos para fazer uma alavanca lateral e expulsar a massa de guerreiros. Foley deu um aceno de cabeça para Sloaynn. O pistoleiro enfiou as mãos nos bolsos e retirou, de um, uma pistola arranhada e fumarenta e, do outro bolso, um apito de lata. Soprou o apito uma única vez, cuspiu fora e mirou para algum ponto no teto baixo, logo acima da multidão. Puxou o gatilho e imediatamente a mola de relógio da arma fez girar a roda. Foi um zumbido curto e quase todos os piratas já haviam contado até três e fechado os olhos. A ponta da arma brilhou e espalhou fumaça branca, e quase ao mesmo tempo uma lasca do teto explodiu num clarão ofuscante e por um momento não haviam cores nem tons de cinza, apenas o branco cegante e o preto puro das sombras.

Imediatamente ao clarão os três piratas começaram a empurrar o caibro, arrastando pela parede em ângulo como se fossem um limpa-trilhos, e abrindo caminho para o outro lado. Outros piratas que fecharam os olhos durante o clarão aproveitaram a cegueira dos oponentes para se reposicionar e empurrar os cutelos ou cabecear o nariz dos oponentes. Raff, Aidan e Foley chegaram do outro lado e passaram a lâmina n’alguns lombos, para aproveitar o momento antes de partir nau adentro. A maré da luta encheu para o lado dos piratas e Foley seguiu com seus dois canalhas para estripar sua rota até a ponte.

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Aqui termina a segunda parte de Caçada e Matança! Você pode conferir a Parte 1 clicando aqui.

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Leonel Domingos • 18/10/2017

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