O Enigma das Arcas, Ato XXIII — Família

A última noite na cidade reserva algumas surpresas. A família Ridembarr finalmente está completa nesse capítulo do Enigma das Arcas!

armageddon-felrond-enigmaAté agora, no Enigma das Arcas…

Enemaeon de Ridembarr é um mago das trevas que após uma malsucedida invocação teve o coração arrancado e substituído por um artefato malignoPara se livrar dessa condição, partiu em jornada para salvar a própria alma.

Nessa busca, ele conta com a ajuda de alguns companheiros igualmente terríveis: o ladrão clérigo de Hyninn Garlor “Presas de Prata” , o elfo bêbado Felrond, o capitão pirata Moranler Silverdall e um guerreiro morto-vivo, Villvert de Gallien.

No caminho para Valkaria, fizeram uma parada rápida em Ridembarr, a terra natal de Enemaeon. Um lugar cheio de histórias, antigas amizades e alguns velhos segredos…

Ato XXII – Família

Quando Enemaeon deixou o trabalho no porão naquele dia, já era início da tarde. Logo notou que algo havia mudado na atmosfera da cidade. Parecia haver menos cor e movimento em Ridembarr agora, como se o dia tivesse esfriado, se tornado lúgubre.

Ele já desconfiava do motivo, mas o espaço entre a mera especulação e a certeza era o mesmo que o separava da porta de entrada de casa. Como havia imaginado, a carruagem da família estava parada diante do casario. Alfonse, seu pai, havia regressado de alguma das inúmeras viagens de negócios que empreendia.

Quando era ainda garoto, ele acompanhou Alfonse inúmeras vezes em visitas de negócios até as cidades vizinhas onde os Ridembarr possuíam fazendas ou estalagens, se não ambos. Era apenas quatorze anos mais novo e talvez por isso nunca o viu de fato como um pai. De forma semelhante, Alfonse também não nutria qualquer amor ou preocupação paternal exagerada em relação ao bastardo primogênito, fruto de uma aventura. Via Enemaeon como um primo distante e não como filho — um comportamento bem diferente do que cultivava para com o restante da família.

Os avós de Enemaeon pereceram prematuramente num ataque de ladrões de beira de estrada, obrigando Alfonse a assumir os negócios quase tão jovem quanto fora pai. O fardo da fortuna dos Ridembarr acabou lhe tomando todo o tempo da juventude e lhe transformou num homem que vivia apenas em função do trabalho e do dinheiro. Quem o via, enxergava alguém austero, sagaz e vencedor, é verdade. Mas também via um homem cuja felicidade havia sido tomada e era impossível não se sentir também um pouco triste ao lado dele.

Talvez por ter possuir tanto e nunca ter usufruído realmente de toda aquela fortuna é que Alfonse tolerava tão bem as desventuras e gastos loucos do filho. Enemaeon vivia a vida que ele não teve, correndo pelo mundo atrás de lendas antigas, histórias de tesouros profanos e templos secretos. Alfonse tentou no princípio prendê-lo ao conforto do lar e as obrigações para com o ouro da família, mas foi inútil. Ele não nasceu para aquilo.

— Alfonse — cumprimentou ele, sério. Suas irmãs estavam lá se fingindo comportadas perante o pai, assim como também estava Cordélia. Enemaeon não conseguiu evitar uma olhadela para o corpo da madrasta antes de baixar os olhos para o piso. O pai, que estava de costas para ele, não se virou. Enemaeon já sabia que seria assim.

— Prestes a partir novamente? — perguntou enquanto beijava a testa das meninas uma a uma.

— Tenho pressa, é verdade — falou, um passo adiante, se aproximando. Agora ambos se olhavam, e o que viam era apenas a sombra um do outro. Enemaeon havia envelhecido cedo, e os últimos meses foram ainda piores. Os cabelos dele eram mais grisalhos, os olhos mais marcados, a pele mais flácida. A barba por fazer dos últimos dias não combinavam com as roupas limpas que vestiu naquela manhã. Os papéis pareciam trocados: o pai já aparentava ser mais jovem que o filho. Um silêncio constrangedor cresceu. Não haviam mais palavras.

Adentraram o casario. A sala luxuosa estava arrumada e um perfume discreto foi espalhado em volta pelas criadas para tirar o cheiro de suor e bebida que Felrond deixou nos móveis. Sentaram-se sem muito mais a dizer, cada qual assumindo os mesmos lugares em que estavam habituados. Mais silêncio. E então explicações.

— Pai, Cordélia, irmãs — a voz pesada prendia na garganta, teimando em não sair. Por fim, o necromante tomou coragem e disse: — Eu fiz certas coisas das quais me arrependo, mas já ultrapassei a linha de retorno e infelizmente não há mais esperança para mim.

— Não diga isso, irmão! — interveio Geovana, a mão firme do pai interrompendo-a com um gesto. A menina se calou e voltou os olhos lacrimejantes para o mago que continuava austero, afundando na poltrona aveludada. Felrond nesta hora ressurgiu arrumando as calças após ter se aliviado na latrina, mas os passos silenciosos de elfo não quebraram o clima de tensão na sala. Enemaeon ainda falava:

— Errei muito e hoje me considero pouco mais do que um inútil para este mundo. Em tantos anos não consegui conquistar nada, tampouco realizar coisa alguma. Ao contrário, destruí e levei a ruína todos que se colocaram ao meu lado.

— Então é nisso que acredita? — ponderou Alfonse. Deixou escapar um suspiro. Levou a mão até uma caixa onde vários charutos de tabaco haflling aguardavam por um bom apreciador de fumo. Acendeu um deles sem pressa, sorvendo a fumaça cheirosa. Ninguém disse coisa alguma.

— Crianças, creio que é melhor que todos nós… — tentou Cordélia se levantando e convidando as filhas para subir até os quartos acima, mas novamente Alfonse interveio, apontando de volta para o sofá onde Felrond havia dormido embriagado e sujo nos últimos dias. Sob o comando do patriarca, com aquele jeito de quem está acostumado a comandar, todos obedeceram. Até Felrond, que nada tinha com a situação, procurou um canto e se sentou para ouvir.

— O fato de se considerar inútil é uma surpresa para mim, confesso — falou Ridembarr — Nunca havia notado este tipo de pensamento. Ao contrário, desde muito jovem ostentava um ar de superioridade, como se o mundo lhe devesse respeito por você pisar nele.

— Foi essa a razão de minha ruína, Alfonse — respondeu o necromante cabisbaixo — Acreditar ser capaz de tudo. De que era superior a qualquer coisa e a qualquer um.

— Ao contrário, filho — respondeu o pai com um meio sorriso — Estes eram seus pontos fortes. O motivo de estar arruinado e voltar aqui sem rumo e sem dinheiro é esse derrotismo. Você é um homem inteligente. Desde pequeno sempre teve tudo o que quis de uma forma ou de outra, e sempre de maneira surpreendente. Mas infelizmente tantos sucessos parecem ter lhe feito esquecer a principal lição que a vida nos dá quando nos confrontamos com o fracasso. Nós não devemos aceitá-lo.

O mago continuava calado. Felrond remexeu-se nervoso na cadeira. Precisava de um trago.

— Se não for possível vencer, lute. Se não há caminhos, encontre um. Isso faz parte da litania de Keenn, mas serve igualmente bem para tudo nessa vida. Nem a morte é o fim, filho. Não posso acreditar que na primeira derrota, no primeiro grande percalço você se restringiu a baixar a cabeça?

— Pelo menos lembrou de se despedir da família — caçoou Cordélia.

— Qual será o problema aqui? — tornou a perguntar Alfonse — Não há realmente nenhuma solução? Ou você simplesmente ainda não pensou suficientemente a respeito?

— Realmente não está parecendo o Enemaeon de sempre — concordou Cordélia com voz macia. Vindo dela, soava como um elogio — Crescemos juntos, brincamos nos bosques enquanto seu pai trabalhava feito louco. Não se lembra dos jogos? Dos desafios? Você nunca recuava.

Ele lembrava. Era especialmente bom naquilo. Uma das crianças inventava alguma regra absurda e escolhia alguém que deveria cumpri-la, por mais arriscada ou humilhante que esta fosse. Na forma de pensar infantil, não realizar a tarefa no jogo era ainda mais vergonhoso do que pagar a prenda. Até onde podia se lembrar, jamais havia renunciado a qualquer imposição. Roubar, quebrar os vitrais do pequeno templo de Valkaria, descer as paredes escuras até as profundezas geladas do velho poço… Havia encarado tudo.

Era estranho como aquelas experiências haviam desaparecido da memória. Se recordava apenas vagamente dos rostos dos velhos amigos. Tinha esquecido de quase todos os nomes. Mas alguns momentos ainda estavam ali. Lembrava-se de quando em certa noite noite após sair vitorioso de mais uma peça, zombou de um dos meninos pela falta de coragem. O garoto se defendeu dizendo que queria ser caseiro como o pai e por isso não precisava ser corajoso. Hoje provavelmente ele estava feliz em sua simplicidade, com uma boa esposa e vários filhos saudáveis enquanto ele, que sempre se julgara acima de tudo aquilo, não tinha nada.

— Você não está ajudando muito, Cordélia — cortou Felrond notando a dor dos pensamentos de outros tempos ferindo o amigo. Mas, em meio às trevas, em meio as lágrimas que já não mais caiam pelo rosto magro, um sorriso surgiu. Enemaeon havia encontrado um meio, ainda que precário. Talvez a última ponta de esperança.

O plano que havia traçado desde que o pacto forçado com Merodach fora assinado com sangue foi concebido às pressas e motivado pelo desespero. Antes de se reencontrar com Garlor, havia sofrido tanto, sentido tanta dor e desalento que nenhum caminho além da morte lhe parecia possível. Mas agora, enquanto repassava tudo aquilo em sua mente, notara algo que lhe havia escapado.

Podia ser uma brecha mínima, mas esta pequena possibilidade era suficiente para abrir um caminho. Até aquela hora, julgava impossível sobreviver à provação final. Morreria livre ou seria morto ao eliminar o demônio. Mas, sem querer, seu pai e Cordélia haviam lhe mostrado um caminho. Sim, deveria haver um jeito. Fechando aquela última ponta solta talvez pudesse se dar ao luxo de sobreviver a busca.

— Alfonse — disse, enfim erguendo o rosto e encarando o pai — Às vezes me sinto culpado por ter estragado sua vida.

— Eu também, filho — sorriu o outro em resposta — Mas não é hora de nos afundarmos em compaixão e arrependimentos. É hora de seguirmos em frente.

Com um leve gesto, Alfonse chamou uma das criadas que se aproximou silenciosa. Falou com ela brevemente, baixo demais para qualquer outro ouvir. Ela partiu porta afora prontamente, voltando em seguida com um caixote fino de madeira escura, uma fita já desbotada fixa em um dos cantos. Entregou-o a Alfonse, que agradeceu e se colocou de pé, estendendo o embrulho na direção do filho.

— Este na verdade deveria ser seu presente de formatura na Academia Arcana — falou, sincero — Eu tive a oportunidade de conseguir uma destas em Wynlla. O vendedor disse que foi feito com a raiz de uma árvore que só brota no reino divino de Winnah. O contato era de confiança, então não tive motivos para duvidar.

Ao abrir o embrulho, ainda que meio envergonhado, Enemaeon encontrou um cajado, o mais perfeito em que jamais colocou os olhos. Ao erguê-lo, sentiu a magia em seu corpo se intensificar. Um leve faiscar azulado brotou da madeira e se espalhou pela sala. Meia dúzia de runas brilharam vivas, como se estivessem em chamas. Eram runas élficas, mas podia claramente ver que era o seu nome que brilhava.

— Desculpe por ter sido expulso de lá. Sei que era importante para você — falou, e em seguida: — Isto deve ter custado uma fortuna.

— Custou. — concordou Alfonse entre uma tragada e outra de fumo — Mas os festejos de formatura teriam me custado três vezes o valor dele. No fim sua expulsão até me poupou algum dinheiro. Acha que ela é boa o suficiente para você?

— É razoável — respondeu o mago readquirindo sua postura arrogante — Irá servir enquanto não conseguir algo melhor.

Um abraço tímido foi trocado entre todos os presentes, e após uma farta refeição e algumas conversas dispersas, aos poucos cada qual desejou seu boa noite e partiu para um dos muitos quartos do casarão. Apenas quando ficaram completamente sozinhos é que Felrond e Enemaeon, de comum acordo, se dirigiram novamente ao porão.

A portinhola foi aberta pelo mago com cautela, enquanto o elfo esperava de pistolas em punho. Desceram as escadas rumo à escuridão. Podia ver, ou melhor, podia sentir a presença de Vilvert ali embaixo. Ouvia o tilintar da armadura que ele vestia, misturado ao som das quelíceras insetóides que estavam espalhadas por toda parte, e agora aos poucos iam voltando para o conforto apertado daquele casulo de carne putrefata. Enemaeon bateu o cajado no chão, e uma luz pálida iluminou o lugar.

Os olhos do Guerreiro brilhavam vermelhos, vivos, loucos e impossíveis.

— Como está se sentindo? — perguntou Enemaeon, satisfeito.
— Tenho vontade de matar alguma coisa — respondeu o morto-vivo se colocando de pé.
— Em breve — prometeu o necromante — Talvez mais breve do que imagina.

Aquilo soou bem.
Por detrás do elmo, a Tormenta sorriu.

O caminho para Valkaria é longo, mas a jornada até aqui já nos mostrou inúmeros lugares do sul de Arton. Caso ainda não tenha começado a ler, é um bom momento pra acompanhar o Enigma das Arcas desde o início! =D

Armageddon • 23/10/2017

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