Eles Dançam sobre Nós – Caçada e Matança (Parte 3)

O combate ganha corpo, deque após deque do Megaréa!

Um pouco à frente outro tripulante corria pelas cobertas: M’bemb viu o clarão e partiu mesmo que às cegas, antevendo o desastre e disposto a lidar com o mago à sua maneira. Pulou sobre um grumete que amarrava umas cordas e empurrou outros marujos que corriam para o furdunço, escalando as escadas para a próxima entrecoberta. A estufa do Megaréa era o templo de M’bemb, onde o xamã prestava honras a Allihanna e mantinha os arbustos e hortaliças que mantinham a atmosfera da nau. Algumas raízes atravessam seus vasos e tocam o couro pétreo do Gog’Magogue, copas roçam seu costado e trepadeiras escalam as fissuras da pele. A estufa acabou se tornando o maior elo de ligação entre Megaréa e o casco. Como horticultor, M’bemb tem uma aproximação bastante xamânica do cultivo das plantas. Se as plantas da estufa fossem bacon e ovos, M’bemb seria o porco, não a galinha.

O xamã não fazia exatamente um cultivo das plantas. A ligação era mais íntima, mais para uma orientação direta no crescimento. M’bemb podia entrar em transe e transferir sua mente para a planta e, então, convencê-la a crescer mais rápido e na direção que ele gostaria. Fazê-la florir e dar frutos  nos galhos certos e até mesmo no formato desejado. Laranjas cúbicas são mais fáceis de estocar, dentro de uma nau. Mas para isso ele precisava entrar em fase com a planta, absorvendo parte da morosidade arbórea no processo. Um transe rápido, para pedir a um maracujazeiro para crescer no formato de uma rede, podia durar duas semanas.

M’bemb atravessou o rancho, onde Giles e Mirno retiravam as facas e cutelos para dentro de um balde, apressados. Sem sequer diminuir o passo, M’bemb agarrou um saco de café e continuou sua corrida para a estufa.

 

Dan desceu da ponte do timoneiro, onde tentou ajudar (inutilmente) a desvencilhar a Megaréa do abraço contra o Gog’Magogue pirata. O cânhamo grosso dos ganchos de abordagem não permitia um movimento de repelão e agora a única chance seria tentar cortar as cordas, soltar os ganchos ou até mesmo deslocar os pedaços nos quais estivessem presos. E as coisas certamente não estariam bem com o inferno comendo solto na entrecoberta inferior. A ponte de comando estava vazia: o capitão Thurle e o sr. Abiagel, o imediato, já estavam enfiados nas escaramuças, porões abaixo. Dan continuou seu caminho. Passou por corredores vazios até chegar ao primeiro gancho. A haste de ferro estava encravada na pele da Megaréa e sua corda retesava na altura do pescoço do grumete. Ele puxou seu cutelo e começou a trabalhar, conseguindo cortar o cânhamo com golpes secos, como se cortasse uma tora. Como os músculos queimando seguiu adiante. Outro gancho estava preso entre uma parede e uma grande viga em forma de espinha que chamam de caverna. Dois marujos que tentavam rearmar uma balestra ajudaram a soltar aquele gancho, a golpes de marretas.

O grumete continuou pelas cobertas, agora já contendo feridos e um ou outro marujo tentando soltar ganchos ou  escorar portas. O som de lutas aumentava a cada instante. Na câmara a seguir homens lutavam por sua vida. Dan atirou-se ao combate, tentando chegar perto do capitão Thurle e o sr. Abiagel, que lutavam de costas um para o outro, cercados de piratas. A escaramuça no convés inferior já havia se espalhado nau acima, depois que a magia do Remendão dissolveu o impasse inicial entre os combatentes. Agora piratas e marujos corriam pela nau afora, girando cutelos, ganchos, martelos e o que mais lhes passasse pela mão. Um braço fino, com músculos de cabo de aço, girou horizontalmente para apunhalar Dan, mas o garoto foi mais rápido, girou o corpo para baixo e levantou os braços para impulsionar o movimento do pirata, fazendo ele apunhalar as costas de um dos homens que estavam cercando o capitão e o imediato. O próximo golpe pegaria Dan agachado, se Abiagel não aproveitasse o momento para empurrar o corpo do pirata esfaqueado contra o próprio apunhalador. A distração permitiu que Dan se recompusesse e partisse para ajudar a desbaratar o círculo de carniceiros. Um homem com avental ensanguentado e faca de lâmina fina chegou para ajudar o trio. O dr. Teochenco não usava nenhuma arma longa, mas movia seus braços rápida e precisamente, cortando tendões que faziam os piratas perderem toda a força no braço ou nas pernas, mas ainda vivos.

Sloaynn o Remendão

 

Nalgum ponto no convés de baixo Sloaynn o Remendão avançava, parando aqui e ali para cortar a garganta de marujos feridos, com um cutelo longo que catou no chão. Antes de subir a escada retirou um saquinho de couro de um dos bolsos e jogou nele uns dentes e um polegar que retirou d’algum pobre diabo. Há muito poder nos polegares dos mortos, nos sangues e nos ossos dos cadáveres que arcanos sem coração como Sloaynn usam para extrair forças primitivas e malévolas. E o Remendão não tinha mesmo nenhuma intenção de praticar a caridade. Acertou outra cápsula na pistola — esta, agora, tinha um brilho avermelhado e estava coberta com um visgo nojento —, deu corda com uma chave que guardou cuidadosamente sob o casaco e, com o gatilho táumico armado, subiu cantarolando.

 

A luta ainda queimava o convés onde o capitão Thurle, o imediato Abiagel, doutor Teochenco e Dan tentavam conter a onda de piratas. Um brutamontes se apressou a chutar uns corpos e empurrar uns moribundos, com os braços em guarda, uma pistola descarregada na mão direita e um cutelo curto na esquerda. Sua barba eriçada como um ouriço deixava aparecer os dentes marrons e amarelos de um sorriso largo quando Aidan avançou para cima de Dan, tomando o lugar de outro pirata tombado. Foi logo metendo a coronha da pistola entre as costelas do garoto, que esvaziou o pulmão e curvou para frente, abrindo a guarda para o cutelo do bruto. E teria sido um golpe decapitador, não fosse o braço do imediato subir pelos lados do corpo do grumete, com o cutelo entrando em ângulo na parte de baixo do antebraço de Aidan e fatiando o músculo até chegar à mão, a pressão combinada dos dois golpes fazendo com que o pirata perdesse de uma vez o cutelo, o mindinho, anular e parte do dedo médio. Aidan caiu urrando, empurrado pelo ombro de Abiagel e pela cabeça de Dan.

 

— Obrigado, sr. Abiagel! — ofegou o grumete.

— Não foi nada, rapaz! Agora levante-se e tome fôlego, que vamos formar uma parede! Aqui, rapaz, use o cutelo na diagonal e fique ao lado do capitão. Blough, forme parede ao meu lado!

 

A marujada que podia se movimentar e ainda uns homens que chegavam da proa começaram a se organizar sob os gritos de Sionn Thurle e Abiagel. Uns piratas limparam o sangue da boca e cambalearam para se juntar também. Quem tentasse enfrentar uma parede de cutelos sozinho iria terminar como peças sobressalentes para o Teochenco.

 

Imperceptível no meio da algaravia, um zumbido curto misturou-se aos sons. Então um estouro, cheio de fumaça branca, e o sr. Abiagel se torceu como um espantalho sem base. Não ficou muito tempo no chão, o doutor Teochenco agarrou-o pelos ombros e o arrastou de costas, auxiliado por Dan, para outro compartimento do casco. Um rastro reto de sangue ficou para trás. Mas do outro lado do convés, observando a sanguinolência, um nezumi se esgueirava atrás de passagem livre.

 

Teochenco deitou o imediato sobre uns sacos de serragem e abriu sua camisa. O sangue borbotou. Cobriu rapidamente com um lenço que guardava na manga e olhou as costas do homem. — O zagalote vazou — disse, aliado — mas causou muito estrago. Abiagel perdeu muito sangue. Aqui, rapaz, pressione os dois lados com estes panos, enquanto arrumo algo para cauterizar a ferida.

Dan estava pálido, quase tanto quanto o imediato. Pateou os panos nas costas do sr. Abiagel e  girou a cabeça, o olhar nervoso indo e vindo entre o imediato e o médico. Abiagel, tossindo um pouco de sangue, olhou para Dan como se o visse pela primeira vez e, pouco depois, começou a balbuciar:

 

— Arr, arr, rargh, coff… rappp… rapaz…

— A-ali… abra o caixão…

— Sr. Abiagel, precisa descan*

— Não disc-discuta! — disse enquanto tremia e agarrava a gola do garoto — Abra o caixão, agora!

 

O aspirante acomodou melhor o velho imediato e chegou perto do caixão que havia sido embarcado no último porto, em Ramknal. Enquanto Dan acompanhava os marinheiros içando a caixa o capitão e o imediato haviam passado muito tempo recebendo instruções da cliente (uma mulher-gato de pernas longas em vestido colante e cheio de bolsos. Parecia uma moreau refinada, jogadora ou mercadora. Parecia perigosa.). Quando o Carranca alcançou distância de tiro o sr. Abiagel havia insistido para que arrastassem o caixão para os compartimentos da proa, longe do resto da carga. O grumete girou os parafusos da tampa de laca, já imaginando o que poderia conter. Finalmente ergueu o tampo e ficou surpreso com o interior. Arrumado dentro do caixão estava um cadáver. Nada de pedras, tesouros, armas ou qualquer outro contrabando. Um gato morto jazia ao lado, e ambos os corpos pareciam ter sido tratados com salmoura para retardar o apodrecimento. Virou-se para o imediato.

 

— Há apenas dois cadáveres aqui, mestre Abiagel. E um é de um gato! — disse.

— Os mortos… arrr…. não são importantes. Pe… pegue as moedas em suas bocas.

 

Dan prendeu a respiração e colocou a mão dentro da boca do defunto. Fechou os olhos e engoliu o próprio vômito enquanto seus dedos tatearam para achar as moedas embaixo da língua. Três moedas com um furo quadrado em cada, e mais uma na boca do gato. “eu as removi, sr. Abiagel” disse então.

 

— Bom! Cof… agora coloque as moedas nas mãos do cadáver.

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Aqui termina a segunda parte de Caçada e Matança! Você pode conferir a Parte 1 clicando aqui.

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Leonel Domingos • 25/10/2017

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