Eles Dançam sobre Nós – Caçada e Matança (Parte 4)

Em meio ao cheiro de sangue e morte, M'bemb e Teochenco praticam sua arte.

M’bemb entrou em sua estufa, procurando um voluntário entre suas mudas e raízes. Logo achou a candidata exata: uma muda de unha-de-gato, emaranhada numa haste e com um ar nítido de velhacaria inocente.

Há décadas, quando ainda estava aprendendo o ofício, M’bemb viveu com o velho xamã Tiki Olhos-de-Lagarto, que por sua vez fora discípulo do grande Manjalow o Revivido, e trazia a tradição de vaguear no espírito de outros seres vivos. Em se tratando de plantas, tudo reside em se conectar com elas e convencê-las a mudar sua natureza. Havia uma história bem confusa, envolvendo um vendedor de vacas e uma galinha poedeira, em que Manjalow conseguiu fazer um pé de feijão acreditar que era uma sequóia, em apenas uma noite. Um feito maravilhoso para qualquer xamã, mas embrenhar na mente de tantas criaturas custou a mente do Manjalow; um dia era o xamã mais poderoso sobre o solo, no outro era uma fera quase imortal, caçando como um bicho, sequestrando donzelas e amolando alfanjes.

M’bemb sabia bem dos perigos de imergir tanto assim na essência de outros seres. E como tudo dependia de fazer valer sua vontade contra o tsunami de milhões de anos de evolução concentrados em instintos. Mas agora não havia tempo para um trabalho cuidadoso e lento. Pegou o vaso de unha-de-gato e colocou no chão, à sua frente. Rasgou o saco de grãos de café, cheirou um pouco o aroma da torra… então enfiou a cabeça toda no saco, mastigando café como um cavalo mastiga aveia. Em pouco tempo de abocanhamento consistente o saco de aniagem já estava pela metade e uma luz vermelha piscava dentro da cabeça de M’bemb, enquanto seus órgãos internos corriam para os botes salva-vidas. O problema agora consistia em esquecer a tremedeira e se concentrar na pequena trepadeira à sua frente.

Ele trincou os dentes e pousou seu olhar na unha-de-gato, até enxergar sua aura, sua pequena aura verde cheia de gavinhas enroscadas, tateando o ar, lenta e contínua… então enviou sua própria aura, emitindo a mesma onda, sim, mas com espasmos elétricos de cafeína e uma única ordem: cresça e cresça rápido!

 

A batalha no segundo convés comia solta e o capitão Sionn Thurle esgrimava com Foley, tentando evitar o ocasional giro do coice de pistola que o pirata agitava na mão esquerda. Outros marinheiros tentavam impedir o avanço da horda, depois que a parede de cutelos falhou. Quase no meio do compartimento, Sloaynn o Remendão sorria e quase dançava, segurando a pistola acima da cabeça e tecendo sinais com a outra mão, a pistola cuspindo uma nuvem avermelhada que escorria aos poucos no ar, provocando vômitos de sangue pela boca, nariz e olhos de quem ela tocava. Num canto qualquer, um rato em roupas orientais se esgueirava, silencioso como… como ele mesmo. Mas uma rachadura acima deles se abriu e uma torrente de raízes, galhos e gavinhas desceu, os espinhos inchados da unha-de-gato gigante arranhando a pele e adicionando ameaça ao emaranhado que prendia os piratas. Um bolo de raízes particularmente expansivo enrolou Sloaynn e o esmigalhou contra a parede, quase trombando no nezumi, que se jogou para frente numa cambalhota. Toda a nau chacoalhou num TUMP! Do braço esmagado e gotejante do Remendão a pistola caiu no chão, descarregando seu projétil maligno num barril vazio.

 

Pouco antes Teochenco retornara, as mãos enroladas em panos para carregar um balde cheio de brasas. Puxou uma faca que estava enfiada no balde, com o metal ondulando entre o azul e o vermelho-vivo. Dan parou, com as moedas na mão, olhando esbugalhado o médico rasgar a camisa do imediato e olhar para suas costas. De repente seu olhar cruzou com o do sr. Abiagel, selvagem e louco como um texugo. Dan começou a desconfiar que as ordens fossem alucinações, mas cumpriu-as mesmo assim, na esperança de distrair o imediato ferido até que Teochenco fizesse sua mágica. Abriu uma das mãos do homem morto e depositou as moedas.

 

O cirurgião aplicou a lâmina incandescente nas costas do imediato. Subiu fumaça e cheiro de pele queimada, o ouvido de Dan se encheu com o grito do sr. Abiagel, seus olhos refletiram a expressão de dor, e deixaram de perceber, por completo, quando o cadáver ergueu-se, sentando no caixão. E quando chegou uma mão e o rosto perto de Dan, e quando a mão agarrou sua nuca e os lábios se aproximaram de seu ouvido. Mal teve tempo de reagir quando os sussurros começaram.

Da boca de um morto para os ouvidos de um vivo, palavras foram recitadas, entrelaças com uma névoa verde que entrou pelo canal auditivo de Dan. Seus olhos subiram até aparecer apenas o branco, a boca pendeu e alguns pontos de sua pele emitiram um faiscar verde. Quando terminou de recitar o cadáver parecia mais ressecado e tombou para o lado, encarquilhado. Dan ficou parado um pouco, em transe, até que outro grande TUMP! lhe despertou com um arrepio e Dan olhou para frente até as pupilas ajustarem o foco. O dr. Teochenco já terminara a cauterização no sr. Abiagel e o imediato parecia fraco a ponto do desmaio.

 

— Sinto muito, rapaz… — disse, do meio de sua poça de sangue e suor — Eu e o capitão combinamos que sergu… seria um de nós. arr… arr… mas o fardo está contigo, e agora tem que seguir seu caminho. Entre no bote. Teochen…

 

E fechou os olhos. O dr. Teochenco abriu uma pálpebra do imediato e tornou a fechar. Depois chegou-se para Dan, já agarrando seu braço.

 

— Está desmaiado, não se preocupe, garoto. Mas não há tempo de esperar, o imediato está certo. Sente-se no bote, Dan, eu me encarrego das cordas. — disse, sem dar chances de Dan protestar, segurando seus braços com músculos de cabo de aço e o jogando para dentro de uma saleta ínfima que parecia o interior de um barril. Ainda mais rápido ele fechou a escotilha de madeira e bronze e cortou umas cordas que seguravam a cápsula, à toda volta.

 

Hiikhroc, o nezumi, mal conseguiu escapar da sala onde os marujos se ocupavam de libertar os poucos colegas presos no emaranhado de unha-de-gato. As raízes foram bastante precisas em sua expansão. Aproveitando o tumulto, o rato esgueirou a tempo de assistir enquanto o médico trancava a cápsula salva-vidas e cortava as cordas que a prendiam. Mais uma olhada nos arredores e seu coração parou de bater por uns instantes, vendo o caixão aberto e o cadáver meio caído para o lado. Ele não sabia exatamente como, mas tinha certeza que a chave escapava. Naquela cápsula.

 

Livre do abraço entre Megaréa e Carranca, em parte pelos esforços do próprio Dan em cortar os ganchos de abordagem, a cápsula de escape, bote salva-vidas do Megaréa, desgarrou-se no éter, impulsionada pela tensão liberada. Algumas poucas cápsulas são auto-propelidas, mas a maioria apenas confia em manter os tripulantes vivos por alguns dias ou semanas, até que as luzes de socorro atraiam outro gog’magogue ou os náufragos consigam manobrar até  um mundo próximo, e a gravidade faz o resto. Dan ainda não se recuperara da tontura quando uma nova torção entre os gog’magogues jogou uma barbatana em sua direção, catapultando o bote para longe e perigosamente perto do raio de atração de Arton. A cápsula pequenina começou a aumentar de velocidade. Súbito um estouro e estava riscando o céu, seu nariz brilhando em chamas. A alguns quilômetros, outros corpos celestes — rochas errantes atrapadas pela atmosfera artoniana — se desintegravam em luz e fogo. A cápsula de escape parecia destinada ao mesmo fim.

O bote salva-vidas também é chamado de túmulo de gelo, tantos coitados jamais foram resgatados, seus corpos preservados pelo frio como avisos sinistros da crueldade do éter. Outros tantos desceram em chamas aos mundos divinos, e uns poucos se desintegraram na órbita de Arton. Nada interessa mais aos carpinteiros navais que conseguir uma cápsula cuja sobrevivência seja garantida. Estão sempre testando novos produtos e vendendo seus protótipos às naus de comércio. J.H. Talfryn estava gravado numa placa de bronze, pregada na lateral desta cápsula. A placa fritava em tons de amarelo e vermelho, numa propaganda vista por ninguém.

Se estivesse consciente em seu interior, Dan poderia acionar os fogos de sinalização. Ou poderia pressionar um grande botão de madeira abaulada. Não o fez, portanto não liberou o nariz da cápsula nem quebrou os vidros de contenção, como indicado pelo projetista. E, numa chance em um milhão, fez exatamente o que deveria. O nariz queimou até se consumir em cinzas, mas demorou o tempo certo para proteger da reentrada os líquidos frágeis. Já havia um ar congelante quando os vidros finalmente se quebraram, espalhando um precioso líquido azul pela cápsula, e o que era um bólido brilhante de repente se tornou uma pluma, balançando ao vento. A velocidade ainda forte, mas cada toque nas nuvens, cada mínimo contato com a superfície turbulenta dos nimbos diminuindo sua cadência até que, numa espiral de fumaça, o bote salva-vidas tocou a neve e quebrou o encanto, ganhando peso novamente para se arrastar e enterrar no gelo macio, cavando uma trincheira de meio quilômetro num platô congelado. Demorou um tanto para o garoto se recuperar do desmaio da queda e sentir a pele ardida pelo calor sufocante. Bateu com os pés até conseguir desemperrar a escotilha e saiu, numa noite estrelada de ar frio e vento cortante de um mundo proibido.

 

Pouco abaixo um velho escorregava no gelo da trincheira, escorando-se num burro e mostrando os poucos dentes na direção de Dan. Um náufrago do gelo tentando resgatar um náufrago do éter.

— Que cabritos chifrem meu rabo, Jericó, se esse homem não caiu direto das estrelas! — berrou Gallius Relpek, com um sorriso maníaco.

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Aqui termina a última parte de Caçada e Matança! Você pode conferir a Parte 1 clicando aqui.

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Leonel Domingos • 02/11/2017

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