O Enigma das Arcas, Ato XXIV — Vou-me embora para Valkaria, lá sou amigo do Imperador-Rei!

Após uma longa jornada, os três viajantes chegam até Valkaria, a capital do Reinado! Falta apenas um dia para a execução de Garlor. Qual será o plano de Enemaeon?

armageddon-felrond-enigmaAté agora, no Enigma das Arcas…

Enemaeon de Ridembarr é um mago das trevas que após uma malsucedida invocação teve o coração arrancado e substituído por um artefato malignoPara se livrar dessa condição, partiu em jornada para salvar a própria alma.

Nessa busca, ele conta com a ajuda de alguns companheiros igualmente terríveis: o ladrão clérigo de Hyninn Garlor “Presas de Prata” , o elfo bêbado Felrond, o capitão pirata Moranler Silverdall e um guerreiro morto-vivo, Villvert de Gallien.

Após uma rápida e providencial parada em Ridembarr, a terra natal de Enemaeon, os três companheiros partiram em direção à capital do mundo e finalmente chegaram em Valkaria, o lugar pelo qual onde todas as grandes aventuras passam!

Ato XXIV — Vou-me embora para Valkaria, lá sou amigo do Imperador-Rei!

A madrugada ia alta quando o pequeno grupo deixou o vilarejo de Ridembarr em direção à capital do mundo. O ar estava estagnado, úmido e frio, encobrindo os campos com uma névoa gelada que nublava ainda mais o caminho. Felrond estava montado no grifo mutilado de Ahlen, seguido de perto por Enemaeon que guiava um belo cavalo branco, cedido pelo pai.

Viajavam um pouco à frente, conversando brevemente sobre amenidades entre longas pausas, sempre murmurando. Mas o mutismo deles não se comparava a muralha de silêncio que Villvert havia se tornado. O Guerreiro permanecia profundamente calado e concentrado, procurando entender aquilo que havia se tornado.

Se no passado fora um dos grandes soldados de Yuden, um capitão de tropas temido pela violência em combate, agora era apenas uma arma sem vida e sem nome. E isso o tornava ainda mais digno de temor. Até o cavalo de batalha que montava, acostumado com a selvageria e o cheiro de sangue, bufava e relinchava incomodado pelo condutor de músculos conspurcados, com veias negras que pulsavam morte sob a armadura.

O aço que o protegia também estava corrompido, tomado por linhas rubras que lembravam ferro em brasa. Pontas, lâminas e bolhas de pus brotavam por toda a parte. A carne do rosto fora consumida pela putrefação, deixando a pele ressecada num tom morto de cinza e com aspecto de pergaminho. Estava repuxada sobre os dentes, mantendo um sorriso perpétuo. Os olhos haviam sido substituídos por um brilho constante, ora azul e gelado proveniente da energia profana que o mantinha vivo, ora colérico e vermelho de Tormenta.

— Tem certeza de que você não fez merda dessa vez? — perguntou Felrond a certa altura.

— Faz tempo que não tenho certeza de nada — respondeu o necromante — E nesse caso, a certeza é nenhuma. Ainda assim, é melhor ter ele ao nosso lado que como inimigo.

— Será? Antes, talvez. A ideia de um cadáver ambulante parecia combinar com o tipo de lixo que nós somos. Mas o que ele é agora? É tão errado que assusta.

— Não adianta perder tempo explicando um conceito tão complexo para alguém com o cérebro embebido em álcool como você. Em dado momento, acredito que o Guerreiro será essencial para nós. Contente-se com isso.

Conforme as horas passavam e a manhã despontava no horizonte, os silêncios se tornaram mais escassos e a conversa entre os dois companheiros se transformou, em parte devido à teimosia de Enemaeon em explicar o horror que a presença do Guerreiro evocava, mas principalmente alimentada pela ideia de regressarem à Valkaria. Eles já estiveram na capital em inúmeras oportunidades, mas aquele trecho de estrada invariavelmente relembrava ao mago as vezes sem conta em que podia deixar a morosidade interiorana para trás e regressar ao caos organizado de uma cidade grande.

Ambos também estavam transformados, cada qual à sua maneira. Talvez a mudança mais notável fora causada em Felrond. Renovado, vestido e perfumado após um banho, jamais poderia ser comparado com a massa de sujeira repleta de piolhos que havia sido há alguns dias. Com os cabelos penteados e amarrados para trás com uma fita (à moda dos nobres da capital) e um casaco branco com motivos dourados em forma de folha e duas abotoaduras de prata, parecia muito mais com um elfo do que jamais havia sido diante dos olhos de Enemaeon.

Nele próprio, as alterações foram mais sutis. É bem verdade que o mago havia aproveitado a estadia para melhorar a própria aparência. A barba grisalha estava penteada e limpa, assim como os cabelos alinhados com óleo para que brilhassem. Vestia uma túnica azul impecável e trazia o novo cajado à tiracolo. No mais, uma bolsa repleta de apetrechos úteis e outras “coisas de mago” como havia dito à Felrond era toda a bagagem da qual dispunha.

Internamente, a história era outra. O conflito que vinha enfrentando foi superado após o diálogo com o pai. Havia encontrado, talvez, uma luz para sanar as dificuldades futuras envolvendo Merodach e o possível confronto final com o demônio. Entretanto, isto ainda teria que esperar. Havia algo muito mais urgente para lhe preocupar.

Tudo o que importava era a velocidade com que pudessem regressar até o navio e para Garlor. Restava um dia para a data marcada com o pirata minotauro e a única cartada possível deveria ser jogada com precisão. Não havia tempo para falhas ou uma segunda chance. Especialmente naquele caso.

Conforme os quase cinquenta quilômetros que separavam Ridembarr da capital eram vencidos, a visão da gigantesca imagem da deusa da humanidade aumentava, preenchendo o horizonte com sua presença. Trava-se de uma estátua do tamanho de uma montanha, representando uma mulher nua de joelhos apontando para os céus. Haviam centenas de histórias sobre aquele presente de Valkaria para seus filhos, nenhuma comprovada.

— Me disseram certa vez que há uma taverna com telhado de vidro logo abaixo das pernas da deusa — comentou Felrond puxando assunto — E que mulheres humanas inférteis que desejarem ter filhos montam em seus parceiros à sua sombra.

— Isto é apenas uma história de taverna, Felrond — sorriu o mago que havia substituído seu humor arredio por um arremedo de simpatia naquela manhã nostálgica — Não há nada construído entre as pernas da deusa, nem estalagem nem coisa alguma. A construção mais próxima é o palácio imperial, onde Thormy e Rhavana vivem.

— Rhavana é a sua rainha amazona, não é? — caçoou o elfo com um meio sorriso — É mesmo uma guerreira. Como ela consegue competir pela atenção do Imperador-Rei com uma vagina de vinte metros diante dos portões do palácio?

Até o desmorto yudeniano pilheriou de Enemaeon por aquilo, deixando escapar uma risada de escárnio. Mas o mago não se sentiu ofendido pelas piadas contra a família real. Gostava do reino em que nasceu, é verdade, mas nunca fora exatamente ligado às intrigas palacianas. Mesmo os rumores sobre a recente fuga da princesa para evitar um casamento arranjado com o regente do reino vizinho chegaram até ele muito mais tarde.

— Há muitos outros problemas em se ter uma estátua gigante na cidade além de possíveis distrações provocadas por uma genitália de pedra — explicou o mago com um dar de ombros — Ela faz sombra em demasia sobre boa parte das construções próximas, por exemplo.

— E isto é tão ruim assim? — comentou o elfo distraidamente acariciando o pelo da juba do grifo — Nossa cidade ficava constantemente sob a sombra de grandes árvores.

— Você viveu em Lenórienn, então não deveria comparar o que lá existia com o que temos aqui — foi a resposta. — As casas de Valkaria sempre estão sujas de bolor e mofo. Os telhados de palha recebem pouco sol e emboloram precisando ser trocados muito cedo. Mesmo as telhas ficam forradas de musgo e líquen e ocorrem infiltrações. Quando chove, a água recolhida pela estátua continua escorrendo por quase uma hora, enchendo as ruas apinhadas de lama e sujeira. Além disso, há os peregrinos. Abundantes como moscas.

— Pagadores de promessas — rugiu o Guerreiro com sua voz rasgada de morto — Em Yuden, a religião de Deheon é considerada um culto de mulheres. Estas, às vezes, peregrinam até aqui pedindo um útero fértil, um parto fácil ou proteção aos maridos na guerra. Tolices. Para nós, Valkaria é a prostituta de Keenn. Não há motivos para crer em uma imagem que não ouve suas preces.

— Eu já vi um milagre verdadeiro uma vez de um clérigo de Valkaria — cortou Felrond empertigando-se — Numa briga de taverna, um sujeito teve o olho vazado e voltou a enxergar depois que o clérigo o tocou. É verdade que ficou estrábico. Mas ele podia ver.

— Ele poderia ser alguém como Garlor, teoricamente — respondeu Enemaeon que jamais fora muito ligado à teologia — Um clérigo de outro deus, se passando por seguidor de Valkaria. A igreja da deusa de pedra às vezes paga para outros realizarem milagres em seu nome, já que a maioria não é capaz disto. Especialmente em viagens longas. Garlor me disse certa vez que o clero de Hyninn ganha mais dinheiro de Valkaria que de furtos. Mas mesmo assim a igreja é rica.

— E o ouro vem dos peregrinos, malditos sejam — completou o próprio mago após alguns instantes de silêncio. — Eles vêm de todo o Reinado trazendo prata e doença. De fato a face suplicante de Valkaria inspira este tipo de comportamento. A capital nasceu através da fé dos homens, e prosperou desta maneira. E há quem garanta que as curas são legítimas, verdadeiras provas da fé.

— Até que ponto curar pode ser considerado um milagre? — questionou o Guerreiro. — Para Keenn curar é sinônimo de fraqueza. A cura mágica priva seus guerreiros de uma morte honrosa em batalha que lhes garantiria um lugar de honra em seu castelo de espadas. Em troca, os transforma em aleijados incapazes de suportar um escudo.

Felrond olhou de soslaio para o mago, aguardando por uma resposta. Ele próprio também havia dado as costas para a religião desde que a cidade sagrada dos elfos havia sido tomada por um exército de goblins. Os bardos cantavam que Glórienn, a deusa guia do povo élfico, descera do firmamento para lutar pessoalmente para defendê-los, mas fora derrotada em combate singular por um reles bugbear. Uma deusa derrotada não é digna de adoração, por isso o culto desmoronou junto com todo o resto.

— Na verdade nós também não sabemos — respondeu Enemaeon com certa cautela, pois estava entrando em terreno delicado. Ele havia defendido durante os anos na Academia Arcana que os homens não deveriam depender apenas dos deuses para curar seus males, e a tese baseava-se naquela mesma ideia. — Nós apenas não conseguimos provar que não são.

— Que conversa de maluco.

— Mas faz sentido, Felrond. Pode ser apenas magia protegida por um véu de superstição, algum tipo de conhecimento que os clérigos juram proteger. Por exemplo, num passado distante, acreditava-se que apenas seguidores de Tenebra, a deusa noturna, tinham o poder e o direito de trazer os mortos de volta a um arremedo de vida. Porém, com o tempo, estudiosos…

— Bruxos necromantes de sangue podre e alma corrompida — cortou o Guerreiro. Enemaeon fingiu não ouvir, prosseguindo:

— Estudiosos conseguiram reproduzir os mesmos efeitos sem a necessidade de todos os rituais antigos. E você é uma prova não-viva disso: o cadáver de Villvert de Galien cavalga novamente. E não precisei apagar velas, esconder o corpo da luz enquanto dançava em volta, vazar seus olhos com ossos de corvo ou enterrar seu coração apodrecido numa caverna. Usei apenas alquimia para preservar sua carne, e magia para animar seus músculos.

— E como preservou minha memória? — questionou o Guerreiro, interessado pela primeira vez nos rumos que a conversa tomava — Nunca matei um zumbi que lutou pela própria vida. Eram apenas bonecos que ansiavam por carne e sangue.

— Cada coisa a seu tempo — concluiu Enemaeon, encerrando a discussão e se desviando propositalmente da pergunta. A última curva de mata rala havia sido cruzada, e agora, ladeando uma planície baixa e suja, a estrada pouco a pouco se embrenhava em um mar de casebres improvisados de madeira fina que antecediam a primeira muralha da cidade imperial. Nessa hora o dia já estava na metade e milhares de fios de fumaça das fogueiras de cozinhar subiam através de aberturas improvisadas nos tetos baixos, enchendo o ar de fuligem. — Agora precisamos tomar um desvio.

— Achei que iríamos marchar pelo Portão Sudoeste — caçoou Felrond, já sabendo que seria impossível para aquele grupo passar despercebido à guarda se cruzassem um dos imponentes portões de entrada da cidade. Apesar do crescente de viajantes comerciando tecidos e peles, peregrinos, crianças, cachorros, carroças, mendigos, pedintes e aleijados que iam e vinham pelo chão lamacento coberto de esterco e palha, eles ainda assim se destacavam. Aparentavam nobreza num mar de miséria, e a não ser pela ausência de uma escolta ou de um estandarte, eram mesmo.

O cavalo do Guerreiro pateava nervoso, honrando o nome que Felrond havia lhe dado. Tormenta bufava e mostrava os dentes, tentando morder um caixeiro especialmente insistente que trazia consigo uma caixa mágica que transformava ferro em ouro. Meia dúzia de meninos marcados de peste e com as barrigas inchadas pelos vermes corriam em torno do grifo que batia o bico e arranhava a lama com as garras.

— Não há motivos para seguirmos nessa direção — comandou o mago puxando as rédeas — Vamos seguir em frente e dar a volta até a Rua dos Piolhos.

— Então segurem bem as bolsas — pilheriou Felrond trotando rápido para afastar-se da turba crescente.

(***)

A tal torre do louco estava muito mais perto do que imaginara, tanto que provavelmente Camila teria chegado lá sozinha. Eram as ruínas abandonadas de um velho moinho, com a base de pedra e os dois outros andares feitos de madeira acinzentada e repletos de sujeira. Estava esquecido há tanto tempo que as plantações do entorno já haviam sido engolidas pelas árvores. As pás que antes moviam a moenda estavam completamente arruinadas, rangendo um pouco devido à tempestade próxima. Pássaros haviam feito ninhos em algumas frestas, mas já haviam partido há muito.

Camila tirou a sela do cavalo, dando dois tapinhas no pescoço do bicho que sacudiu a crina quando percebeu que estava livre. O animal cheirou as mãos dela antes de trotar para algum lugar próximo. Esperava que não fosse longe demais, teria que procurá-lo após a tempestade. Se sair viva daqui — pensou.

Agora vinha a parte complicada. Tudo nela pedia para que entrasse armada e pronta naquele lugar estranho, mas em vez disso jogou o que tinha nas costas e caminhou com passos firmes até a entrada. A menina a acompanhava, longe o suficiente para se sentir segura.  Empurrou a porta, que se abriu para dentro de forma mais violenta do que esperava, em parte devido à uma nova lufada de vento que soprou forte.

Estava vazia e escura. Camila se virou para a menina, mas essa aproveitou para correr torre adentro, avançando em direção às escadas e sumindo no segundo andar. Ela chamou pela criança algumas vezes, mas em vão. Sem alternativa, adentrou o moinho, largou a sela e a mochila de viagem em um canto enquanto procurava por algum lampião no entorno, mas não encontrou.

Não havia nada além de ruína. As pedras que um dia moeram a produção de grãos local estavam paradas e partidas. Havia correntes e um sem número de velhas ferramentas apoiadas em toda parte. Os tonéis de madeira boa também estavam ali, repletos de alguma coisa decomposta, viscosa e mortiça. De resto, teias de aranha e pó. Parecia que ninguém andara ali havia anos.

Fechou a porta atrás de si e a calçou com uma pá. Ficou ouvindo, completamente atenta enquanto seus olhos se habituavam a escuridão. Apenas o choro estridente do bebê suplantava o uivo do vento nos galhos secos. As primeiras gotas de chuva chegaram, e em breve o som da água lavando tudo se tornou onipresente. Pensou em chamar pela menina mais uma vez, e só então percebeu que não perguntou qual era seu nome.

Caminhou decidida até as escadas. Galgou a distância que a separava do segundo piso degrau por degrau, ouvindo a madeira velha ranger sob seu peso. O vento molhado invadia o lugar por cada fresta, como se os espíritos do ar quisessem lhe impedir de prosseguir. Quando chegou no primeiro andar, não havia nada lá, exceto a garotinha em um canto com o bebê gritando nos braços.

— Porque fugiu? — perguntou.

— O louco não gostou de você.

Não havia resposta para aquilo. Mais um passo, e a menina puxou as pernas para junto do corpo e abraçou seu fardo barulhento com ainda mais força. A ferida vermelha no rosto dela se eriçou, pulsando pequenas agulhas que desciam pelo pescoço e sumiam dentro das vestes. Camila suspirou, triste. Aquilo era pior do que qualquer doença, maior do que qualquer dor. Era Tormenta, era errado e alienígena. Mas era a nova realidade daquele mundo.

— Ele ficou bravo comigo — murmurava a menina acariciando os andrajos que serviam de manta — Ele ficou muito, muito bravo comigo. Muito, muito, muito…

Não haviam palavras a serem ditas. Cobriu a distância que a separava dela, ajoelhou-se ao lado e com a mão, retirou os tecidos de cima da criança. O que viu fez seu estômago girar, de raiva, de medo e de culpa. Não era de fato sua responsabilidade, mas pesava mesmo assim.

Como imaginou, não havia bebê, apenas um demônio escarlate barulhento irremediavelmente preso ao corpinho da menina, incrustado em sua carne, se alimentando daquela pequena vida, transformando-a em algo que não era mais artoniano. Não se tratava de uma deformação. Era uma invasão. Asquerosa. Errada. Má.

Era difícil não sentir compaixão. Mas Camila era uma mensageira há anos e já havia visto muito. A coisinha gania e guinchava nos braços da menina quando ela afastou-lhe os cabelos do rosto, beijou-a na testa e com a mão esquerda enterrou um punhal no pequeno coração. Abraçou-a contra si enquanto ela morria. Apesar dos gritos do monstro, que mordia e arranhava sua pele, não a soltou até o fim, mantendo-a ali, morrendo apoiada em seu peito.

Por algum motivo, lembrou-se de uma velha canção de dormir. Cantarolou a música baixinho, fazendo coro com o vento furioso, as gotas d’água no telhado arruinado e os gritos.

O caminho para Valkaria é longo, mas a jornada até aqui já nos mostrou inúmeros lugares do sul de Arton. Caso ainda não tenha começado a ler, é um bom momento pra acompanhar o Enigma das Arcas desde o início!

O que será que nos espera nos próximos capítulos? =D

Armageddon • 20/11/2017

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