C&F vol2 - Quem ficou de fora!?

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Mateus Queiroz
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C&F vol2 - Quem ficou de fora!?

Mensagem por Mateus Queiroz » 24 Jan 2020, 10:51

Olá amigos.

É... Não foi dessa vez que conseguimos uma vaga em uma das antologias mais divertidas de que se tem conhecimento.
Como foi sugerido pelos próprios organizadores, gostaria de iniciarmos aqui a postagem dos nossos contos que ficaram de fora para que possamos trocar nossas experiências e aprendermos ainda mais. Assim, quando tiver o terceiro volume, nós consigamos ser aprovados. (Assim esperamos :lol: )

Sugiro que organizemos as nossas postagens da seguinte maneira:

Título do Conto:
Autor:
Conto:
Conte um pouco da experiência que foi participar do concurso C&F vol.2:

Richardsl
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Re: C&F vol2 - Quem ficou de fora!?

Mensagem por Richardsl » 24 Jan 2020, 11:13

Que tal começar pelo teu Mateus?

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Mateus Queiroz
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Re: C&F vol2 - Quem ficou de fora!?

Mensagem por Mateus Queiroz » 24 Jan 2020, 11:24

Título do Conto: A Menina no Vale

Autor: Mateus Queiroz

Conto:
― Vamos! ― gritou o guerreiro Ascot sacando a espada. ― Precisamos ajuda-los!
― Não vamos a lugar nenhum ― retrucou Mirabelle forçando a voz feminina para que pudesse ser ouvida em meio ao ribombar dos trovões. ― Essa tempestade está muito forte. Não chegaremos a tempo.
― Só saberemos se tentarmos ― respondeu Eridar puxando o encharcado capuz para trás revelando suas orelhas pontudas.
Partiram rumo ao bando de ladrões.
A chuva estava tão forte que formava enxurradas de lama pelo meio do vale, o que dificultava o deslocamento do grupo até os agressores.
Eridar pensou em disparar algumas flechas nos bandidos, porém com aquele mau tempo, era muito arriscado acertar as vítimas. Teria que aproximar-se mais.
Mirabelle sussurrava palavras mágicas enquanto aproximava-se dos agressores. Elevou as mãos à frente do corpo e, da ponta de seus dedos, projéteis de energia arcana voejaram em direção ao maior dos bandidos. O pobre idoso, que era uma das vítimas dos assaltantes, foi atingido pelo golpe da espada do malfeitor, antes deste tombar ao receber toda a carga dos disparos místicos de Mirabelle.
O velho desmaiara pela dor causada advinda do corte sofrido, enquanto sua pequena filha estava sendo arrastada pelos cabelos pelo terceiro gatuno.
Ascot chegou à tempo de sobrepuja-lo antes que a garota fosse ferida de morte. Trespassou-lhe a espada pelas costas fazendo-o tombar aos pés da menina que, de susto, gritou.
O terceiro salteador, vendo que seus companheiros já estavam derrotados, fugiu pelo vale, porém teve sua nuca atingida por uma flecha disparada por Eridar.
― Estão bem!? ― Perguntou Ascot olhando ao redor.
― Vocês precisam ajudar meu pai! ― desesperou-se a menina.
― Nós iremos socorrê-lo ― disse Eridar enquanto se abaixava próximo ao velho homem.
Mirabelle se colocara por detrás da menina, pousando as mãos sobre os ombros dela, transmitindo conforto e acolhimento.
― Eridar ― começou Ascot. ― Há algo que possas fazer com esse ferimento?
― Temo que não ― respondeu o elfo. ― Precisaremos de um curandeiro.
― Nossa aldeia é logo ali na entrada do vale ― choramingou a menina. ― Podemos pedir ajuda para Giltret, a anciã do vilarejo.
― Mas a entrada do vale não é logo ali, criança ― corrigiu Eridar. ― E ainda tem essa chuva pra dificultar o trajeto.
― Então precisamos partir imediatamente! ― rugiu Ascot.
Eridar puxou a caminhada tendo a menina ao seu lado, seguido por Mirabelle e Ascot, que carregava o velho desacordado.
Caminharam por longos minutos cruzando o vale, castigados pela chuva torrencial. De repente a menina estacou puxando as vestes de Eridar ― Espere! ― gritou ela. ― Parem!
― Seu pai está morrendo menina, ― retrucou Ascot ― precisamos chegar o mais rápido possível.
― Não chegaremos se formos esmagados ― disse ela.
No mesmo instante, um clarão riscou os céus e acertou o topo da montanha à esquerda deles. Um estrondo foi ouvido enquanto uma avalanche de pedras desmoronava sobre a trilha, no exato lugar onde eles deveriam estar, caso não tivessem parado.
― Estaríamos mortos agora se não fosse a percepção da garotinha ― disse Mirabelle limpando o rosto encharcado.
― Acho que ela conhece muito bem as chuvas nessa região ― comentou o arqueiro.
― Podemos prosseguir menina? ― indagou Ascot enquanto ajeitava o corpo desacordado do idoso sobre os ombros.
A menina assentiu e continuaram caminhando.
A tempestade começou a diminuir, mas não cessou.
Estavam próximos de terminar a travessia, quando novamente a menina pediu que esperassem. Na entrada do vale, havia um amontoado de árvores e arbustos que, provavelmente serviria de esconderijo para mais bandidos ou animais selvagens.
A garotinha sussurrou para que Eridar disparasse uma flecha no arbusto que ela indicasse. Ele assim procedeu. Sacou uma flecha de sua aljava, posicionou-a no arco e retesou a corda enquanto mirava com o olho direito.
― Agora! ― gritou a menina.
Eridar disparou a flecha e um alto uivo se fez ouvir de dentro do arbusto, enquanto saltava de lá, um lobo perfurado nas ancas pela flecha do elfo. Os outros companheiros de alcateia dispararam em fuga deixando o aliado ferido para trás, enquanto esse tentava fugir de sua presa que agora se tornara seu predador.
Não mais causaram danos ao lobo ferido, apenas continuaram prosseguindo em direção a aldeia que já estava logo à frente, agradecidos por terem sido guiados pela experiente menina.
Ao chegarem nas portas da aldeia, a garota indicou onde ficava a tenda da anciã Giltret, para que ela pudesse socorrer seu quase falecido pai.
― Vou no abrigo buscar roupas novas para o papai ― começou ela. ― Logo estarei com vocês na tenda da vovó.
Assentiram enquanto corriam ao encontro da senhora.
Foram recebidos pela própria anciã que trajava muitos panos coloridos sobrepostos.
― O que aconteceu com o velho Vincent? ― perguntou ela movendo todas as rugas da face.
― Ele e sua filha foram atacados por ladrões no meio do vale ― respondeu Mirabelle. ― Nós os salvamos e fomos guiados pela menina até aqui para que a senhora curasse o ferimento dele.
― Entendo ― respondeu a senhora, deixando transparecer um semblante de paz e tranquilidade.
Pediu que colocassem o homem sobre um tapete que havia no meio da tenda. Acendeu vários incensos e velas. Derramou uma mistura de ervas amassadas sobre a cabeça do velho e fez algumas preces aos deuses antigos.
Imediatamente a ferida no ombro de Vincent se regenerou. A coloração de sua pele foi retornando ao normal enquanto ele despertava.
― Obrigado aventureiros ― agradeceu enquanto se levantava.
― Agradeça a sua filha que nos guiou até aqui ― disse Eridar. ― Se não fosse por ela, nem teríamos chegado aqui com vida e à tempo.
A velha deixou escapar um leve sorriso de canto de boca.
O homem arregalou os olhos de espanto.
― Minha filha morreu no último outono ― revelou por fim. ― Eu estava indo ao templo, rezar pela sua alma, quando vocês me salvaram do ataque daqueles ladrões.

Conte um pouco da experiência que foi participar do concurso C&F vol.2:
A experiência foi muito boa porém, eu não tinha nenhuma ideia para escrever o conto, pois eu estava focado mais no concurso do Crônicas da Tormenta vol.3.

Fui buscar por ganchos de aventura de rpg e acabei me interessando por um que era a ideia para escrever o conto.

Eu já vinha escrevendo vários contos curtos tentando me preparar para o concurso. Recebi alguns feedbacks de algumas pessoas, porém, o conto que foi submetido ao concurso, eu não peguei tantas opiniões.
Deveria ter aproveitado mais os nossos parceiros do Diário de Escrita e do Papo de Autor para "betarem" o meu conto, assim eu acho que teria me saído melhor.

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J. V. Teixeira
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Registrado em: 07 Jan 2020, 22:10

Re: C&F vol2 - Quem ficou de fora!?

Mensagem por J. V. Teixeira » 24 Jan 2020, 13:08

Então, vou dar o meu parecer em alguns pontos que eu acho que poderia melhorar, mas obviamente não sou o dono da verdade e nem quero te ensinar a escrever, essa é apenas a minha opinião:
Mateus Queiroz escreveu:
24 Jan 2020, 11:24

Eridar pensou em disparar algumas flechas nos bandidos, porém com aquele mau tempo, era muito arriscado acertar as vítimas. Teria que aproximar-se mais.
Mirabelle sussurrava palavras mágicas enquanto aproximava-se dos agressores. Elevou as mãos à frente do corpo e, da ponta de seus dedos, projéteis de energia arcana voejaram em direção ao maior dos bandidos. O pobre idoso, que era uma das vítimas dos assaltantes, foi atingido pelo golpe da espada do malfeitor, antes deste tombar ao receber toda a carga dos disparos místicos de Mirabelle.
O velho desmaiara pela dor causada advinda do corte sofrido, enquanto sua pequena filha estava sendo arrastada pelos cabelos pelo terceiro gatuno.
Ascot chegou à tempo de sobrepuja-lo antes que a garota fosse ferida de morte. Trespassou-lhe a espada pelas costas fazendo-o tombar aos pés da menina que, de susto, gritou.
O terceiro salteador, vendo que seus companheiros já estavam derrotados, fugiu pelo vale, porém teve sua nuca atingida por uma flecha disparada por Eridar.
Achei a cena de batalha no início um pouco truncada, sem fluidez, são muitos personagens e você usa frases curtas para descrever a ação de cada um. Me deu a impressão de ser uma partida de RPG e eu estar vendo o turno de cada jogador.

Como o concurso pedia contos de até mil palavras, talvez se tivessem menos personagens em cena você poderia trabalhar melhor essa batalha.
Mateus Queiroz escreveu:
24 Jan 2020, 11:24

― Estão bem!? ― Perguntou Ascot olhando ao redor.
― Vocês precisam ajudar meu pai! ― desesperou-se a menina.
― Nós iremos socorrê-lo ― disse Eridar enquanto se abaixava próximo ao velho homem.
Mirabelle se colocara por detrás da menina, pousando as mãos sobre os ombros dela, transmitindo conforto e acolhimento.
― Eridar ― começou Ascot. ― Há algo que possas fazer com esse ferimento?
― Temo que não ― respondeu o elfo. ― Precisaremos de um curandeiro.
― Nossa aldeia é logo ali na entrada do vale ― choramingou a menina. ― Podemos pedir ajuda para Giltret, a anciã do vilarejo.
― Mas a entrada do vale não é logo ali, criança ― corrigiu Eridar. ― E ainda tem essa chuva pra dificultar o trajeto.
― Então precisamos partir imediatamente! ― rugiu Ascot.
Eridar puxou a caminhada tendo a menina ao seu lado, seguido por Mirabelle e Ascot, que carregava o velho desacordado.
Caminharam por longos minutos cruzando o vale, castigados pela chuva torrencial.
Esse diálogo, novamente tendo em vista que o conto precisava tem mil palavras, poderia ser resumido em poucos parágrafos, pois assim você "ganharia" mais palavras para usar depois e aprofundar em outro ponto.

Poderia ser algo do tipo:

"Com o término do combate, os gritos desesperados da menina, por conta do ferimento do pai, tomaram conta do lugar. Ascot e os demais tentaram ajudar, mas as feridas estavam além de suas capacidades.
-Podemos pedir ajuda para a anciã Giltret, ela vive num vilarejo próximo - disse a menina. - Por favor, me ajudem a levar meu pai até lá!
O grupo concluiu que essa seria a melhor opção para salvar o velho homem, por isso seguiram o caminho indicado pela menina, em meio a pesada chuva."

O trecho como você escreveu tem 165 palavra, o exemplo que eu dei tem 86, ou seja, quase a metade.
Mateus Queiroz escreveu:
24 Jan 2020, 11:24

― Obrigado aventureiros ― agradeceu enquanto se levantava.
― Agradeça a sua filha que nos guiou até aqui ― disse Eridar. ― Se não fosse por ela, nem teríamos chegado aqui com vida e à tempo.
A velha deixou escapar um leve sorriso de canto de boca.
O homem arregalou os olhos de espanto.
― Minha filha morreu no último outono ― revelou por fim. ― Eu estava indo ao templo, rezar pela sua alma, quando vocês me salvaram do ataque daqueles ladrões.
Eu achei a ideia do final boa, teve aquele efeito surpresa que esse tipo de conto rápido pede, mas eu achei que o modo como foi escrito acabou não sendo tão impactante.

Concluindo:

Gostei do conto, achei a trama boa e o final interessante, só achei que faltou dar uma lapidada em alguns pontos.

Como eu disse anteriormente, não me entenda mal, meu objetivo aqui não é te ensinar a escrever nem nada disso, é só a minha opinião mesmo para ajudar.

Espero que você reescreva e publique isso de algum modo, eu acho que é uma história que vale a pena.

E caso você decida reescrever, como não tem mais o concurso como limitação, você poderia até aumentar um pouco o conto, detalhar um pouco mais a batalha inicial, prolongar a parte do grupo com a menina e repensar o final para ele ficar um pouco mais impactante. Talvez fosse legal você detalhar mais um pouco os personagens, dá pra entender que eles são aventureiros, mas nesse conto curto eles ficaram vazios.

Ou, se preferir usar esse conto como treino e estudo para o próximo Curtos, tenta mexer no texto, mas mantendo o limite de mil palavras.

De qualquer modo, se reescrever e quiser que eu leia novamente é só falar comigo.

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John Lessard
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Re: C&F vol2 - Quem ficou de fora!?

Mensagem por John Lessard » 25 Jan 2020, 14:21

Título do Conto: Ponto de Vista

Autor: João Victor Lessa

Conto:

Não me lembrava de nada antes da queda. Talvez o frio e a sensação de vazio, mas ainda assim era como um sonho distante, daqueles que não temos certeza se tivemos ou não. Logo depois disso foi como um despertar, uma sensação morna e tudo girando em movimentos caóticos. E então, queda. Senti o impacto, em cada osso e centímetro de meu corpo e finalmente o torpor desapareceu, eu conseguia sentir finalmente, liberto daquela prisão a qual estava e que também servia como transporte para cruzar a imensidão infindável.

Teria eu chegado ao meu destino? Não poderia responder tal pergunta, afinal, não lembrava de onde vinha, nem para onde desejava ir. Era uma sensação estranha, mas ao mesmo tempo fascinante. Olhei em volta, tentando compreender o mundo ao redor. Era negro, como sempre fora e aquilo era decepcionante. Perdi a noção do tempo, mas então um pensamento me ocorreu, talvez a primeira lembrança real. O tempo era irrelevante, mutável e relativo. Como eu poderia saber daquilo? Não saberia dizer… talvez eu tivesse acabado de nascer, mas estes pensamentos eram ilógicos.

Sabia que eu tinha um propósito, ou ao menos deveria ter. Tentei expandir meu corpo, forçar as barreiras daquele que era meu mundo, cujas muralhas me confinavam no escuro. Para minha surpresa, elas se partiram, rachando e revelando a luz de um novo mundo. Constatei que deveria ter tentado aquilo mais cedo.

A paisagem em volta era curiosa, bastante inovadora e mesmo sem lembrar de quase nada, parecia fazer sentido para mim, embora despertasse mais algum sentimento. Não soube dizer qual, mas era algo novo, isso sem sombras de dúvidas.

Minha queda havia provocado uma enorme devastação, aberto uma cratera medonha de terra espalhada e árvores amontoadas e destruídas. Ergui-me por completo, contemplando tudo que podia ao redor. Florestas, montanhas e vales frescos. Uma paisagem bela para aquele mundo, agora devastada com a minha chegada. Parei, confuso por conhecer conceitos como aquele. Aquilo era bonito? Como poderia saber ou achar isso? Como se aquelas informações sempre estivessem ali, um conhecimento transcendental e patético, uma pura formalidade que um dia aprendi.

Minha curiosidade me levou além, dei poucos passos e o espaço se dobrava sobre minha intenção e vontade. Podia ter maiores vislumbres do ambiente, sentir a rocha fria, a brisa e a asperezas dos troncos das árvores. Ouvi o correr das águas, o farfalhar das folhas e os passos apressados dos animais, distantes e assustados.

Continuei em frente, sempre enxergando longe e neste momento percebi que eu era grande, volumoso e forte. As barreiras naturais não pareciam capazes de me parar, de me atrasar. Então eu apenas segui, cada vez mais rápido, imparável, quase que tomado por um desejo insaciável. Mas eu sentia fome? Não me lembrava de ser acometido por tal sensação ou necessitar de suposto provento. Aquilo era uma necessidade tão humana.

Humanos, sim, por alguma razão os conhecia, suas minúcias, seus desejos e prazeres, suas fraquezas, suas tantas imperfeições. Seus corpos pequenos e frágeis, feitos de tantas coisas, carne, ossos e sangue, tão fáceis de se desfazerem.

Quando atravessei as montanhas e cruzei o vale, vislumbrei a cidade então. Pequena, envolta pelos raios solares dourados numa morna manhã de inverno. Suas casas, prédios e ruas perfeitos, alinhados e minúsculos. Suas obras que em sua arrogância julgavam importantes, poderosas e avançadas.

A primeira pessoa que me viu foi uma garota de cabelos loiros. Me fitou durante dois segundos com seus olhos azuis esbugalhados e então, sorriu. Finalmente sentia algo e identifiquei um sentimento dentro de mim: Alegria. A menina sorria para mim e eu sentia alegria. Os lábios dela se alargaram mais, e me felicitava. Seus olhos se comprimiam, as lágrimas vertiam enquanto sua boca abrira mais e mais, forçando a musculatura de sua face. Ela continuava, numa mistura de insanidade e escárnio. Deveria ser demais para a criança, então gargalhou, uma risada contínua, que roubava o ar de seus pulmões.

Aquilo sem dúvidas chamou a atenção de uma mulher, também de cabelos loiros, talvez sua mãe. Ela se aproximou preocupada, então colocou os olhos em mim também. Então sorriu e me alegrei mais ainda. Ao contrário da garota, entretanto, se conteve e levou as mãos trêmulas ao rosto. Com suas unhas mediocremente pintadas de vermelho abriu sua própria pele facial em linhas sangrentas. Repetiu de novo e outra vez.

Outros olhares eram atraídos a mim. Uma anciã, chorou e com a ponta de seus dedos tentava arrancar seus olhos. Choravam e riam, desmaiavam, arrancavam se mutilavam. Vomitavam e vociferavam contra os demais, seus irmãos. Neste momento tudo ficou claro para mim em meu júbilo de alegria. O sentimento que não sabia descrever e que me preenchia desde que botei meus muitos olhos naquele mundo.

Desprezo.

Eu desprezava a raça humana, mas me alegrava enquanto eles viam a mim e a verdade. Quando falei então, pela primeira vez, disse meu nome e todos gritaram de dor quando seus ouvidos sangraram, mas ainda assim riam e choravam, tentaram então clamarem por meu nome inutilmente, com suas línguas inferiores tentando pronunciar o impossível. Mas mesmo assim tentaram, vez após vez. Era simples compreender naquele momento o porquê de eu saber tanto. Eu era grande e antigo e seria louvado por eras e eras, até o mundo deixar de ser mundo e o universo terminar.

Eles cantariam meu nome para sempre e me chamariam de mais outros novecentos e noventa e nove nomes, sempre em júbilo, sempre afogados em suas impurezas e em minha felicidade. Todos saberiam meu nome e louvariam. Até mesmo você.

Você quer saber meu nome?

Conte um pouco da experiência que foi participar do concurso C&F vol.2:

Bem, é o primeiro Curtos e Fantásticos do qual participo e foi interessante. Um fato engraçado é que eu sempre acho que o que escrevo não está muito bom, mas eu adorei o conto acima, pena que não foi escolhido. Curiosamente, eu participei em simultâneo do Crônicas da Tormenta Vol.3 e consegui ser um dos vencedores.

Bem, é isso, se alguém quiser opinar, está aí.
Personagens em Pbfs:
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linsceh
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Registrado em: 07 Jan 2020, 19:32

Re: C&F vol2 - Quem ficou de fora!?

Mensagem por linsceh » 26 Jan 2020, 14:36

De antemão, deixo aqui meu compromisso de dar meu feedback para todos os textos. Mas, com a permissão de vocês, vou imprimi-los para ler com calma. Funciono melhor com o papel na mão =)


Título do Conto: A Iminente Guerra Interior
Autor: Eduardo Lins
Conto:

– Depois da fronteira, qualquer caminho significa abandono pelo recomeço...

O vento encobriu meu sussurro. Mas, como poucos, desvia educado de mim para fazer seu trabalho. E, diferente de outros, sua erosão destrói para reconstruir.

“Sua vida não vale nada, nem uma história!”

– É, mas talvez o sacrifício dela valha um registro.

Saí de casa há pouco, ainda é cedo, mas os dois sóis já mostram serviço. O mau humor do solo árido à minha frente afasta qualquer possível convivência com sombra ou água fresca. As muralhas oficiais insistem em nos proteger... Infelizmente, não serviram para nada quando a felicidade das trevas deu as caras.

O clima atrás de mim me expulsa – como meus poros, o povo trabalha para manter a tensão sob controle:

– Esse é o melhor lugar do mercado pra montar barraca!

– Bom dia, seu guarda! Como vai a patrulha?

Se não surgir qualquer alívio, essa tensão explodirá de um jeito bem pior... Como há dois mil e quinhentos anos, quando a Guerra de Hiormeninquan devastou Chronishida. Dizem que na época descobriram novas formas de vida: por um estresse que não sei explicar, todos se digladiaram no conflito.

Os sobreviventes adotaram políticas diferentes conforme o local: surgiram repúblicas, quilombos, tribos, condados... Nasci no Reino de Deemácula, onde até agora vivíamos oficialmente tranquilos, mas por isso pagamos com dois milênios e meio de sangue.

Inúmeras dinastias administraram o país. Sobrevivemos a sete guerras civis. Tivemos alguns momentos republicanos, porém não deu certo como em outros lugares: desistimos pela corrupção que se alastrava em cada tentativa. Não estudei, mas ninguém se importa em abrir a boca perto do entregador de barris, especialmente enquanto bebem:

– Você sabia que só falta uma guerra civil pro Reino cair?

– Ah, cala a boca... Isso é lenda, cara. Todo mundo sabe. Que nem os planos de derrubar a família real: só boato.

Fora dos tribunais, as únicas discussões são políticas e artísticas. O exército é mais simbólico, mas nem importo muito com isso: só um assunto tira minha paz.

Aliás, por falar em “paz tirada”, um palhaço terrorista sequestrou a princesa na frente de todo mundo como se tivesse saído para comprar pão. Provou a inutilidade das muralhas. Também alimentou o boato da oitava guerra civil.

– O Exército Imperial permanece à espera das ordens reais... – Vi o discurso oficial do Conselheiro, para os jornalistas, enquanto fazia uma entrega no Palácio.

O trauma por vezes atrasa as respostas, ainda mais quando não há preparo para a situação. E os soldados ficaram tão estarrecidos quanto o povo. Depois o governo mente para manter o poder. Mas quem se ilude pela grandeza ignora os detalhes inúteis, como minha presença:

– Mas com tanto choro, acho difícil. Esse rei não tem pulso, não tem visão! – sussurrava o Conselheiro ao amigo. – Eu daria muito mais estímulo! Talvez tenhamos... uma virada interessante.

Precisam de “estímulo” para agir? Ah, se conhecessem minha vida... Digamos que ninguém facilita para quem vem abaixo do cocô do cachorro, logo em terceiro lugar atrás de nada, que fica depois de porcaria nenhuma. Meu mestre respeita mais ao gato dele do que a mim – normal para os bichanos, mas o Gonnem extrapola:

– Kien, garoto... quando fizer algo grande, será respeitado... Mas você, Kien Rencrow, só faz mer...

O arroto de cerveja o interrompeu. Tudo bem, todos sabem porque me contratou:

– Só entre nós: sabe aquele menino, o Kien? Um dia a mãe dele vai esquecer o cadáver do paspalho...

Meu pai deve ser mais lembrado pelo Gonnem do que por mim. Penso mais na Princesa... E, agora, também no sequestro.

A Princesa Mehrida, que já é um espetáculo, veio cantar no teatro construído na fronteira com o Deserto de Gaunsht. A cidade lotou o prédio, e as memórias de nossa infância me enchiam de esperança. Após os aplausos iniciais, o teto explodiu e aquele bicho semelhante a palhaço pousou da nave no lugar onde planejei entrar de surpresa. O rapto levou junto a promessa que fiz quando criança.

Aqueles covardes podem ficar parados, mas prefiro cuidar do meu “estímulo” a entregar cerveja. O Gonnem que se vire. De quebra, ainda dou alívio à minha mãe: ela é quem diz que minha vida não vale nem uma história.

– Kien, meu filho que trabalha por nada, já cansei de você… Pelo menos o imprestável do seu pai ganhava dinheiro.

“Então por que você não ganha?”

Já consegui furtar essa armadura. Quando sentir fome ou sede... darei um jeito... sozinho... no Deserto de Gaunsht... Pelo menos sei que a levaram para o sul! Além disso, o Conselheiro pareceu ofender a ordem que defende: duvido que a “virada interessante” comporte o resgate da princesa, e por isto estou quase cruzando a fronteira deemaculana.

– Kien, espera!

Tyxana ofegava quando me alcançou, mas conseguiu dizer que não preciso ir. Como resposta, só levantei uma sobrancelha.

– Você deveria... Digo, poderia ficar aqui...

Franzi a sobrancelha. Percebi os olhos inchados e lacrimejantes. Aquele trabalho ainda iria matá-la.

– … com seu trabalho. Não é o melhor emprego do mundo, mas pelo menos estamos perto... de segurança e tranquilidade. Você sabe.

– Sei... sei sim – confirmei. – Mas não vivo tranquilo aqui.

Desviei o olhar para seus os cachos: separados pela orelha, caíam por cima bolsa.

“Me chama de elfo de novo, Kien, e não serei tão carinhosa assim.”

– Tenho uma promessa, Tyxana, e... estou indo em busca de paz.

– Desde quando se importa com a paz do Reino?

Sorri. Quem ganhar o coração de Tyxana não tem o direito de desperdiçá-lo.

Então meus passos me levaram a cruzar o portal. O que importa é a minha paz.

E, como aprendi antes, o preço da paz é a guerra.

A guerra custa esperança.

E a esperança exige o sacrifício.


Conte um pouco da experiência que foi participar do concurso C&F vol.2:

Acho que foi legal porque me tirou do lugar comum. Ano passado me inscrevi em três editais de contos e, apesar de não ter sido aprovado em nenhum, ficou a experiência. Entre esses, o segundo volume do Curtos & Fantásticos foi o pontapé. Depois disso, conheci (e adorei) o Destruindo Inícios, e agora tenciono participar das metas de escrita no Diário.

Voltando ao concurso, senti uma certa ansiedade pelos selecionados. E (não sei como explicar) algo me dizia já que o texto não iria passar. Isso é irônico para mim, porque gostei do resultado final, mas sinto que falta algo e não encontro o quê.

Porém, de uma forma ou de outra, tive saldo positivo. Quando me perguntei sobre o que escreveria, desengavetei uma história arquivada há muito tempo, da qual não tinha nada mais do que traços genéricos e o nome do mundo: Chronishida.

Além de me tirar do lugar comum, o concurso ainda me obrigou a exercitar a concisão. Uma história em 1.000 palavras? Eu queria prolongar, e detalhar, e especificar o máximo possível! E as palavras pareciam as cabeças da Hidra: quanto mais cortava, mais nasciam no lugar. :lol:

Quando estava chegando o prazo final, quase enlouqueci achando que não conseguiria mandar. Seria mais um prazo perdido na minha vida de procrastinador. Porém deu certo o envio, e isso fez toda a diferença para mim.

Então sou grato pela oportunidade. Depois, se fosse possível, gostaria de entender o que faltou para desenvolver ou aprimorar. Quis contratar uma leitura crítica, mas me faltou o tempo e o dinheiro na ocasião. Também ainda não sei como conseguir leitores beta, além das opiniões informais da minha noiva. Também vejo isto como um próximo passo para aprender.

Obrigado a todos, e um abraço! :D

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Mateus Queiroz
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Re: C&F vol2 - Quem ficou de fora!?

Mensagem por Mateus Queiroz » 27 Jan 2020, 10:49

John Lessard escreveu:
25 Jan 2020, 14:21
Título do Conto: Ponto de Vista

Autor: João Victor Lessa

Conto:

Não me lembrava de nada antes da queda[...]Você quer saber meu nome?

Conte um pouco da experiência que foi participar do concurso C&F vol.2:

Bem, é o primeiro Curtos e Fantásticos do qual participo e foi interessante. Um fato engraçado é que eu sempre acho que o que escrevo não está muito bom, mas eu adorei o conto acima, pena que não foi escolhido. Curiosamente, eu participei em simultâneo do Crônicas da Tormenta Vol.3 e consegui ser um dos vencedores.

Bem, é isso, se alguém quiser opinar, está aí.
Assim, o conto é muito bem escrito e dá pra saber que você tem talento, tanto que foi vencedor do Crônicas da Tormenta vol 3. Parabéns.

Com relação a entrar no Curtos & Fantásticos vol2, se eu não me engano, um dos requisitos que tinha no edital, era que o conto precisava ter uma reviravolta, algo "chocante" e o seu conto não tem isso.
Mas de resto, tá muito bom. Minha humilde opinião.

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John Lessard
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Re: C&F vol2 - Quem ficou de fora!?

Mensagem por John Lessard » 27 Jan 2020, 12:42

Mateus Queiroz escreveu:
27 Jan 2020, 10:49
John Lessard escreveu:
25 Jan 2020, 14:21
Título do Conto: Ponto de Vista

Autor: João Victor Lessa

Conto:

Não me lembrava de nada antes da queda[...]Você quer saber meu nome?

Conte um pouco da experiência que foi participar do concurso C&F vol.2:

Bem, é o primeiro Curtos e Fantásticos do qual participo e foi interessante. Um fato engraçado é que eu sempre acho que o que escrevo não está muito bom, mas eu adorei o conto acima, pena que não foi escolhido. Curiosamente, eu participei em simultâneo do Crônicas da Tormenta Vol.3 e consegui ser um dos vencedores.

Bem, é isso, se alguém quiser opinar, está aí.
Assim, o conto é muito bem escrito e dá pra saber que você tem talento, tanto que foi vencedor do Crônicas da Tormenta vol 3. Parabéns.

Com relação a entrar no Curtos & Fantásticos vol2, se eu não me engano, um dos requisitos que tinha no edital, era que o conto precisava ter uma reviravolta, algo "chocante" e o seu conto não tem isso.
Mas de resto, tá muito bom. Minha humilde opinião.
Muito obrigado pelo feedback e por ter lido e gostado!

Você tem certa razão, talvez eu tenha trabalhado uma reviravolta mais gradual e não mais repentina como era requisito no edital.
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Richardsl
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Registrado em: 19 Jul 2018, 12:04

Re: C&F vol2 - Quem ficou de fora!?

Mensagem por Richardsl » 28 Jan 2020, 13:56

Concordo com quase tudo que nosso mito JV Teixeira escreveu sobre o conto A Menina no Vale.

Achei a batalha inicial confusa e com algumas escolhas de palavras um tanto estranhas. E ao final faltou "chegar chegando".

Sobre o conto Ponto de Vista achei ótimo para entrar num suplemento de RPG de Cthulu ou algo do tipo. Pareceu-me deslocado quanto à proposta do concurso CF2. Agora tô curiosíssimo para saber do teu conto no CT3.

Sobre o Conto a Iminente Guerra Interior: a lição de vida do texto me apaixonou mas faltou uma reviravolta. Faltou tompero.

Marcos de Queiroz
Mensagens: 23
Registrado em: 07 Jan 2020, 21:41

Re: C&F vol2 - Quem ficou de fora!?

Mensagem por Marcos de Queiroz » 30 Jan 2020, 07:32

Título do Conto: Sessão encerrada

Autor: Marcos de Queiroz

Conto:
—Acordem o Doutor Castro para que possamos proferir sua sentença — diz uma suave, porém firme voz feminina, abafada pelo capuz que ocultava a face.
Tão logo recobra a consciência, aquele senhor de ralos cabelos brancos que mal lhe cobriam a cabeça dirige um olhar oblíquo ao ambiente em seu redor.
Tratava-se das ruínas de um anfiteatro, com sete figuras soturnas posicionadas no entorno, cada qual exibindo uma letra distinta nas vestes. À frente dos encapuzados havia diversos apetrechos macabros, desde uma guilhotina a um tanque de água, tendo ainda um feixe de lenha disposto em forma de fogueira, um paredão de madeira, uma cadeira elétrica e um cadafalso com uma corda pendurada em sua parte superior. Havia também uma roda de despedaçamento, muito empregada em sessões antigas de tortura.
Ao notar a vítima se recompondo, um dos captores folheia um calhamaço a sua frente e profere:
—Rodésio de Castro. Nascido na periferia de Manaus. Sem condições de financiar os estudos do filho, que já apresentava desempenho escolar excepcional, seus pais o encaminham para a casa dos tios, em São Paulo, onde se gradua em Biomedicina, com louvor. Radicado no exterior, onde conclui pós-doutorado em Genética Avançada, desenvolvendo estudos pioneiros na área. Regressa ao Brasil após sua mãe ser diagnosticada com câncer. Acaba por aceitar o convite de uma instituição privada de pesquisas de ponta: a HSM...
“Trabalho para Silvio Montenegro. Sou assecla dele, não nego”, entoa um dos presentes, em flagrante deboche.
—Ao que aparenta, minha pena já foi decretada por este tribunal – aponta o cativo, se dando conta, enfim, de uma dor lancinante na nuca.
—Você é muito presunçoso...mesmo para quem está cotado para ganhar o próximo Nobel de Medicina! – exalta-se a figura prostrada no centro do tablado.
—Pelo visto, prêmio póstumo... — escarnece aquela com um “S” estampado no tórax.
—Além do mais, esta reunião serve apenas para decidir o instrumento de execução de sua sentença. – decreta outro vulto.
—Sem julgamento e direito à defesa? E por qual suposto crime fui condenado afinal? — questiona o pesquisador, já com um embrulho no estômago.
—Seu crime é indefensável, Senhor Rodésio – expõe aquela que aparenta ser a líder do grupo, com forte sotaque.
—Posso dar cabo dele agora, Agnes? — pergunta um indivíduo corpulento, o único de traços masculinos entre os raptores.
—Sem nomes, “Z”! – repreende a chefe — Nosso cientista já deve ter desvendado o mistério por trás do objeto de sua acusação.
—Algum invento de minha autoria, suponho.
—Bingo, Doutor Castro! Mais especificamente, a tecnologia que permite aos fetos se comunicarem com o meio exterior — assevera outra das captoras.
—Não entendo o que de tão maléfica teria essa invenção que justificasse minha condenação, “Agnes” — ironiza o cientista, embora deixasse escapar um tom vacilante entre suas palavras.
—Sua pesquisa contribuiu decisivamente para uma mudança no código penal, inviabilizando o direito das mulheres de interromper uma gravidez indesejada...
—Mas essa alteração já estava em curso desde o rumoroso caso Maluzinha de Albuquerque!
—Verdade, Senhor Castro. Só que agora a bancada conservadora conseguiu argumento científico de peso para aprovar a concessão de “personalidade civil” aos nascituros. Trocando em miúdos... a mulher que optar por um aborto daqui pra frente, independente do período de gestação, responderá por infanticídio. Será uma questão de tempo até que outros países façam o mesmo, gerando um efeito dominó. E tudo isso, graças a você!
—Calma, “L”! Diferentemente de nosso nobre doutor, oferecemos às nossas cobaias oportunidade de escolherem a forma de serem abatidas... — craveja Agnes.
O cientista sentira o pavor devorando o âmago. No desespero, chegou a avaliar qual das alternativas de execução seria a menos brutal. Contudo, procurou manter a mente sóbria para uma última cartada, declarando, num derradeiro ímpeto de sagacidade:
—Se me consideram um experimento, então, no frigir dos ovos, não somos tão diferentes assim...
Logo após o comentário de Rodésio de Castro, os membros da súcia se entreolharam.
Percebendo que a estratégia do pesquisador surtiu efeito inesperado sobre seus subordinados, que, a esta altura, exalavam hesitação, Agnes perde a compostura:
—Ora, seu gênio de meia tigela...saiba que decidimos sua sentença por unanimidade!
—Foi o que supus, “Agnes MacNill” – Levanta o cientista, demonstrando ter deduzido a identidade da líder daquele grupo, uma conhecida ativista britânica ultrarradical pró-aborto. — Dessa maneira, proponho um trato para resolvermos o impasse que obviamente se formou aqui.
Era pública a atitude ferrenha de “MacNill”, como a militante era comumente retratada pela mídia mundial nas ações clandestinas que empreendia em nome de seus ideais, tal qual os acessos de fúria ao se deparar com contestações internas nos movimentos que liderara. Rodésio pretendia tirar proveito desse perfil psicológico de Agnes.
Passados alguns instantes de reflexão, ela enfim se manifesta:
— Que tipo de trato, Doutor Castro?
— Se eu obtiver sucesso em dissuadir um de seus liderados que seja, convencendo-o a rever sua posição ao me condenar, estarei livre. Caso contrário, aceito, sem questionar, a fatídica sentença que me impuserem.
Agnes MacNill tinha consciência do ardil que o pesquisador havia orquestrado. Recusar o acordo oferecido por Rodésio de Castro seria como uma confissão de arbitrariedade de suas decisões. Por outro lado, submeter-se às condições expressas pelo prisioneiro frustraria aquele plano há muito traçado.
—Ok, Doutor Castro. Diga como tentará nos demover da decisão unânime que tivemos — suscita a resignada líder dos radicais, ainda com a esperança de reverter tal situação.
—Nada mais simples, meus caros! Basta tomarem conhecimento de meu atual projeto científico, em estágio avançado.
—E do que se trata a tal pesquisa, Doutor? – inquire a moça designada pela letra “R”, num misto de intimidação e receio.
—Bem, assinei um termo de confidencialidade na HSM. Contudo, creio que ele não se aplica a casos de sequestro...
—Então desembucha! – brada “Z”, furioso.
—É uma técnica para transferir um embrião fecundado, a qualquer tempo, de um útero para outro... — arremata Rodésio de Castro, com voz serena e olhar triunfante.

Conte um pouco da experiência que foi participar do concurso C&F vol.2:
A participação na segunda edição do "Curtos & Fantásticos" foi uma experiência (com o perdão do trocadilho) "fantástica", por ter proporcionado uma oportunidade única de aprendizado e aprimoramento da minha técnica de escrita, dois de meus grandes objetivos ao enveredar por concursos desta natureza. O fato de não ter tido meu conto selecionado para o C&F vol 2 acaba se tornando secundário, diante do privilégio da avaliação de seu texto por uma equipe gabaritada como esta, conferindo prestígio, satisfação e vontade de melhorar.

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