Conto - O Colhedor de Sonhos (concurso Tormenta)

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Haspen
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Conto - O Colhedor de Sonhos (concurso Tormenta)

Mensagem por Haspen » 27 Fev 2020, 11:26

Fazia muito, mas MUITO tempo que não tinha contato com Arton.
Pra falar a verdade, faziam anos.
Quando acessei meu Face alguns meses atrás e vi uma mensagem falando sobre um concurso de contos para Tormenta logo me interessei. Não pelo concurso em si, ou pela disputa, mas pela oportunidade de voltar a escrever.

Bem, o concurso passou e acho que agora posso deixar aqui para vocês o conto que fiz.
Eu não sou muito bom com contos, sou melhor com narrativas mais longas, pra falar a verdade usei o concurso como "desculpa" pra me aprimorar.
Também peço desculpas se errei algo na linha do tempo de acontecimentos de Arton, como disse fazia tempo que não tinha contato com Arton e usei as informações que me passaram para escrever isso.
Espero que gostem, postem dicas e sugestões ao final!!! É bom estar de volta.

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O Colhedor de Sonhos

Shade gostava de muitas coisas. Mas o que ele mais gostava era de brincar.

Ele subia a colina lentamente. Era bom pisar na grama, sentir o orvalho da manhã de primavera sob a sola dos pés.

Misturado ao cheiro de margaridas e hortênsias que cresciam nas planícies havia o inconfundível odor de pão. Este ele podia sentir de longe, vinha misturado com outras fragrâncias trazidas da grande cidade que surgia em meio aos campos e plantações. Sambúrdia era como costumavam chama-la.

Particularmente Shade achava esse nome engraçado. Lembrava-lhe balbúrdia. Balbúrdia lembrava festas. Mas, esse não era um dia de festas, também não era um dia para aceitar o pão que esposas camponesas de coração nobre deixavam para eles na soleira de suas janelas. Era um dia de trabalho.

Ele aproximou-se de uma árvore já conhecida. Um grande carvalho solitário que crescia a uma boa distância das fazendas e da cidade, o topo do carvalho balançava com algo mais do que apenas o vento.

Em outros tempos talvez ele tivesse se aproximado mais da cidade, encontrado uma filha de camponeses e a convencido a ir com ele até a floresta. Podiam até dançar sob a luz do luar na clareira da lua.
Mas, aqueles eram tempos de guerra.

Shade, poderia ser daqueles de tipo mais furtivo se quisesse. Mover-se qual uma sombra em passos ensaiados, entrar e sair de Sambúrdia e nunca ser notado.

Porém, ele tinha um trabalho diferente para desempenhar naquele dia.

Estendeu um grande pano de linho branco, aproveitando a sombra da árvore. Escorou cuidadosamente a grande sacola de couro que trazia consigo e sentou-se aconchegadamente entre as raízes, à frente do pano estendido. Sacou de forma lenta e ritualística a ocarina que carregava consigo e se pôs a tocar.

Mal começara a segunda música e percebeu o homem que vinha em sua direção. Ele saíra de uma casa humilde próxima de uma das fazendas e atravessara os campos de trigo olhando em volta como se procurasse um curioso que pudesse estar lhe observando.

Shade não olhou para ele, é claro. Humanos eram como animais ariscos, precisavam de espaço para observar antes de decidirem se aproximar. Que espécie estranha.

O homem que caminhava até ele tinha os olhos pesados, cansados. Tinha consigo uma aura que era parte alegria, parte irritação. Sem dúvidas possuía filhos pequenos. A julgar pelo cansaço e a camisa manchada de cores estranhas, mais do que um. Ou um bem problemático.

- V-você é mesmo de... Pondsmânia? Disse-lhe o camponês ao se aproximar. Os dois trocaram olhares pela primeira vez.

- E você é de Sambúrdia. Prazer, me chamo Shade. – Respondeu o feérico levantando-se e cumprimentando o homem com um aperto de mão animado.

Se você não soubesse que Shade era uma fada, provavelmente não identificaria isso de nenhuma forma. Apesar dos olhos verdes escuros, de pupilas grandes, o feérico não trazia mais nenhum sinal de que fosse um nativo de Pondsmânia.
Para Shade não era difícil parecer outra pessoa.

Talvez, um observador muito atento que soubesse para onde olhar e – principalmente – como olhar, poderia ver que Shade na verdade não possuía pés, mas cascos. Que a ocarina que carregava era – na verdade – uma grande flauta doce. Se você fosse realmente muito observador, perceberia que os cabelos escuros eram bagunçados porquê de sua cabeça brotavam dois grandes chifres de bode voltados para trás.

Mas, esse não era o caso dos cidadãos assustados de Sambúrdia. Tampouco de qualquer não afortunado que possuísse pouco ou nenhum contato com a magia. Assim, o fato do aldeão saber que Shade era uma fada se devia único e simplesmente ao motivo de que Shade queria que ele soubesse.

Isso facilitava as coisas.

- Então, o que deseja? – Disse-lhe o sátiro mostrando o melhor de seus sorrisos.

- Eu preciso de uma forma de... Eu preciso de saber como... – O camponês parou olhando desconfiado para o Sátiro. – Se eu pedir do jeito errado, você vai me passar a perna, não?

Shade sorriu-lhe um sorriso irônico e levado.

- É a resposta para essa pergunta que deseja?

- Não! Respondeu o camponês de imediato, perdendo o pouco de cor que ainda possuía.

- Claro que não... - Shade colocou a mão em seu ombro rindo como se aquilo tudo fosse apenas uma brincadeira para descontrair. – Vamos lá, sente-se e me diga exatamente do que precisa, depois eu lhe direi do que eu preciso, é assim que funciona.

O homem estava totalmente desconfortável. Ele sentou-se, respirou fundo e disse por fim, derramando as palavras como uma torrente.

- Preciso alimentar minha família. Mas, preciso que seja comida boa. Tenho duas filhas e elas estão com fome. A guerra tem deixado o comércio assustado, já eram raras as vezes que eu conseguia vender alguma coisa e agora... Agora não consigo mais sustentar minha família.

- Bem. Posso fazer isso. Mas, saiba que terá um custo.

Shade olhava o homem com um olhar sincero. Sem malícia ou pegadinhas. Aquele era um humano simples e de origem humilde, mas esperto. Certamente havia ouvido diversas histórias sobre a sagacidade de seu povo, sabia o perigo de negociar com os feéricos. Mas, ali não havia nada de enganações ou subterfúgios. Porque o que Shade precisava de volta em sua barganha tinha de ser verdadeiro e dado de bom grado, o homem era parte importante em seu trabalho.

- Certo e o que preciso pagar?

- Pagar? Nada. Preciso que me conte seu último sonho.

- Sonho? Tem noites que não durmo bem jovem. Algumas nem mesmo pego no sono. Não consigo lembrar do último sonho que tive e não...

- Consegue sim. – Shade levantou uma mão espalmada na direção do homem para que parasse de falar. Apenas, se concentre e lembre. Me conte o último sonho de que se lembra, mas me conte de forma precisa e verídica. Então sua família não passará mais fome.

O homem pensou por um tempo. Coçou a cabeça. Fechou os olhos.

- Se quiser posso ajudar. Mas, preciso que me dê permissão.

Novamente eles se encararam.

- Malditas fadas. Disse o homem por fim, resignado com a derrota. – Certo. Que seja. Enfie algo na minha orelha e tire o meu último sonho então, faça o que for preciso, mas cumpra sua parte na barganha.

Shade virou um pouco o rosto como se o estudasse. O pensamento dos humanos era algo estranho, totalmente linear. Enfiar algo no ouvido era tão antiquado. Na verdade, existiam coisas muito piores do que isso que podiam acontecer àquele aldeão em Pondsmânia e eles nem precisariam chegar perto de seu ouvido. Aquele era um homem de uma falta de imaginação tremenda.

- Apenas relaxe. Feche os olhos e conte o que está vendo. Disse Shade pegando sua flauta para tocar.

O homem obedeceu.

Súbito, começou a ouvir uma música. Primeiro parecia algo distante, que vinha de um lugar dentro de sua cabeça. Então começou a ficar mais nítida. Não era nada como já tinha ouvido alguma vez em sua vida. Não tinha o som de notas, mas o som de coisas. Eram cantos de pássaros, o farfalhar de folhas empurradas pelo vento de outono, era o som da correnteza dos rios que desciam em corredeiras, era o som dos cavalos no campo...

E então ele se lembrou.

- Eu via tudo de cima, como se estivesse flutuando.

Começou o camponês ainda com os olhos fechados.

- Não conseguia me mover ou conversar. Geralmente os meus sonhos tinham muito de estranhos, mas esse superou os outros. Ele também era muito mais real, como se não fosse só um sonho, parecia uma lembrança ou uma visão. Isso é o que me lembro...


Havia uma ravina em meio às cordilheiras e um pequeno córrego, formado pelas chuvas abundantes das semanas anteriores. Ao lado da pequena fenda criada pela erosão, enquanto os cavalos aproveitavam a parada para tomar água, quatro cavaleiros conversavam.

- Sherazade era o nome dela. Disse o cavaleiro mais à esquerda, de espessa barba negra e uma armadura com os brasões em relevo da Quarta Flâmula do Leste.

- Tô falando, ela não tinha os olhos e ainda assim ela via tudo. Ela disse que a guerra só seria vencida quando a humanidade aprendesse a importância da diversidade e deixasse o orgulho de lado. Não sei o que isso quer dizer.

- Talvez ela estivesse falando que precisamos pedir ajuda a outros povos para vencer aqueles que querem que somente a humanidade prevaleça. Isso seria no mínimo inusitado. Rebateu o segundo dos cavaleiros, um jovem que podia bem ser um escudeiro por sua idade, mas tinha ombros largos e mais altura do que os outros três.

- Ela também tinha um ar de odalisca. Disse o menor dos quatro, sentado mais próximo do pequeno córrego. – Sabe? Parecia aquelas garotas do deserto. Eu daria meu soldo inteiro por uma noite com ela.

Os outros riram.

- Por esses comentários que ela nunca se aproximaria de vocês. Disse um quinto cavaleiro que descia uma colina em direção aos quatro. Esse carregava um brasão de ainda mais importância do que os outros, talvez fosse alguém de posição mais alta na hierarquia militar.

- Ah vamos Malfred. Disse o quarto cavaleiro, um homem mais velho de barba branca e cabelos grisalhos. Havia se mantido quieto ouvindo a conversa dos mais jovens até então.

- Ela bem que poderia ser uma bruxa. Afinal, que tipo de pessoa sem os olhos e vestida daquele jeito poderia chegar até nossas tropas, no meio da noite, cheia de palavras misteriosas e trejeitos de nobreza?

- Bom, talvez ela seja uma clériga do Deus Sol. Malfred respondeu com um pouco de desânimo na voz. Então deu uma bufadela cansada e adicionou:

- Seria bom contarmos mais com a ajuda dos Deuses. Temos nossos próprios clérigos e sacerdotes, mas parece que nada se compara ao fanatismo de guerra que nossos inimigos apresentam. É como se o próprio, maldito, Keen lutasse com eles.

Os cavaleiros estavam em um acampamento militar, próximos da fronteira com o inimigo. Yuden e os exércitos puristas estavam há apenas alguns quilômetros de distância.

- Alguma notícia sobre o front? Perguntou o cavaleiro de barba negra.

- Na verdade, não. Não sabemos exatamente o que aconteceu. E isso é uma droga se querem saber. Ficaremos presos nessas planícies esperando uma notícia, porque aquele cabeça dura do capitão não irá avançar até que saibamos se nosso reforço ainda é requisitado ou se estamos indo para recolher cadáveres.

A companhia da Quarta Flâmula do Leste havia sido enviada até as proximidades do Vale de Iörhaen, para reforçar as tropas de Sir Bradwen, mas devido às fortes chuvas, haviam se atrasado.

- Bem... Disse o cavaleiro mais velho. Ficamos aqui jogando conversa fora e tentando descobrir sobre a mulher misteriosa então. Não quer se juntar a nós Malfred? Sair um pouco do acampamento fará bem para você.

- Na verdade eu vim busca-los. Precisamos voltar ao acampamento. Respondeu Malfred.

- Porque? O que poderia acontecer enquanto... O jovem cavaleiro começou a indagar, mas parou.

O som calmo e contínuo do riacho foi quebrado por um som muito mais alto e alarmante vindo do horizonte. Trombetas e tambores.

Os cavaleiros montaram rápido, o mais velho estendeu a mão para ajudar o quinto cavaleiro a subir. A sela de guerra só tinha espaço para uma pessoa, mas eles não eram iniciantes na arte.

Cavalgaram como o vento até o topo da colina e então o horizonte se abriu para revelar uma enorme tropa que marchava em uma espécie de caos organizado como nenhum deles jamais vira.

- Não pode ser... Disse o mais jovem.

- Como? Como isso é possível? Respondeu Malfred.

- Vejam, carregam uma bandeira branca. Apontou o cavaleiro de barba negra espessa.

- Então talvez eu tenha entendido a mensagem de Sherazade. Disse o cavaleiro mais velho sorrindo.

Todos os quatro se voltaram para ele. Então como que entendessem a mensagem, viraram-se uma última vez até o exército que marchava na direção do acampamento, com suas pesadas máquinas de guerra e suas infindáveis fileiras caóticas que, de certa forma, estavam postadas com uma disciplina marcial.

À frente, uma comandante carregava um estandarte. Ao seu lado, vinha uma elfa com uma bandeira branca.

O estandarte mostrava um círculo negro toscamente desenhado sobre um fundo branco.



- Uau! Disse Shade quando o homem abriu os olhos embasbacado.

- Você parece bom em contar histórias. O sátiro sorria o sorriso maroto das fadas.

- Que tipo de bruxaria foi essa? As palavras nem mesmo eram minhas. Disse o homem tateando o próprio corpo, como se procurasse um reconhecimento físico de que ainda era ele mesmo.

- Bem, você cumpriu sua parte no acordo. Um sonho com a Aliança Negra. Isso que eu chamo de um sonho e tanto, heim? – Tome, leve isso. Plante-as em um vaso, deixe-as no sol por não mais do que duas horas por dia e nunca durante os momentos mais fortes de calor. Regue-as uma vez por semana e jamais colha todas as sementes que ela lhe prover.

O aldeão olhava estupefato para o saquinho que Shade tirara de sua sacola de couro. Tentando absorver ao máximo aquela explicação.

- Quando for cozinhar, use as sementes dela. Cozinhe pouco e as sementes farão seu cozido render por quatro vezes o que deveria. Mas, não se esqueça, nunca colha todas as sementes, ou ela ficará extremamente furiosa com você.

O homem olhou com os olhos arregalados para o Sátiro. Não havia nada no rosto do menino que não lhe parecesse ameaçadoramente sádico. Ele pegou o pequeno saquinho de sementes.

- Certo... Obriga...

O Sátiro tapou sua boca com a mão. Por um momento, mais breve que uma respiração, o homem pôde ver parte da ilusão que ocultava a verdadeira aparência de Shade se desfazer.

- Termine essa palavra e sequestrarei suas filhas. Levarei elas tão fundo na floresta que você jamais será capaz de encontra-las.

Os olhos de Shade mostravam uma fúria genuína.

- Ainda assim, deixarei uma trilha de migalhas para que você me siga. Você jamais irá me alcançar e, todos os dias quando acordar pela manhã, terá um embrulho ao seu lado com uma parte de alguma delas. Uma unha, uma orelha, um dedo, quem sabe?

O aldeão tremia.

- Vou tirar a mão de sua boca e, quando isso acontecer, você irá se levantar sem mais nenhuma palavra. Irá retornar para sua vida e jamais irá contar sobre o que aconteceu aqui hoje, entendidos?

O homem fez que sim com a cabeça. Shade o largou.

Ele correu.

Quando o aldeão se afastou mais de vinte metros o Sátiro desatou a rir. Uma gargalhada alta e divertida. Riu até que seu estômago doesse e então começou a tentar se controlar, com respirações fortes.

- Viram isso? Sabia que aquela história idiota sobre fadas de vocês um dia serviria para algo. Isso foi ameaçador, não foi?

Ele ouviu vários risinhos, antes que elas terminassem de descer da árvore.

As quatro crianças pararam em frente ao Sátiro. Eram Joseph, Aidan, Tar e Sara.

- Shade, foi hilário! Disse Sara que também tentava controlar o riso.

- Você viu a cara dele? Disse Aidan.

Shade pensou em responder, mas, os outros já discutiam sobre o que significava a palavra hilário. Sara argumentava que havia ouvido seus pais falarem essa palavra e os outros discutiam se ela realmente significava o que a garota pensava ser.

Ele observava os quatro. Nenhum ali tinha mais de dez primaveras, mas eram – de longe – as pessoas mais interessantes que ele conhecera visitando Sambúrdia. Espertas, destemidas, brincalhonas e que não se importavam com a lei chata dos homens da cidade.

Aidan era um perfeito futuro cavaleiro. Destemido, sábio e mais velho do que os outros três. Era o braço direito de Shade para negociações com as pessoas da cidade.

Tar era impetuoso, cheio de vida e curioso. O garoto tinha todos os requisitos para ser de Pondsmânia, exceto – é claro – pelo fato de ser humano.

Sara era a mais inteligente deles. Uma ótima contadora de histórias e uma sonhadora sem igual.

Joseph era o mais falante. De longe aquele de melhor coração entre eles, mas sua ingenuidade fazia dele um alvo fácil para a mente afiada dos outros. Não fosse isso, ele podia bem liderar aquela turma.

Naquele dia, porém, Joseph estava mais quieto do que de costume, parecia distante e triste. Shade não gostava muito da tristeza.

- Certo. Disse o sátiro, parando a discussão e esfregando as mãos de excitação.

- Agora é nossa vez. Primeiro, Aidan, você foi muito bem em trazê-lo até aqui. Fico feliz em ajudar, mais feliz ainda em ter sido ajudado. Mas, sua missão ainda não terminou. Você precisa convencê-lo a contar esse sonho para seu tio.

- Também leve este tempero para ele. O Sátiro remexeu a sacola de couro e tirou um saquinho semelhante ao que dera para o aldeão. – Diga-lhe que não use mais do que metade das sementes que ela prover. Nunca use todas. Isso é muito importante!

O tio de Aidan, era Malfred Alastar. Um cavaleiro renomado que servia à coroa de Deheon. Se ele pudesse convencer o aldeão a contar seu sonho para Malfred e o sonho fosse suficientemente vívido, poderia ser confundido com uma visão. Se fosse interpretado dessa forma, Shade gostaria de ver a cara dos oficiais discutindo se deveriam ou não procurar os goblinóides ao sul para pedir ajuda.

Se não desse certo, ainda seria interessante. Ideias tinham um princípio mágico. Elas podiam surgir pequenas, mas se alastravam com facilidade. Talvez, em um primeiro momento, todos rissem do aldeão, mas conforme a guerra avançasse as pessoas começariam a se perguntar: E se fosse uma visão?

Em um mundo cheio de superstições e com pouquíssimas pessoas capazes de distinguir o simples do místico um sonho podia significar a vitória ou a derrota em uma guerra de proporções épicas.

Talvez a ideia não passasse disso. Se transformasse em um questionamento que não seria levado adiante, fosse por medo ou por orgulho. Nesse caso, sua própria existência iria atormentar a mente de comandantes, nobres e reis. De uma forma ou outra, Shade iria se divertir.

- Sim! Disse Aidan. Mas, agora quero minha parte no acordo. O menino levantou bem o queixo para falar isso.

Shade riu. Aquelas crianças realmente seriam alguém muito importante no mundo. O mais próximo que ele podia chamar de amigos humanos, se é que isso existia.

- Pois bem, o que deseja ó pequeno insatisfeito. Shade imitou a mesura que faria a um nobre. As outras crianças soltaram risinhos.

- Preciso de uma mentira. Respondeu Aidan ainda firme.

- Uma mentira... Ponderou Shade, a mão no queixo e os olhos virados para o alto como se pensasse. – Sou bom com mentiras, jovem Aidan. Me diga, a quem pretende enganar e como?

Antes que Aidan pudesse responder as outras crianças se afastaram, indo sentar-se em uma pedra há alguns metros dali. Espertas como eram, conheciam os protocolos dos encontros com Shade.

- Preciso que minha mãe deixe eu voltar a brincar perto da cascata. Ela só me deixa brincar nas fazendas agora.
Aidan tinha um ar triste. A sinceridade das crianças.

- Certo, eis o que você fará.

Shade remexeu nos bolsos por um tempo, então alcançou seis pelos cinzas para Aidan.

- Você irá colocar estes pelos em sua camisa, de um jeito que pareça que estão ali por acidente. Então, quando chegar em casa você tem de parecer com medo e agitado. Quando sua mãe perguntar o que houve, conte a ela esta história.
Shade falava as frases com o olhar fixo no de Aidan, como um professor com um aluno dedicado.

- Diga a sua mãe que vocês encontraram um cachorro diferente perto das fazendas. Diga que era um cão filhote, cinza, e que ele parecia ter medo de vocês no começo. Diga que o alimentaram e que estavam ficando amigos. Mas, que hoje, quando chegaram lá, havia outro cão. Muito maior e mais raivoso, fale que ele saiu da floresta e rosnava mostrando os dentes para vocês.

- Sua mãe é alguém importante para os caçadores da cidade de Sambúrdia?

- Não. Respondeu Aidan enquanto fazia notas mentais da história.

- Certo. Eles pensarão que o cachorro é – na verdade – um lobo. E isso é muito, muito perigoso. Irão lhe proibir de ir até as fazendas novamente. Provavelmente vão pedir para os caçadores darem cabo do animal, antes que ele machuque alguma criança. Mas, é claro, os caçadores vão demorar algum tempo para averiguar e ainda mais tempo para encontrar o animal, afinal não há nenhum lobo de verdade.

- Comece a ficar muito tempo em seu quarto. Quando eles forem te ver, finja que está chorando. Nada de choros altos ou cheios de sentimento, chore baixinho, molhe um pouco abaixo dos olhos para fingir as lágrimas se não puder fazê-lo naturalmente.

- Depois de mais ou menos uma semana, quando seus pais saírem de casa, se esconda nos fundos. Quando eles voltarem, deixe-os lhe procurar. Eles vão ficar desesperados achando que você voltou até as fazendas, seu pai irá buscar algo para se defender e dirá a sua mãe que vai lhe encontrar. Nesse momento, reapareça.

Os olhos de Aidan brilharam com o entendimento.

- E então eu digo que estou muito só e que sinto falta do cachorro e digo também que meus amigos estão brincando na cascata.

- Exato! Shade cruzou os braços sobre o peito e fechou os olhos, fazendo um sinal positivo com a cabeça, para imitar os grandes sábios.

- Perfeito Shade!

- Eu sei, eu sei. Disse o Sátiro sem nenhuma modéstia. – Sou um especialista nisso. Agora vá, chame Sara até aqui para conversarmos.

Aidan saiu, saltitando com a mentira que ganhara para voltar a brincar onde queria.

Não demorou muito para Sara vir correndo até a árvore.

- E então garotinha, o que traz para mim hoje e o que quer em troca? Disse Shade brincando um pouco com os cabelos vermelhos de Sara.

- Lhe trago o sonho de uma aventureira e em troca quero que me leve até a lua.

- Até a lua? Shade riu. – Você não acha que é pequena demais para ir tão longe?

Sara fechou a cara fazendo beiço.

- Certo, talvez eu não possa lhe levar até lá. Mas, posso trazê-la até você, o que me diz?

Os olhos da garotinha se iluminaram de felicidade.

- Fechado. Disse ela e em seguida continuou. – Eu estava passeando na feira com meus pais, perto daquele lugar onde os homens bebem e contam histórias, quando ouvi quatro pessoas conversando perto de uma janela.

Shade fez um barulho de entendimento para que ela continuasse.

- Falavam alto, sem medo de serem ouvidos, havia uma aventureira entre eles que fazia muitos gestos e parecia estar contando algo. Quando meus pais pararam para olhar aquelas coisas verdes de gosto ruim eu aproveitei que sou muito pequena e muito esperta e fui até embaixo da janela para ouvir.

- Isso foi o que ela contou...



Não sei exatamente como fui parar ali. Mas, sei que era um local úmido, escuro e malcheiroso.

Eu estava sob uma pilha do que pareciam ser ossos. Havia algo se arrastando nas sombras, algo cortante, algo extremamente mortal.

Me levantei, não sem dificuldade. Minhas pernas latejavam. Na verdade, meu corpo todo doía, parecia que eu havia sido atropelada por Trobos.

Escorei-me em uma parede. Ou, no que parecia uma parede, já que a escuridão não me deixava ver muito além do que um palmo.

Minha mão escorregou em algo que escorria pela pedra fria. Trouxe ela até perto do rosto e vi sangue. Por um momento achei que fosse meu, mas quando olhei para a mureta percebi que vinha de um cadáver pendurado nas pedras.
O lugar era uma mortalha.

Quando meus pensamentos se ajustaram comecei a sentir um medo estranho. Não era como o medo que dá antes de entrar em combate, aquele frio na barriga, aquela tensão. Nem como o medo que senti quando vi aquele Observador perto de Wynlla.

Era um medo mais profundo, ancestral. Algo enraizado em minha própria alma. Acho que se comparava ao medo de uma presa diante de um predador. Parecia que estava em minhas veias, parecia que eu fui programada para sentir medo daquilo, como se fosse parte de mim.

Pensei em correr, procurar uma saída.

E então, eu o vi.

A princípio era apenas parte da escuridão. Mas, ela se moldou, se ergueu, como se as próprias sombras do lugar fossem parte de seu manto, como se ele fosse ao mesmo tempo um indivíduo e o todo.

Juro pelo traseiro de cada um de vocês sentado aqui nessa mesa. Era Ragnar.

O medo que eu sentia era o medo da morte. Não dela como metáfora, mas dela física. Eu estava diante da própria morte.

Como uma faísca na escuridão surgiu uma foice em suas mãos. Não daquelas que os aldeões usam para cortar o mato que cresce e ameaça suas plantações. Era um gadanho, enorme, muito maior do que eu própria. Uma ceifadora de vidas.

Eu estava congelada. Já passei por muito nessa vida e vocês bem sabem que não tenho medo de qualquer coisa. Mas, ali eu não conseguia me mover. Ali eu era dele.

E então, ele atacou. Fechei os olhos esperando o pior. Mas, antes que a foice completasse seu arco eu ouvi um estouro. Parecia que a foice havia se chocado contra o muro.

Quando tomei coragem para abrir os olhos nem acreditei no que vi. Ali, parado à minha frente, nu como veio ao mundo, havia um Bugbear. Um enorme Bugbear!

Juro pela roupa que visto no corpo, pela bebida que dividimos nessa mesa e por meu próprio nome. Era Thwor Ironfist. Não sei como eu sabia disso, mas eu sabia.

Ele bloqueou a foice com um enorme machado.

Depois, me olhou com o canto do olho e – sem dizer uma palavra – me empurrou com a sua mão livre.

Eu voei para fora da escuridão, como se ele tivesse me empurrado para longe daquele mundo. Não sei como ele poderia fazer isso, afinal, não me restava dúvidas de que eu estava no mundo de um Deus. Seria Thwor também um Deus?

Quando cai de costas respirei ar puro pela primeira vez. Ainda havia o cheiro de morte, mas não mais aquele ambiente claustrofóbico. Eu estava no mesmo lugar, mas não havia a escuridão à minha volta. Haviam apenas corpos.

Uma infinidade de corpos. Também haviam flâmulas, abandonadas ao campo de batalha, tremulando ao vento. Eram flâmulas de Deheon, de Wynlla e de Biefield.

Ouvi gritos ao longe. Olhei para trás e vi uma cidade imensa pegando fogo. A estátua da Deusa no meio.

Os puristas entraram em Valkaria.

De repente, alguém me chamou em meio a mortalha. Era Sherazade. Não sei como eu sabia seu nome, mas eu sabia.
Me aproximei de uma pilha de corpos. Ela estava ali. Mesmo muito ferida sorria.

- Você foi abençoada. Ela disse para mim, me estendendo um medalhão com o símbolo da Aliança Negra.

Me perguntei o que uma senhora como ela fazia caída ali, em pleno campo de batalha, com um medalhão daqueles em meio ao exército de Deheon.

Mas, vocês sabem como são os sonhos.

Peguei o medalhão e meu medo desapareceu. Aquele medo da morte, da dor, dos puristas sumiu.

Eu sempre odiei os Goblinóides. Desde pequena cresci aprendendo que eles eram nossos algozes, foram eles quem destruíram nosso povo, queimaram nosso legado.

Mas, não tenho medo de lhes dizer que, sob a doutrina de Tauron que nos foi passada, devemos proteger os mais fracos. Naquele momento eu era a mais fraca e quem me salvou não foi Tauron, nem nenhum outro Deus do panteão. Foi Thwor.
Aquele medalhão para mim representou mais do que apenas um gesto simbólico de uma velha senhora caída em meio às tropas de Deheon. Era uma visão.

Eu sei que era uma visão. Fui agraciada, fui protegida por alguém mais forte.

Podem me chamar do que quiserem e tentar debochar de mim. Sei que sou uma Elfa, mas agora rezo tanto para Tauron quanto para o Bugbear. E me sinto mais protegida do que nunca nessa guerra contra os puristas.




- E foi isso. Disse Sara dando de ombros. – Depois eu não consegui ouvir mais, meus pais me acharam e me deram um cascudo.

A garota coçou a nuca com a lembrança.

- Muito bem Sara. Disse o Sátiro que ouvira a história com atenção. Agora, está na hora do seu presente...
Shade mexeu na grande sacola de couro que carregava, algumas bugigangas voaram para os lados enquanto ele remexia o conteúdo. Então ele puxou uma luneta.

- Aqui está Sara. Com ela, você poderá ver a lua em toda sua plenitude nas noites de Tenebra. Mas, existe algo importante que preciso lhe falar. Somente a use nas noites de luar. Se olhares para o sol poderá lhe cegar!

Sara riu e enrubesceu um pouco. Ela gostava quando Shade falava suas frases rimadas.

- Também leve isso para o padeiro. Aquele que você me disse que estava passando por dificuldades, lembra? Shade estendeu para Sara um saquinho de sementes.

- Certo! A garotinha deu um beijo na bochecha do Sátiro e correu envergonhada até a pedra.

- Não se esqueça de avisar-lhe como usar! O Sátiro reiterou alto para que Sara escutasse. Ela fez um aceno à distância confirmando.

Shade aproveitou o breve momento para arrumar suas coisas de volta. Fechou a sacola grande de couro e a recolocou escorada na antiga árvore que era, agora também, seu local de trabalho.

Quando voltou a olhar para frente, Tar estava de pé esperando impaciente.

- Tenho o sonho de um soldado de Sambúrdia. Ele disse antes que Shade pudesse falar-lhe algo. – Em troca, quero saber sobre as fadas.

Shade estava curioso. Essa era uma requisição estranha. O Sátiro poderia passar parte de seu conhecimento para Tar, era verdade, mas a grande maioria das coisas que vinham das fadas eram extremamente perigosas, mesmo para humanos espertos como ele.

- O que exatamente você quer saber sobre os habitantes de Pondsmânia? Perguntou Shade cruzando as pernas em espera.

Na mente de Shade começavam a pipocar ideias macabras. Ele precisava cuidar com o que responderia ao garoto. E se sua pergunta fosse algo do tipo, como captura-las? Como quebrar sua magia? Como destruí-las? O que são essas sementes?

Para seu alívio, foi bem mais simples do que isso.

- De onde vem a magia que vocês usam?

Em seguida, Tar sentou-se, como se a própria pergunta tivesse exaurido suas forças.

- Bem, existem duas formas de responder isso. Ambas são a mesma resposta, mas de pontos de vista diferentes. Shade ponderou um tempo, aquilo seria complicado de explicar. – Digamos que, nossa magia vem de nós mesmos e ao mesmo tempo do mundo que nos cerca, que também é parte de nós mesmos.

- Mas, como vocês conseguem isso? Tar perguntou. Eu já vi você fazer o vento mudar de direção, já o vi conversar e controlar animais, já vi você extrair lembranças de pessoas... O garoto parou tentando lembrar de mais alguma coisa. Então concluiu dando de ombros: - E, todas as vezes você fez isso de forma diferente.

O Sátiro riu. Ele sabia que isso seria difícil de explicar.

- Nós não exatamente chamamos isso de magia, Tar. Se você perguntar para um feérico que nunca conversou com humanos antes, ele provavelmente irá lhe dizer que isso é como correr ou nadar ou dormir.

Vendo a cara de confusão do garoto ele continuou, antes que pudessem vir mais perguntas.

- Para nós o que vocês chamam de magia não passa de uma ação simples. O mundo é vivo, Tar. Mais vivo do que você pode imaginar. Vocês tiveram sua visão real do mundo bloqueada por sua criação ou por uma simples restrição racial. Nós sabemos conversar com ele, sabemos ouvir e sabemos nos fazer ser ouvidos.

O sátiro fez um movimento que parecia abranger o mundo todo.

- O fogo, a água, o ar ou a terra são como você, as outras crianças ou o aldeão para mim. Posso falar com eles, ouvi-los, vê-los e interagir com eles. Para nós isso é simples. Por isso chamamos nossa magia apenas de Desejos.

O garoto estava genuinamente encantado.

- Então podem fazer qualquer coisa que desejarem?

- Bem... Shade deu de ombros. – Quase tudo na verdade. Mas, existe um limite. É difícil explicar esse limite. É como o que acontece com vocês quando querem fazer algo, mas precisam pedir para alguém mais velho do que vocês, sabe?

- Como pedir as coisas para meu pai. O garoto disse prontamente.

- Exatamente. Shade assentiu. – É como uma hierarquia. Eu pude trazer a lembrança do aldeão porque ele me permitiu. Eu posso transformar ou moldar a água, o ar, o fogo ou a terra se eles assim permitirem. Mas, sempre haverá quem realmente detém o controle sobre as coisas e no fim caberá a essa entidade decidir.

- Então tudo passa pela Rainha? Os olhos de Tar faiscavam de curiosidade.

- Ei, detenha-se à sua pergunta Tar. Você me perguntou como a magia das Fadas funciona, não falou nada sobre Dhaedelin. Não posso falar sobre ela abertamente com você.

- Mas, isso faz parte da pergunta. Respondeu o garoto torcendo as sobrancelhas de forma rude. Então ergueu o dedo na direção de Shade. – Não tente me enrolar.

Shade ergueu as mãos defensivamente.

- Não estou tentando nada. Isso seria como se eu perguntasse algo sobre sua mãe. Nós não falamos dela assim, levianamente. Mas, o que eu posso lhe dar em troca é um segredo, o que me diz?

O garoto estreitou os olhos desconfiado. – Um segredo grande?

- O maior de hoje. Shade sorriu.

- Tá bem... Tar se ajeitou para escutar.

- Thanthalla-Dhaedelin é a rainha do dia e de toda Pondsmânia, mas existe alguém com poderes quase equivalentes. Uma criação dela própria, uma rainha das trevas, que comanda o reino da noite e do inverno. Às vezes, os desejos passam pela própria Rainha das Trevas e é ela quem decide o que irá acontecer.

Tar estremeceu mesmo sem entender o porquê.

- Bem, sua resposta e seu segredo você já tem. Seu como, quando e seu quem. Agora quero saber o que me prometeu.
O Sátiro cruzou os braços em desafio.

- Certo. Respondeu o garoto. – Não sou um bom contador de histórias então vou tentar resumir. – Eu ouvi um soldado contando para um guarda que pensava em desertar se Sambúrdia participasse da guerra. Quando o guarda perguntou a ele porque pensava isso, ele disse que tinha a mais absoluta certeza de que eles foram traídos. Disse que viu em um sonho, contou algo assim...



Eu estava em uma frente militar junto com uma das flâmulas do norte. Havíamos marchado noite e dia até encontrarmos as margens do Rio Iörhaen.

Entre as tropas existia um misto de euforia e medo. A grande maioria ali eram jovens, muitos deles nem eram soldados profissionais e, assim como eu, acho que nunca haviam participado de uma batalha.

Também haviam aventureiros entre nós. Vários deles. Muitos eram poderosos, é verdade, mas não possuíam a disciplina suficiente para lutar em uma frente de batalha como aquela.

Havíamos acabado de montar acampamento. Colocamos grandes fogueiras em posições estratégicas para iluminar o acampamento e ao mesmo tempo não cegar nossa visão para fora dele, erguemos as tendas e alimentamos os animais.

Começávamos a recolher nossas coisas e nos preparar para dormir quando ouvi os primeiros sons de trombetas.
Então eles surgiram. Cavaleiros em armaduras negras. Centenas ou milhares deles. Surgiram das trevas e da noite como se tivessem ficado sempre ali esperando nossa comitiva.

Para mim eram demônios.

Na primeira carga tentei correr até atrás de uma fogueira para usar o fogo como proteção contra os cavalos. No meio do caminho fui atacado por um dos cavaleiros, desviei de sua espada por centímetros.

Ouvi um grito e alguém morreu ao meu lado. Então percebi, o ataque não era para mim. O cavalo pinoteou sobre a vítima enquanto o cavaleiro digladiava com outros dois homens. Saquei minha espada, mas algo me atingiu nas costas e me fez rolar.

O chão estava empapado de sangue. Cavalo e cavaleiro que haviam me atingido descreveram um semicírculo em torno das tendas. Flechas voavam em todas as direções.

Alguém me estendeu a mão em meio ao tumulto. Vi uma mulher, uma Elfa, seus cabelos outrora negros como a noite agora eram de um vermelho profundo. Encharcados de sangue.

Ao lado dela havia um anão que brandia um enorme machado atacando as sombras que eram os cavaleiros.

Perguntei algo para ela. Ela se virou para tentar escutar. Uma flecha a trespassou.

Gritei. Corri.

Ouvi explosões ao longe e o fogo começou a tomar conta do acampamento.

Quando finalmente encontrei minha espada e me abaixei para juntá-la algo me atingiu na nuca...

Acordei muito tempo depois. Mas, logo preferi nunca ter acordado.

A tenda que eu estava era quieta e úmida. Toras de madeira sustentavam um teto de lona. Havia um som de chuva sequencial na rua e os poucos lampiões do lugar estavam com os fogareiros baixos, lançando mais sombras do que luzes no ambiente.

Haviam soldados em todas as partes. A maioria deles muito bem armados. Estavam postados em um círculo à minha volta.

Eu estava amarrado a um dos troncos grossos que mantinha a tenda em pé. Ao meu lado, no chão, havia uma Elfa, com uma flecha cravada no ombro. Ela chorava baixinho, pela dor e pelo medo. Ao seu lado um anão. Os reconheci prontamente como aqueles que haviam me ajudado no acampamento.

Na minha frente, havia ninguém mais ninguém menos do que o próprio General Máximo Herman Von Krauser!
Ele estava com o elmo fechado. Mas, sua armadura era inconfundível.

Vi ele matar sem cerimônia os outros dois prisioneiros antes de se aproximar de mim. Ele não perguntou nada a eles, não lhes deu nenhuma chance.

Molhei a armadura por dentro.

Então ele veio muito próximo de meu rosto e disse:

- Você é humano. Não deveria estar aqui para morrer.

- E você é um monstro! Respondi a ele, com uma coragem que somente poderia me surgir em um sonho.

- Monstro? Ele riu. Sua voz abafada pelo elmo de metal.

- Eu sou um herói!

Então ele retirou o elmo.

Era Shyvara.


Shade ficou esperando um tempo até ter certeza de que a história não continuaria.

- Foi isso? Ele perguntou incrédulo olhando para Tar.

- É. O garoto deu de ombros. – Eu disse que não era um bom contador de histórias, mas essa história terminou aí mesmo.

Shade achou aquilo estranho. Ainda assim, continuou. – Muito bem Tar. Chame Joseph para mim?

O garoto assentiu com a cabeça e saiu correndo até a pedra, deixando Shade com seus pensamentos.

Quando Joseph chegou estava cabisbaixo, arrastando os pés.

- O que houve Joesph? Perguntou-lhe Shade em um de seus raros momentos de preocupação com humanos.

- Tive um sonho. Disse-lhe o garoto. E quero uma resposta.

- Certo, certo. Respondeu Shade apressando-se em ajudar Joseph a sentar. – Conte-me o que houve?

- Vi uma mulher de cabelos brancos debaixo desta mesma árvore que estamos agora. Joseph começou a contar com a cabeça ainda baixa e a voz engasgada em choro.

- Ela apontava para Sambúrdia. Joseph virou o rosto em direção à cidade.

- Quando olhei para minha cidade, ela estava pegando fogo e apenas uma flâmula tremulava sobre a torre da igreja de Khalmyr. A flâmula de Yuden.

O garoto olhou para o Sátiro. Lágrimas rolavam fáceis de seus olhos.

- O que isso quer dizer Shade? O que isso... Ele engasgou com o choro. – O que eu faço? Como eu os salvo?

Shade olhou fundo nos olhos do garoto por um tempo. Havia um medo genuíno neles, aquela guerra parecia incomodar os humanos.

- Isso Joseph. Quer dizer que Sherazade o visitou. E que ela veio avisar-lhe sobre algo.

- E o que eu faço com isso? Sou muito novo para lutar Shade... Me ajude.

Súbito a criança se jogou em seus braços. Ele não sabia exatamente o que fazer. Ficou ali, parado, por um tempo, até que instintivamente devolveu-lhe o abraço.

- Você deve contar isso para seu pai Joseph. Ele é um homem importante, faça-o convencer o condestável de que Sambúrdia corre perigo. Sua cidade deve entrar na guerra antes que a guerra seja levada até ela.

O garoto olhou para Shade. Havia preocupação e sinceridade genuínas nos olhos do Sátiro. Depois disso ele apenas o soltou, limpou os olhos e o nariz com as costas da mão e disse:

- Você é sábio Shade. Devia ser nosso conselheiro real.

Antes que o Sátiro pudesse responder, Joseph já saíra correndo.



O Sátiro ouviu mais alguns sonhos, desejos e apelos naquele dia. Nenhum deles tão importante quanto os relatos do começo da manhã.

Em certo momento, quando o tédio já superava o compromisso, ele se levantou, recolheu seus pertences e rumou para a floresta de onde viera.

Caminhou por algum tempo em meio à mata fechada até que encontrou uma árvore triste, ao lado de uma grande rocha cansada, mas bem-disposta.

Quando passou por elas soube que estava em Pondsmânia.

Das grandes árvores observadoras, às pedras em seu repouso quase eterno, tudo ali era vivo. Shade podia ouvir o cochichar das folhas que contavam fofocas sobre as Sprites invisíveis escondidas em seus galhos, o leve farfalhar convidativo de uma gangue de vinhas que esperavam por um esquilo para devorá-lo e o som de um riacho que reclamava das cócegas que os peixes faziam.

A floresta também explodia em cores. Das violetas que se achavam as donas do mundo, às rosas com seus perfumes e vestidos diferentes de cada dia, haviam os girassóis sempre tão ambiciosos, e uma infinidade de tipos e subtipos de flores coloridas, diversas, divertidas e letais.

O Sátiro passou, não sem cumprimentar, por uma trupe de artistas que cantavam, dançavam e faziam malabares enquanto giravam amarrados a uma grande roda de fogo. Depois debaixo de um emaranhado de cipós que xingavam e reclamavam quando ele os afastava para passar. Por fim, ao lado de um urso preguiçoso que lhe pedia para caçar abelhas por ele em troca de música.

Entrou em uma caverna antiga e sábia, que lhe disse por qual caminho tortuoso deveria seguir. Sentiu o frescor do ar anunciando sua chegada assim que saiu do outro lado da rede de túneis, pediu ao vento que avisasse que havia voltado para a casa. Ele o fez.

Shade sentia-se mais vivo do que nunca. Ir ao mundo dos homens era como apagar os lampiões de uma sala de tesouros. Você sabia as maravilhas que haviam ali, mas não era possível vê-las. Por mais curiosos que os humanos fossem, o mundo deles era cinza escuro comparado a Pondsmânia.

Além disso, havia a presença constante de Thanthalla-Dhaedelin que enchia sua alma de alegria e excitação. Era bom pertencer à rainha de novo. Era bom estar em casa.

De repente, a floresta começou a murchar e morrer.

Uma árvore bela de galhos altos se mostrava altiva, apenas para - depois de uma volta - esconder-se fundo no solo. Os animais pararam de tagarelar. E todos os sons e músicas trazidos pelo vento transformaram-se em sussurros.
O dia virou uma noite fria e escura. A floresta contorcida e macabra.

Engana-se, porém, quem pensa que a noite era menos viva em Pondsmânia. Do topo das árvores, nos emaranhados de teias de aranha, era possível ouvir o sussurro de tarântulas esperando que voadores desavisados caíssem em suas teias.
Haviam também os constantes sons de uivos, risadas malignas, guinchos de morcegos e toda a sorte de coisas que a noite trazia com ela.

Shade caminhou por mais algum tempo na noite, guiado por nada mais que seu próprio desejo.

Atravessou parte da floresta das trevas, andou por uma estrada sinuosa na encosta de uma montanha de onde podia ver a própria árvore Sylarwy-Ciuthnach, lar da Rainha Negra e, por fim, desceu em um pântano cujas águas pútridas alcançavam seus joelhos.

Existiam poucas coisas que o Sátiro não gostava em Pondsmânia. Uma delas, com certeza eram pântanos escuros.
Atravessar o pântano foi difícil. Mosquitões roubaram parte de seu sangue sempre que ele não conseguiu se defender. Coisas, que ele nem sabia o que eram, mordiscaram as costas de suas pernas peludas. Pelo menos duas vezes algo tentou o arrastar para o fundo do lamaçal.

Mas, Shade era forte e seu desejo era verdadeiro.

Ele seguiu o pântano noite adentro até que seus olhos não pudessem ver mais nada. Justo quando pensou estar perdido, seus cascos pinotearam por uma pequena subida. Uma clareira em meio ao pântano.

Ele subiu e esperou.

- Quem é o carneirinho que caiu em meus domínios? Ele ouviu a voz maléfica e afiada de alguém falando na escuridão.

- D-desculpe, eu... Eu não sabia que vivia aqui ó grande Bru...

- Basta! Ela cortou sua falácia. Ele ouviu algo passando voando rápido por cima de sua cabeça.

- Diga-me carneirinho... O que é, o que é, que corre deitado e cai de pé?

- Ham. O Sátiro pigarreou antes de responder. – A chuva?

- Errou! É o ovo! A voz disse e então riu mais uma vez.

- Não! Você está errada, é a chuva. Veja, ela cai de pé e corre deitada. O Sátiro fez um movimento com as mãos imitando o pingo de chuva e então completou. – Acho que você se confundiu nas respostas.

- Maldito!

Súbito quatro grandes arandelas de fogo se ascenderam na clareira revelando um ambiente macabro.

Haviam penduricalhos com toda a sorte de sementes, partes de animais, de outras criaturas e de humanos pendurados em quatro grandes toras que serviam de suporte para os grandes aros de ferro com fogo que iluminavam a clareira.

No centro, um amontoado de pedras e madeira formava uma grande e tosca fogueira, sobre a qual estava um imenso caldeirão que borbulhava com um líquido fumegante pendurado por correntes. Atrás do caldeirão havia alguém em cima de uma escada de madeira que ficava escorada no mesmo e, ao lado, uma mesa continha diversos saquinhos de couro com sementes.

- Você está andando muito com os humanos Sátiro bunda-mole. Preciso melhorar minhas charadas.

Shade riu.

- Trouxe-lhe sonhos. E notícias.

Então algo desceu a escada.

De trás do caldeirão surgiu uma bruxa. Ela era baixa e carrancuda como as bruxas da noite deveriam ser. Tinha os olhos muito grandes e amarelos, cabelos muito finos, brancos, emaranhados com teias de aranha, seus dedos compridos e cheios de verrugas terminavam em unhas sujas e meio comidas.

- Você é o melhor de todos Shade! Ela disse com os olhos marejados e juntando as mãos em agradecimento.

- Sente-se, venha. Ela apontou para uma das pedras próxima ao caldeirão. Uma grande pedra que espiava a conversa.
Shade sentou-se sem cerimônia e começou a lhe contar.

- Houve um aldeão que sonhou com uma possível aliança entre Deheon e a Aliança Negra, uma aventureira Elfa que sonhou com o próprio Thwor Ironfist e que agora é uma devota dele, um garoto assustado que sonhou com Sambúrdia incendiada pelos Puristas de Yuden e toda a sorte de pessoas que dizem terem visto agouros nos céus, na água, ou nas borras no fundo de canecas de chá, falando sobre a guerra.

- Hmm... Bom, bom. Respondeu a Bruxa massageando as mãos.

- Isso quer dizer que nossa brincadeira está dando frutos Shade. Ela sorriu com dentes amarelos, um sorriso de fada, um sorriso sádico e ligeiramente maléfico.

- Sim! Shade respondeu animado. – É divertido vê-los se debatendo tentando discernir entre visões e nossos sonhos.

- Claro, claro. A bruxa fez um movimento de mãos como se estapeasse o ar. Agora, vou para a segunda parte da brincadeira, dessa vez enviaremos sonhos para Yuden!

Ela subiu no caldeirão e começou a jogar nele coisas que Shade nem sonhava o que eram. Partes de inseto, folhas, ervas, vinhas venenosas e outras partes de criaturas desconhecidas. Enquanto fazia isso, ela cantarolava algo.

Patas de aranha e folhas de Ulmeiro dentes de morcego e o que mais vier primeiro.

O Sátiro ponderou por um momento antes de se levantar para ir embora. Mas, então lhe surgiu uma dúvida.

- Sherazade. Ele perguntou à Goblin. Teve um sonho que não foi enviado por você. Um soldado disse ter visto o general de Yuden se transformar em Shyvara.

Sonhos de criança deixam contraditórias.

Sonhos de velhacos se perdem nas memórias.

Mas, qual a diferença se o que importa são as histórias?...


A Goblin parou a música e o olhou com os grandes olhos amarelos por cima do caldeirão. Então gargalhou. Uma risada maléfica, carregada de sarcasmo e diversão sádica.

- Isso são as ideias crescendo, a escuridão consumindo suas mentes, é o caos Shade, é o caos! Logo não saberão mais quem são amigos ou inimigos e sabe quem triunfará nisso?

- Os Goblins? Shade tentou chutar.

Sherazade cuspiu forte para o lado. – Não seja tolo. A Aliança Negra serve somente a um propósito nessa história Shade.

- E qual é? Perguntou o Sátiro sem conseguir entender.

- Ela é um meio para um fim. Fazer os humanos procurarem seus antigos inimigos bestiais para salvar-lhes de uma guerra contra outros humanos? Ah Shade, Shade, você realmente não consegue perceber o brilhantismo dessa brincadeira?

Os olhos do Sátiro se iluminaram pelo conhecimento.

- Você os está confundindo para que não saibam mais em quem confiar. Não saibam mais quem são os heróis ou os vilões...

- E o que resta quando as pessoas não sabem mais as respostas para suas questões fundamentais Shade?

O Sátiro aguardou ansioso pela resposta.

- Caos! A velha bruxa sorriu um sorriso podre de escárnio, as chamas das arandelas diminuíram tornando seu rosto sombrio. Por um segundo a noite de Podnsmânia se calou, até o vento parou em respeito a ela.

O Sátiro deu pulinhos enquanto aplaudia. - Você é muito má Sherazade, muito, muito má!

- Às ordens. Respondeu a Goblin fazendo-lhe uma mesura exagerada.

Então continuou a canção enquanto mexia no caldeirão.

Nas noites de luar trago os pesadelos ao seu lar.

Em territórios oníricos o que podem os homens se não se afogar?


Shade pegou vários saquinhos de sementes e os guardou em sua sacola de couro. Eles eram componentes muito importante de seu trabalho. Eram o “sim” que Sherazade precisava para invadir a mente dos homens.

Logo ampliariam seus domínios. Logo chegariam ao coração da guerra.

Shade mal podia esperar. Saiu cantarolando a música da Bruxa.

Seria uma brincadeira sem fim. E a coisa que Shade mais gostava na vida era brincar.

Richardsl
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Re: Conto - O Colhedor de Sonhos (concurso Tormenta)

Mensagem por Richardsl » 27 Fev 2020, 13:28

O enredo é interessante embora achei o começo um pouco prolixo. Mudanças de voz do narrador, primeiro falando em terceira pessoa depois falando em segunda pessoa, depois voltando para a terceira.

Vi alguns erros de português, especialmente quanto à colocação das vírgulas e travessões.

Haspen
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Re: Conto - O Colhedor de Sonhos (concurso Tormenta)

Mensagem por Haspen » 27 Fev 2020, 18:55

Richardsl escreveu:
27 Fev 2020, 13:28
O enredo é interessante embora achei o começo um pouco prolixo.
Preciso melhorar isso. Encontrar o equilíbrio, principalmente se tratando de narrativas mais curtas.
Richardsl escreveu:
27 Fev 2020, 13:28
Mudanças de voz do narrador, primeiro falando em terceira pessoa depois falando em segunda pessoa, depois voltando para a terceira.
Não seria bem uma segunda pessoa, uma vez que eu não flexibilizei o verbo para o "Tu" em nenhum momento.
Mas, eu percebo o erro, onde você apontou. Deve ser costume de gaúcho uashsahashas, apesar de eu ter tentado manter o verbo em terceira pessoa.
Richardsl escreveu:
27 Fev 2020, 13:28
Vi alguns erros de português, especialmente quanto à colocação das vírgulas e travessões.
Bom, o texto não passou por uma revisão profissional. E como escrevo por hobby acredito que devam haver erros sim.
Os erros de travessão que você aponta estão em diálogos?

Richardsl
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Re: Conto - O Colhedor de Sonhos (concurso Tormenta)

Mensagem por Richardsl » 28 Fev 2020, 09:59

Em contos a ação deve começar o quanto antes. E foi perceptível que tua escrita é mais voltada a textos longos do que curtos, o ritmo e o fluxo das palavras me pareceram bem próprias de romances.

É, tu não chegaste a flexionar o verbo mas naquele trecho você começou a falar com o público. O melhor, acho eu, era ter criado o texto numa forma mais impessoal, como: "Qualquer um que olhasse" ao invés de "Se você olhasse".

Sobre revisão, especialmente para antologias e concursos mais sérios é sempre bom ter alguém bom em português para revisar os textos. Não precisa ser profissional embora, se tu podes pagar, seja uma boa ideia.
O erro dos travessões ocorreu, geralmente, nas mudanças de voz dos personagens para a voz do narrador. Quase sempre tu esqueceste de colocá-los, misturando as vozes.

Haspen
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Re: Conto - O Colhedor de Sonhos (concurso Tormenta)

Mensagem por Haspen » 02 Mar 2020, 09:39

Entendi, muito obrigado pela crítica.

Vou tentar melhorar esses pontos e treinar a escrita em contos um pouco mais.

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