Economia em Tormenta

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Economia em Tormenta

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“Economia é chato. Quem teve a ideia de fazer um artigo sobre isso? Não vou ler.” Calma! Economia pode ser legal! Olha só: uma das coisas mais divertidas em RPG é reunir tesouros e melhorar seu equipamento (o famoso “loot”). Mas conseguir uma espada mágica fodona só é bacana porque itens assim são raros. E essa raridade — ou escassez — é a base da economia.

A economia também pode servir de gancho para aventuras: a típica escolta de caravana, por exemplo, nada mais é do que uma missão motivada por economia. E agora que o mundo de Arton tem as Repúblicas Livres de Sambúrdia, uma coalizão de cidades-estados mercantes, oportunidades assim não faltarão.

Economia pode ser um assunto legal, mas certamente é um assunto complexo. Na verdade, é tão complicado que ninguém entende direito! Basta ver que volta e meia temos grandes crises financeiras globais… Se nem economistas de verdade entendem tudo do assunto, não há por que nos preocuparmos demais com ele. Porém, uma ideia geral de como funciona a economia do cenário é útil para mestrar aventuras e escrever histórias. Então, vamos falar aqui sobre o básico do básico.

Quanto ganha um plebeu no Reinado?

A resposta para essa pergunta é a base da economia, e pode ajudar muito a dar um senso de escala do valor do dinheiro em Tormenta — e, consequentemente, de qualquer coisa com preço.

Pessoas comuns não ganham dinheiro explorando masmorras e matando monstros. Elas fazem isso… trabalhando, veja só. Em termos de jogo, usam a perícia Ofício (Tormenta20, página 121) — mais especificamente, o uso “Sustento”. Pelas regras desse uso, um personagem pode fazer um teste de perícia contra CD 15 por semana. Se passar, ganha T$ 1, mais T$ 1 por ponto pelo qual seu teste exceder a CD.

Vamos considerar que nosso plebeu típico é um personagem de 2º nível, com treinamento na perícia que usa para sustento e valor no atributo relevante dela de 12 ou 13 (bônus +1). Ou seja, seu bônus nessa perícia será +4 (+1 da metade do nível, +1 do atributo, +2 do treinamento). Na média, o resultado do teste será 14 e 15 (rolagem de 10 ou 11 mais bônus de +4). Isso significa que ele ganha um Tibar semana sim, semana não — ou T$ 2 por mês. Considerando que gaste T$ 1 por mês para se manter, conseguirá acumular um mísero Tibar por mês. Itens como uma armadura completa (T$ 3.000) estão simplesmente fora da realidade dele.

Isso simula a realidade da Terra por boa parte da época medieval. Armaduras desse tipo eram usadas por nobres e seus herdeiros. Guerreiros comuns tinham que se contentar com equipamentos bem mais simples. É quase como um carro blindado hoje em dia — eles existem, mas são poucas as pessoas que têm acesso a um.

Mas, espere: nosso plebeu pode ter mais níveis ou um atributo mais alto. Um personagem de 4º nível com modificador de +2 no atributo relevante, por exemplo — uma pessoa competente, mas ainda não necessariamente extraordinária — conseguiria resultados médios de 16-17, para um ganho de T$ 2 a 3 por semana. Esse plebeu provavelmente seria uma pessoa próspera: um fazendeiro com terras próprias, um mercador etc. Ele terá uma vida confortável, mas os itens mais caros ainda estarão fora do alcance dele.

Claro, nosso plebeu pode ter um nível ou um modificador de atributo ainda maior. Entretanto, um NPC acima de 4º nível, ou com um modificador de atributo maior que +2, não se classifica mais como uma pessoa “comum”.

Tibar. Ilustração por Hasen Artlife

Resumindo a economia em Tormenta

Um plebeu típico (peão numa fazenda, estivador das docas etc.) ganha T$ 2 por mês, sendo que gasta T$ 1 para se sustentar — ele tem T$ 1 por mês para gastar em luxos (cerveja na taverna?) ou guardar. É uma vida humilde, mas assim são as coisas no Reinado. Lembre-se: Arton é um mundo mágico, mas ainda é um mundo medieval. Com poucas exceções, não há indústrias — fabricação de bens é artesanal, a maior parte das fazendas é de subsistência etc.

Um Tibar de ouro representa cinco meses de trabalho de um plebeu típico. Lembre-se disso da próxima vez que reclamar do tesouro que o mestre colocou na aventura…

No vindouro Atlas de Arton vamos nos aprofundar mais em questões relativas à vida no Reinado. Que conteúdos desse tipo você gostaria de ver no livro?

Aqui você encontra mais dicas sobre como usar economia em Tormenta

Comentários (33)

  1. A ideia para esse artigo surgiu no meio de um episódio de Fim dos Tempos (www.twitch.tv/jamboeditora), quando o Rex perguntou quanto ganhava um plebeu em Arton, justamente para ter uma ideia do valor do dinheiro para uma pessoa comum. Demorei pra conseguir escrever, mas aí está! 😀

        1. Falando em inflação, é bem legal o Mestre às vezes pensar na flutuação da economia. Itens em cidades grandes e prósperas costumam ser mais caros por causa do alto custo de vida… os preços também variam em casos de flutuação de demanda e oferta (encarecem na guerra, em lugares onde o acesso é mais difícil ou a oferta é pouca, etc). Ficar pensando nisso o tempo todo é chato, mas dá pra fazer umas aventuras bem fodas pensando nisso. Por exemplo (roubei dos livros de The Witcher): os druidas de Tollon começam a se organizar pra evitar a exploração desordeira da madeira agora que a região tá meio caótica, e impõem fortes sanções a grandes compradores de outrora… por isso, itens de madeira (lanças, flechas, portões, carroças) acabam muito caros ao redor e por isso a guarda acaba sub-equipada e coisas como monstros e tráfico começam a ficar mais fortes… dá pra pirar muito com isso!

  2. Artigo muito bom. Lembrei do Reinado antigo que falava que com 1Tibar de ouro, um plebeu montava a propria granja rsrsrs.

    Seria interessante ter no vindouro Atlas de Arton: rotas comerciais, que tipos de produtos os reinos comercializam no geral (nada tão extenso, apenas alguns quadros especificando)

    1. Eu gosto desse tipo de conteúdo! Não pode ser muito — é o tipo de coisa que se entrar em muitos detalhes pode ficar chato. Mas na medida certa dá uma boa aprofundada. Enfim, é muito provável que a gente tenha conteúdos assim no Atlas! 😀

  3. Muito interessante, gostei do artigo. Coloca bem em perspectiva a diferença de “mundos” que um aventureiro e um plebeu vivem.

    O que eu gostaria de ver, além da “economia das massas”, também a “economia heroica”. Por exemplo: como itens mágicos mais poderosos não possuem um preço (apenas custo pra produção), como medir quais itens um grupo pode ter ao começar uma aventura em níveis mais altos?

  4. Boa! Sempre me perguntava isso enquanto narrava. Tinha a noção que meus aventureiros tinham muito mais dinheiro que pessoas comuns mas não o quanto esse “muito” significava kkkk

  5. Ótimo texto, Guilherme!
    Agora você me deixou muito curioso, a partir de devaneios lendo o artigo, por saber mais sobre mecânicas e funcionamentos de Guildas no cenário atual de Arton e em T20.

  6. Pô, adorei o artigo!! Eu adoro brincar com a economia do jogo. “Como assim, não tem um pergaminho de 3º círculo a pronta entrega?”, pois é… Você pode encomendar agora, ficará pronto daqui 3 meses! Pagamento adiantado, por favor.

  7. Se não vier em uma Dragão Brasil, seria muito bom se o atlas tivesse regras de domínio e negócios do Trpg adaptados pra T20. Bem como um pouco das relações entre reinos, desde os pertencentes ao reinado aos reinos neutros e adversários. Explorando possíveis parcerias e conflitos. Nada muito específico, só pra enriquecer as relações entre os povos.

    Em Fim dos Tempos está sendo muito bom retratarem um pequeno lugar entre reinos, mostrando o dia-a-dia de um forte militar e as peculiaridades da região.

  8. Excelente artigo. Os jogadores da minha mesa reclamaram de receber apenas T$90 na primeira aventura (rolado aleatório) e tive que tentar explicar um pouco disso e usei o que foi dito na stream naquele dia.
    Eu gostaria de ver algo sobre o calendário de Arton, dias festivos, etc.

  9. Simples mas ótimo artigo. Creio que para um “Atlas de Arton” seria interessante apresentar regras de Negócios e de Domínio, e talvez descrições gerais da estrutura política, nobiliárquica e social das regiões, para complementar as descrições do Capítulo 9 de Tormenta20.

  10. Simples mas ótimo artigo. Ler isso me dá vontade de ver num “Atlas de Arton” regras de Negócios e de Domínios, e também descrições um pouco mais específicas sobre a organização e as estruturas políticas, nobiliárquicas e sociais das regiões, para complementar as descrições do Capítulo 9 de Tormenta20.

  11. Ótimo artigo! Gostaria de mais artigos curtos assim expandindo esse assunto. Tipo, cálculos para ajudar montar recompensas. Qual o valor por caçar um monstro errante ou um bandido procurado? Qual o valor para missões de primeiro nível? De quinto?

    Outros temas que gostaria de ver, principalmente no Atlas de Arton, é o Calendário Artoniano (revisado e ampliado) e regras para gerenciar negócios e domínios, com regras de nobreza.

    1. Estevão, o livro base do Tormenta 20 tem no capítulo Recompensas a seção Tesouros (pg.314). Dentro desta seção, tem a tabela 8-7 (pg.318) que acredito te dar exatamente o que tu pediu.
      Ela te diz o quanto vale uma missão para o grupo de nível X. Por exemplo, para caçar um monstro errante ND 3, o valor do pagamento sugerido é de T$400,00.
      Importante reforçar que este é um valor sugerido, passível de mudanças do mestre. E seria o valor pago para uma cena, então talvez essa caça leve mais ou menos tempo.

  12. Um passatempo favorito dos meus PCs – de qualquer mundo – é botar uma moeda de ouro no balcão de uma taverna e pedir “Uma rodada para todo mundo!” – e isso é clichê o bastante para ser uma opção em Dragon Age.

    De onde se conclui que boa parte dos aventureiros já perdeu toda a noção do que cada coisa custa.

    O que, por sua vez, os transforma, para todos os efeitos, em turistas de países de primeiro mundo fortemente armados.

    E Malpetrim na versão artoniana de Búzios, de Foz do Iguaçu ou dos Lençóis Maranhenses…

  13. A pergunta é que conteúdos você gostaria de ver no livro?
    Eu gostaria de ver no livro coisas simples como o custo de construção de uma casa de madeira em arton, começando com uma coisa simples como uma casa de quarto sala e cozinha e com um calculo de aumento de custos para um galpão ou quartos extras. De casas de alvenaria (tijolos) e quais reinos teriam esse tipo de construção. E mesmo os custos de uma casa de pedra, como seriam os custos de material levado da pedreira para a cidade. O custo de construção de uma torre, custo de construção de uma Pequena fortificação. O livro Arms and Equipament guide do D&D é meio sem noção no custo das construções, e em tormenta como as pessoas vivem em um mundo mais Real, o custo deveria ser mais nivelado. Talvez isso fosse material para uma DB.

  14. O q mais queria no atlas de arton seria os detalhes, como cultura, regras atualizadas para tormenta, e alguns detalhes q estavam nos manuais de classes, comidas esse detalhes e bem pouca regras.

  15. Não parece estar bem amarrada a situação, já que um personagem que gaste T$ 10 por mês tem uma vida pobre dormindo na rua e comendo pão velho. Ao mesmo tempo que para forjar um escudo de T$ 5, o ferreiro leva um dia com CD 15, ele consegue fabricar dia sim, dia não, mas vamos a ferramentas mais fáceis de vender como foices(T$4) e machadinhas(T$6). Porém, não está vendido imediatamente, mas em um mês ele fabrica uns 7 desses e se vende pelo menos uma peça já se equiparou ao teste de sustento. Ainda pode fazer manutenção de ferramentas.

    Ok, ferreiro é ofício “nobre”, mas um mensageiro consegue T$ 2 ao percorrer apenas 30min (2 Km, ida e volta). E um carroceiro T$ 2 em menos tempo ainda. Novamente, não é toda hora que vão ter serviço, mas terão pelo menos 2 no mês e provavelmente não vai ser de 1km.

    Ainda precisamos considerar que uma refeição comum tem o CUSTO de T$0,1. Em 30 dias daria pelo menos T$3 para uma refeição por dia, sem considerar outras necessidades.

    Gastando T$ 10 por mês é pobre e T$ 50 já é bem rico, creio que T$20 seria uma boa média para alguém que viva razoável. Para o primeiro plebeu ser pobre o sustento teria que dar T$5. Aí entra a questão de agricultura de subsistência e o a questão de vassalagem?

    1. Oi José,
      Lembra que a regra de custo de vida é feita para aventureiros, pessoas sem residência fixa, que vivem viajando e precisam manter seu equipamento. Por isso os custos são mais altos que para pessoas comuns.

      Teus apontamentos sobre o ferreiro estão certos — mas um ferreiro é um artesão especializado, e muito valorizado num mundo medieval. Ele realmente ganharia mais que a média.

      Sobre os mensageiros, é um serviço realmente caro em Arton, mas é um mundo que as estradas são perigosas, e não é fácil ir de uma cidade a outra.

  16. Por favor, algum estatístico me corrija se eu estiver fazendo o raciocínio errado.
    Mas acredito que a maneira correta para calcular o ganho médio mensal do Plebeu de nível 2 tá errado.
    O Guilherme pensou apenas nas possibilidades do plebeu rolar 10 ou 11 (por ser NPC, devemos “definir” a rolagem dele, ou ele pode rolar números como 5 ou 20? Pois o raciocínio estatístico que pensei foi o seguinte:
    Devemos pensar em todas as possibilidades de rolagem do plebeu, que penso ser de 1 a 20. Nas rolagens de 1 a 10, ele ganha T$0, rolando 11 ganha T$1, rolando 2…
    Então temos 20 possibilidades de resultado para o trabalho semanal dele, sendo 10 delas recebendo T$0 e os demais, um resultado para cada valor no dado a partir de 11.
    O cálculo que eu acredito ser o correto para a estatística, seria somar todas as possibilidades de resultado e dividir pela quantidade de possibilidades:
    0+0+0+…+0+1+2+3+4+…+10 ÷ 20
    = 55 ÷ 20
    = T$2,75
    E este seria a média para apenas um resultado! Ou seja, a média SEMANAL do ganho do plebeu.
    No mês, seriam T$11. A inflação em Arton acaba de aumentar 5,5x.

    Espero que alguém me corrija.
    Porque realmente ficou mais complexo, se for como estou pensando.

    1. Tua matemática não está errada, mas na “vida real” as pessoas não rolam dado para o trabalho rotineiro, elas simplesmente orbitam ao redor dos valores médios. Rolar o d20 significa tentar algo arriscado, inovador. O fazendeiro que todo dia cuida da lavoura da mesma forma não realmente rolando o d20.

        1. Escolher 10, sim. Escolher 20, não.

          Lembra que escolher 10 significa fazer a tarefa com calma, para reduzir a chance de erro. Na verdade, todos os testes de rotina de uma pessoa seriam “escolher 10”.

          Já escolher 20 significa tentar todas as possibilidades — é o velho método de tentativa e erro, e não pode ser usado em situações cuja falha acarreta uma penalidade.

  17. Seria interessante saber como aventureiros (cof, jogadores) podem influenciar nisso, gastando tesouro e etc. Eles podem criar prosperidade numa comunidade? Pobreza? Manipular a economia numa vila? Numa cidade?
    Novas regras pra negócios seriam legais, principalmente com as Repúblicas Livres. E o poder concedido pros devotos de Tibar seria bacana. Agora mais interessante seria conteúdo sobre o cotidiano da população de Arton. Tibar já é conhecido, mas existe um deus ou deusa menor das colheitas? Da hospitalidade? Das tavernas? DA CERVEJA? E qual a diferença entre a vida de um plebeu humano ou elfo no Reinado prum plebeu anão em Doherimm? Ou prum plebeu goblin numa comunidade Duishydakk?

  18. Guilherme Dei Svaldi você saberia me dizer se o escudo do mestre terá uma versão digital? Estou sentindo falta de um bom pdf com as principais regras e tabelas para agilizar as minhas aventuras no Astral table top. Falando no Astral seria legal um compendium de criaturas por lá.

  19. Excelente o artigo, gostei muito. No Atlas eu gostaria de ver mais informações complementando isso, coisas como quais são os produtos predominantes da região, qual região exporta o que para qual etc. Seria muito legal se nos mapas tivessem rotas/estradas comerciais, em muito materiais de RPG sinto falta disso. Boa parte das missões é escoltar caravanas, como bem disse no texto, mas você escolta elas por onde? por qual caminho? passa por quais perigos? Curiosidades mais mundanas trazem verossimilhança pro mundo, afinal nem tudo são dragões, demônios e magia. Na verdade a maior parte do mundo ficcional não é sobre isso.

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