Um Brasil fantástico e transmídia: entrevista com Enéias Tavares

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Um Brasil fantástico e transmídia: entrevista com Enéias Tavares

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Na última semana, eu conversei com o escritor e pesquisador Enéias Tavares, autor de Juca Pirama – Marcado para Morrer, publicado pela Jambô. Na ocasião, falamos sobre escrita criativa, produção transmídia e o universo expandido de Brasiliana Steampunk, série composta de livros, quadrinhos, jogos e série audiovisual.

Enéias Tavares me contou um pouco sobre suas inspirações, processo de criação e escrita, porque produz conteúdo transmídia e o que podemos esperar para o futuro da Brasiliana Steampunk. Confira a entrevista abaixo:

UM BRASIL FANTÁSTICO E TRANSMÍDIA: ENTREVISTA COM ENÉIAS TAVARES

A grande inspiração da franquia Brasiliana Steampunk veio de A Liga Extraordinária. Mas de quais outros lugares vem a inspiração para as histórias desse universo?

Como qualquer projeto criativo, Brasiliana é um caldeirão de diferentes ingredientes, temperos e criaturas. Ao lado da Liga Extraordinária eu colocaria nossos clássicos, pois foram eles que me deram as vozes narrativas iniciais para a escrita do primeiro livro, A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison. Mas há outras fontes ali. Minha Porto Alegre retrô é muito inspirada pela New Orleans de Anne Rice e meu Louison deve muito ao Dr. Lecter de Thomas Harris. Por outro lado, é também um livro sobre corações partidos e estraçalhados. Os leitores saberão do que estou falando. À época eu estava terminando um relacionamento de mais de dez anos, o que acabou também marcando um pouco da energia visceral, violenta e apaixonada do livro.

O Brasiliana Steampunk traz personagens clássicos que adoramos, mas também, cenários reais, instituições e movimentos que dão toda uma nova dimensão à história, como o Brasil do início do século XX, a maçonaria e o movimento positivista. Qual é a maior dificuldade que você encontra em trazer esses elementos para a ficção? E como é a pesquisa para isso?

A dificuldade é muitas vezes tirar o pé do rigor histórico e saber que estou escrevendo ficção, não um documento de época. É que o passado tem disso, não? Ele é fascinante e te absorve inteiramente, sobretudo pelo modo como a história se repete e volta e meia surgem figuras um tanto parecidas com as de outras épocas. Além  disso, o Brasil tem esse problema grave de não ter um passado valorizado, uma memória de si próprio. Então, vejo Brasiliana como um laboratório no qual eu e os leitores podemos entrar na máquina do tempo e visitar esse que foi, sobretudo um tempo que poderia ter sido e habitar esse cenário, unindo tanto a surpresa do que de fato aconteceu com a experiência lúdica de você recriar essa experiência em literatura fantástica, em jogos, em quadrinhos e no audiovisual.

O que mais te atraiu no personagem Juca Pirama? Por que ele mereceu um reconto steampunk? 

Felipe Reis, inicialmente, pois a criação desse personagem foi bem diferente do que costuma ocorrer quando pensamos em roteiro audiovisual. O tradicional é primeiro você escrever e depois ir buscar com o ator para interpretá-lo. Com Juca e Capitu foi o inverso, pois já tínhamos os atores – Felipe Reis e Thais Barbeiro. Então, foi um exercício de ver quais personagens poderiam encaixar nesses dois atores fabulosos. Sobre Juca Pirama, falamos de um personagem trágico e central para entendermos a história da nossa literatura e a importância de Gonçalves Dias, um de nossos maiores poetas.

Assim, reviver a energia do guerreiro indígena marcado para morrer que mescla magia e jogo de cintura, com uma personalidade um tanto ladina e alquebrada pela vida, parecia mais que adequada para uma recriação steampunk, um gênero que mergulha na marginalidade, na inadequação social e em tantos outros temas definidores para a nossa cultura brasileira, tanto de ontem como de hoje.

Qual é a maior diferença entre o Juca Pirama que vemos no livro (Juca Pirama – Marcado para Morrer) e o Juca Pirama que vemos na série (A Todo Vapor)? 

Boa pergunta. Não se trata de uma adaptação. Para quem trabalha com transmídia, o exercício aqui é pensar especificamente – respeitando cada mídia – como uma história faz sentido na literatura e como ela fez sentido no audiovisual. Então, o que acontece é seguinte: Na linha do tempo da série, o romance se passa um ano antes do que vemos na série audiovisual.

Então, para responder a sua pergunta, o Juca de Marcado para Morrer está aprendendo a viver nas ruas, a se virar sozinho, a conhecer sua própria noção de justiça e a entender que seus dias de magia estão no passado. Na série, essa trama é complementada pelo encontro com Vitória Acauã, que desperta em Juca um novo interesse pelos enigmas arcanos que ele julgava esquecidos. Acho que ler o livro e ver a série é uma experiência bacana nesse sentido, porque há um arco único ali no que diz respeito ao Juca. O mesmo estou buscando com Capitu, cujo romance prequel está em produção nesse exato momento.

Por que contar uma história usando transmídia? O que te atrai para esse jeito inovador de storytelling?

Como muita gente, eu adoro e consumo a tríade literatura, quadrinhos e audiovisual. Acho incrível como essas três possibilidades narrativas tem potenciais tão diversos e propiciam experiências tão únicas. Então, em um primeiro momento, o que me fascina são as estratégias narrativas de cada mídia. A forma como literatura usa palavras, os quadrinhos imagens e texto e o audiovisual tudo isso além de música, efeitos especiais e tantos outros recursos.

Há um crescendo de dificuldade também: literatura é feita por uma pessoa, quadrinhos por duas ou três, já o audiovisual, por dezenas. Então é uma alquimia crescente que me interessa muito. Já o transmídia acabou me fascinando por possibilitar essa interação, não pensando adaptações e sim pedaços autônomos de histórias que começam num lugar e te levam a outros. Para consumidor de universos expandidos como eu, que adora Harry Potter, Game of Thrones, Marvel e Star Wars, além de Tormenta – uma referência desse tipo de experiência em nosso país – trata-se de um laboratório único para se contar histórias. 

Para você, quais são as maiores diferenças entre escrever um livro, um roteiro de série e um quadrinho? Ter experiência com produção de conteúdo transmídia ajudou a transitar entre esses meios?

Começando pelo final da pergunta, foi um processo de aprendizado na medida em que os projetos surgiam. Como consumidor, conheço literatura, cinema e quadrinho. Mas produzir para elas são processos muito diferentes e escritores e escritoras precisam atentar para isso. É comum levarmos nossa mente literária para o roteiro de quadrinhos ou de audiovisual, produzindo longos diálogos, passagens narrativas detalhadas ou sonoridades específicas – marca do que escrevo, sobretudo pela minha relação muito forte com poesia e teatro. Mas essas duas mídias são essencialmente visuais, então começar por palavras poder ser um problema.

No caso dos meus roteiros para quadrinhos, eu sempre começo rabiscando no caderno de desenhos e montando layout de página. Há um exemplo disso nos Extras de A Todo Vapor! Web Quadrinho. Eu e Fred Rubim também ministramos uma Aula Aberta disponível no Youtube sobre nossa produção em que cada um desses estágios é detalhado. Já no audiovisual o desafio é financeiro, além de logístico. Antes de escrever uma linha, havia um prévio diálogo com Felipe Reis sobre quantos atores teríamos, quantas locações, efeitos especiais que seriam ou não possíveis, então é um trabalho bem mais colaborativo. Aos que desejarem saber mais sobre esse processo, Felipe Reis detalhou toda a produção da série numa entrevista bem bacana no portal CosmoNerd.

Então, Mariana, para sumarizar a resposta, é um exercício múltiplo que vai te ajudando e enriquecendo tua escrita. Juca Pirama Marcado para Morrer é um projeto literário, mas perpassado pela experiência da série e já prevendo uma possível versão cinematográfica. Já Parthenon  Místico, meu romance mais recente, lançado pela DarkSide Books, é uma experiência literária e transmídia, uma vez que há uma série de expansões do livro acessíveis através de um QR Code especial que dá acesso a uma seção secreta no site de Brasiliana. 

Quais são os planos para o Brasiliana Steampunk no futuro? Podemos esperar adição de mais personagens clássicos e, quem sabe, outras mídias?

Há a produção de um RPG em curso, além de outras ideias que estamos tendo, como um Board Game e mais histórias para as mídias com as quais estamos trabalhando. É um trabalho infindo, com cada mídia demandando uma energia específica, voltada para diferentes públicos e mercados. A primeira temporada, por exemplo, está recebendo legendagem em inglês e espanhol para ser lançada no mercado internacional da Amazon Prime Video. Além disso, há um corte de longa-metragem saindo e um projeto escolar fabuloso que iremos anunciar em breve, com primeiras ações começando no início de 2021.

Além disso, o que posso adiantar é que o romance seguinte de A Todo Vapor!, Capitu & o Enigma da Esfinge está em processo de escrita e que eu e Felipe Reis estamos buscando parcerias para dar continuidade ao universo audiovisual, seja ele no cinema, na TV ou em ambos. Veremos o que o futuro nos trará. A única certeza que temos: É que seguiremos a todo vapor na exploração desse Brasil retrofuturista que ainda tem muito o que nos revelar.

Saiba mais sobre Enéias Tavares

Enéias Tavares é professor, escritor, tradutor e produtor transmídia. Trabalha na UFSM desde 2012, onde fundou o ORC Studio Laboratório de Economia Criativa. Desde a adolescência, ele sonha em trabalhar com ficção e cultura pop. Além disso, sempre sonhou em integrar o Castelo da Jambô. Juca Pirama Marcado para Morrer é um sonho realizado também por isso. Mais de sua produção no site do autor.

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Essa entrevista integra a Semana Especial A Todo Vapor!, promovida pela Brasiliana Steampunk para comemorar os seis anos de existência da franquia. A Jambô é apoiadora do projeto. Por isso, preparamos uma série de ações para comemorar essa semana. Teremos entrevistas, lives e lançamentos. E para garantir conteúdos exclusivos e conferir a programação completa, inscreva-se aqui.

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