"Abandono". Conto/fanfic

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Duda Vila Nova
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"Abandono". Conto/fanfic

Mensagem por Duda Vila Nova » 10 Jan 2020, 08:18

Ele tinha a impaciência nos pés, que se moviam repetidamente fazendo ruídos no chão de pedra empoeirado.

Ela trazia olhos inquietos, que se viravam para a porta do templo várias vezes a cada minuto.

Ambos exibiam nos cabelos a brancura de eras e uma longevidade anormal para humanos, recompensa de uma vida dedicada a aventuras e perigos. Suas vestes tinham lembranças dos lugares onde estiveram, presas por tiras de couro ou alinhavadas com carinho em alguma parte. Ela usava seu cajado como apoio para descansar, embora não precisasse; ele tinha o corpo jovem, contrastando com a longa e sedosa barba branca; e sua armadura não era nada ortodoxa: cada parte parecia pertencer a uma cultura distinta: Couros, peles e metais variados montavam um mosaico complexo e belo.

Sentiram o poder divino encher o salão empoeirado e jogar as teias de aranha de um lado para o outro. Valkarya caminhava quase desnuda, suas tatuagens brilhando fugazmente enquanto se aproximava do casal.

“Sua ambição me intriga”. Quando terminou de falar, estava vestida com trajes de exploração reforçado.

“Temos um tipo especial de afeto que cultivamos durante muito tempo”, ele começou.

“Vocês se entregaram à estagnação de seus corações.” A deusa interrompeu, usando palavras que não eram suas.

“Não! Nós nos amamos, mas nosso amor não é imutável. Ele se expande e se contrai, precisa da mudança para viver. Ele é livre para ir, assim como eu sou livre para escolher caminhos distintos aos dele. Ainda assim, essa é nossa escolha: queremos estar juntos enquanto houver vida em nossos corpos. Não precisamos nos casar; mas queremos apenas desbravar os mundos juntos”. Ela complementou o argumento de seu companheiro.

Já vestida em sua armadura de batalha, com sua espada longa na cintura, a deusa resmungou: “vocês insistem …”

“Eu encontro todos os dias uma forma diferente de mostrar o quanto a amo”. Ele colocou as duas mãos sobre os ombros de sua amada.

“Os dias nunca são os mesmos ao lado dele”. Ela colocou uma mão sobre a dele.

“Vocês escolhem ficar presos um ao outro” a deusa agora vestia uma túnica multicolorida, pingentes e ornamentos de várias pedras preciosas

“Estaríamos presos aonde quer que nós formos, mesmo em caminhos distintos, pois o caminho que escolhemos nos foi tirado” os olhos dele tremiam úmidos ante a possibilidade.

“Se vossas ordens permanecem, não sermos verdadeiramente livres para amar um ao outro, e nossa ambição de ser felizes juntos nos foi negada” ela declarou, baixando os olhos para o chão do templo antigo.

Um Valkarya imensa, corpulenta e de olhos brilhantes aproximou-se ainda mais do casal “Vocês vão me abandonar? Vão renegar a sua deusa?”

O casal a encarou sem medo.

“Você é quem está nos abandonando”, ele começou.

“Pela segunda vez.”, Ela completou, como se fossem um só.

“Não mais lhes outorgarei poderes” a deusa novamente voluptuosa, seminua e tatuada virou-se de costas.

“Nunca fizeram falta enquanto lutávamos em seu nome, longe de Deheon” o rancor escancarado arranhou a face de Valkarya, sem que o casal percebesse.

“Seguiremos juntos, desbravando o mundo, conhecendo e vencendo novos perigos. Juntos!” Ela deu um passo em direção às deusa, que se distanciava. “Gostaríamos que nos desse a sua benção… Mas iremos, mesmo sem ela.”

“Arton precisa de aventureiros valorosos e dispostos; e não de conformismos!” A deusa vociferou, fazendo a própria realidade tremeluzir.

“Arton é apenas mais um porto.” Ele argumentou cauteloso. “E seus OUTROS filhos estão causando confusão em mundos distantes”. A cada palavra, a deusa sentia seu rosto ser arranhado.

“E acho que deixamos bem claro o nosso inconformismo”, ela afirmou, com uma voz ferida.

Valkarya virou o rosto levemente em direção ao casal, olhando de soslaio. “Eu posso conceder uma permissão especial. Como gratidão pelos anos de devoção”.

O casal se mostrou abertamente ofendido. Ela respondeu ríspida “e me contentar em ser simplesmente uma honrosa exceção a uma regra com a qual discordo? Não pode ser isso que espera de nós, depois de tanto tempo”

“Pois bem! Que seja! Vou sair de sua casa!” A Deusa deu mais dois passos em direção à porta.

“Casa? Esta não é nossa casa” Ele falou como se explicasse o óbvio. “É a sua! Seu templo! com as SUAS regras!” Ela o segurou pelos ombros, aplacando a ira de sua voz.

“Vamos alimentar esperança de que vossas regras, um dia, não sejam rígidas … como uma estátua” ao dizer estas as últimas palavras, o casal colocou no chão do templo as duas pequeninas estátuas que carregavam consigo há séculos. Se abraçaram e se teletransportaram de volta à sua embarcação estrelar em Vectora, de onde partiriam rumo ao desconhecido. Juntos enquanto sua vontade e sua mortalidade lhes permitisse.

A Deusa chorou silenciosamente, enquanto sentia os poderes que concedera voltarem ao seu seio, e os arranhões em sua face viravam novas e belas tatuagens. Valkarya não entendia se eram lágrimas de tristeza ou orgulho. Se viu sozinha, no meio de um templo erguido em seu nome. Abandonado

Richardsl
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Re: "Abandono". Conto/fanfic

Mensagem por Richardsl » 14 Jan 2020, 15:33

Amei esse texto. Como mostrou bem todo aquele debate de regras que teve no Masmorra.

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Duda Vila Nova
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Re: "Abandono". Conto/fanfic

Mensagem por Duda Vila Nova » 15 Jan 2020, 20:50

Richardsl escreveu:
14 Jan 2020, 15:33
Amei esse texto. Como mostrou bem todo aquele debate de regras que teve no Masmorra.
:)

Obrigado!

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