[Conto] Desonra Sombria: Shadowfall

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Antonywillians
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[Conto] Desonra Sombria: Shadowfall

Mensagem por Antonywillians » 18 Jan 2020, 23:47

Aviso
( Não, não é um conto em Arton. E esta não é uma história para meninas meigas e moços delicados, pode conter palavrões, portanto, se for um mercenário boca suja troglodita ou um espadachim arranca tripas mande brasa )

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______DESONRA SOMBRIA________
..........................Shadowfall..................................


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CONTO I
Mastigando Espíritos Sujos


A escuridão sólida engolia todo aquele beco sujo com um toque gélido, acariciando maliciosamente a última ponta de vida do mortal que tremia mal conseguindo mirar com seu revólver carregado seja lá o que fosse aquilo. Seus passos para trás cambaleantes por vezes esbarravam nos corpos moribundos e vazios de seus colegas. Como podiam ter sidos derrotados por aquilo… Ou pior, como poderia aquilo existir!? Lâminas das katanas deveriam ter dilacerado sua cintura, os tiros eram para tê-lo feito uma peneira e os punhos com soco inglês eram para ter esmagado seu crânio, e ao invés disso as espadas cortaram-no como o vento, os projéteis passaram reto estourando vidros e postes na rua e os punhos ficaram pálidos e mortos como seus donos. O demônio Kurogami estava de volta à cidade em que fora declarado monstro e tivera a cabeça colocada a prêmio, e já fazia suas vítimas.

O garoto Yakuza, mero kabun pouco treinado, de parcas tatuagens ainda por fazer, fora caçado junto aos companheiros, como quando uma coruja espreita na noite e ataca o rato enquanto este se alimenta no lixo. Era para ter sido um dia normal, ganhando suborno de alguns “clientes” para que lhes fizesse vista grossa dos pecados, jamais imaginaria que a noite… Estrelada e bela, se faria como um monstro que estava por devorar sua carne e quebrar o espírito.

- Ahhh, kusoooo! Maldito, saia da escuridão! Demonstre-se menos covarde… Encare que em breve sua pele estará esticada sobre a mesa do Oyabun da família de Yamaguchi-gumi!!! Bakemonooo!!!

Estouro dos tiros e seu ricochetear na grande lata de lixo, assim como nos tijolos dos prédios que os prensavam no beco sem saída, foram desesperados… Sua respiração falhava, o suor frio corria pelo rosto. Escorrendo. Acariciando. Segurando… Não. Não era o suor mais e sim dedos frios como a morte, e logo a palma de uma mão que parecia drenar qualquer calor que ainda possuísse. Pequenos tapas em sua bochecha enquanto uma voz veio em seu ouvido, sussurrando suave, sem emoções e letal.

- Pobre alma… Jovem e perdida em desonra. Irei purificar seu espírito com a misericórdia de meu senhor… Boku no Daimyô…

- Oreeee… Vou estripa-lo maldito!!!

O Yakuza girou nos próprios calcanhares já brandindo a própria espada katana cortando o ar com um silvo metálico… e nada havia lá. Com a mão livre colocou sobre a bochecha que o demônio encostara e sentiu-a fria, como que morta, tentando resgatar o mínimo de calor que o resto do corpo poderia fornecer. Logo algo pequeno despencou no chão e rolou até ele.

Primeiro pensou que pela silhueta na escuridão fosse um dedo decepado, até que seus olhos identificaram o tabaco nas últimas brasas por dentro do cigarro de involucro negro. Em seguida, como se a própria negritude do breu se materializasse em um sapato de couro preto, desceu sobre o mesmo o esmagando e apagando as fagulhas. O garoto tropeçou de susto caindo por cima do corpo de seu colega mutilado, por sorte sem se espatifar na poça de sangue que se formara próximo dele.



“Dê-me sua alma! Arrrh! Dê-me… Estou com sssede… Preciso! PRECISSSO!!!”, uma voz sibilante veio da escuridão, não a intimidadora do Kurogami, mas ainda medonha. Inumana, “Vamosss me dê para purificar esse filho da puta, Kurogami-dono!!!”



As sombras moldaram-se a sua frente. Era inacreditável… Geralmente os olhos se acostumam com o escuro, mas aquilo era diferente. Um vulto se fazia como emergindo do obscuro, como se faria um corpo totalmente imerso em um lago. Braços com cicatrizes, cabelos longos esvoaçando como serpentes de ônix, um peitoral nu e marcado como o de um guerreiro do passado longínquo, calças de seda sem cor com obi esvoaçando como tentáculos agourentos. Uma luz rubra brilhou do rosto sem forma da coisa… Não parecia ter face. Era como se ela fosse as próprias trevas e a própria noite.

- Não seje vulgar, meu senhor! – o Kurogami proferiu falando com o outro de voz sibilante.

O yakuza engoliu em seco. Seus olhos arregalados mal podiam acreditar no que viam, confundido se era apenas uma sombra de sua imaginação, de seu medo. Não era, ele sabia disso. Era o demônio das sombras, ceifador de almas de criminosos, caçador de Yakuzas e qualquer um que fizesse tarefas ilícitas por mais poder que tivesse. Sua mão tentou firmar na espada… O frio congelara seu tato, sabia apenas que fechava a mão e não havia mais o cabo da espada como soube quando a mesma tilintou tocando o chão ao cair, tentou grunhir de frio, e não sentia seus lábios, só ouviu a voz ser proferida. Entretanto, era mesmo a voz ou apenas um pensamento? Não conseguia mais discernir. Seus olhos confundiam o cérebro com uma ilusão negra, não via mais nada além da coisa a frente… Já teria desmaiado? Seria aquilo tudo fruto de um pesadelo? Explicaria muito…

- …Mas, infelizmente, não é! – a coisa falou com sua voz retumbante que vinha de todos os lados.

Ele me ouve?

- Sim ouço!

Mas eu não estou falando são só pensamentos!

- Mesmo assim, eles vibram nas sombras de sua mente…

Não é possível!

- Discordo!


A coisa se aproximava lentamente, o coração do jovem disparava, ardendo e doendo como se contraindo para poder escapar daquele demônio. Não sabia se estava feliz por saber que ao menos dentro do corpo podia sentir dor… Saber que estava acordado. Vivo. E o que seria aquilo? Medo?

- Sim! Isto que sente, criança… É pavor… Medo do escuro! Medo de seu passado! De seus pecados… Suas desonras!

Droga, ele lê o que penso.

- Sim!

Ele responde ao meu medo.

- E me alimento dele!

Preciso morder minha língua e arrancá-la. Morrer aqui antes que algo pior aconteça.



“NÃO DEIXEEEE!!!”, a voz sibilou.



- Não deixarei! E não suje meu terno…

Ele não é seu terno, não o darei! O yakuza não se importava mais se falava ou pensava.

- E prometo não pedir!


Não houve mais pensamentos. Diálogos. Ou visão. Em poucos segundos sabia que algo o envolvera por todos os lados, como se as sombras tomassem uma consistência entre o líquido e fluídico, engolfando-o e entrando pelas orelhas, boca, nariz e olhos… Então pelos poros e uma lâmina mais fria que um espigão de gelo lhe perfurou a cintura… Rasgando parte do terno e carne, perfurando sua alma, queimando as tripas e incendiando sua alma. Seu sangue não espirrava, pelo contrário, seu espírito escoava pelo enfermo, como se a lâmina o bebesse. Por um instante se sentiu leve, no outro já não era capaz de sentir mais nada. Não existia. Não mais.

Seu corpo, contudo, não foi o que tombou quando houve um baque vazio no chão sujo repleto de chorume do lixo velho misturado com sangue fresco. Fora o da coisa da escuridão. O corpo ficou inerte por segundos até soltar um silvo e começar a se desfazer em pó sem deixar qualquer osso, como se fosse muito velho. O Yakuza em si, na verdade soltou um breve suspiro, seus olhos brilharam, o ferimento se fechou deixando uma cicatriz marcante coberta pelo terno que se refez como se a escuridão o costurasse. Ajeitou o cabelo e mexeu em algo dentro do bolso da calça… Sim, por sorte. Um maço de cigarros. Não eram os Black Angel que gostava tanto de fumar, mas servia. Com um isqueiro acendeu com calma enquanto segurava com os dentes. Deu a primeira tragada e suspirou aliviado.

Não, não era o mesmo yakuza. Não o jovem que acabara de ser perfurado. Era o mesmo corpo, contudo, possuído pelo demônio de trevas que fizera daqueles homens ilícitos um conjunto de carne retalhada. Sentou-se sobre as costas de um dos cadáveres e tragou mais fundo. Era sempre assim, desde que a maldição começara não possuía mais um corpo físico, dependia de suas presas para possuir seus cadáveres e devorar suas almas para sempre mudar e não deixar o corpo decrépito se desfazer em público. Que não conseguisse se livrar da cor pálida, ao menos não seria clamado como zumbi nas ruas.

Ele não possuía seu próprio corpo. Seu próprio feudo. Sua própria honra.
Este era Susanoo Akechi, ou Kurogami, o Deus Negro, como seus caçadores e vítimas costumavam chama-lo. Seus olhos acostumados à escuridão vagavam de um lado a outro do beco sujo… Odiava aquilo. Não de dar fim a criminosos, e sim por terem um fim independente de seus erros, diferente dele, ao qual foi negado a morte e o suicídio honroso.

- Muito bem, Susanoo-san! – uma voz macabra ressoou do alto.

O Kurogami sabia quem era e com certo ódio pegou o óculos escuro que um dos Yakuza derrubara, passou a ponta da camisa desembaçando e limpando a lente e então pôs sobre os próprios olhos. Mais um trago e olhou pra cima. Ali estava Shinnê, seu Demônio-da-Guarda, como o palhaço gostava de falar. Era um ser horrendo, capaz de expulsar a alma de um mortal com o menor olhar, por sorte invisível para os vivos. Uma besta medonha, de corpo humanoide com pele ressecada por todo ele, brotando crânios com chifres dos ombros como ombreiras, a boca mal costurada pelo que pareciam veias que se abria para falar, e olhos incandescentes que queimavam em brasas como seu bigode de fogo.

Suas asas coriáceas cadavéricas rasgadas lhe davam um ar transcendental como o era e sempre segurava seu cetro de tendões e portava sua cartola mofada e negra roubada de algum cadáver estrangeiro àquelas terras japonesas no passado. Tinha como dever portar-lhe as missões do outro mundo e levar relatórios, por vezes ajudando com algumas dicas que podiam se mostrar como verdadeiras armadilhas. Não preciso dizer que era uma criatura meio irritante.

- Huff! O que os bastardos querem agora? Ficaram satisfeitos com a limpeza desta noite não? Nem da minha volta a esta cidade tomada pela máfia, desu ka? – rosnou enquanto mantinha o olhar a frente, fumando, com a espada deitada no chão a sua frente.

- Arararara… Susanoo-san, peço que não fale assim dos guardiões das almas… Eles só desejam…

- …Que eu resgate a honra que perdi e elimine os espíritos sujos deste mundo! Sim, noutras palavras me atormentar! São as sombras do meu passado…

- …Atadas a sua alma para que com elas possa prevalecer! Hyaaahahahahah! – a risada de Shinnê ecoou tão alto que se mortais pudessem escutar teriam entrando em pânico e alguns até infartado – Nós Shinigamis só seguimos ordens daqueles da Planície Celestial, rapaz…

Susanoo cuspiu um sangue coagulado do seu novo corpo no chão. Sua história era complexa, não era apenas mais um espírito que fugira dos portões impuros do submundo Yômi onde reina todos os males, na verdade já fora um homem comum, honrado, bravo e nobre. Ele fora Susanoo Akechi, sobrinho e servo de Mitsuhide Akechi-sama, 13º espadachim do clã, provindo da província de seu tio-daimyô. No séc. XVI cometera um erro gravíssimo, para com seus códigos morais e a história do mundo, ajudara o mestre a assassinar a última esperança na época para encerrar de vez as guerras civis que assolavam o Japão, assim prolongando os tempos de caos por mais quase três séculos.

O homem tragou a fumaça relembrando do passado e suspirou pelas narinas sem vida enquanto as tatuagens yakuza em seu corpo se remexeram como vivas, respondendo às sombras que vibravam à menor instabilidade das emoções do ser sombrio de corpo pálido e cabelos negros como ônix, graças ao efeito do encanto amaldiçoado. Sua boca se contorceu em um sorriso e as sombras pareceram se movimentar com isso, como que com medo, fluindo por todos os cantos envolta do mesmo se alimentando do resto de calor dos cadáveres que ali jaziam. Seu sorriso era irônico e sarcástico.

- Baka, veio me amolar apenas ou tem algo interessante para falar? O que os bastardos querem agora? Qual criminoso devo caçar para saciar o meu Karma?

Shinnê que se sentava sobre o muro do beco sem saída, bateu repentinamente as asas e planou até a frente do homem obscuro. Seu sorriso banguela e costurado sob o bigode flamejante era algo irritante de se ver. Enfiou as garras no próprio peito e o abriu puxando as costelas de onde removeu um pergaminho enrolado, ainda coberto de suas vísceras inúteis de Shinigami. Desenrolou a mensagem e começou a ler as letras que brilhavam emanando um fogo roxo na escuridão.

- O conselho da morte convoca a ajuda do samurai sem honra… do morto ronin errante… Daquele intitulado pelos mortais como Deus Negro da Morte, Kurogami… Portador da espada em que está presa a alma de seu antigo mestre, Mitsuhide Akechi, que agora precisa da impureza nas almas para livrar-se de sua maldição… do…

Susanoo se enfureceu, com um simples gesto erguendo o braço, toda parte do seu cotovelo até o punho se tornou um enfumaçado negro de trevas malditas que disparou como jato negro esticando até o diabo, trespassando o pergaminho trabalhado com pele humana gasta, e segurando-o no pescoço, com outro gesto o demônio foi puxado para ele em uma velocidade absurda até que seu braço estivesse recomposto do tamanho original, e com a mão ainda firme ameaçando quebrar o pescoço de Shinnê que se fingia sem ar por puro capricho, se divertindo e emputecendo ainda mais o príncipe das sombras.

- FALA LOGO, CHIKUSO!!!

A criatura se debateu e se livrou de pronto do agarro apertado. Segurou no pescoço ossudo com as garras fingindo ter sentido de verdade o apertão e sorriu banguela e costurado, fanfarrão como sempre.

- Qual a graça de falar sem suspense, né? Hyaahahahah! Mas em palavras curtas… Aparentemente um dos nossos se rebelou e por capricho desceu a estas terras em um tempo remoto passado, conferindo poderes a alguns mortais em várias eras diferentes, e isto pode mudar o curso da história de maneira bem negativa, deixando os nossos pais meio chateados! Gostaríamos que desse conta deles… Volte pelas sombras do passado ao século IX e dê cabo de um dos mortais que se tornou mais poderoso! Ande, não há tempo… O seu corpo de agora será bem cuidado pelas trevas do presente que guardarão também sua engenhoca ráp…

- Minha moto!

- Isso…

- E meu cigarro? Posso levar?

O Shinigami riu alto mais uma vez enquanto arrebentava as veias que prendia sua boca.

- Haverá o que fumar lá, samurai-dono! Vá se apresse, para continuar o caminho de aprender o que é honra…

O homem da escuridão deu seu último trago, jogou o cigarro ao chão, o pisoteou apagando as fagulhas e guardou a katana espiritual na bainha presa a cintura. Viajar para o passado era simples para um espírito, tomaria outro corpo e realizaria a missão com sucesso.

- O que é honra? Hah! Isso descobri naquela época…


…pena que só aprendi bem no dia em que eu MORRI!


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Editado pela última vez por Antonywillians em 24 Fev 2020, 14:00, em um total de 1 vez.


ASS: ANTONYWILLIANS, O MAIOR ESPADACHIM DE ARTON


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Richardsl
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Re: [Conto] Desonra Sombria: o Samurai da Escuridão

Mensagem por Richardsl » 22 Jan 2020, 12:30

Cara, o começo do conto tá meio confuso. Não consegui compreender uma linha lógica contínua.

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