Maledettas! — Hospital For Baby

Maledettas!

Maledettas! — Hospital For Baby

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Nasci na Itália.

Se for mesmo ficar contando historinhas sobre minha vida, talvez seja essencial mencionar o fato.

Lamento informar, diferente das telenovelas, não vim para este país em um porão de navio. Mesmo se tivesse, quase cinco milhões de pessoas — diferente dos imigrantes da minha terra — foram escravizadas e não puderam escolher fazer a travessia do Atlântico. Não consigo dizer que a existência de um italiano seja sofrida. Sofri e, digo mais, sofrência é um dos meus maiores talentos, mas isso nada tem a ver com nacionalidade.

Eu vim lá pelos idos de mil novecentos noventa e bolinha. Em um Boeing da Varig, quando a empresa aérea ainda existia. Talvez tenha sido uma das últimas crianças a verem o interior das cabines de avião. Algo impensável, depois dos atentados às Torres Gêmeas, nos E.U.A. Minha primeira reação ao aterrissar no Brasil, ironicamente, foi vomitar. Era só um garoto e, juro, não pretendi com isso qualquer simbolismo ofensivo.

Disse não ter vindo no porão de um navio. Logo lembrei: tive um avô. Também veio em um avião, entretanto, teve lá sua dose de porões náuticos.

A história da imigração de minha família se confunde um pouco com a saga desse excêntrico patriarca.

***

Meu avô materno foi um colonizador europeu tardio.

Tinha olhos azuis, não era muito alto e vestia ternos. Sendo assim, nunca contribuiu para desconstruir o estereótipo de que todo italiano é, no fundo, um mafioso de filme. Nem sempre usou ternos, porém. E, diferente de mim, não nasceu na Itália.

O meu avô nasceu na Etiópia.  Durante o triste capítulo em que essa nação foi colônia do país a inventar o fascismo. O meu bisavô era fazendeiro no interior. Um dos filhos chegou a morrer pisando em uma mina terrestre deixada pela guerra, ou assim reza a lenda. Um belo dia, esse bisavô colono resolveu enviar um de seus filhos — meu avô — e uma das filhas — minha tia-avó — de volta a pátria. Receberiam educação religiosa, em uma espécie de mosteiro-convento, em cima de um abismo periculoso. O mosteiro ficava de um lado do abismo, o convento do outro.

Ao chegarem ao tal colégio, irmão e irmã foram separados por irmãos e irmãs. No entanto, os homens e as mulheres de Deus nada podiam contra o pequeno diabo branco de olhos azuis. Não importava quanto trancafiassem meu avô, os castigos infligidos. Nada adiantava. Ele conseguia evadir as patrulhas, invadir o convento e conversar com minha vó. Um dia, após a enésima tortura física, mandou os religiosos ao inferno de Dante e fugiu.

Foi até Nápoles a pé. Esperou no porto por um navio oportuno. Esgueirou-se para dentro de uma caixa do compartimento de carga. Lá pelas tantas, em pleno mar Mediterrâneo, os marinheiros ouviram um barulho. Abriram a caixa e lá, dentro dela: uma criança.

No começo, pensaram se tratar de alguma pegadinha. O filho de um dos passageiros. Mas ninguém clamou a paternidade e meu avô acabou se tornando a mascote dos marujos. Viajou toda a rota como grumete, até a distante Addis Abebba.

O meu bisavô estava na sua fazenda etíope, fumando cachimbo. Admirando o pôr-do-sol. De repente, viu o filho surgir do nada, correndo e gritando.

Hoje em dia, as pessoas não vão até a esquina sem um GPS.

***

A vida de aventuras do meu avô não parou ali.

Seu primeiro bico, na infância, foi entregar azeite de oliva de bicicleta. Depois tornou-se marceneiro, e essa foi sua profissão por um bom tempo. Já adulto, após ir morar em Roma, conheceu minha vó em uma quermesse. Conseguiu a peripécia de seduzir a moça. Mais nova? Não, mais velha.

Para infelicidade da minha vó, casou com um nômade. O meu avô jamais parava na metrópole. Orbitava a capital como um satélite. Sempre tinha um novo empreendimento genial e —a cada oportunidade — mudava-se entre vários vilarejos e cidades.

Ele morou na Alemanha. Foi sócio em uma pizzaria que ficava em cima de uma autoestrada. Certa noite, abandonou o lugar. Partiu sem explicações. De volta à Itália, foi trabalhar em um supermercado. Ascendeu de caixa a líder de sindicato. Enquanto ocupava a posição — e através dela — tornou-se dono de um hotel. Alcançou a malandragem máxima: o posto simultâneo de trabalhador-patrão.

Fechou o hotel. Virou sócio em uma firma de alimentos. Tentou imigrar para Austrália e não conseguiu. Tomou uma batida da polícia quando estava no estabelecimento pouco respeitável de um dos seus irmãos, e ficou com a ficha suja. Paciência. Veio para o Brasil.

Queria comprar terras no Amazonas, mas eram mais baratas em Minas Gerais. Adquiriu uma fazenda. Reativou um abatedouro abandonado. Fundou uma fábrica de estátuas de resina. Abriu uma importadora e uma exportadora. E — Midas reverso — faliu tudo aquilo em que tocou. Parou aí? Não. Já naturalizado, chegou a prefeito, mas só entrou no cargo, porque o candidato vencedor da eleição foi cassado. Caçado? Não sei.

Meu avô sempre foi bastante generoso e amável. O pior dos seus inimigos me confessou, a algum tempo, que homem tinha uma inteligência acima da média e não houve outro igual. Apesar disso, quando analiso toda essa biografia de mudanças constantes — percebo — a honestidade não foi das suas virtudes. Não fomos tão próximos. Dele tenho fatos e nenhum detalhe. Dos seus desvarios e picaretagens da época de prefeito, pouco quis saber. Nessa época, ainda era adolescente e fui morar com o lado do meu pai. Lado literal. Nossa família se divorciou em duas facções rivais.

Essa história, deixo para as telenovelas.

***

Há outra história, mais triste.

Do meu avô e de minha avó, durante sua fase nômade. Essa registro aqui:

Determinado a estar presente em tudo que houve errado no século XX, meu avô se mudou para a África do Sul em plena época do Apartheid. Foi trabalhar na construção de estradas, na cidade Joanesburgo. Foi não muito mais que mestre de obra, com o privilégio de ser branco.

Minha vó não se adaptou à vida no lugar. Achava tudo muito diferente da Itália, o clima, o céu, a própria Lua. Não falava inglês nem africâner. Vivia lamentando ao marido para voltar para casa. Um dia, o meu tio, o menino caçula da família, quedou doente. Uma febre inexplicável. O meu avô trabalhava em um regime rigidamente espartano e não podia tirar folga para ir ao médico. A minha vó precisaria levá-lo sozinha.

O meu avô apanhou um papel. Escreveu três palavras nele — só três palavras — e ensinou a esposa a pronunciá-las corretamente.

— Leve o papel, diga o que está escrito nele e as pessoas irão apontar onde você deve ir!

As palavras eram:

HOSPITAL. FOR. BABY.

Ou, como meu vô presumia com seu parco e porco inglês: “Um hospital para o bebê.” A minha vó deixou a casa. Andou por todo bairro carregando o filho doente no colo e a outra filha — minha mãe — pela mão.

— Hospital For Baby! Hospital For Baby! — dizia e as pessoas gesticulavam e indicavam o caminho, falando em idiomas a ela desconhecidos. Lá pelas tantas, alguém apontou um ponto de ônibus. A minha avó escolheu um dos ônibus e subiu para falar com o motorista. Repetiu as palavras, enquanto balançava o papel em uma das mãos ocupadas.

De repente, ela não entendeu o porquê, todos os homens e mulheres do ônibus se levantaram dos assentos. Arregalaram os olhos. Aproximaram-se assustados, pedindo que fosse logo embora, o quanto antes.

— Senhora, saia, por favor! — falavam em inglês e para minha vó era grego.

— Hospital For Baby! — repetia.

De repente, uma sirene. Minha vó virou para trás e viu a polícia chegar, subir no ônibus, abordando as pessoas com agressividade, enquanto ela desorientada,  tentava fazer o filho parar de chorar. Os policiais a levaram para fora e perguntaram se estava bem.

Como só compreendeu depois de voltar para casa, havia entrado em um ônibus reservado para a população negra. Era uma infração gravíssima para a desumana segregação vigente “levar para o interior do veículo uma mulher branca.”

Os policiais colocaram minha vó dentro de uma viatura, para conduzi-la para fora dali. Enquanto isso, no ônibus as pessoas gritavam, a confusão reinava. Presenciando uma violência da qual não era íntima, com pavor, minha vó, ficou agarrada aos filhos. Tudo que conseguiu fazer, foi continuar gritando:

— Hospital for baby! Hospital for baby!

Créditos das imagens na ordem em que aparecem: Flag of Italy 1943-2003 (Por Panairjdde). Strassenszene in Addis Abeba-Abessinienflug 1934 ( Por Walter Mitteholzer). Piazza dell’Isola Tiberina – 1951 (Por Paolo Monti). Alberton Bus Station 1977 (Por autor desconhecido. Reprodução Wikimedia).

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