Maledettas! — O Caçador de Apóstolos em 4D

Maledettas!

Maledettas! — O Caçador de Apóstolos em 4D

Por Em Maledettas! Comentários Maledettas! — O Caçador de Apóstolos em 4D 5


Um dia — dez anos atrás — acordei e desci ao térreo de um prédio de apartamentos em BH.

Estacionada em frente havia uma Ferrari.

Não pertencia a mim. Muito menos o apê em que estava acampado. Eu era só um estudante fodido e caipira no bairro dos parentes ricos. Podia ficar por lá em visitas à capital mineira na qual, decidi, estudaria para me tornar o rei dos filósofos!

Havia shoppings e hipermercados de luxo ao meu redor, mas contava moedas para navegar labirintos de transporte público. Jantava salgados frios em um boteco, voltando do campus. Não conheci os prazeres boêmios da vida urbana e não me tornei um sábio, decorei, porém, várias placas de busão e fiquei íntimo das ruas do Centro, onde várias vezes saltei no ponto errado. Minha aparência maltrapilha e barba de mendigo funcionavam como repelente de assaltos.

Depois morei em outra cidade. Foram muitas desde então. Decidi, por pura exaustão emocional com a carreira escolhida, nunca mais chegar perto de qualquer coisa remotamente acadêmica. Peguei o primeiro emprego que surgiu. Fui trabalhar como operário em uma fábrica de suco e co-habitei com dois amigos patologicamente viciados em League Of Legends. O importante era pagar as próprias contas e ficar longe da família! Trampava no terceiro turno. Entre infinitas caixas de suco estouradas na seção de descartes, madrugada adentro, cismei com uma ideia. Voltaria a escrever. Retomei a produção de contos em blogs, comecei a produzir resenhas, atirei para todos os lados, mas não era bem sobre isso que eu queria falar.

Queria falar sobre O Caçador de Apóstolos.

E a primeiríssima visita ao FIQ-BH.

No final daquele ano, retornei a Belo Horizonte mais uma vez para visitar o Festival Internacional de Quadrinhos. Fui para conhecer J.M Trevisan — não sabia então — meu futuro editor, e comprar a edição física do mangá LEDD. Eu escrevia análises sobre o quadrinho. Hoje não tenho coragem de lê-las.

O itinerário da odisséia já estava bem delineado pela minha experiência. Cinco horas para ir, descer na rodoviária, andar até a Serraria Souza Pinto, ficar no evento de dia, passar a noite na cidade e então mais cinco horas para voltar. Com um bom desodorante nada podia me deter.

Apareci lá e encontrei o Trevisan. Fiquei trêmulo, gago, mal emendei umas palavras e saí correndo porque estava trancando uma fila de crianças com o gibi na mão, querendo autógrafo.

O autor Leonel Caldela também estava no evento. Tinha vindo para divulgar seu novo romance, Deus Máquina. Era a continuação de O Caçador de Apóstolos. Eu não tinha lido O Caçador de Apóstolos! Uma história sobre um narrador mentiroso e rebeldes insurretos. Dividi o preço em duas parcelas no cartão e saí ao fim da jornada com o livro inicial devidamente rabiscado por seu criador. Já confiava no Leonel. Seu romance de estréia O Inimigo do Mundo não só era uma obra-prima na arte de equilibrar nove personagens no capítulo de abertura, mas o trabalho de quem, como eu, amava a literatura e conhecia a desgraça. Fiquei também para o evento de lançamento do livro e, um dia depois, hora de encerrar tudo e voltar ao interior de Minas.

Embarquei no ônibus, reclinei o banco, coloquei o cinto, abri o escape do ar-condicionado, folheei o romance recém-adquirido e me preparei para imergir na leitura, durante a viagem. O livro, de fato, muito bom, mas, não podia imaginar, seria também minha perda de virgindade em um cinema de quatro dimensões. O ônibus avançava pela estrada e eu pela trama. Estava no sétimo capítulo.

Um levante de camponeses hereges insurgia:

“HAVIA UMA PROMISCUIDADE ALEGRE NA COLUNA. Os miseráveis, sendo miseráveis, não tinham o costume esdrúxulo do banho. De fato, imaginavam que era pernicioso. Entre todas as centenas, tinham um exemplar de cada doença comum, e as pragas se espalhavam com rapidez. Sempre havia uma forma de contágio — a saliva trocada compartilhando alimento, uma ferida aberta, tosse gotejando num rosto próximo. Todos os dias, um ou dois ficavam para trás, e quase ninguém se importava. Jocasta viu um rapaz parar na estrada, implorando que esperassem, enquanto acudia a mãe deitada no chão. Mas disseram Deus te abençoe e ninguém parou.”

Os hereges não pararam. O motorista do ônibus sim. Se ele foi motivado por compaixão, ou por ordens de quem pagava suas contas, nunca saberei. Outro ônibus da mesma empresa tinha quebrado em meio à estrada. A partir de agora, informou, aquela não era mais uma simples viagem. Era uma missão de resgate!

Pessoas morrendo de calor e tédio no deserto de asfalto foram recebidas de portas abertas. O conteúdo humano de dois veículos de passageiros inteiros fundido em um só. Iam os passageiros subindo suarentos e sem cerimônia. Alguns sentavam em colos alheios, a maioria se espremia no corredor onde fui abraçado pela massa de carne. Um homem quarenta anos mais velho do que eu começou a flertar com uma mulher quarenta anos mais jovem do que ele. Ambos em pé ao meu lado. Beijei o sovaco de uma pessoa, logo atrás. Neste ínterim, alguém conseguiu a proeza de cavar caminho até o banheiro químico dos fundos do busão. Defecou. O cocô se misturou ao ar-condicionado e espalhou-se em uma brisa fria e fétida. De algum jeito, meu corpo se dobrou e meus braços se encaixaram em um ângulo não-euclidiano que permitia seguir a leitura. Restavam horas de viagem pela frente.

Só a ficção oferecia abrigo da realidade.

A ficção:

“… o espírito contente de ninho humano, de ajuntamento sem privacidade nem civilização, era mais presente à noite. Já descrevi Jocasta dormindo no meio de corpos estranhos, quando teve seu sonho profético, e estou voltando a isso, porque a bizarria me fascina. Desconhecidos totais encostavam-se, enroscavam-se para dormir. Nossa terra tem poucos meses de frio intenso, e aquela época era de relativo calor, mas a escuridão ao relento gelava. E assim abraçavam-se uns aos outros, como uma gigantesca ninhada de cães, misturavam as pernas, babavam em ombros alheios. E se, na névoa do sono, uma ereção fosse respondida com boas-vindas, fornicavam ali mesmo, encostando-se em outros, sujando-se em alguma masturbação.”

Tarde demais! Fui completamente tomado pelas sensações da coluna herege se mesclando àquelas ao meu redor. Estava dentro do livro. Como Bastian em uma versão escrota de A História Sem Fim. Era Jocasta e vivia naquela degradação abjeta. O motorista do ônibus gritava e ria, conversando com os passageiros. Um alegre psicopompo conduzindo as almas dos condenados ao outro lado. Já o homem idoso continuava seu flerte e era visivelmente correspondido pela mulher mais jovem. Um sovaco encostou-se ao meu cabelo mais uma vez. O cheiro de fezes ardia pelo corredor e só o calor humano acalentava em meio ao enregelo do ar condicionado polar. Sim, esta era nossa marcha santa, nossa penitência! Eu era um pecador! Merecia sofrer por minhas escolhas erradas na vida!

Segui lendo. Galguei páginas. Agora cavaleiros em carga com em uma manobra sobre os hereges. Eram vencidos pela forças dos números e massacrados:

“Um enxame jogou-se sobre animal e homem caídos. Os fanáticos foram esmagados pelo peso do corpanzil e da armadura e das armas, mas novos chegavam, os mesmos rostos pardacentos e marcados, a mesma expressão alucinada. Bateram inutilmente na armadura com os punhos, enfiaram unhas pela viseira do elmo, buscando olhos, enfiaram adagas, cacos de cerâmica e pedras pontudas na carne da montaria.”

Cheguei ao meu limite. O movimento ondulante do ônibus se juntava à prosa nauseabunda do romance e eu sentia o enjoo de quem pisa em um convés de navio. Deixei o livro cair debaixo do banco e passei a próxima hora contendo o vômito. O idoso e a mulher se beijavam de língua sobre minha cabeça tomados pelo despertar súbito de uma estranha mas legalmente consentida paixão intergeracional. Continuei desviando do sovaco rançoso. O motorista contava causos e gargalhava demoníaco.

De repente, disse:

Chegamos ao grupo de apoio rodoviário! Há outro ônibus para vocês. e falando então com os passageiros originais Meia hora de descanso.

Alguns minutos se passarem e finalmente consegui me arrastar para fora de carcaça fétida do transporte. Ajoelhado em um pátio à margem de uma autoestratada ligando a metrópole ao sertão sul-mineiro, chorei.

***

Queria ser um mentiroso tão hábil como narrador de O Caçador de Apóstolos, mas você lendo, não acreditaria em quão próximo da realidade foi este relato. Um exercício de narrativa e memória, sim! Não de imaginação.

Devo pular para a última vez que estive em BH. O futuro distante do ano de 2020! Agora passado.

Voltava para casa e para minha família, após perder o emprego mais estável que já tive, em um loja geek lá nos remotos cantões do Rio Grande do Sul. Viajava por necessidade em meio a uma pandemia. O aeroporto de Confins estava deserto, mas o centro belo-horizontino continuava explodindo de gente. Todas as pessoas de máscaras, menos os moradores de rua tossindo seco pelas calçadas.

Eu respirava com dificuldade. Carregava uma troca constante de máscaras proteções faciais. Resolvi me trancar em um quarto de hotel e não consegui comer o sundae comprado no trajeto. A atendente da lanchonete tinha esquecido de por a tampa. Vírus grudava em sorvete? E o ônibus no qual ia embarcar no do dia seguinte? Será que ainda tinha janelas fechadas e ar condicionado? E se fosse, o que eu ia fazer? Pelo menos, não havia risco para as outras pessoas. Ficaria em quarentena quando voltasse para casa, antes de fazer o teste para ver se tinha contraído a doença. Quinze dias isolado em um lazareto improvisado. Eu nem podia reclamar. Nos noticiários tinha gente pior. Um ano depois de tudo isso, ainda tem e as coisas só se agravaram.

Em um hotel sem estrelas, paralisado por paranoia, incerteza do futuro e germofobia, senti saudade de quando ainda tinha sonhos e cabelo na cabeça. De quando li O Caçador de Apóstolos pela primeira vez em um ônibus lotado, com cheiro de merda.

Créditos das imagens na ordem em que aparecem: Praça Sete de Setembro (Por Upslon). Serraria Souza Pinto (Por Robert Serbirenko) . FIQ-BH-2011 (Por J.M Trevisan himself). Capa de O Caçador de Apóstolos – 1a Edição (Por Greg Tocchini). Rodoviária de Belo Horizonte (Por Tiago Macedo).

Comentários (5)

  1. Crônica muito boa. “Estava dentro do livro. Como Bastian em uma versão escrota de A História Sem Fim” – isso é sensacional.
    Dá saudade da FIQ. Muito nerdzinho mineiro (ou de lugares adjacentes) compartilha memórias boas da feira.
    Imprevisto de busão em viagem de horas é uma saga. Balancear leitura de romance pra passar o tempo com o enjoo de ler num ônibus chacoalhante é uma arte.

  2. Sendo muito, MUITO bairrista, crônica urbana foda! Só quem já pegou dezenas de ônibus em bh e decorou como andar no centro entende. Foi praticamente uma leitura 4d pra mim aqui também hahaha

    Parabéns pelo texto Davide!
    E saudades FIQ.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *