A Todo Vapor: quando os livros tomam as telas

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A Todo Vapor: quando os livros tomam as telas

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Quando os livros ganham a tela, personagens criados em nossa imaginação tornam-se  palpáveis. A dura missão de qualquer diretor é transformar uma história idealizada na cabeça do leitor em um filme que não vá decepcionar milhares de mentes únicas. Cozinhar um prato com a pitada certa de sal e pimenta para diversos paladares, criar uma peça de roupa que irá agradar a todos, responder perguntas diferentes com a mesma palavra é o desafio da adaptação cinematográfica. Esse era o desafio de A Todo Vapor.

Jornada do texto para o vídeo

Deixar sua imaginação ser o pincel é uma das coisas mais deliciosas ao pintar um fantasioso quadro em nosso cérebro. . Criar o cabelo, traços, trejeitos. Uma cena de ação descrita detalhadamente pelo autor nos torna parte de um universo mágico, perfeito em nossa imaginação.

Adaptar essa concepção não é fácil. O livro tem um elemento difícil de ser batido até pelos maiores diretores do cinema: a idealização do leitor.

Cada personagem desenvolvido pelo escritor passa por uma transformação na mente de quem lê. Por mais eficiente que as descrições no texto sejam, o mundo criado é individual. Lembranças vividas, experiências pessoais, rostos conhecidos e até o momento no qual a pessoa vive… tudo influencia na hora de criar um cenário, um dragão, um cavaleiro.

Então, como agradar os fãs de uma franquia, sabendo o quão íntima é a ligação do leitor com o personagem? Minha opinião pessoal? Sendo fiel a IDEIA do autor.

Cenografia, fotografia, direção, caracterização, sonoplastia… tudo isso é deixado de lado quando o conceito da história se perde em meio a efeitos especiais tecnológicos e atores vencedores de Oscar. Quando batalhas mirabolantes e poderes mágicos engolem o principal conflito da trama, o filme deixa de fazer sentido para os fãs e dança na linha tênue idealizada pelos admiradores.

Uma adaptação de heróis brasileiros

A literatura nacional também ganha espaço na querida telinha que ainda é parte obrigatória na sala do brasileiro. A novidade de 2020 nos alegra não só por ter sido criada a partir de uma obra de Enéias Tavares e Felipe Reis, mas também pelo fato de ser uma obra de steampunk.

A Todo Vapor é é um divisor de águas no mundo da literatura nacional. De maneira independente, os autores transformaram o impossível em realidade ao levar essa série para uma das maiores plataformas de streaming do mundo sem nenhum gigante da indústria por trás dos holofotes. Mas vamos contar a história do início…

Antes de mais nada, o que é steampunk?

Categorizado como subgênero do Cyberpunk (e com alguma divergência sobre ser ficção científica ou especulativa, porém deixo essa discussão para os especialistas), o steampunk é, resumidamente, montado a partir da tecnologia a vapor retrofuturista baseada no conhecimento tecnológico existente no  século XIX, em uma utopia (ou distopia? Também não vou entrar nos méritos) na qual a indústria a vapor evoluiu de tal maneira que subjugou qualquer outra. Em um mundo dominado pela tecnologia avançada, equipamentos eletrônicos são substituídos por versões a vapor, tendo suas funções e características primordiais mantidas, apesar da enorme diferença visual. 

O figurino é outro fator importante no steampunk. Com roupas que remetem a estética vitoriana (século XIX, Londres), óculos grandes e acessórios mecânicos, visivelmente é fácil identificar uma história passada nesse universo.

A Todo Vapor: um steampunk brasileiro

Baseada na séries de livros do projeto “Brasiliana Steampunk” de Enéias Tavares e Felipe Reis, o seriado foi ao ar em Setembro de 2020 na Amazon Prime e faz uma leitura steampunk de personagens dos clássicos da literatura brasileira. Conhecemos então Juca Pirama, um detetive com poderes místicos, jeito malandro e um código moral próprio, que se mistura aos transeuntes na agitada São Paulo dos Bravos Bandeirantes, conhecida também como São Paulo dos passantes apressados (algumas coisas não mudam nem na ficção). Juca, na verdade, já é um velho conhecido meu, fomos apresentados no excelente romance “Juca Pirama: Marcado para Morrer“, e mantenho um exemplar autografado na minha biblioteca pessoal.

Ao contrário do livro citado, a série divide o protagonismo entre Capitu Machado, Victória Acauã, Doutor Benignus (meu personagem favorito, talvez minha formação em engenharia pese um pouco nessa escolha) e outros heróis que buscam solucionar crimes sobrenaturais em um mistério macabro que cerca a pequena Vila Antiga dos Astrônomos.

Heróis dos clássicos nacionais

Capitu e Juca são detetives que chegam a cidade e se deparam com mortes baseadas em cartas do Tarô. Cada episódio começa com um personagem da trama dando seu depoimento sobre os crimes investigados pelos heróis, um pequeno prelúdio da trama que irá se desenrolar. E se alguns desses nomes lhe soaram familiar, não se preocupe! Os personagens da série foram baseados em ícones da nossa literatura, como Dr. Benignus (do português naturalizado brasileiro Augusto Emílio Zaluar), o conto Acauã (Inglês de Sousa), Capitu ( Machado de Assis) e o próprio Juca Pirama (Gonçalves Dias). Uma jogada genial de Enéias e Felipe, trazendo uma releitura de personagens clássicos e evidenciando escritores renomados.

Uma série steampunk gravada em São Paulo

Antes de qualquer coisa, é importante lembrar do empenho dos autores para entregar esse conteúdo na plataforma digital. Um esforço hercúleo que abre uma enorme porta e faz com que todos os escritores brasileiros possam enxergar uma possibilidade dificilmente vislumbrada. Uma série independente ganhar espaço na grade da Amazon é um feito maravilhoso, um divisor de águas. O steampunk em evidência, escritores nacionais mostrando seu trabalho sem nenhuma grande ajuda financeira é louvável. Isso por si só já é um convite luxuoso, mas a série não é feita só de esforço.

A introdução alegra qualquer fã do gênero. Não é necessário mais que três segundos para nos sentirmos a fuligem dos motores a vapor, nos levar para a Londres antiga com seus trajes elegantes e postura inglesa. O figurino segue a mesma pegada vitoriana, chamando a atenção pela qualidade do design e a fidelidade com os personagens desenvolvidos em histórias posteriores do universo brasiliana steampunk nos são apresentados. A parte visual não decepciona, trazendo episódio após episódio mirabolantes soluções do Dr. Benignus, balões controlados mecanicamente, magias e até parte do cenário construído por computação gráfica. 

O roteiro começa com um mistério simples e o objetivo claro de caçar os assassinos, que logo se mostram seguidores da seita de Pamu. Juca (interpretado por Felipe Reis) e Capitu (Thais Barbeiro) chegam a pequena cidade no interior de São Paulo prontos para solucionar os crimes. A trama se desenrola cena a cena, quando mais mortos são encontrados e um padrão é desenvolvido pelo suposto assassino. 

Entre lutas, mistério, vapor e bugigangas tecnológicas (Dr. Benignus que o diga), a série nos insere nos deixa curioso para descobrir como os heróis conseguirão resolver esse conflito e quais aparatos novos usarão para se livrarem dos (muitos) percalços.

Enfrentando novos desafios

Cheio de referências à literatura nacional, motores a vapor e reviravoltas, A Todo Vapor é uma série construída com muito suor e uma vontade inabalável de fazer dar certo, não decepciona e agrada tanto quem ainda engatinha no mundo steampunk quanto os ávidos fãs que tanto a tem celebrado.

Torço para que as produções independentes nacionais continuem ganhando espaço, e que a Brasiliana Steampunk siga a todo vapor.

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