Armas apelonas e lembranças de um funk antigo

Crônicas do RPG

Armas apelonas e lembranças de um funk antigo

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Primeiramente me digam: Vocês já ouviram sobre a lenda do mestre bondoso? Aquele mestre que é tão gente boa que você apenas espera que um monstro ND 100000 aparece a qualquer momento de tão perfeito que está indo tudo?

Pois bem, eu tive um mestre assim.

As maravilhas do mestre bondoso

Ele dava armas muito legais para a gente, narrava nossas vitórias e derrotas de forma empolgante, criou mapas incríveis e incentivava o role play.
O grupo também não ficava para trás. Tínhamos um paladino humano super honrado e que era o equilíbrio no grupo, dois bárbaros (um humano e uma anã, eu no caso) com o coração enorme que só pensavam em dar cabeçada e beber uns alcoóis, e um halfling ladino que… Bom, vou chegar nele. Todo esse contexto é para entender porque o mestre deu uma arma que faria o maior plot twist que já vi.

A história era macabra se parar para pensar nela, mas o grupo deixava muitas situações bem humoradas, tudo de acordo com a personalidade e alinhamento. Nisso, o halfling ladino se destacava com estratégias que o mantinham longe da batalha, mas muito ativo indiretamente. Os bárbaros entravam em fúria quando recebiam um dano e saíam atacando tudo e todos, mas sem sair do role play conseguíamos não tirar — muito — dano dos aliados. O pequenino, se aproveitando disso, ficava invisível (com uma magia) e… bom… dava tapas no bárbaro… bom… Vou tentar ilustrar a cena.

O golpe surpresa e a fúria do bárbaro

O bárbaro, usando apenas uma tanga de peles feita por ele mesmo, estava segurando sua espada com as duas mãos e bufando de cansaço e raiva. Nenhum ataque ao inimigo foi efetivo, sua lâmina não parecia afiada o suficiente. Ou seria a sua força heróica esvaindo-se com a insegurança da batalha? Em breve o paladino morreria e a pobre anã seria pisoteada após um crítico erro no golpe que a levou ao chão. Tudo estava perdido.

Então, não mais que de repente, a nádega esquerda do bárbaro (imaginem isso em câmera lenta) tem uma pequena mão sendo moldada. Dedo a dedo. Palma inteira. Uma mão invisível desenhada no monte de gordura e músculos acumulados nos anos de treinamento. Um dor mínima, mas que foi mais eficiente que os golpes dados pelo inimigo a sua frente, foi o suficiente para despertar a fúria que abastecia o seu poder oculto.

Sim, o halfling ladino, sem querer, tirou dano do bárbaro com um tapinha no bumbum e ativou o modo berserk do grandalhão. Não sobrou inimigo para contar história depois dessa. A anã entrou em fúria num certo momento e os dois começaram a bater cabeça — literalmente — num combate ridículo. Mas não é a audácia desavergonhada do halfling que trouxe o maior plot twist da história. Não, não.

O lendário mestre bondoso nos deu algumas armas muito poderosas, o meu machado tinha umas sombras que ajudavam no dano e davam uma descrição incrível nas narrativas dos combates. O halfling ladino ganhou uma adaga decapitadora que só conseguiria decapitar com um crítico de 20. O jogador não era muito sortudo para isso e acreditamos que jamais conseguiria decapitar algo/alguém.

Risos.

O grande plottwist

Já sabem que ele conseguiu, né? Mas não foi com qualquer um e nem em qualquer batalha. Era a última luta, aquela épica, onde a gente tem que beber todas as poções de cura possíveis antes de tirar metade da vida do cara. Daquelas lutas que você tem certeza que vai ter que fazer uma ficha nova porque já era, sabe? Uma luta que o mestre esperava que duraria pelo menos meia hora de sessão para finalizar.

Acabou em 3 ataques.

O bárbaro atacou e foi um dano legal, mas baixo. A bárbara atacou e foi satisfatório, mas nada de mais. Aí o pequenino, sempre nas sombras, cutucando todo mundo com a sua invisibilidade, atiçando ações de bravura e loucura com sua linguinha afiada, tirou um crítico que deixou todo mundo mudo.

Um golpe e matou o chefão.

O mestre não tentou salvar seu NPC, não tentou usar sua vantagem para continuar a batalha. Havia sido épico e ele abraçou a cena e narrou o final com tanta empolgação e emoção que ficou guardado para sempre na minha mente.

O halfling ladino matou o boss e aquilo foi incrível!

Ok, legal a história. Mas o que tem a ver um funk antigo com isso? É uma piada ruim, mas eu só pensava nessa música como trilha sonora para a participação do ladino na campanha.

“Dói, um tapinha não dói…”

Tá, parei.

Disclaimer: Nenhum “tanker” se sentiu ofendido por não ter dado o golpe final no chefão.

Comentários (3)

  1. O pior é que já aconteceu comigo.

    Do começo: o Aberrant é um RPG de super-heróis da White Wolf — e o cenário dele era muito, MUITO mequetrefe. Era low power, parecia uma daquelas séries ruins de meio de campo da Wildstorm ou da Top Cow lá pelo começo dos anos 2000.

    Mas o mestre de jogo colecionava rpgs de super-heróis e ele tinha um suplemento chamado Compendium para campanhas com níveis mais altos de poder. Então o mestre decidiu fazer uma campanha à la Novos Deuses da DC, que foi boa até a reta final, quando ele decidiu enfiar a saga na continuidade daquela desgraça que era o cenário de Aberrant.

    Dito isso, vamos ao que interessa. O mestre planejou uma batalha final com a grande vilã daquela saga. Ela viraria uma mega criatura gigante e monstruosa e ele planejava duas sessões para encerrar a campanha — ele mesmo havia avisado pra todo mundo que ela seria a penúltima. Um jogador tinha umas contas com ela e queria de qualquer forma enfrentá-la e derrubá-la. Tudo estava preparado.

    Meu personagem era combado mas isso aconteceu de forma praticamente orgânica, sem brincadeira, à medida em que ele crescia. Sem isso eu não chegaria ao final da campanha. Eu estava mais focado no lado interpretativo da coisa e meio que me resguardei apenas para não me ferrar nos combates. Era “Zeevesh, o Deus-Lobo do Fogo”.

    Pois bem, a gente levou um tempo pra começar a jogar. Tecnicamente começávamos às duas e terminávamos às dez da noite nos sábados mas, com o grupo chegando aos poucos, só começamos às quatro da tarde.

    Pois bem, soltei meu combo nunca utilizado para ter chance contra a criatura.

    Basicamente? Com o número monstruoso de dados rolados e sucessos decisivos seguidos de sucessos decisivos…

    OITENTA E OITO SUCESSOS.

    O bicho foi quase todo destruído. Os demais jogaram um pouco, para tirar uns pontos a mais, mas novamente foi minha vez e eu joguei…

    SETENTA E QUATRO SUCESSOS.

    O bicho foi destruído. Tivemos as cenas finais dos personagens para a campanha e…

    “Finais?”

    “É, a campanha acabou.”

    Um dos outros jogadores ficou puto ao ponto de não querer nunca mais falar sobre o assunto. Ele queria muito acertar as contas com a vilã. E é isso, pessoal. A sessão tecnicamente começou as quatro e terminou às seis ao invés das dez. Hoje esse jogador culpa o mestre, não a mim, e leva tudo na esportiva, mas por muito tempo, quando alguém o lembrava disso, ele vinha me dizer: “você teve sorte. Infelizmente, sua sorte arruinou o jogo” 😀

  2. Hahahahahahahahahahahahaha
    Foi muito bom, o pior de tudo, é que o Halfling cantou a bola no começo da luta. Não lembro exatamente as palavras, mas ele disse que mataria o boss… e matou.

    O bom do mestre bondoso, é que quando ele for malvado, todos vão se surpreender. Se você for só malvado sempre, qualquer vigarice o pessoal vai levar de forma leviana.

    Ótimo texto! S2

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